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Fraternidade.2
S. CRISTVO
I
Um dia, numa floresta, ao entardecer, quando por sob as frondes ressoavam as
buzinas dos porqueiros, e lentamente na copa alta dos carvalhos se calavam as gralhas,
um lenhador, um servo, de surro de estamenha, que rijamente trabalhara no souto
desde o cantar da calhandra, prendeu a machada ao cinto de couro, e, com a sua gua
carregada de lenha, recolheu, pelos caminhos da aldeia, ao castelo do seu Senhor.
Diante de cada cruz pregada nos troncos da mata, tirava o seu barrete de pele de
coelho, rezava uma ave-maria. Ao passar na lagoa, mais reluzente, sob a amarelido da
tarde entre os seus altos canaviais, que uma moeda de ouro nova, deixou um molho de
carqueja e de achas para o ermita, que ali erguera a sua choa de rama. E adiante, num
pinheiral, apesar de j luzir no alto a estrelinha da tarde, e o bom trabalhador ter fome,
parou at encher o saco de uma velhinha que, tremendo, e arrimada a um bordo,
apanhava agulhas e pinhas. A velha murmurou: "Deus te d alegria em tua casa"
Longamente ainda, ora por caminhos claros que soavam como lajes, ora sob a
ramaria alta, por veredas fofas de musgo, tilintavam no silncio e na penumbra os
guizos da gua. E a noite cerrava-se, quando para alm de uma ponte de tabuado que
tremia sobre uma torrente, seca por aquele lento Agosto, o povoado apareceu entre o
arvoredo do vale, com a capela branca e toda nova que o Senhor do Castelo andava
erguendo a S. Cosme.
O lenhador, com a sua gua, meteu por uma longa alameda de faias, atrs de um
carro que chiava lentamente, carregado de mato. A estacada, que outrora cercava a
aldeia, apodrecera sob os sis, sob as chuvas, ao abandono, durante os longos e fartos
anos de paz: e as cabanas repousavam entre os pomares, em segurana e fartura. Dos
tectos, bem cobertos de colmo, seguros por lascas de lousa, subia o fumo lento e
cheiroso das pinhas e das agulhas ardendo com abundncia nas lareiras. Em todas as
cortes grunhiam porcos. Pelas quelhas mais escuras, as raparigas passavam para os
seres, sem temor, com a sua roca  cintura. Por trs dos muros de adobe, morria o
murmrio dormente dos teros e das coroas rezadas em coro, nas contas. Raramente um
rafeiro latia por trs da cancela ou das sebes. No adro, o forno senhorial ainda ardia,
tanta era a fartura do po a cozer. E junto da fonte toldada pelas ramagens de um
ulmeiro, no banco de pedra onde aos domingos os velhos vinham julgar os pleitos de
gados ou de guas, os dois archeiros do Castelo, que todas as noites rondavam a aldeia,
dormiam sem cuidados como frades, com os seus arcos cados no cho.
Lentamente, ao rumor lento dos guizos, o bom lenhador e a sua gua passaram, ao
fim do povoado, a alta taberna do Galo Preto, que estendia atravs da estrada a sua
comprida vara enfeitada de louro. Dois romeiros, com vieiras na mura de burel, bebiam
 porta por grossos pichis de estanho. Dentro um pobre menestrel, de longa guedelha
cada sobre o gibo em farrapos, tangia a sua viola de trs cordas: e um frade
mendicante com a sacola sobre os joelhos, um caldeireiro com os tachos de lato e a
ferramenta pousada ao lado no cho de terra negra, jogavam os dados sobre um banco,
na penumbra das grossas pipas, que tinham todas uma cruz branca, para que os maus
espritos no azedassem o vinho.
O bom lenhador apressava a sua gua: e bem depressa, do alto de um cerro
coberto de azinheiras, avistou em baixo o rio, o largo rio escuro que corria, mudamente,
sob os quatro arcos de uma velha ponte romana, que tinha ao meio uma capelinha nova,
onde palidamente, na nvoa hmida, bruxuleava uma lmpada. Para alm, na outra.3
margem, era uma longa colina suave, onde se erguia, acompanhado de arvoredos e
cercado de muralhas como uma cidadela, um mosteiro rico de Domnicos.
Mas, descendo o cerro, o caminho estreito, por onde, sob a estrelada mudez da
noite, iam tilintando os guizos da gua, corria fundo e negro entre altos barrancos. E
como a, por vezes, de noite, aparecia um estranho pastor, de cabelos cor de fogo, e
seguido por dois lobos familiares, o bom lenhador murmurou, voltado para o santo lugar
onde nasce a estrelinha de alva, o nome do anjo Gabriel.
Depois, sem temor, atravessou o pinheiral. J ento trilhava as terras do solar do
seu Senhor. Vastos pastios de gado, campos onde se fizera a ceifa, desciam at ao rio,
que um choupal bordava, escuro e cheio de rouxinis. E sobre um forte outeiro, logo o
Castelo apareceu, negro, formidvel, com altas muralhas, os grandes cata-ventos em
forma de drages e de aves herldicas no cimo de cada torre, e, na mais alta, a chama
clara do seu alto farol.
Uma calada de grossas lajes, orlada de faias, conduzia ao terreiro, para onde
abria, sob a torre de menagem, a estreita porta chapeada de ferro e a ponte levadia, que
sempre descida, naqueles doces anos de paz, tinha as cadeias de ferro enferrujadas. De
um lado do terreiro havia um pequeno alpendre, coberto de rama, onde se vendia, 
vasilha, o bom vinho branco das vinhas senhoriais. Do outro lado, negrejavam os gros-sos
barrotes das forcas patibulares. Um velho olmo assombreava o banco de pedra,
onde, pelas tardes de Vero, o Senhor vinha julgar os delitos, receber vassalagens, ou
marcar as portagens devidas pelos mercadores que, com longas rcuas de machos
carregados, passavam por dentro das suas terras. Nenhuma claridade saa das janelas das
torres, mais esguias que fendas. As rs coaxavam na gua negra dos fossos.
O bom lenhador costeou as compridas muralhas, onde por vezes uma mancha
mais clara, na pedra negra, era como uma cicatriz de batalha numa face requeimada; e
passando pela alta cancela de uma sebe, que ao longe se perdia nos prados escuros,
penetrou por uma estreita poterna, aberta na muralha como uma fenda abobadada, e
guardada por um co enorme, cuja corrente de ferro arrastava nas lajes.
Dentro, no vasto recinto murado, para alm de um poo de bordas baixas,
encimado por um pombal, a casa senhorial erguia a sua fachada simples e severa, de
onde saa, atravs dos vidros midos encaixilhados em chumbo, a claridade plida dos
brandes da sala, ao lado da luz mais vermelha das cozinhas. Um torreo redondo, com
balco, erguia a uma esquina o seu agudo tecto de escamas de lousa, encimado por um
vasto cata-vento em forma de bandeira desdobrada. Aos cantos da casa, esguios drages
alados, voltavam para o ptio as goelas escancaradas, por onde as chuvas se escoavam
nos regueiros da cisterna. E a lanterna de um servo, que passava sobre o terrao,
alumiava grossas filas de abboras pousadas no parapeito, secando ao sol.
O bom lenhador descarregou a gua na tercena da lenha. Depois, tirando o seu
barrete de pele de coelho, empurrou a grossa porta da cozinha, armada de puas de ferro.
Sob a chamin, enfeitada de rstias de cebola e de ramos de louro seco, to vasta que
abrigava, de cada lado da lareira, um longo banco de carvalho, uma chama clara de
troncos, ardendo sobre brasido, alumiava as paredes caiadas, onde pendiam de ganchos
de ferro odres de vinho, caldeires reluzentes, e os sacos de especiarias. Com o seu
longo avental de couro, um barrete de couro na cabea rapada, o mestre cortava, sobre
um cepo imenso de pau, um anho esfolado. Um servente, de braos nus, regava de
molho, com uma longa colher de ferro, as grossas peas de carne que assavam nos espe-tos,
mais longos que lanas de guerra. Dois lebrus brancos enroscados dormiam diante
do lume. E rente do muro, sentados em tripeas, j os moos das abegoarias, os
pastores, os cordoeiros, esperavam a ceia, calados, com os seus gorros na mo.
Mas um pajem, de longos cabelos encaracolados, e trazendo um jarro lavrado,.4
ergueu ao fundo a grossa cortina de estamenha, que tapava uma imensa porta em arco,
ornada com duas cabeas de lobos. E o bom lenhador dobrou humildemente o joelho,
entrevendo para alm, j alumiada para a ceia, por tochas de cera, a sala senhorial: a
vasta mesa tapetada de ervas frescas; as duas lanas transversais por cima, suspensas do
tecto por correntes de ferro, carregadas de grossos pes de smea; a alta cadeira de
espaldar, no topo, encimada por um alto braso, tendo ao lado um poleiro onde
dormiam dois falces; a imensa chamin de pedra, ao fundo, com figuras em relevo que
agitavam armas. Todos os servos se tinham erguido. E quase imediatamente, arrastando
os seus sapatos de pano amarelo, o despenseiro apareceu, calvo e gordo, com o seu
molho de chaves. Era ele que distribua as raes aos pastores, aos cordoeiros, aos
tosquiadores, aos forneiros, e aos outros servos do domnio que no ceavam nas
cozinhas do solar: e bem depressa o bom lenhador recebeu no seu saco de estopa o po
de smea, o pichel de vinho, e a posta de carne salgada, devida nos dias de grande corte.
De novo o bom lenhador empurrou, sem rudo e humildemente, a porta da
cozinha. Passou a poterna da muralha, que abria para os jardins e para o jogo da bola.
Atravessou a rua de limoeiros que dividia os jardins e o pomar, onde docemente
cantavam na sombra os repuxos e a gua das regas; ladeou a casa do cabanal e a eira,
alvejando, toda caiada de fresco, sob a claridade das estrelas; e passando entre as
abegoarias e a lia dos pajens, que desenrolava entre mastros enfeitados de bandeirolas
a sua pista areada de saibro, saiu por uma porta da alta estacada, que circundava a quinta
senhorial. Para alm eram vastos prados, pastagens descendo at ao rio, onde uma larga
avenida de olmos abrigava a cordoaria do castelo. Um outro cerrado de sebe espinhosa
cercava estas fartas dependncias rurais, defendidas ainda por armadilhas para os lobos,
valas eriadas de puas, e pequenas torres de adobe onde ardia uma lanterna.
O bom lenhador passou esta sebe, e meteu pelas azinhagas, a caminho da sua
cabana, aninhada entre os pinheiros e faias  orla da floresta, que, desde os coutos onde
ele todo o dia trabalhava, vinha pelo interior das terras vestindo vale e monte. Por entre
os troncos dos pinheiros mansos, o largo rio alvejava em baixo  claridade das estrelas.
Os pirilampos faiscavam na ponta das sebes. Um aroma de madressilva adoava o ar.
O bom lenhador atravessou, sobre uma ponte feita de troncos, um riacho que
saltava entre rochas, onde os pajens da castelania vinham pescar trutas. Um rouxinol
cantava em baixo entre a ramaria dos choupos. Adiante havia uma cruz de pedra coberta
de heras, que tinha um brao partido. Piedosamente o bom lenhador tirou o seu barrete
de pele de coelho. O seu corao simples, nessa noite, sentia como um contentamento
desacostumado. Ouvindo o sino do mosteiro, que nas colinas alm do rio tocava a vs-peras,
murmurou uma salve-rainha, com uma devoo maior, certo de que a Virgem o
escutava, debruada do Cu, toucada de todas aquelas estrelas que rebrilhavam mais que
o ouro. J, a distncia, sob o cu plido, se arredondavam os cimos dos arvoredos, onde
se escondia a sua cabana. A mulher, a boa companheira, esperava por ele fiando 
lareira. Estugou o passo e, subitamente, da sombra de um choro debruado  beira do
caminho, surgiu um moo, de olhos brilhantes como lumes, coberto com uma tnica
branca, encostado a uma vara branca, que parou diante dele, e disse sorrindo:
- Entra contente na tua morada, que teu filho h-de ser um grande santo!
E subitamente desapareceu. Um aroma vivo, como de incenso misturado a cravos,
passou de leve no ar. E as relvas altas do prado, ondeavam, dobradas, como se as
roasse um manto de seda fina.
O bom lenhador ficara imvel, tremendo, na sombra que se adensou, mais
cerrada, sob as ramagens das faias. E mal compreendia a quem to docemente falara
aquele moo, de olhos mais claros que lumes de altar. A sua boa companheira no lhe
dera ainda um filho naqueles longos anos, to serenamente passados, desde a manh de.5
Natal em que por sobre a neve dura brilhando ao sol, ao fino som da rabeca que o
menestrel tangia, coroada de rosas, ele a trouxera  cabana construda por suas mos,
com a madeira por suas mos rachada. Como poderia pois, no seu lar que nenhum riso
de criana alegrava, crescer, para sua glria, um grande santo?... Arrepiado, penetrou
por sob a ramaria, espreitando, escutando, na esperana e no terror de surpreender ainda
uma claridade, um rumor daquele mensageiro estranho, que vestia de branco como os
anjos. Todo o bosque estava mudo e ermo. Ento entrou na sua alma simples um grande
medo de todos os seres invisveis que, vindos do Cu, ou vindos do Inferno, de repente
surgem nos caminhos escuros. Comeou a correr por uma estreita azinhaga at aos
castanheiros que abrigavam a sua cabana. Uma fenda de luz saa da porta, entreaberta 
frescura doce da noite. O rafeiro que a guardava, com a sua coleira eriada de pregos,
latiu alegremente. Entrou, limpando na face o suor que o alagava.
Sentada  lareira numa tripea, a sua boa companheira esperava, fiando. A panela
de ferro fervia, suspensa por uma corrente sobre o lume. A um canto da arca, as malgas
vidradas, as canecas de estanho reluziam bem limpas. Sobre a palhoa do catre, o lenol
de estopa era branco e fresco. Todo o dia a boa companheira lidara para o asseio do seu
lar. O lenhador pendurou junto  chamin o seu machado, e, nem  ceia, nem deitado
junto dela no catre, revelou  mulher o encontro com aquele moo de olhos resplande-centes.
Receava que ela, to sria e justa, repreendesse o seu orgulho. Porque mandaria
Deus um anjo, com to maravilhoso recado, a um rude servo, de saio de estamenha?
Decerto no fora a ele que o moo, brilhante de claridade, anunciara a santidade de um
filho... Se Deus os tivesse escolhido para to grande ventura, no seria por ele, rude
como os troncos da sua mata, mas pela sua boa companheira, to sria, diligente no
trabalho, clara de alma, compassiva aos mais pobres, sempre alegre, e to leal! Nela e
no nele, estavam decerto os mritos divinos.
E enquanto ela, direita, robusta, e corada como uma maa, enchia as malgas da
ceia, o lenhador sentia abrir-se no seu corao, como uma flor que sob o orvalho
reflorescesse, uma ternura doce e melhor por aquela que, em tantos anos, tornara a sua
pobre cabana lugar mais apetecvel que a casa rica de um senescal ou o castelo do seu
Senhor.
II
Era o tempo das vindimas nas vinhas da castelania. Uma manh, cedo, ao cantar
das calhandras, quando o bom lenhador prendia ao cinto o seu machado, partindo para o
castelo onde ia rachar a lenha mida, a sua companheira, que se sentara na arca com os
braos cruzados, disse de repente, toda sria e vermelha:
- Meu homem, vamos ter um filho.
Ele ficou diante dela, mudo, como no espanto de um milagre. Depois balbuciou,
pediu uma certeza. Ela estava to segura, que j na vspera, enquanto ele andava
trabalhando no souto, fora ao Mosteiro comungar, para que a Santa Hstia fosse o
primeiro alimento da criancinha que em si trazia, e que assim recebia logo o corpo e o
sangue de Jesus. O bom lenhador tornou a emudecer, como deslumbrado, coando a
barba rude. Ento a boa companheira, pensando que ele, assim silencioso, se
amargurava na alma com aquele filho que vinha para ser, como eles, um servo, preso
quela terra de florestas como qualquer carvalho que s serve para render, e quando no
rende se abate, lembrou quanto a vida servil era fcil e branda nos domnios do bom
castelo. J to velho, paternal, o bom Senhor amava os seus servos, e velava por eles
como searas dos seus campos. Havia tantos anos que as masmorras estavam vazias, que
o senescal perdera as chaves. Sempre que os homens eram chamados para compor os.6
telhados ou limpar os fossos, voltavam contentes com um bom salrio. Quando,
montado na sua mula, percorria as terras, parava a aconselhar os trabalhadores, sem
mesmo consentir, nos dias de vento, que eles tirassem os seus barretes. O preo da
moagem, e o da fornada, no moinho e no forno senhoriais, fora por ele abaixado... E a
boa menina, a herdeira daquele domnio, onde haveria outra to caridosa e suave? Era
ela que ligava, com os seus dedos mais brancos que os de uma Nossa Senhora, as
feridas dos pegureiros. Se a ventania levava o colmo de uma cabana, logo ela o
mandava consertar. Nos grandes frios, distribua pelos velhos vinho antigo e peles de
carneiro... Se a vida era assim fcil e branda na castelania, bem podiam eles estar
contentes com o filho que lhes nascia, para ser um servo contente sob aqueles bons
senhores.
- No  verdade, meu homem?
A face do lenhador resplandecia, como um ouro sem liga sob um raio de sol.
- Bendito seja Deus por eu te ter conhecido, mulher!
Apertou fortemente nos braos a companheira valente, e partiu para o trabalho.
Pelo caminho que levava ao castelo, sorria, vaga e deslumbradamente, para o cu e para
as rvores. E a cada instante lhe alvoroava a alma aquela promessa lanada, sob a
escurido das faias, pelo moo de olhos resplandecentes. Era esse, pois, o filho
anunciado que se devia tornar um grande santo? Quase assustado, no ousava crer num
to maravilhoso favor de Deus. Um servo gerar um santo! Quando o seu Senhor, to
poderoso, doador de capelas, acolhedor de peregrinos, que fora em moo libertar Jesus
Cristo da maldade dos Turcos, no lograva o favor de um filho, para governar as suas
terras, seria ele, servo rude, de saio de estamenha, rachador de madeira, o escolhido
por Deus para dar quelas gentes o dom maravilhoso de um santo, para as proteger, e
chamar sobre elas a amizade dos Cus? Tal no podia ser, e mesmo em o pensar, em o
esperar, ele sentia confusamente o perigo de um orgulho que ofenderia Jesus e os outros
santos, e desde logo alhearia a sua proteco do menino que lhe ia nascer.
Decidiu ento no pensar mais naquela promessa: mas quando ao recolher 
cabana, de noite, passava junto ao bosque de faias, os seus passos, a seu pesar, se
tornavam mais lentos, e parava, escutava, com o corao a bater to fortemente, que as
suas pancadas ansiosas eram como as que se do a uma porta fechada sobre um tesouro.
E a mudez, a negrura impassvel do bosque davam uma indefinida, fugitiva tristeza ao
seu corao, como se uma gua fresca, em hora de sede, se lhe secasse entre as mos.
Entrando, porm, na cabana, todo ele sorria contente, vendo a sua companheira
que fiava j a teia do enxoval. Ele tomava a um canto as madeiras que escolhera com
carinho, as ferramentas que lhe emprestara o carpinteiro do castelo, e trabalhava no
bero do seu menino: - porque em ambos todas as ocupaes, todos os pensam2ntos
eram unicamente em servio daquele filho, que lhes parecia milagroso e raro como uma
estrela que de repente brotasse, e comeasse a dardejar os seus raios na ponta de um
galho seco. Ambos comeavam a ter ambies: ela quereria ser, depois de criar o
menino, a tecedeira do castelo: ele pensava no lugar do chefe-mateiro, que estava velho
e pedira ao Senhor para repousar. Quando o Inverno comeou, consideravam mesmo
quanto a sua cabana era desabrigada e rude; e o bom mateiro comeou todas as manhs,
mal luzia a primeira claridade, a trabalhar nos reparos, pondo colmo novo no tecto,
tapando fendas, preparando um cho de tabuado, onde mais tarde os pezinhos nus do
menino no sentissem a frialdade da terra negra. Depois limpou, arcou a horta, que
cercou de um silvado, defendendo, isolando mais o seu lar, que ia encerrar um tesouro.
Por vezes a sua companheira queria ajud-lo nestas tarefas piedosas. Ele no
consentia, num receio constante de que se fatigasse, viesse mal quele corpo precioso,
que a seu pesar, por vezes, imaginava escolhido por Deus, e que contemplava ento com.7
pasmo como um relicrio numa capela. Era sempre para ela a malga maior, a fatia mais
larga de po, no desejo de a sentir forte, comunicando fora ao seu filho; procurava por
toda a floresta mel silvestre, para misturar ao vinho que ela bebia aquecido  lareira; e
como a moleira do moinho senhorial, junto ao rio, assistia na hora dolorosa a todas as
servas da castelania, o pobre mateiro no cessava de a servir, de lhe levar sacos de
pinhas, de lhe rachar a lenha, e mesmo, arregaando as mangas de estamenha, pretendia
limpar as rodas da azenha. A boa comadre, cruzando os braos sobre o avental
enfarinhado, dava os seus conselhos; e j por ordem dela, o bom mateiro todas as noites,
com uma longa vara, batia as ramas do arvoredo que abrigava a sua cabana, para que
no viesse nelas pousar alguma coruja, que, piando de noite, faria nascer a criana
medrosa e com os olhos tortos. Mas o seu maior cuidado era queimar na lareira galhos
de azinho, para que o leite da me fosse abundante e forte.
O Inverno no entanto viera, tormentoso e negro: e nos longos crepsculos,
sentados na tripea, ao lume da lareira, estes dois servos simples pensavam somente no
seu filho. Ele contava, recontava na memria as peas de ouro poupadas naqueles
longos anos e enterradas debaixo da arca, e noutras ainda que pouparia, para pagar o
padre-mestre que ensinasse ao seu filho as letras e o latim... Por que no? Quantos
filhos de servo tinham cantado missa nova! E a seu pesar, aterrado sob o seu orgulho
incorrigvel, via o seu filho com uma mitra cravejada de ouro, em vestes recamadas de
ouro, atravessar sob um plio os caminhos de aldeia, juncados de rosas e de erva-doce.
A me, essa, calada, movendo o seu fuso, s via o seu filho pequenino, muito gordo,
com a face cheia, lisa, e corada como uma manh, rindo sobre o seu colo.
Uma noite, que ela assim pensava, adormeceu, fatigada de ter lidado, j pesada,
todo aquele dia de Abril, quente e longo. E quase imediatamente se viu sentada, no adro
da capela, na aldeia, um domingo de festa, no primeiro dia de Maio: em volta as
raparigas danavam, ao som da rabeca que tocava um menestrel; os moos mais fortes
lutavam sobre a relva; um servo do castelo vendia vinho de uma grande pipa enfeitada
de louro; e um cavaleiro, todo armado, segurava um cavalo de grandes clinas, to bravo
que ningum o podia montar... E eis que, de repente, o seu filho aparece com um gibo
de pano azul, um capuz escarlate como o filho de um mercador, e logo derruba na luta
os mais fortes, amansa o corcel indomvel, faz empalidecer de amor todas as raparigas
s com volver os olhos radiantes, e, tomando a rabeca do menestrel, comea to divi-namente
a tanger, que todos os pssaros saam das ramarias, e vinham, maravilhados,
pousar nos seus ombros largos. Ela tremia, num infinito orgulho. E em roda todos,
erguendo os barretes, bradavam:
- Eis o mais belo, o mais destro, o mais forte. Seja ele o Rei de Maio!
Acordou ao clamor triunfal. O seu homem arcava o seu machado. E quando ela,
ainda ofegante, lhe contou o seu sonho, ele permaneceu muito tempo pensativo, porque
os sonhos so como tapearias que os anjos desenrolam e em que esto bordados, em
cores claras, os destinos que ho-de ser.
Ambos acordavam de manh, a um grande canto de pssaros, to alegre e ruidoso
como se todas as cotovias e melros, da floresta, estivessem celebrando uma festa sobre o
colmo da sua cabana: e em torno ao catre flutuava estranhamente um fresco cheiro de
verduras e flores novas. Mas a mulher do lenhador no se podia erguer, num cansao
que a tornava mais plida que um linho muito lavado: e bem depressa, gemendo, pediu
ao seu homem que fosse buscar a moleira caridosa e hbil, porque chegava a sua hora
de glria e de dor. E, ainda gemendo, a boa mulher comeou logo a sua orao a Santa
Margarida.
Atirando o machado que apertara ao cinto de couro, o bom lenhador correu
atravs dos campos, ansiosamente, pisando sem dor os milhos novos, saltando as sebes.8
em flor. A moleira carregava um saco cheio sobre o seu jumentinho branco.
Descarregou logo o saco, saltou ela para sobre o jumento, e atravs das azinhagas, a
moleira galopando, o lenhador correndo, pararam  porta da cabana, quando do seu
beiral se erguia, tomando o voo, um casal de pombas brancas. Era um feliz prenncio: -
e enquanto o lenhador ia prender o jumentinho no eido, a moleira entrou na cabana
depois de riscar no cho uma cruz com o p, murmurando o nome de Santa Margarida.
Mas voltou logo, trazendo nas mos um largo cinto de couro, com que a boa fiandeira
apertava as saias, e gritou pelo lenhador, para que ele corresse  capela, atasse o cinto na
corda do sino, e repicasse nove repiques, rezando nove ave-marias. Eis de novo o bom
lenhador correndo, com o cinto apertado ao peito, preciosamente: desceu aos choupais,
frescos e cheios de sombra; correu ao comprido do rio, todo reluzente de sol, que uma
grossa barca, com armas de um D. Abade e toda carregada de pipas, subia lentamente 
sirga; galgou os lameiros, onde os gados pastavam, ao som das flautas dos pegureiros;
abalou pela estrada, por diante da taberna do Galo Preto, de onde carvoeiros da mata o
chamavam, erguendo alegremente os pichis de estanho... Ele, sem escutar, seguiu: mas
teve de parar, de repente, porque dos lados da ponte, com um lampejar de armas e um
brilho de sedas claras, desembocava uma rica cavalgada, a caminho do castelo. Um
clarim suava triunfalmente; guardas barbudos e graves traziam as lanas erguidas, ao
alto; uma bandeira, no ar, desdobrava o seu grande braso de cores estridentes; os
pajens, empoeirados dos caminhos, conduziam  rdea azmolas carregadas de pesados
cofres pintados a escarlate e ouro; - e um fidalgo, moo, de barba negra, com um falco
no punho, ria de cima do seu alto corcel, coberto com um xairel de veludo azul, com um
frade que cavalgava ao lado, numa mula toda branca. Galgos geis corriam em roda; e
um troo de lanas seguia, erguendo grande poeira.
Curvado, cosido contra a sebe espinhosa, com o seu barrete na mo, o bom
mateiro saudava humildemente, esperava com o corao a bater de ansiedade. Ao seu
lado, outros viles dobravam o joelho; e um velho alto murmurava que aquele era um
baro de outras terras, que chegava para noivar com a filha do bom castelo. Mas de
repente alguns cavaleiros paravam: uma das azmolas, espantada, atirara ao cho os
cofres de escarlate e ouro: e um senescal, correndo logo, reclamou todos os viles ali
juntos para virem erguer os cofres, carregar novamente a azmola. E o bom mateiro l
se adiantou, aflito, com os olhos quase enevoados de lgrimas, mal podendo atar as
cordas que prendiam os cofres nas andilhas da azmola. Trs vezes o senescal o
injuriou. E a sua pobre companheira sofrendo por no repicarem os santos sinos, que
amansariam a sua dor!
Mas o animal, carregado de novo, aquietou, levado  rdea pelos pajens; e os
cavaleiros trotaram na poeira, que o sol dourava. Ento, livre, o lenhador correu
desesperadamente  capela que servos do castelo andavam caiando de fresco. Ajudado
pelo sacristo, um velho corcunda a quem ele s vezes rachava lenha, atou o cinto de
couro  corda grossa do sino: - e bem depressa, no azul cheio de sol, cantavam
alegremente os novos repiques devotos. Para maior segurana acendeu ainda, num altar,
duas velas a Santa Margarida. Depois, confiado na misericrdia do Cu, recolheu  sua
cabana.
Os olhos quase se lhe enevoavam de lgrimas, quando, da azinhaga por onde ia
arquejando, a avistou, sob as grandes rvores. Mas no lhe pareceu nesse instante to
escura e humilde.
O Sol, que batia em redor nas ramagens, tinha um desacostumado esplendor. A
cruz branca, que ele pintara na porta para afugentar os demnios, reluzia, como feita de
uma luz clara. Das sebes, a seu lado, saa um aroma mais doce que incenso. As grandes
papoilas entre a erva, as flores silvestres, pareciam maiores, com grandes cores de festa..9
Regatos que no via, borbulhavam alto, com um som fresco de riso.
Ele pasmava desta beleza rara, que nunca vira nestes caminhos familiares. E eis
que, subitamente, do lado do rio, rompem, num repique festivo, os grandes sinos do
Mosteiro, e do lado do castelo a sineta da capela lana tambm pelo azul um repique
argentino. Todo o cu tinha uma alegria de festa. E quando chegou  porta da sua
cabana, os pinheiros em redor, movendo as altas ramas, pareciam cantar.
Entrou. Sobre o catre, a sua companheira jazia imvel, branca como o lenol, j
composto e liso, que a cobria. E, diante do lume que estalava, a moleira, abatida sobre
uma tripea, sustentava no colo o menino, estendido num pano branco... Mas o pobre
lenhador, que estendera os braos, como se ante ele se abrissem as portas do Cu -
recuou espavorido. O seu filho era um monstro!
Escuro, coberto de uma pele rugosa e spera; com uma face vaga, informe, onde
as feies faziam como vagas protuberncias nodosas; as mos enormes enclavinhadas
sobre o ventre felpudo; torto das pernas que findavam em dois ps agudos, como os de
um fauno, todo ele parecia uma raiz sombria, raiz de rvore estranha, ainda negra da
terra negra de que fora arrancada. E nem gemia. Era como o rudimento de um ser
vegetal!
Duas lgrimas amargas e lentas rolaram pela barba do bom lenhador. Deu um
passo para a beira do catre. Na face branca, e como morta, da sua companheira, duas
lgrimas corriam tambm, como na amargura de um sonho desfeito.
III
Como aquele ser informe decerto ia morrer, o prprio pai, aterrado e chorando, o
baptizou, e lhe deu o nome de Cristvo.
Durante trs dias, durante trs noites, Cristvo no mamou, no gemeu, imvel
no bero, que o lenhador e a sua companheira constantemente velavam, numa esperana
teimosa, sentindo naquela pele rugosa e dura o calor de um sangue forte. Uma tarde que
ambos cansados tinham adormecido, sentiram subir, de entre os lenis do bero que
rangia, um rumor singular como o lento balar de um anho muito robusto. Cristvo
descerrara as plpebras moles, e eles viram enfim os seus olhos de um azul-plido,
como a flor da pervinca. A me, radiante, arrebatou-o contra o seio que a abundncia de
leite sufocava: - e em poucos sorvos, largos e fundos, Cristvo esvaziou um dos
peitos.
Comeou ento a viver de uma vida intensa e rpida. Dormindo, a sua respirao
era mais que uma brisa entre ramos; ao acordar os seus gritos abalavam a cabana; e na
sua voracidade, sem parar, secava o leite da me, chupava atravs de um pano largos
pedaos de mel silvestre, e ficava trincando com impacincia o dedo que, para o
consolar, o pai lhe metia entre as gengivas, mais duras que pedras.
E, no entanto, aquela monstruosidade, que o assemelhava a uma grossa e negra
raiz, compunha em formas familiares de um corpo grosseiro, mas humano. A pele,
perdida a aspereza negra, era lisa e vermelha como uma casca de ma: a cabea
emergia dos ombros como numa deciso de comear a vida; e as pernas agora direitas,
com dois grandes ps chatos, eram to fortes que, se as agitava, quase fazia tombar o
bero.
E bem depressa, com terror da me, no coube no bero. Como era no calor de
Maio, o bom lenhador fazia com musgo seco, recoberto de um mantu, um leito na
horta, onde o deitavam sob uma mimosa em flor. Mas Cristvo rolava para fora do
mantu, procurando a terra quente e mole, onde se estendia, se dilatava com delcia,
como num elemento preferido, sorrindo quieto, num sorriso mudo, que deixava j.10
transparecer o brilho de um dente. Comearam ento a aparecer, voando, por sobre os
legumes da horta, borboletas de cores prodigiosas, como o lenhador nunca vira. Uma
roseira seca havia um ano, e que tinha apenas o tronco mirrado, rebentou em grandes
rosas que perfumavam todo o ar. Os melros que ali acudiam, fazendo um canto
incessante e festivo, emudeciam quando a enorme criana dormia, com os seus grossos
punhos fechados. A mimosa, todas as rvores em redor, vieram estendendo as suas
ramarias, como toldos de abrigo, para o lado onde se estendia o mantu. E um dia a
me, entreabrindo a porta do eido, avistou, espantada, um enorme veado, que por cima
da sebe, com os altos paus entre a folhagem, contemplava Cristvo, com a gravidade
de um av.
Era ento to pesado que a boa mulher vergava, mal o podia transportar da porta
para o bero. E todavia tinha s seis meses. A moleira que parava, com o seu
jumentinho carregado de sacos, diante da cabana, para o ver, pasmava das suas cores
vermelhas, da sua fora, dos seus membros perfeitos e daquele sossego em que per-manecia,
todo um longo dia de Vero, sentado, cravando na mesma pedra ou no mesmo
ramo os seus olhos azulados, sem brilho e sem vida. E ela via nesta transformao um
milagre de Santa Ana.
Muito antes do Natal, Cristvo comeou a andar. J corria toda a horta, era quase
da altura da sebe - e se, para se segurar, atirava a mo a um ramo, o ramo rachava como
sob o esforo de um homem forte. O pai vivia no encanto e deslumbramento desta fora
magnfica: - e o seu prazer era contemplar a criana erguendo uma grossa panela de
ferro, ou caminhar para a lareira abraado a duas imensas achas de lenha. No duvidava
que ele viria a ser o homem mais valente de toda a castelania, e j o imaginava soldado,
com uma pesada armadura, comandando os teros da castelania. No corao da me
havia uma surda, vaga tristeza, por aquele crescer maravilhoso de fora e de formas. J
o no podia trazer ao colo; Cristvo tinha apenas um ano, e j no era o seu menino, o
seu pequenino. Os ternos cuidados da sua maternidade eram j para ele inteis. No
necessitava amparar-lhe os passos, nem meter-lhe na boca a comida. Enorme, to forte
como ela, Cristvo, quando tinha fome, levantava a tampa da arca e partia ao meio as
broas mais duras. O lenhador marcara na parede, com um trao branco, a altura do filho,
pelo Natal: - e cada dia os riscos subiam mais alto, quase rente  prateleira da loua.
Aos dois anos a sua cabea pequenina, coberta de uma l espessa e loura, j dava pelo
cinto do lenhador. Os saiozinhos de pano, que ela cosera com tanto amor, jaziam inteis
no fundo da arca, sem que ele tivesse jamais sido bastante pequenino para se mostrar,
com eles, pela sua mo, aos domingos, no adro da aldeia. E quando o via, ainda mudo e
inocente como uma criancinha de peito, e j to grande, enchendo quase a porta da
cabana, onde costumava estar horas, parado, a olhar monotonamente o ar e o sol, a
pobre me, desconsolada, sentia uma lgrima humedecer-lhe a face.
O que a consolava era senti-lo to manso e doce. Se ela, assustada, lhe tirava o
machado do lenhador, que ele gostava de erguer, ou se o afastava do lume, que
incessantemente o atraa, ele no mostrava nem resistncia nem impacincia. No era
mais inerte um fardo de l. Permanecia longas horas na tripea em que o sentava, ou 
sombra, debaixo da cerejeira da horta. O seu encanto era ver fiar a me, atento
profundamente ao rodar, ao cantar do fuso. E a cada instante lhe tomava a mo, para
nela pousar um beijo mudo, sem brilho, que no findava. Ela apertava-o ao seu corao,
murmurando, desolada:
- Por que no s tu mais pequenino?
E, no entanto, j perto dos quatro anos, no falava. O nico som que saa, cavo e
grosso, dos seus lbios cor de aurora, era: Han! Han! Se tinha sede apontava com um
grande dedo, rosnava: Han! Han! Para sair mostrava a porta, e grunhia, com os olhos.11
vagos, para a me: Han! Han! A pobre mulher j perdera a doce esperana de o ouvir
jamais chamar me e pai. J no duvidava de ter concebido um mudo, um imbecil. E na
sua dor, num resto de orgulho, no permitia que Cristvo transpusesse a sebe da horta,
descesse abaixo, aos caminhos, com receio que os trabalhadores da floresta, as vizinhas
da aldeia, o encontrassem, descobrissem a sua monstruosidade, lamentassem a tristeza
do seu lar.
Mas o que sobretudo a aterrava era a insensibilidade de Cristvo  dor, como
coisa diablica. Uma vespa mordera-o na face, e ele nem chorava, nem a pele lhe
inchara. Sentava-se indiferentemente sobre musgo fresco, ou sobre as seivas espinhosas.
E um dia mergulhara a mo na gua a ferver, e retirara-a, quieto, como se ela fosse de
pedra.
- Ai! meu homem - murmurava a pobre me - que malogro o nosso!
Ele suspirava, sombriamente. Toda a sua alegria, diante daquela robustez primeira
do filho, to prometedora, se mudara em dor constante, perante a sua deformidade -
porque Cristvo no falava, tinha a simplicidade de um serzinho no bero, e j lhe
dava pelo ombro, forte como ele, com grandes msculos, mos formidveis que
brandiam no ar a sua machada to facilmente como uma varinha de olmo. J no falava
no seu filho aos outros servos da castelania, carvoeiros, serradores, companheiros da
floresta. Se ao menos Cristvo falasse, tivesse, naquela estatura de homem, os modos
de um homem... Iria com ele para o trabalho, no revelaria a sua idade - e seria como
um companheiro moo e robusto que habitava no seu lar. Mas, assim, imenso, com uma
vasta face, os ombros de atleta, ele passava horas, esgaravatando a terra, como uma
criancinha, contemplando de rastos o caminhar das formigas, ou, quieto, chupando um
dedo.
J na aldeia, entre os servos do castelo, corria que o filho do lenhador era um
monstro. Decerto fora algum feiticeiro, seu inimigo, que assim lhe lanara uma sorte
temerosa. E alguns, mais afoitos, vieram rondar, espreitar em torno da cabana de
Cristvo, para ver o enfeitiado. A pobre me, uma tarde, sentira grossas risadas, rente
 sebe da horta, adivinhara estas curiosidades que vinham escarnecer a dor do seu lar.
Tinha agora sempre fechada aquela porta da sua cabana, to limpa, to honesta, e por
onde at a ela deixara passar os olhares de todos, to livremente como os raios do Sol.
Quando alguma comadre da aldeia, alguma serva do castelo, a chamava de fora, ela
antes de abrir, empurrava para fora, para o escuro das rvores, o seu pobre monstro, que
l ia movendo os ps tardos, com baba ao canto do queixo. O seu desejo seria erguer em
torno da sua morada um muro, um alto cerrado de tbuas, que a isolasse de toda a terra.
E juntamente sofria em ter assim enclausurado o seu pobre Cristvo, naqueles escassos
palmos de cabana e de horta, em o trazer escondido como um fruto amaldioado, de que
ela se envergonhava. Toda a sua alma simples e recta andava afogada em tristeza e
sombra. E j no duvidava que a monstruosidade do seu filho, era o castigo que a
Virgem Maria dera ao seu orgulho de me. To certa andara de que o seu Cristvo
seria divinamente lindo, como o Menino Jesus que S. Jos erguia nos braos, que a
Virgem se escandalizara no fundo dos Cus. E bem justamente! Como poderia o fruto,
de um ventre servil, ser igual em beleza ao fruto de um ventre divino?
Uma tarde que assim pensava, movendo o seu fuso, sentiu na horta um rumor, e
como pedras batendo a folhagem da cerejeira. Inquieta, abriu o loquete, e viu trs
pagens do castelo que por trs da sebe, joviais e cruis, escarneciam o seu filho, e lhe
atiravam, como a um bicho numa toca, pedras e torres secos. E Cristvo, mais forte
que os pajens, mas sem compreender, apenas erguia a mo ante a face, imvel no meio
da horta assoalhada. Ela arrebatou-o desesperadamente para dentro, atirou a porta,
enquanto os pajens, ofendidos com a audcia da serva, apedrejavam os muros da.12
cabana. Desde esse dia a pobre me comeou a definhar. Era uma dor surda, um
desconsolo de tudo, que a deixava longas tardes imvel, com a roca esquecida na cinta,
o fuso cado no cho, perdida, entorpecida numa melancolia sem fim e sem nome. Todo
o trabalho lhe pesava como um fardo intil. Quase lhe custava a vestir Cristvo, que
nem o seu grosso gibo de estamenha sabia enfiar, e que quase fazia corar a pobre me,
com o seu enorme corpo nu, grande como o dela, e que lhe parecia a nudez de um
estranho, de um homem, que invadira o seu lar.  noite, silenciosa e plida, repelia a
sua malga de caldo, que Cristvo logo devorava em silncio. E no queria que o seu
homem, assustado, chamasse o fsico do castelo. Para qu? "O meu mal, murmurava,
h-de crescer, e crescer...". As tardes na cabana eram tristes como as de um hospital.
To fraca que se no podia mover do catre, ela contemplava o seu homem, sentado ao
lado, com um longo olhar de saudade, o olhar humedecido de quem vai partir. Ele, com
as mos dela entre as suas, s instava para que ela experimentasse algum dos remdios,
que aconselhava a moleira, contra aquela mngua de corpo: e para o contentar, ela
acedeu a atar ao pescoo um saco onde estava metida uma r e a comer um caldo de
margaridas apanhadas  Lua cheia. Mas, sem dor, sem agonia, o seu pobre corpo ia
como que desaparecendo, to magro e transparente, que ela via a vermelhido da lareira
atravs das mos abertas.
Desde que ela adoecera, Cristvo no abandonara a beira do catre, pasmando
para a me, ansiosamente, como no esforo de compreender por que ficava ela deitada e
de olhos adormecidos, quando o sol envolvia a cabana, e at as rvores tinham
acordado. Por vezes tocava-lhe o brao, o ombro, com um pequenino gemido triste. Ela
murmurava, com toda a sua alma:
- "Meu pobre filho! meu pobre filho!" Mas voltava o rosto amargamente, se o via
ir, com os seus passos lentos e balanados de urso domstico, erguer com uma s mo a
pesada bilha de gua, esvazi-la de um trago.
Era ento o fim do Outono. J o lenhador, ao recolher, sacudia o saio, todo
molhado da humidade da floresta: e um grande vento por vezes gemia nos pinheirais.
Toda a noite a candeia ficava acesa. Numa enxerga, ao lado da lareira, Cristvo dormia
sob peles de cabra, fazendo um grande vulto na sombra, ressonando to fortemente
como uma forja. E a pobre mulher, o homem ao lado, sentado na tripea, entorpecido de
fadiga e de sono, no dormia, pensando no abandono e na tristeza em que cairia aquela
pobre cabana, de que ela fizera um ninho to doce! Quem cozinharia a sopa do seu
homem, quem trataria daquele pobre monstro, que nem sabia enfiar o seu gibo? Um
grande soluo sacudia o seu peito magro: - e o lenhador, despertando, estremunhado,
arranjava a manta que cobria o catre, ou ia remexer as brasas da lenha.
Uma noite, em que havia um grande silncio no arvoredo e no ar, porque caa a
neve, ela sentiu um grande frio que lhe passava no rosto, e atravs do desmaio que a
tomava, estendeu a mo, apalpando para dizer para sempre adeus ao seu homem. E os
seus olhos vagos e lentos encontraram ento os olhos do seu Cristvo, que se erguera,
embrulhado numa pele de cabra, e estava aos ps do catre, atento, e como esperando,
num espanto. Moveu os lbios para lhe pedir que se deitasse, se agasalhasse, mas s
pde suspirar, desfalecida... E pareceu-lhe que, diante, o seu filho comeava a crescer
visivelmente; j os seus cabelos ruivos tocavam o tecto da cabana: o colmo esgaou, e,
atravs da abertura, Cristvo crescia para o cu mais alto que os pinheiros, j com a
face perdida entre os flocos de neve; e to feio e monstruoso que as estrelas fugiam pelo
ar, como almas assustadas. Deu um grito. O pobre lenhador despertou, debruado logo
sobre ela, a tremer. A sua companheira parecia adormecida. Ento Cristvo veio
lentamente em torno do catre, e pondo as mos, de leve, sobre os cabelos que um suor
humedecia, gritou:.13
-  mezinha, mezinha, no durmas!
Cristvo falara! O seu filho falava! Um rubor de infinito contentamento subiu-lhe
ao rosto macerado, que ficou imvel, sorrindo: - e a boa fiandeira partia desta terra,
para alm...
IV
Logo  porta a velha, apertando as mos, contava como Cristvo se conservava
quieto, e to bom, brincando na horta ou atento s histrias, que ela sabia, de fadas e de
mouros. O lenhador coava a barba, contente: - e Cristvo, diante da lareira, onde a
lenha estalava, sorria pasmadamente, sacudindo as mos cheias de terra.
Quando os frios vieram, a serradeira, s vezes, ao lidar na cabana, gemia,
esfregando os joelhos. Cristvo arregalava para ela os olhos compadecidos. E um dia
que ela coxeava, gemia mais, saindo para a fonte, Cristvo timidamente tocou na asa
do grosso cntaro de barro, murmurando, muito vermelho: "Eu vou". Espantada, ela
deixou, ficou  porta vendo Cristvo desaparecer entre os olmos e logo voltar, subindo
a vereda, sob a chuva fria, com o cntaro que lhe pesava menos no brao estendido que
uma malga ligeira. Todo ele sorria, com um contentamento profundo. A velha limpou-lhe
os cabelos molhados - e, pela vez primeira, desde que guardava a cabana, tomando
Cristvo como um ser humano, falou das dores dos seus pobres ossos, no seu homem
que lhe deixara a velhice sem po, na morte que vinha perto com uma grande foice. Mas
a face que Cristvo erguia para ela, agachado  lareira, voltara  imobilidade, sem alma
e sem calor, de uma face feita de pedra. E foi para o seu velho gato, que tomara no
regao, no para Cristvo, que a serradeira prolongou, no silencio, os queixumes da
sua velhice. Nessa tarde, porm, Cristvo varreu a cabana com a vassoura que a velha,
A cerejeira na horta estava coberta de cerejas: o lenhador outra vez trabalhava nos
soutos, desde o cantar da calhandra: - e a viva de um carvoeiro da mata vinha, todos os
dias, cuidar da cabana e guardar Cristvo. Era uma velha muito magra e sombria, que
surdia de entre os pinheiros, encostada a um bordo, acompanhada por um gato negro.
Nos primeiros dias, a cada passo, agachada sobre o lume, ou fiando  porta, voltava para
os membros imensos de Cristvo com inquietao os seus olhinhos luzidios, que os
grossos plos das sobrancelhas cobriam. Aquele ser disforme, que o pai chamava "o
menininho", e que ela vinha guardar, enchia-a de espanto, quando erguia at  boca o
enorme cntaro cheio de gua, ou tapava toda a porta da horta, parado, a chupar o dedo,
a olhar para o Sol. Debalde o bom lenhador lhe afianara a sua mansido, a sua
simplicidade: a velha serradeira temia aquela mansido muda, como uma toca escura e
sem rudo, de onde pode surdir uma fera. Mas quando, durante longos dias, ela o viu
quieto sob a cerejeira, sorrindo s formigas que lhe trepavam pelas pernas j peludas,
ou, encruzado diante da horta, pasmar, chupando um dedo, para o fuso que ela fiava - a
velha reconheceu a sua simplicidade, e considerou que ele era como um animal caseiro,
porco gordo ou borrego, que pertencesse  choupana. Para no sentir mesmo pousados
nela aqueles olhos azulados e sem brilho, e aquele corpo disforme atravancando a
cabana, tapando a luz, empurrava-o para a horta, e l lhe levava, ao bater do meio-dia, a
sopa e a rao de broa, numa grande malga, que pousava no cho: e Cristvo ali
passava os seus dias, sentado, remexendo a terra com os dedos lentos e vagos, seguindo
o ramalhar das folhas, ou, a passos lentos, rente da sebe, alongava para os campos, para
os arvoredos de alm, o olhar pasmado e sem brilho, com a quietao do boi farto. A
serradeira, no entanto, varria o cho, areava as ferragens do armrio, batia o colcho do
catre, ou sentada  porta fiava at que, s Trindades, soavam no caminho os guizos da
gua branca, que o bom lenhador trazia  rdea..14
coxeando e gemendo, lhe metera nas mos.
E, desde ento, ele comeou a fazer pouco a pouco todos os trabalhos domsticos.
Atravs do longo Inverno a serradeira no se moveu mais do canto da lareira, fiando na
sua roca, com o gato agachado aos ps. Cristvo ia encher a bilha  fonte, acendia a
lareira, areava a panela, polia as ferragens do armrio, batia os colches dos catres - e
mesmo aos sbados, numa doma cheia de gua quente e cinza, fazia a barrela da roupa.
E, em todos estes servios, punha uma aplicao, um interesse profundo. Todo o seu
imenso corpo se tornava mais gil, mais pronto. J dos seus grossos lbios, que s se
alargavam num sorrir pasmado e morto, saam murmrios vivos: "Est bem! Ficou
bem... Cristvo limpou!"
 noite,  ceia, esfarelando com lentido a broa no caldo, o lenhador contemplava
com espanto o seu Cristvo, que lhe parecia diferente, mais atento, desentorpecido,
conhecendo j que ele abatia rvores numa floresta, que a gua branca, e as terras, e os
gados que pastavam, pertenciam a um Senhor, e que aos domingos se descansava para
visitar Deus na sua casa, onde os sinos cantavam no ar. Mas o que encantava o bom
lenhador era o cuidado novo de Cristvo em o servir - desejo que lhe nascera no
corao de repente, sem que ningum l o semeasse. Mal o sentia subindo das terras, ia,
com o seu andar embalado e lento, tomar a rdea da gua, para a levar para o curral,
onde a palha estava serrotada, e o balde cheio de gua; na cabana, de joelhos,
desapertava-lhe os cordes das grossas botas de couro, que a lama cobria; e estendia
diante do lume, com cuidado, o seu surro de estamenha, traspassado das humidades da
mata. O bom lenhador murmurava, radiante como um bem-aventurado: "Foi Deus que
te mandou, filho meu!" E nos olhos com que Cristvo lhe sorria, ele, apesar de rude e
simples, percebia uma claridade, um brilho desacostumado. O seu inocente j pensava,
j compreendia. Plida ainda e hesitante, mas certa e de todo visvel, uma almazinha
despontava naquele corpo imenso, como uma pequena luz numa grande torre.
Depois da ceia, aproveitando o resto do candil, o lenhador tinha j o
contentamento inefvel de conversar com o seu filho, como outrora com a sua boa
companheira - contar o seu duro dia na mata, a rvore que fora derrubada, as madeiras
vendidas para as obras do Mosteiro, as queixas dos serradores contra o senhor senescal.
O seu pobre lar perdia a frialdade e o silncio, que at a, engolido tristemente o caldo, o
fazia estirar no catre vivo, to triste que at o ramalhar dos sobreiros lhe parecia um
gemer humano. Agora tinha um companheiro - e podia, com felicidade, comear a
envelhecer.
Teve ento orgulho no seu filho, desejou que na aldeia o conhecessem. Cristvo
crescia sempre - e era j, antes dos dez anos, como um homem de grande corpo e de
grande fora, que conservasse, na face lisa e sem barba nem penugem, a candidez de
uma criana, alta apenas como uma sebe. Um cabelo ruivo e encaracolado, que lhe
nascia nas sobrancelhas cerradas, cobria-lhe a cabea pequenina, como um barrete
muito justo de l de carneiro, at ao pescoo, onde os msculos tinham a salincia, a
rijeza, a amplido dos de um touro. A boca larga constantemente se alargava mais num
sorrir para tudo, de candidez e pasmo. E os seus olhinhos, pequeninos como contas
azuis, tinham uma doura que se derramava, em redor, como uma carcia vagarosa e
compassiva. Todos os seus vastos membros se moviam com uma lentido tmida: e,
mesmo para descer  fonte ou contornar a sebe da horta, se acostumara a trazer um
bordo, a que apoiava, quando parado, as duas mos enormes, e por cima o queixo
pesado, marcado com uma cova funda. De uma pea de camelo azul, que o pai h
muito guardava na arca, o alfaiate dos pajens do castelo talhara-lhe um capuz de
romeira, e um gibo direito como um saco que, franzido na cinta por uma tira de couro,
caa em pregas longas e grossas sobre as botas escarlates, com relevos cosidos de.15
cordovo amarelo. E, assim enroupado e limpo como um filho de mercador, o levava o
pai todos os domingos, sorrindo de orgulho, pelos caminhos,  missa na aldeia.
Cristvo penetrava na velha igreja, de muros severos como os de uma cidadela,
com um enleio, um medo vago. Ele sabia que aquela alta casa de pedra, com lmpadas
que rebrilhavam, era de Deus Nosso Senhor, que tinha uma assim em cada aldeia, onde,
nos dias quietos e silenciosos em que se no trabalhava, o povo, vestido de panos novos,
o vinha visitar e louvar. E desde o domingo de Maio, em que ele descera da cabana,
atravs dos campos verdes, entre as sebes de madressilvas, para ouvir a sua primeira
missa, sempre aquela casa de Deus Nosso Senhor deixara, na sua alma simples, o terror
de um lugar muito rico, muito triste, e todo cheio de mistrio. Uma grande sombra fria
caa das abbadas escuras. Todas as imagens, sobre os altares, lvidas, emaciadas,
pareciam sofrer: - o moo nu que torcia o corpo amarrado a uma rvore, e traspassado
de frechas; a rainha, to triste, sob a sua coroa de ouro, e no seu manto de cetim, com o
corao varado por sete espadas; o monge, com um resplendor de prata, que mostrava as
chagas das mos abertas. Em tocheiros de ouro lavrado ardiam longos lumes de tristeza.
Panos de veludo, de seda, com recamos rebrilhantes, tapavam recantos de onde por
vezes saa como o murmrio de um gemido. Toda a multido dobrava para as lajes as
faces cheias de um pensar triste. E a faixa de luz de uma fenda, aberta na muralha,
alumiava a melancolia maior, o Homem pregado numa cruz com pregos, com sangue
vivo nos joelhos, no peito, nos ps, que erguia a face atormentada para o Cu e parecia
chamar, num abandono. E assim, pois, era a casa do Senhor, cheia de ouros, de sangue
que escorria, de veludos magnficos, de tristeza e de mudez!
Diante do altar maior, no entanto, um velho, todo calvo, coberto com uma capa
resplandecente, alargava os braos, beijava a toalha bordada da ara, voltava as folhas de
um grande livro, ofertava para as alturas um bolo de farinha muito alva, bebia por. um
copo onde jias faiscavam. Voltado para ele, ao lado do pai, Cristvo ajoelhava como
o pai sobre as lajes, traava uma cruz sobre a testa, martelava o peito com os seus duros
punhos: - mas permanecia to insensvel e alheio  adorao que ante ele se
desenrolava, como o pilar de pedra escura, a que findava por se encostar, fatigado
daquela melancolia da casa de Deus. Os seus olhos ento embebiam-se numa grande
pomba branca, que se conservava imvel, com as asas abertas, por cima do sacrrio, e
que cada domingo o atraa mais, sempre ali, fiel, paciente, sem que uma das suas penas
estremecesse: s ela era doce, alegre, natural, na sua brancura adorvel, e macia  vista:
com um bico claro, patas rosadas, s ela no tinha, no seu corpo de pomba, nem ouro,
nem sangue: natural, e igual s outras pombas, s ela o no assustava, nem
deslumbrava: - e Cristvo no compreendia por que se conservava ali, naquela sombra
fria, entre granitos, ao lado de agonias e dores, e no vinha voar e arrulhar com as
outras, sobre os castanheiros do adro.
O seu incerto pensamento ia ento para os prados que atravessara, descendo das
cabanas, para a verde frescura do choupal, para o sol que aquecia os lagartos dormindo
nas pedras brancas. Teria decerto gostado de ficar l, pelos campos, pela beira do rio,
todo o longo domingo, sentindo a erva fresca entre os joelhos, roando a mo pela
frescura das ramagens baixas. Mas nos domingos era necessrio visitar, louvar a Deus
Nosso Senhor. S assim, como lhe afirmava o pai, se subia depois ao Cu. Ele, decerto,
iria um dia para o Cu. E uma inquietao passava na sua alma, porque o Cu, como a
Igreja, se lhe afigurava escuro, pesado, com ouros, grandes panos de seda, Homens
cobertos de sangue, Rainhas com o pobre corao varado de espadas - um stio, alm,
nas alturas, muito rico, e muito triste. Quanto melhor a horta em que vivia, com a cere-jeira,
a sebe de madressilva, e a salsa junto da doma! Um rumor passava entre os pilares
de pedra, todas as faces sorriam, mais claras. O senescal descia do seu banco, a missa.16
findara. E um contentamento enchia o corao de Cristvo, tornando a ver os
castanheiros do adro.
Ento, pouco a pouco, tomou mais familiaridade com florestas e prados. J corria
a sua grossa mo sobre a doura dos musgos; trepava aos troncos para espreitar para
dentro da densido das folhagens; estirava-se no meio das relvas altas, rolando os seus
cabelos crespos pela brancura das margaridas. E ao mesmo tempo descobria, dentro de
toda esta natureza, uma vida mltipla, vasta, activa e maravilhosa. A terra, que ele
remexia com os seus dedos grossos, estava toda mole dos vermes que a habitavam; cada
hastezinha de relva abrigava um povo de insectos, mais numerosos que a gente da
aldeia, aos domingos, sob os castanheiros do adro; cada folha cobria uma asa; nas
espessuras, longos dorsos peludos roavam as suas pernas lentas; olhinhos brilhantes
espreitavam de entre a negrura das tocas; o restolhar dos matos dizia a passagem das
feras. Um confuso, obscuro amor por todos estes seres, crescia no seu corao simples.
Passava horas encantadas, estirado nas ervas  beira de uma poa clara, admirando os
insectos de grandes patas que riscam a gua lisa; chamava com as mos, sorrindo, todos
os veados que,  orla das clareiras, subitamente mostravam a face majestosa e sria,
entre os troncos dos castanheiros; e parava nos carreiros verdes de humidade e musgo
para acariciar o dorso dos sapos.
Assim a floresta se lhe tornava familiar e ntima, e nela passava os dias, nos
retiros mais densos, enterrado entre as verduras, agachado contra uma rocha, de bruos
sobre uma poa de gua, sem se mover, vegetando na doura infinita de sentir os seus
longos cabelos emaranhados nas folhas, os ombros aquecidos pelo mesmo sol que batia
as pedras, as rs saltando sobre os seus ps como sobre troncos meio enterrados nas
ervas hmidas. S a fome o fazia recolher  cabana. Os seus passos desprendiam-se a
custo, como se j tivesse razes: todo ele cheirava a torro e humidade, e era, na
penumbra da tarde, como um tronco que se separava de outros troncos. Crescera to
prodigiosamente que se agachava todo para transpor a porta da cabana. Como nenhuma
tripea sustentava o seu peso, sentava-se no cho diante da lareira aos ps do pai,
embebido no espanto, na admirao daquela fora.
O bom lenhador ento j lhe no dizia ao partir para a mata: "Cristvo, no saias
da nossa horta, que te pode vir mal". E pouco a pouco comeou ento a percorrer,
maravilhado, os prados, as bordas do rio, os densos arvoredos, para que tantas vezes da
porta da cabana se tinham alongado os seus olhos pasmados e vagos. Lento e incerto,
como uma rs tresmalhada, descia pelos caminhos abertos, orlados de sebes, parando a
cada passo, ficando a pasmar para os trigais altos, para os longos prados, macios e doces
 vista como veludo verde, todos avivados de margaridas, papoilas e botes-de-ouro;
cortando pelos choupais, ia admirar, durante longas e mudas horas, o correr e o brilhar
do grande rio; ou penetrava sob os pinheirais, onde se esquecia at ao entardecer, vago e
pensativo, respirando com espanto e amor a frescura, o silncio e o aroma das resinas.
Depois recolhia  cabana devagar, com os braos cados, a face no ar, risonha e
contente.
De noite sonhava com ramagens tenras que lhe acariciavam a face, com guas
claras e frias que fugiam, cantando, entre os seus ps nus, enterrados na areia. E quando
de manh outra vez, fechando o loquete de pau da cabana, descia para os campos, era
em todo o seu corao como um desejo de abraar, num abrao inteiro, toda a terra que
via, desde as flores silvestres dos caminhos at a vasta floresta que cobria as colinas,
magnfica e sombria. Mas era nele como uma timidez, um pudor, que o retinha mesmo
de tocar nas amoras...
V.17
Um pajem levou-o pela alta escada, e tendo erguido uma tapearia, deixou-o
numa sala, em abbada, onde um tronco de rvore ardia sob uma alta chamin, e lanas
agudas brilhavam encostadas s paredes nuas e frias. Um galgo branco entrou correndo
e pulando, e logo atrs o castelo e uma dama apareceram, com pajens que os seguiam,
e um padre que trazia nas mos um brevirio. Uma tnica de veludo orlada de peles
envolvia o corpo magro do Senhor, caindo sobre os sapatos pontiagudos, tambm
orlados de peles. A barba ruiva avanava, dura e pontiaguda: o nariz era como o de um
abutre: e sob o barrete de veludo, a grenha crespa, fugia, para trs, como uma romeira
hirta. O alto beguin da dama roava quase o alto da porta; o seu vestido escuro arrastava
nas lajes, e os olhos baixos pareciam contemplar as mos cadas e cruzadas, mais
plidas que cera, de onde pendia um rosrio. Um truo ao lado deles, ano e corcunda,
pousava com um orgulho burlesco a mo nos grossos copos de uma espada de pau.
O pai de Cristvo cara de joelhos, e como Cristvo permanecia de p, com o
seu barrete de pele debaixo do brao, ele puxava-lhe pelo saio para que ajoelhasse
tambm. Os seus joelhos por fim vergaram, ressoaram nas lajes. E diante o Senhor,
puxando entre os dedos os plos da barba dura, a dama com um sorriso tmido, e o
capelo de mos cruzadas no ventre, contemplavam os grossos membros de Cristvo.
A uma ordem do Senhor, ele ergueu-se, deu um passo. O Senhor apalpou-lhe os
msculos, puxou-lhe mesmo a carapinha: - depois, a nova ordem sua, trs homens
trouxeram uma enorme espada de ferro, enferrujada, que parecia a dava de Hrcules.
Com um movimento ligeiro, Cristvo brandiu-a no ar. Ento o truo, arrancando a sua
espada de pau, avanou para Cristvo com os ademanes de um espadachim: os guizos
do seu barrete tilintavam; a sua corcunda torcia-se grotescamente; e com uma vozinha
esguia, gritava: "Peravante! Deus o manda!" Ento Cristvo baixou a espada de ferro;
a sua boca fendeu-se, mostrou unia cavidade imensa - e saiu dela uma risada enorme,
troante, ressoante, que abalou os vidros nos seus caixilhos de chumbo. A dama tapou os
ouvidos com as mos plidas; os pajens por trs abafavam o riso; - e com um gesto da
sua mo cabeluda, o Senhor mandou que conduzissem Cristvo s cozinhas.
Em baixo, na cozinha, sob a alta chamin, grandes peas de carne, em espetos,
assavam diante de uma fogueira enorme que estalava - enquanto que, nas caarolas
suspensas de correntes de ferro, a gua fervia fazendo palpitar as tampas. Os
cozinheiros, com rolos de pau muito branco, enrolavam massas; um jorro de gua
cantava numa bacia de pedra; e duas aias muito velhas, sentadas em escabelos, fiavam
junto da janela, onde cresciam manjerices Um servo trouxe uma malga enorme, onde
uma enorme colher de pau vinha espetada na espessura dos legumes e das febras de
carne. Com a cabea baixa, Cristvo devorava: - mas, junto da porta escura, subiam,
vindos de baixo, gemidos de homens como no esforo de carregar um fardo muito
pesado: Cristvo deixou a colher, limpou a boca com as costas da mo, e desapareceu
sob o arco escuro: - e da a momentos subia trazendo s costas uma vasta pipa de arcos
de ferro: atrs vinham dois homens, limpando ainda o suor, a arquejar. Para
Os pajens que, pela tarde, vinham  fonte rir com as moas, tendo falado dele, nas
veladas do castelo, o castelo quis v-lo. E uma manh, seguido do pai que pusera os
seus melhores trajes, subiu a colina, que levava  ponte levadia. Dois archeiros, com
saies de couro, guardavam a porta; e os molossos no ptio puxavam furiosamente as
correntes que os prendiam, ladrando, com as patas erguidas, contra o gigante que
passava. A fachada do castelo erguia-se majestosamente, com um alto porto ogival
sobre degraus de mrmore, duas torres aos cantos com telhados agudos, cobertos de
lousa em escamas; e a cada janela havia um vaso de barro amarelo, onde crescia um
craveiro..18
recompensar Cristvo, o cozinheiro ofereceu-lhe uma terrina cheia de vinho: ele bebia
lentamente, segurando-a nas duas mos, com os olhos cerrados.
Depois, apanhando o seu barrete de pele de coelho, saiu. As aias corriam s
janelas para o ver. De sobre as ameias os homens de armas debruavam-se: e ele
caminhava, confuso, coando devagar a grenha.
No entanto o Inverno sobreveio. Os caminhos estavam brancos de neve. E sobre
os ramos descarnados e nus, os pssaros caam mortos. Uma tarde o pai de Cristvo
voltou plido da floresta, e sentou-se  porta a olhar o Sol que descia ao fundo do vale.
Cristvo estava adiante, sentado, encabando toscamente uma lmina de foice. Quando
o Sol se sumiu sentiu por trs um gemido; voltou-se: - o pai estava com a cabea cada
contra a parede da casa, a mo sobre o corao. De noite, os gritos de Cristvo atroa-vam
a aldeia. Vieram homens com forquilhas, mulheres encolhidas nos mantus,
erguendo, diante da face, uma lanterna. O cadver estava estirado no cho sob um
lenol. E  porta, que enchia com o seu vasto corpo, Cristvo chorava estridentemente.
Dois dias, duas noites, Cristvo ficou estendido  porta com a face contra o cho:
por vezes um soluo sacudia-o todo; depois a sua imensa forma era to imvel como os
troncos em redor, derrubados e rgidos. O Inverno e a fome tinham espalhado pelos
caminhos gente sinistra, que assaltava os casebres. Um bando veio subtilmente numa
dessas noites: e, penetrando pela janela aberta, roubou tudo dentro, os vestidos, as
ferramentas, o gro da arca, as roupas do catre - enquanto, prostrado, Cristvo resso-nava
lentamente, como o rudo de um rio na escurido.
De manh, vendo o casebre vazio, Cristvo desarraigou um choupo novo,
limpou-o de todos os ramos, e apoiando-se ao vasto tronco, subiu pelo monte,
desapareceu.
VI
Quase esquecera os homens: e no seu esprito simples apenas muito confusamente
restava a memria dos casais, dos lugares, e das crianas rindo por trs das sebes. Os
seus dias passava-os imvel, olhando: por vezes movia um brao com a lentido de um
ramo sacudido da aragem: e quando os troves estalavam, erguia um instante a face
para o cu; depois, recaa na sua imobilidade.
Um dia, porm, sentiu tilintar guizos, e vozes que falavam. E por trs de umas
rochas surgiu uma fileira de mulas carregadas, que homens armados conduziam. Como
a noite descia, os homens pararam numa clareira: da a pouco ardia um fogo claro,
tapetes juncavam o cho, e os homens, sentados em roda, passavam de mo em mo um
pichel de vinho. Cristvo toda a noite, de entre a floresta, os espreitou: - e uma
curiosidade infinita tomava-o de ouvir de perto as suas falas, beber do pichel, aquecer-se
ao fogo claro. Se eles quisessem, ele conduziria algum dos fardos.
Um estranho, singular impulso o levava a querer bem queles homens - e toda a
Durante um ano viveu na serra. E pouco a pouco, naquela solido, longe de toda a
vida humana, ele quase perdeu a sua humanidade, e foi como um pedao da montanha
que o cercava. Sentado durante dias, imvel, os seus grossos membros broncos no se
distinguiam das rochas: o mesmo vendaval esguedelhava-lhe os cabelos e as ramarias
das rvores: e a sua voz, quando se erguia, confundia-se com o rugir das torrentes. As
feras no tinham medo dele; as aves pousavam sobre os seus braos como sobre troncos
dobrados. A serra era solitria. Outrora vivera l um ermita, mas as penitncias tinham-no
extenuado. Um anjo descera a busc-lo, e a cabana que ele habitava desfizera-se,
prancha a prancha, sob os chuveiros do Inverno. Durante um ano Cristvo no vira um
olhar humano pousar-se nele, nem uma voz humana tinha alegrado o seu corao..19
noite rondou para que as feras no atacassem o rancho.
De manh, eles enrolaram os tapetes; a longa fila de machos desceu a encosta, e
os guizos que tilintavam perderam-se pelas quebradas.
Ento, um frio estranho, um frio que ele no compreendia, que no vinha do
vento, nem da neve, arrefeceu Cristvo at ao corao. E, atravs da sua simplicidade,
sentia que no teria tanto frio, se ouvisse outras vezes vozes humanas, e os passos de
animais conduzindo fardos, e uma fogueira acesa por mos de homens.
Comeou ento a percorrer a serra, os desfiladeiros, os barrancos, os vales, os
bosques, as rochas que conhecia. E de cada vez aquela sensao de frio o mordia tanto,
e tanto, que subitamente se sentiu como exausto: a cabea pendeu-lhe entre as mos, e
grandes lgrimas rolaram-lhe pela face. A tarde caa; a noite veio, cheia de estrelas. E
Cristvo, imvel, sentia, atravs das lgrimas, surgirem-lhe como vises de coisas des-vanecidas,
uma velha carregada de lenha, e arquejando sob o fardo; crianas que no
podiam passar um rio; uma junta de bois que no podia puxar um carro carregado de
pedras. E um desejo imenso vinha-lhe de sacudir aquele frio, trabalhando, carregando o
fardo da velha, ajudando a junta de bois. Tomou o seu cajado, e comeou a descer a
serra.
VII
Uma tarde, na fonte, as mulheres viram como uma torre que avanava: as mais
novas fugiram de medo, mas outras mais velhas erguiam as mos e diziam: "
Cristvo!  Cristvo!"
O seu vasto corpo crescera ainda, e a sua grenha ruiva ia mais alta que as mais
altas rvores; lento nos movimentos, cada um dos seus passos parecia despregar-se do
cho, com dificuldade; todo ele cheirava a torro e a arvoredo; uma barba ruiva, como
um capim queimado, cobria-lhe a face: - e os seus olhos azuis conservavam, como os
de uma criana, um espanto perptuo.
Ao chegar junto da fonte baixou a cabea, bebeu com lentido; depois, limpando
os beios, olhava, com um bom sorriso, as mulheres, que j sem medo, reconhecendo o
filho do lenhador, se juntavam em torno dele, tocando-lhe com as toucas altas pelo
joelho, e erguendo os olhos pasmados para as alturas da sua face.
Obtuso de esprito, ele no reconhecia ningum - mas sorria sempre. Pouco a
pouco, porm, na grande penumbra do seu esprito, decerto surgiram certas memrias
dos tempos, que, ainda pequeno, era o servo da aldeia, e os seus enormes braos
moveram-se com lentido como procurando de novo fardos a levantar, fraquezas a
socorrer. E quase imediatamente, vendo uma velha que passava, vergada sob um molho
de lenha, tirou-lho e meteu-o, como uma simples acha, sob o brao; depois como um
carro com pedra passava, to pesado que os bois o no podiam puxar, desatrelou o gado,
tomou o timo. Mas avistando ainda o moleiro, que picava o seu velho burro carregado
de sacos de farinha, com os seus cinco enormes dedos ergueu os fardos do jumento:
atirou ainda para os ombros um pobre velho, manco, que mal se arrastava - e assim,
com o molho de lenha debaixo do brao, o velho pendurado do pescoo, os sacos
pendentes da mo, o pesado carro de pedra preso pelo outro brao, comeou a caminhar
para a aldeia, seguido das mulheres, que acenavam para o lado, para as portas dos
casais, e gritavam: " Cristvo!  Cristvo!"
Despojado dos fardos, foi-se sentar no cruzeiro - e a sua cabea chegava ao seio
de Jesus crucificado, e parecia repousar sobre ele. No entanto, de toda a aldeia, gente
corria a ver Cristvo. Os homens vinham da taberna, limpando  pressa os beios: as
mulheres vinham fiando, outras trazendo ainda na mo as hortalias dos caldos. As.20
crianas, ao princpio assustadas, vendo que ele lhes estendia a mo com um bom riso,
saltavam-lhe para cima da palma, e ficavam de l rindo e acenando com os barretes,
como do alto de um eirado. O regedor das terras veio por fim diante de Cristvo
rolando os olhos redondos, coando o queixo, e falando baixo ao archeiro que o seguia,
desconfiado decerto daqueles fortes msculos, que podiam arrasar a aldeia, tudo roubar,
e vencer os archeiros; mas decerto todas as suas algemas no eram bastante fortes para
algemar aqueles enormes pulsos, por onde as crianas trepavam, como por troncos de
cimeiros: e afastou-se com dignidade, coando sempre o queixo agudo. Mas duas mulas
zurravam, por trs do caminho - e apareceram dois guardies do convento, que, decerto
avisados, desviavam-se do caminho para ver o enorme gigante. Todas as mulheres
dobraram o joelho, e os homens, com os barretes na mo, baixavam os olhos: - e ento
o mais velho espicaou a mula com os calcanhares at a fazer chegar junto de Cristvo.
Para experimentar, com receio que em to grande corpo habitasse Satans, fez o sinal-da-
cruz, murmurou trs vezes o nome de Jesus. Cristvo fez tambm uma cruz sobre a
testa. Ento, tranquilo, o guardio comeou a andar em volta dele, batendo os
calcanhares nos ilhais da mula, para o examinar, como um monumento. E a cada grosso
msculo, a cada detalhe de fora, uma ideia surgia nele: e falava baixo ao outro, que
aprovava, com um sorriso reverente. Por fim o guardio gritou: "Cristvo, se queres
ganhar o teu po, vai amanh, a matinas,  portaria do convento".
Os dois frades picaram as mulas. Pouco a pouco a gente recolhera aos casais, de
onde saa o fumo das lareiras acesas. Uma a uma, as estrelas brilhavam. E Cristvo s,
cansado, estirou-se junto ao cruzeiro, onde o sacristo veio acender uma lmpada.
Estirado de costas, Cristvo olhava as estrelas. Eram as mesmas que ele tantas
vezes contemplava na serra: - mas pareciam-lhe mais brilhantes, mais prximas, e
derramando um calor como lmpadas que alumiam uma morada humana. E ele mesmo,
enfim, sentia vir daqueles casebres, que em volta se acendiam e mandavam o seu fumo
para o cu, um calor que o penetrava at ao corao. Adormeceu sorrindo.
De manh, chegou do outro lado do vale, em frente do mosteiro. Uma muralha
envolvia-o como a um castelo: - e por trs da porta, de grossa pregaria, os ces
inquietos agitavam as cadeias de ferro. No ptio enorme uma faia abrigava a roldana de
um poo. Altas fachadas, com reixas nas janelas, erguiam-se em redor: - e ao fundo,
junto  entrada da capela, havia um banco de pedra onde um guardio lia o brevirio.
Ao ver Cristvo, fechou o brevirio - e examinou-lhe outra vez, com satisfao,
os grandes membros serviais. Depois, por um corredor, alto e fresco, levou-o a um
claustro que cercava um jardim: ruas areadas contornavam os canteiros de flores; ao
meio cantava um repuxo; e um espao, entre paredes que a hera revestia, estava lajeado,
como cho de igreja. A quatro frades, de hbitos arregaados, jogavam a bola; outros,
mais longe, conversavam ao sol; e sob um caramancho o abade dormitava, com as
mos cruzadas no ventre.
Mas quando Cristvo apareceu, tudo se interrompeu, todos ergueram as faces,
um rumor correu de espanto: - e o guardio diante de Cristvo, que hesitava, com o
seu barrete na mo, fazia-lhe sinais para o levar at ao abade.
Sua Senhoria deu um salto na cadeira ao encarar com o monstro. Depois ergueu as
mos ao Cu, com olhos de piedade. Para mostrar a fora de Cristvo, o guardio
mandou-lhe erguer uma pilastra partida que jazia no cho. Cristvo brandiu a pilastra,
como um simples cajado: e todos os frades recuaram com grandes ahs maravilhados.
Cristvo fora trazido para servir no convento, fazendo o trabalho de muitos
serventes. O rancheiro, porm, perguntava se era na realidade uma economia - porque
ele igualmente comeria a rao de muitos homens. Os frades argumentavam com.21
gravidade. O abade, porm, decidiu. Alm da economia, o convento ganhava a glria de
possuir o mais forte de todos os homens. E imediatamente Cristvo foi levado s
cavalarias, para as limpar.
Foi o servo da comunidade - e sobre ele recaiu todo o servio do convento, onde
havia oitenta frades, trinta novios, e dependncias inumerveis. Varria os ptios,
limpava as mulas, cavava as hortas, caiava os muros, carregava os sacos de farinha,
acarretava os feixes de lenha - e era ele que trazia das pedreiras as grandes pedras para
as obras da lavandaria. Durante longos meses os seus fortes ossos rangeram sob o
trabalho violento. Substitua as cavalgaduras, puxando os carros pesados, com eixos de
ferro. Todo o dia, dentro do convento, na cerca, sob o sol ou sob a chuva, a sua forte
figura se movia no trabalho contnuo: s por vezes descansava, para tirar do poo um
balde de gua, que punha  boca, e secava de um trago.  noite, estendido sobre as lajes
do ptio, dormia de um sono de animal, entre os ces soltos, que lhe punham as patas
sobre o peito, como sobre um rebordo de muralhas, para ladrar contra os rudos da
noite.
Todos os anos, na vspera da Candelria, o padre-mestre reunia os serventes, e
interrogava-os sobre a doutrina. Cristvo no pde responder, nem sequer enfiar o
padre-nosso. No sabia quem criara o Mundo - e eram-lhe desconhecidos os casos do
Paraso. Aterrado com to negra ignorncia, o abade ordenou que Cristvo assistisse 
aula de Histria Sagrada. O seu imenso corpo no cabia nos bancos da escola: e o
padre-mestre disps que Cristvo, encostando-se ao muro do ptio, aplicasse a cabea
 janela aberta da aula.
Quando a sineta do estudo tocava, Cristvo chegava ao muro: - e a sua imensa
grenha surgia no parapeito da janela. Todos os discpulos riam -e os mais inquietos
atiravam-lhe aos olhos caroos de frutos ou vibravam-lhe, como pequenas lanas, penas
de pato que se lhe enterravam na grenha. Ele sorria, com paciente respeito.
Sentado no estrado o mestre ensinava - e Cristvo, como atravs de uma nvoa,
entrevia as coisas maravilhosas do comeo do Mundo. Um Deus enorme, grande como
ele, alargando os seus braos potentes, separava o Sol e a Lua; a sua voz era o trovo
que rolava; e o seu sopro ora fazia curvar as florestas, ora encapelava as vagas. Mas os
homens comeavam a povoar a terra, e Deus entrava logo em grandes cleras. Ao seu
capricho as cidades tombavam, sepultando sob as runas as criancinhas que sorriam nos
beros; vastos prados secavam, e os gados balavam lamentavelmente de fome; um
grande terror tomava a terra: - e os homens viviam no terror daquela mo imensa, que
s saa das nuvens para os devastar.
De noite, o doce sono fugia de Cristvo. E, encolhido, voltava para o cu os
olhos desconfiados. Se Deus reparando nele, de repente, fizesse sobre ele cair o fogo
que queimara Gomorra? Todo o barulho o inquietava: e numa noite de trovoada os seus
gritos acordaram todo o convento.
Mas o padre-mestre bem depressa comeou a explicar os dogmas. E foi como se
toda a Terra e Cu perdessem a sua realidade, ficando apenas deles baixas nvoas que
flutuavam. Nas alturas j no governava um homem forte e velho, de longas barbas: -
mas uma trindade, que era de trs, mas que formava um s, e era um Pai, um Filho, e
um Esprito que tinha asas. O pecado no era fazer mal, mas nascer, e a gua, escor-rendo
de uma concha, lavava-o como um linho sujo. Cristvo arregalava os olhos
desmedidamente - e as prdicas do padre-mestre eram como nvoas que flutuavam
intangveis, Logo esvadas apenas formadas. Sentia como uma tristeza diante daquelas
coisas inacessveis: - e o suspiro que lhe fugia do peito fazia voltar os novios, que, s
escondidas do padre, lhe faziam visagens como de demnios.
Um s parecia simpatizar com Cristvo. Era um moo franzino, que tinha a sua.22
banca junto da janela, sobre a qual caam os caracis dos seus cabelos louros. As suas
mos plidas folheavam de leve um in-flio: - e havia em todo ele como a gravidade de
um letrado e a doura de uma virgem.
Todos os dias Cristvo o via chegar da aldeia com o seu tinteiro metido no cinto,
o rolo de papel sob o brao: e todas as tardes o seguia com os olhos quando ele, finda a
aula, regressava  aldeia, folheando ainda pelo caminho algum livro onde havia cores
brilhantes. Por vezes via-o parar, colher as flores silvestres do caminho. Ou
alegremente, deitando os seus longos cabelos para trs, cantava sob a doura da tarde.
Sempre que passava junto de Cristvo, dizia-lhe: "Deus te salve!" E Cristvo
sentia como uma carcia na alma. Muitas vezes pensava nele - e voltava-lhe 
lembrana o que ouvira ao padre-mestre, dos anjos que desciam  Terra, se misturavam
s ocupaes humanas. Ia ento colocar-se no caminho em que ele passava. E um dia
que os caminhos estavam alagados pela chuva, Cristvo ofereceu-se para o passar ao
colo. Desde ento procurava maneiras de o servir. Nos dias de calor, tinha para ele a
bilha de gua mais fresca: e nos dias de frio, fazia depressa no ptio um fogo de rama,
para ele aquecer os ps hmidos antes de subir aos claustros. Por fim, como o Inverno
se avizinhasse, com os crepsculos mais escuros, Cristvo seguia-o na sua volta 
aldeia, para o proteger dos lobisomens, ou dos maus encontros: e quando vieram as
chuvas, ofereceu-se para o levar s costas como um macho, at  porta da sua morada.
Ento pelo caminho conversavam baixo: Cristvo contava os seus trabalhos no
convento, o moo dizia os seus desejos de ser militar, conhecer o mundo, percorrer as
cidades. Seu pai era o regedor das terras e destinava-o para padre; mas ele queria casar
com uma prima, chamada Etelvina, que morava ao p do castelo, para alm do Pego das
Donas. E um dia que assim conversava, o moo contou a Cristvo que s vezes ia
encontrar essa rapariga, longe,  orla de um bosque; mas temia que a surpreendessem os
archeiros do pai, que rondavam os campos, ou os servos do castelo mandados pelo pai
de Etelvina. Se Cristvo quisesse, podia ficar  orla, vigiando os caminhos, como uma
torre, e se viesse algum chegando, avis-los com um grito. Cristvo disse: "Irei para
onde me mandares".
VIII
O stio onde se encontravam era num claro de arvores derrubadas,  orla do
bosque. Havia ali uma torre outrora erguida pelo conde da Ocitnia. O Diabo um dia
derrubara-a; e ainda se distinguiam nas pedras tisnadas os vestgios das garras do
Tentador. Um terror afastava dali os passos humanos: mas a abundncia das flores
silvestres, a doura dos musgos, oferecia, aos audazes que l chegavam, um asilo fresco
de paz silvana. Era ali que se encontravam Alfredo e Etelvina. Para chegarem mais
depressa, Cristvo tomava Alfredo aos ombros, e com passadas de cvados, saltando
as ribanceiras, transpondo os lameiros, chegava l primeiro, ao cair fresco da tarde. Por
um caminho que contornava a colina, viam descer Etelvina, que levantava o seu vestido
cinzento, por causa dos espinhos das sebes. Como voltava da igreja, trazia um livro na
mo. As suas duas tranas louras caam-lhe pelos ombros. As longas pestanas, dos seus
olhos baixos, faziam-lhe uma sombra na face da cor e doura de uma rosa branca. E
junto da sua escarcela soavam as tesouras, as chaves, o dedal, pendentes da cinta por
correntes de prata. O bom estudante dobrava diante dela o joelho: e tomando-a pela mo
delicada, caminhava com ela pelo bosque, parando para lhe tirar, da orla do vestido, as
silvas que se lhe prendiam. Ela tinha sempre para Cristvo um sorriso, a que se mistu-rava
o brilho dos seus olhos: e ele de p, vigiando o caminho, ficava pensando naqueles
olhos, que lhe pareciam estrelas. No arvoredo em torno cantavam as aves: um aroma de.23
verduras, de pinheiros, de madressilvas, flutuava no ar: e por vezes os passos de uma
cora roavam por entre a espessura das faias tenras. E Cristvo, apoiado a um forte
cajado, lanava os olhos em redor, pelo vale. Mas ningum se aproximava da torre
derrocada. E ele, pouco a pouco invadido pela doura da tarde, pensava em douras que
recebera - na carcia das mos de sua me sobre a grenha crespa, nas festas das crianas
que por vezes sem medo lhe trepavam aos joelhos. Uma melancolia tomava-lhe o peito.
E, na sua vaga ternura, desejava apertar contra si todo aquele vale, e as nuvens dos cus,
e a gua que fugia cantando.
No entanto Alfredo e a sua bem-amada vinham repousar, sentados numa pedra.
Ele olhava a fmbria do seu vestido, ou segurava os seus dedos delicados, que
arrancavam uma a uma as flores dos malmequeres. Por vezes ele colhia um ramo; ou
apanhando o livro dela, que cara a seus ps, voltava as folhas; ela debruavas-se, e os
fios soltos dos seus cabelos roavam os ombros de Alfredo; e muitas vezes assim se
esqueciam, com os olhos postos na mesma pgina que no voltavam, corados, com o
peito a arfar.
Mas um dia que ambos passeavam longe, ao fundo dos pinheirais, com os ombros
juntos, Cristvo Ousou tocar o livro, esquecido sobre uma pedra, e com os seus
grossos dedos voltar as folhas. Eram linhas negras que no compreendia; mas uma
emoo tomou-o diante das imagens cheias de cor. Parecia ser uma histria - e
comeava por uma criancinha, que num curral, entre uma vaca e uma jumenta, sorria,
toucada de estrelas, nos joelhos de uma mulher plida. Depois a mesma criana, j
major, e sempre coroada de estrelas, falava diante de um grupo de velhos barbudos, que
espalmavam as mos com espanto. Quem era esse, pois, que, to novo, assombrava a
velhice sapiente? Mais longe os dedos de Cristvo, virando as folhas duras,
encontravam o mesmo ser, que ele reconhecia pelo seu aro de estrelas, j homem,
envolto numa tnica, passeando  beira de um lago: e no cessava mais de aparecer,
pondo as suas mos sobre os entrevados, estendendo os braos para as crianas,
desatando as ligaduras dos mortos, consolando as multides. Montado num burro, pene-trava
as portas de uma cidade, entre um povo que o aclamava movendo folhas de palma;
sentado sob um sicmoro, ouvia duas mulheres, que fiavam a seus ps; de joelhos, entre
oliveiras, orava sobre um monte; preso em meio de soldados, com tochas, comparecia
ante um juiz que erguia o dedo, pensando.
E Cristvo sentia uma ansiedade de compreender, quando viu diante de si os dois
noivos com os braos enlaados, que sorriam. Surpreendido, Cristvo fechou o livro. E
como Etelvina, vendo a sua larga face perturbada e cheia de piedade, lhe perguntava se
ele amava o Senhor, Cristvo moveu a cabea, sem compreender. Pois qu? ele no
conhecia o Senhor e no amava a sua doura? To grande escurido naquela alma
encheu-a de piedade: e um escrpulo rosou-lhe as faces, pensando que, enquanto ela se
ocupava de amar, algum, ao p dela, vivia sem conhecer o Senhor. E ento, para que
bem merecessem de Jesus, e para recompensar a proteco de Cristvo, ela pediu a
Alfredo que lessem o santo livro quele homem simples, que o ignorava.
Foi ao outro dia, por uma tarde de Outono. J as rvores se desfolhavam; mais
tristemente cantava o regato; e uma palidez banhava o cu. Para ouvir melhor, Cristvo
sentara-se sobre um alto monte de pedras derrocadas. Alfredo, rindo, trepara ao seu
vasto joelho - e Etelvina sentou-se no outro joelho, to simplesmente como se fora uma
rocha ou um cmoro de relva. Os seus pezinhos cruzaram-se como os de um anjo: as
suas mos pousavam castamente no regao. Defronte, Alfredo abrira o livro: - e com a
vasta face de Cristvo entre eles, era como se estivessem sentados nos membros frios e
duros de uma enorme esttua de pedra.
E toda a tarde, no silncio do arvoredo, Alfredo leu a vida do Senhor. Disse a.24
estrela brilhando sobre o seu bero, e os pastores de longe vindo para ele, misturados
aos Reis que traziam tesouros. Depois homens duros chegavam com alfanges: e o
Menino sorria adormecido no colo da me, enquanto a burrinha, toque, toque, os levava
para o Egipto. L repousavam sob uma palmeira: o sol vermelho descia nas areias do
deserto: e o Menino, rindo, puxava as barbas de seu pai, cujo cajado floria como um
ramo de aucena. Mas era tempo que, o longo rolo sobre o joelho, Santa Ana ensinasse
a ler o Menino: seu pai sorria por trs na sua grande barba: S. Joozinho, ao lado,
escutava com a mozinha apoiada  face; e dois anjos no alto erguem a mo, param os
ventos, para que nenhum rudo perturbe o Menino que aprende. Depressa o Menino
aprendeu, porque eis que velhos barbudos, de mitra, arregalam os olhos espantados do
seu saber
Cansado de ler, Alfredo parava, com o dedo entre as folhas do livro. E na face
simples de Cristvo havia tanto espanto, como na dos doutores: o seu grosso lbio
tremia. E murmurou humildemente, e j cheio de amor:
- Mas que fez o Menino?
Quem sabe? Um doce silncio caia sobre a terra. Em Nazar, o carpinteiro aplaina
a sua tbua, e S. Joo com os cabelos ao vento partia para o deserto. Mas j ao longe
brilham as claras guas de um lago, com barcos amarrados na areia: Jesus fala devagar,
erguendo o brao; e os pescadores deixam as suas redes, os semeadores esquecem a
sementeira, os publicanos deixam os seus postos, os pobres saem dos cotovelos das
estradas, e Jesus, seguido de todos, comea a caminhar pela Judeia. Uma incomparvel
doura enche a vida dos homens. Jesus est entre eles. Os que no podiam ver, aclamam
o esplendor da luz; os que no andavam, galgam, cantando, as colinas; todos os
demnios se somem; os mortos desatam as suas ligaduras; no h dor que no espere
consolao; as crianas tm um amigo, e as multides, nas aldeias, vem o po nascer
do po.
Porque vai ele a Jerusalm, terra dura, onde os homens, com as barbas agudas,
gritam uns contra os outros, brandindo rolos da Lei? Mas, que importa! Ele vai para
tornar os homens melhores, e o povo vai com ele, cantando.  ento que o cu se
comea a tornar escuro. Os fariseus tramam baixo sob as arcarias do templo. E uma
ansiedade pesa na terra...
E uma ansiedade enche tambm a face de Cristvo. Porque no permanecera ele
sempre Menino, sobre os joelhos da me, quando a Estrela luzia, e ele estendia a
mozinha para o focinho da vaca? Ou, se devia ser homem, porque deixou ele a beira do
lago, e os caminhos verdes, onde a cada um dos seus passos a terra se tornava melhor, e
melhor a alma dos homens?
- Tens pena, Cristvo?
Era Etelvina que assim murmurava com os olhos apiedados.
Ele moveu a cabea, em silncio. O seu vasto peito arfava, e um terror invadia-o
de o ver a ele, to bom, naquela cidade onde os homens eram to duros.
- E depois?
Alfredo disse ento os dias derradeiros. Tristemente, Jesus, sozinho, sobe, ao cair
da tarde, para o vergel de Betnia. A so as melancolias de uma felicidade que finda.
Madalena, desgrenhada, lava os seus ps cansados. Marta fia, com um fiar to lento
como se fiasse um sudrio. Mas j Jesus se senta para a ltima ceia. S. Joo inclina a
cabea sobre o seio do Mestre. Judas aperta, sob a tnica, a sua negra bolsa. Jesus diz:
"Em breve no estarei mais entre vs". A noite  escura; Jesus sobe devagar o monte,
onde h oliveiras; e um anjo, todo coberto de negro, marcha no ar ao seu lado. Um
vento passa no ramo das oliveiras. Um rumor de armas vem com o vento 4ue passa...
Nos olhos de Cristvo borbulhavam grossas lgrimas. E Alfredo dizia as tochas.25
surgindo na escurido das ramagens, os soldados brutais, e a priso do Senhor. Porque o
prendiam assim, e levavam, a ele, mais doce que o anho? Ei-lo que passa! E os seus ps,
que encontravam o caminho do bem, sangram sobre as lajes duras, da casa de Pilatos 
casa de Caifs. Traz sangue na face, as mos arroxeadas pelas cordas, os ombros
riscados pelas vergas: - e a sua doura  to grande que diz: "Por que me bateis?" A
cruz que lhe do  to pesada, que cai uma vez, outra vez, ferindo os joelhos nas pedras,
com grandes bagas de suor na face... Mas eis que em tropel todos sobem a colina:
cravam com grandes pregos as suas mos sobre o madeiro; cravam no madeiro os seus
ps, com grandes pregos... E da gua com que ele secava a sede das multides pede,
sem que ningum o escute, um trago que mate a sua sede. Os homens maus atiravam
pedras  sua cruz. E todo o mal era feito quele que no fizera seno bem!
E ento um grande suspiro abalou o vasto peito de Cristvo, e, na solido do
bosque, gritou:
- Oh! porque no estava eu l com os meus braos!
Os dois bem-amados estavam de p diante dele, e o homem enorme chorava.
Chorava pela morte d'Aquele que conhecera to tarde. Chorava por todos os que, morto
ele, perdiam o amigo melhor dos homens. -- Mas por que o mataram? por que o
mataram? E Cristvo, deixando os dois, desceu a colina, chorando.
A noite caa no vale. Um vento triste vergava os canaviais. Cristvo seguia e
chorava. Os seus vastos ps empurravam as rochas como seixos. O seu ombro, ao
passar, quebrava os ramos tenros. Oh! se ele estivesse ento no monte escuro onde o
prenderam! O seu brao sacudiria, como ervas secas, as espadas reluzentes. Tomaria
sobre o seu ombro o Mestre adorvel. Fugiria com ele para a paz dos campos; e como
um co fiel, junto aos seus passos, defenderia dos soldados, dos padres, aquele corpo
que era de Deus, e espalhava Deus entre os homens.
A noite cara, Cristvo parou. E sentado sobre uma rocha, com grandes lgrimas
sobre a face, olhava as estrelas que, uma a uma, marcavam os pontos do cu. Era ali,
naquela altura, que ele habitava. Oh! se ele pudesse subir l, e ver como era a sua face, e
sentir a doura das suas mos! Porque no voltaria ele mais para consolar os pobres,
secar as lgrimas, agasalhar as criancinhas, e nutrir as multides? Agora, que todos o
amavam, ningum o prenderia: o caminho que ele seguisse seria juncado de rosas; os
bispos, nas suas capas de ouro, cantando e balanando os incensadores, viriam ao seu
encontro. E para o defender, os bares correriam, cobertos de ferro e com lanas, nos
seus grandes corcis! Por que no voltava? Ele seguiria pelo mundo os seus passos
ligeiros: a cada instante afastaria as silvas, que o no magoassem; com grandes brados
espantaria os ces que ladram s portas dos castelos; fardos que houvesse, com alegria
ele os levaria; s ele, e mais ningum, colheria os frutos para o Senhor, ou iria buscar a
gua s nascentes melhores. De noite, faria com rama uma cabana para o abrigar do
vento mau: - e estenderia o seu brao, para que nele repousasse a sua cabea cansada. E
assim pensando, um imenso amor erguia-lhe o peito: - e, de p numa rocha, os seus
braos estendiam-se para o cu, para neles estreitar Aquele que, para o salvar, fora
pregado na cruz. E trs vezes chamou: "Jesus, Jesus, Jesus!
Ento, perto dele, ouviu como um pranto que cortava o silncio da noite. Vinha de
longe, de onde brilhava uma luz de cabana. Os seus passos foram para l, esmagando a
terra fresca. E mais perto reconheceu o soluar de uma mulher que chorava. Decerto
algum sofria muito. Havia ali orfandade ou viuvez, uma misria que erguia os braos
para o cu. Por que no vinha o Senhor? Se ele habitasse a Terra, para aquele casebre
iriam os seus passos. Ele iria atrs humildemente, seguindo-o. Mas Jesus estava alm,
por trs daquelas estrelas. Por que no iria ele, como se seguisse o Senhor? Mais vivo e
triste, o pranto cortou a noite. E Cristvo devagar, e com medo, bateu  porta do.26
casebre.
IX
Longos dias so passados, e Cristvo, na aldeia, servo de todos. As portas do
convento nunca mais as transps: porque l habitam a paz e a abundncia, o celeiro est
cheio de trigo, a adega cheia de vinho, uma grande alegria e orgulho reinam nos
coraes - e para l no iriam decerto os passos de Jesus, nem os seus a seguir o seu
Senhor. Mas na aldeia h os velhos, os mendigos, os tristes, os rfos, as vivas; e a
fora dos seus braos pertence a esses, como o amor do seu corao, porque assim
mandaria o seu Senhor.
Simples e tmido, Cristvo impe os seus servios: mas toda a fraqueza, que
recorre  sua fora, ganha a gratido da sua alma. E pouco a pouco, sentindo nele um
amparo, todos os fracos vieram a ele - de sorte que, desde que nasce a estrela de alva
at que a noite cobre o vale, Cristvo trabalha com tanta alegria, que o pesar dos
maiores fardos lhe parece uma carcia, e nas feridas piores de curar sente um perfume
inefvel. Ele lavra a terra dos velhos; desbasta as florestas a grandes golpes de
machado; seca os pntanos, com grossas pipas que carrega s costas; puxa os carros
para que os bois no se esfalfem; transporta aos ombros os coxos; guia os passos dos
que no vem; vai ao longe mendigar o po e a lenha dos pobres; embala os beros;
cava as sepulturas dos mortos: - e quando no h vento, ele, retesando os braos, faz
girar a m dos moinhos. Constantemente o seu nome  gritado por cima das sebes dos
casais. Este tem o burro doente, e  Cristvo quem transporta os fardos; aquele precisa
um ceifeiro, e Cristvo parte com a foice; aquele tecto precisa colmo, e Cristvo tr-lo
s braadas; para fazer o casebre da viva no h pedra, e Cristvo chega da remota
pedreira, gemendo sob os blocos da rocha. E Cristvo quem sopra o fogo do ferreiro; 
Cristvo quem sacode, a matinas, a corda do sino;  ele que, sozinho, abre nos
lameiros a calada nova;  ele quem escava os poos nos ptios dos casais.  noite
estava prostrado. Quando os grandes invernos alagavam a aldeia, abrigava-se num vasto
alpendre que mal o cobria todo: de Vero estendia-se junto ao cruzeiro, e os primeiros
pssaros, chalrando de madrugada, pousavam sobre os seus ombros, como sobre colinas
escuras.
Aos domingos repousava, e esse era o seu dia melhor, porque as crianas
brincavam com ele. Sentindo-o doce e paciente, todas corriam para ele como para um
grande bicho que as divertia: e trepando por ele, era como o vivo prazer de trepar a
rvores e a torres. Por vezes, com as mos pousadas na terra, ele oferecia o seu vasto
dorso, em que cavalgavam, presos pelas cintas, uma longa fileira de corpinhos geis e
vivos: e dando corcovos, imitava, entre as risadas alegres, o urro do leo ou o herico
relinchar de um corcel. Alm disso sabia fazer, com as suas mos cabeludas e cheias de
terra, todas as sortes de brinquedos - flechas de caa, pequenos carros que rodavam no
p, barcos com velas para vogar no pego. Para tudo as crianas o tinham pronto - e s
se recusava quando eles tentavam estragar a fruta verde, ou fazer mal aos melros.
Mas, de todas as crianas da aldeia, uma governava superiormente o seu corao.
Era a filha de uma viva - daquela que Cristvo ouvira chorar, e  porta de quem
batera, como mandado por Jesus, seu amo. O pai morrera nessa noite - e  pobre mulher
no restava ningum no mundo para tratar as terras, cuidar das ovelhas. Mas, desde essa
noite, uma grande fora til entrara no casebre. Cristvo foi o servo fiel: - e nenhuma
horta na aldeia andou mais bem regada, nenhum gado apascentado em prados melhores,
nenhum torro mais fundamente arado. Um riso da criana (que se chamava Joana), o
seu jeito de lhe puxar as barbas, recompensava-o de todo o trabalho. Mesmo brincando.27
com as outras, era em Joana que pensava. De noite rondava a porta do casebre, a escutar
se ela chorava no seu bero. Cedo, de manh, ia postar-se na horta entre os limoeiros, 
espera que ela corresse de dentro com os seus bracinhos abertos: e todo o dia ficava
sentindo nos cabelos, nas barbas, a doura das suas mozinhas, que o arrepelavam. Ele
amava-a por toda a sua pessoa - a covinha da face quando ria, a graa da sua voz
hesitante, os seus ps mal seguros sobre a terra lavrada. Amava-a sobretudo pela sua
fraqueza -e no antevia vida melhor do que passar eternamente a servi-la, e a ser
alegremente arrepelado. O seu prazer maior era traz-la escarranchada aos ombros; ela
ria, agarrada aos seus longos cabelos; e ele caminhava grave e vaidoso, como se
conduzisse a sagrada hstia.
Por vezes comparava-a ao Menino, ao Menino divino, que ria no seu curral, e
aprendia a ler no grande livro de Santa Ana. Os seus olhos claros e largos deviam ser
como os de Joana. E o seu pesar era no saber ler, para abrir sobre os joelhos um livro,
onde o seu dedinho espetado fosse seguindo as letras grossas. Decerto, Jesus, se
conhecesse Joana, a devia amar. Ela era inocentinha como uma flor do valado: e o seu
anjo da guarda esperava quieto, quando ela parava no caminho, a remexer na terra, 
procura de bichos. Por mais longe que andasse trabalhando, sentia a voz de Joana se ela
o chamava, como se a voz viesse de cima, do Cu - e apressava ento a obra,  fora
dos braos, para correr ao seu encontro, no se esquecendo de trazer as amoras de que
ela gostava, ou medronhos, menos corados que a sua facezinha. Durante horas ento
acamaradavam - e Cristvo era to simples que, para a entreter, s sabia repetir a voz
dos bichos, danar pesadamente como um urso. A me dizia:
- Cristvo, Cristvo, muito tempo gastas com a menina... Olha a lenha... Olha o
gado
Ele baixava a cabea, abria a cancela: e ainda se voltava, j longe, para sorrir, com
a sua vasta face iluminada.
Ora no meio desta felicidade, comeou um murmurar na aldeia. O guardio do
convento no perdoara a Cristvo ter ele abandonado os seus servios  ordem; e os
frades que passavam, ou os que vinham pregar  tarde no adro, diziam depois que,
segundo os livros, todos os gigantes tinham pactos com Satans. Decerto, este era doce
e servial. Mas assim eram as artes dos servos do Demnio, que durante um tempo se
faziam doces e afveis, para melhor se apoderarem das almas. As mulheres, ouvindo
isto, ficavam pensativas. Era ento em Maio: j as macieiras tinham flor, e as primeiras
espigas dos trigos saam da terra, e os prados enverdeciam. Mas eis que, uma noite,
grandes relmpagos luzem sobre o vale, um trovo rola sobre as serras - e subitamente,
com o estalido de lanas entrechocando-se, caiu o granizo. Longo tempo caiu, arrasando
o colmo dos casebres, matando os rebentos novos, esmagando as frutas, devastando o
gado nos apriscos. De manh toda a aldeia estava pobre: - e os homens corriam pelos
campos, a olhar os destroos, enquanto as mulheres, juntas no adro, carpiam como num
funeral. Um padre veio logo do convento, e estendendo a mo, demonstrou que, por
causa dos endurecimentos das almas, viera aquela visitao. Por que persistiam eles em
acamaradar com um servo do Demnio? Cristvo, como todos os gigantes, era um
emissrio de Belzebu: - via-se-lhe o Inferno nos olhos, nas barbas que o fogo crestara, e
na sua fingida humildade. Mas eles continuavam a dar-lhe o po e o sal, e a estava que
o Senhor lhes devastara as sementeiras. Toda a tarde assim falou - enquanto Cristvo
andava no campo, atando os ramos cados, secando os charcos, compondo os tectos dos
casebres.
Os homens, no entanto, tomavam os seus cajados. O balio, chamado, tocou a
trompa para reunir os seus archeiros. As mulheres escondiam as crianas: outras
plantavam cruzes  porta da casa. O abade mandara tocar o sino. E era como quando na.28
aldeia aparecia um bando de lobos.
Cristvo devia vir por uma azinhaga, onde se postaram os homens com os
cajados, os archeiros com os seus arcos retesados, e o padre, atrs, alando a cruz com
mo trmula. E num bando as mulheres da aldeia, at as velhas trpegas, esperavam
para ver o feiticeiro espancado e expulso. Todos eles tinham recebido os servios de
Cristvo; a todos ele cavara a terra, transportara os carretos, rachara a lenha, tosquiara
o gado. Mas, em cada um desses servios, cada um via agora como um ardil de Satans.
Mil coisas lembravam, que o condenavam. Uma noite aparecera um velho desenterrado.
Quem o desenterrara seno Cristvo? s vezes, de noite, luziam na treva da aldeia dois
grandes olhos vermelhos. De quem seriam seno de Satans, que vinha alta noite
conversar com Cristvo? Por que no rezava ele nunca no adro? Outros acudiam,
afirmando que ele tinha, nas costas, pintada uma caveira. Era decerto o sinete da Morte.
E alguns que duvidavam, lembrando-se da sua doura, da sua bondade, receavam
defend-lo, para que no parecessem, diante do frade, ter inclinao pelo Inimigo.
Assim o esperavam, quando, pelo caminho que descia da serra, ele apareceu,
vergado sob um imenso molho de troncos. O padre imediatamente ergueu alto o
crucifixo, e os archeiros retesaram o arco - e do bando um clamor subiu, enquanto se
abaixavam a apanhar grossas pedras.
Cristvo parara espantado: - e to certo estava do amor de todos, que se virou
para trs, para ver que inimigo ruim ou homem de temer subia o caminho, e despertava
assim a clera da aldeia. Mas o caminho estava vazio, j escuro. E era contra ele que o
frade erguia a cruz, os besteiros apontavam os dardos, e os punhos tremiam de clera no
ar!
- Vade retro! Vade retro! - gritava o frade.
- Aos corvos! Aos corvos, o malfazejo! - clamava a multido.
Deixando escorregar dos ombros o molho de troncos, que tombou esmigalhando a
sebe, Cristvo ergueu a face, alargou os braos: - e durante um momento o espanto fez
to feia a sua face, que o bando recuou, as mulheres fugiram alando os braos. Mas o
frade, com o crucifixo trmulo no ar, acumulava os exorcismos; o balio, com a vara,
acirrava a multido - e as pedras partiram, arremessadas com tanto medo, que todas se
perderam no mato , em redor. Ento, sem temor, Cristvo deu um passo lento. Os seus
olhos esbugalhados sondavam a turba ruidosa: via ali, gritando contra ele, todos os que
auxiliara: o moleiro, a quem servira de alimria, e carregara os fardos, brandia contra
ele um cajado; a viva do ferreiro, a quem soprara a forja, tinha duas pedras nas mos; e
as crianas, que ele acariciava no adro, gritavam: "Aos corvos! aos corvos!" Ento uma
grande dor varou o seu corao simples. A aldeia no o queria mais. Como um bicho
malfazejo, como um lobo, ele era escorraado. Duas lgrimas enevoavam as suas vastas
pupilas, que reluziam: e baixando a cabea, com humildade, Cristvo desceu o
caminho. Ento a multido ganhou nimo. As pedras, voando, bateram nas suas
espduas, cansadas de todos os fardos; uma seta emaranhou-se na sua guedelha hirsuta.
Cristvo desapareceu.
Diante dele estava a serra: para a serra subiu lentamente. E uma s dvida
tumultuava no seu corao: - por que o tinham perseguido? que fizera ele? Amava a
todos, servia a todos. Era que o seu trabalho no parecia bastante til? Ele no podia
tirar mais fora dos seus msculos, nem fazer que, para a labutao, os dias fossem
maiores. Por que o apedrejavam ento? E uma recordao entrou na sua alma, a
memria de Jesus, que s fizera o bem, e que os homens tinham flagelado contra uma
coluna de pedra. Ele era, pois, como o Senhor, um perseguido. E um amor maior crescia
na sua alma por Jesus, sentindo confusamente que houvera entre os seus destinos uma
igualdade de sofrimento... Os seus braos erguiam-se para a Lua que subia. Ali, nas.29
alturas, estava o Senhor. E mesmo vendo a Lua to brilhante e triste, ele pensava se no
seria essa a face do Senhor!
Assim pensava, sentado numa rocha. Os olhos de um lobo luziram entre o mato.
Ele pensou que talvez, esfomeado, o lobo descesse  aldeia. E erguido, deu um brado,
espantou a fera para os altos, para longe dos caminhos que desciam  aldeia. Ele via-os,
esses caminhos, por entre os pinheiros. E, em baixo, as luzes mortias, mais longe o
Pego da Dona, brilhando como um disco de prata. A era o casebre onde, a essa hora,
Joana dormia. Nunca mais ele a veria deitada na sua canastra, coberta com o mantu
negro da me. Nunca mais as suas mozinhas lhe arrepelariam as barbas. E uma tristeza
imensa tomava-o, uma vontade de se deitar para sempre na serra, e ficar ali at que os
seus ossos brancos se no distinguissem das rochas brancas. Mas quem faria rir Joana,
como ele, quando a erguia nos braos at  rama dos mais altos pinheiros? E quem
lavraria o campo da viva? Essa, decerto, lamentava a sua sada da aldeia. Nela sempre
encontrara doura, e um rosto que sorria na sua tristeza. Se ela o visse, decerto diria:
"Cristvo, olha o gado; Cristvo, olha a lenha!..." Se os outros o perseguiam, ela ao
menos o acolheria. E agora Cristvo esperava a madrugada para descer ao casebre de
Joana.
Tnue e fresca, a madrugada nasceu por fim na serra. Rastejando entre os
arvoredos, agachado para que a sua cabea no fosse vista acima das rvores, rodeou a
serra, veio ao casebre da viva. A cancela estava fechada. O galo cacarejava, sobre o
monte de mato. J decerto o lume se acendera dentro, porque da telha v saa fumo: e as
cotovias cantavam muito alto no cu claro. Cristvo apareceu por trs, defronte da
porta do aido. Um grito assustado cortou o ar. A viva vira Cristvo, e, arrebatando
Joana, que brincava no cho, fugiu para dentro do casebre, gritando como o padre:
Abrenuntio!
Cristvo ficou imvel. Tambm ela, pois, o temia, no o queria mais! No havia
em toda a aldeia j um corao que se lembrasse. As crianas fugiam dele. Por qu?
lentamente afastou os passos, to triste que o canto das cotovias quase o fazia chorar.
Ao lado o Pego da Dona rebrilhava, como um espelho redondo. Debruado sobre ele,
olhou a sua face. Ento, pela vez primeira, sentiu a sua fealdade. Decerto o repeliam por
ser disforme. Esse era o seu pecado. E carregado com o peso da sua fealdade, Cristvo
para sempre deixou os lugares onde nascera.
X
Longos dias caminhou. O pas era deserto, com rochas, grandes despenhadeiros.
A sede levou-o a um regato, que cantava entre pedras. Bebeu, e foi seguindo aquela
gua clara que fugia. Ao fim de longas marchas encontrou um rio. Colinas suaves, onde
branquejavam casas, erguiam-se dos dois lados da corrente serena e muda, orlada de
salgueiros. Uma ponte antiga ligava as duas margens - e tendo-a passado avistou,
erguidos, recortados na manh clara, os muros de uma cidade. Quase de repente duas
portas, sob uma torre que encimava a muralha, rodaram: - e delas irrompeu uma
multido que fugia. Era gente que trazia s costas as enxergas, as bilhas de gua. As
crianas, chorando, agarravam-se s saias das mes; os velhos erguiam os braos, para
que esperassem por eles; - e por vezes todos se afastavam de algum cavaleiro, que,
embuado no manto, a pluma do chapu ao vento, se escapava ao galope de um ginete
magro. Um fumo, como de fogueiras, subia por trs das muralhas; as ameias no tinham
sentinelas; e todo o ar estava cheio do dobrar de finados, badalado nas torres.
A turba que fugia, vendo Cristvo, corria mais espantada, tropeando, caindo sob
o peso dos fardos; ele estendia os braos para amparar os velhos; o terror crescia: - e em.30
torno das suas pernas, como em volta de torres, a multido debandava, gritando.
Chegou por fim  entrada da cidade. Dois soldados, atnitos, fecharam as portas.
Cristvo galgou o fosso, transps as muralhas. Diante dele abria-se uma rua, com
trapos cados nos enxurros, e todas as portas fechadas sob as tabuletas, que rangiam na
haste de ferro ao vento agreste. Um ftido terrvel tornava o ar pesado: e dois frades,
erguendo o hbito, fugiam de um homem que se espojava no cho, com a face toda
verde, a boca escancarada, gritando por gua! Cristvo correu para ele, ergueu-o nos
braos, levou-o a um chafariz, onde a gua jorrava de carrancas. O homem bebeu a
largos tragos - as suas pernas inteiriaram-se, e ficou nos joelhos de Cristvo morto, j
quase decomposto. Mas, de uma casa prxima, gritos soavam; e, erguendo a face, viu
uma velha, esguedelhada, que da esguia janela, onde restava um p de flor seca num
vaso, chamava por socorro, torcendo os braos. Das janelas vizinhas faces plidas
espreitavam. Mais longe, prantos novos se ergueram. Cristvo, tendo posto o cadver
no cho, olhava espantado sem compreender a dor que parecia pesar na cidade. De uma
taberna, subitamente, saram soldados bbados, cambaleando, cantando, com as faces
lvidas de uma noite de vinho e de orgia. Cristvo ia interrog-los - quando um de
repente caiu, torcendo-se numa agonia. Os outros, subitamente desembriagados,
fugiram. E Cristvo acudia ao agonizante, quando ele ficou hirto, morto. Ao fundo da
rua passava uma procisso, em que um padre, de tnica branca, erguia um relicrio que
reluzia, enquanto mulheres, atrs, descalas, desgrenhadas, torciam os braos, da mando
para o Cu misericrdia. Os sinos no cessavam o seu dobre a finados: e homens tra-zendo
barricas de breu, acendiam s esquinas fogueiras que subiam ao ar, fazendo
estalar os vidros das gelosias.
Um padeiro, mais plido que uma tocha, abria a uma esquina as tbuas da sua
loja. Cristvo dirigiu-se a ele, e curvando-se, com as mos nos joelhos, perguntou-lhe
que mal corria na cidade, e porque soavam tantos prantos. O homem recuara, inquieto,
perguntando por seu turno se ele viera com saltimbancos para se mostrar. Cristvo
disse que no, e com um gesto mostrou o horizonte distante de onde vinha. Ento o
homem aconselhou-lhe que fugisse, porque a cidade toda morria da peste negra.
Quando assim falavam, um rudo de correntes arrastadas ressoou no lajedo. E dois
homens, com cadeias de ferro presas aos ps, apareceram, trazendo um morto numa
padiola. Atrs outros homens, de faces sinistras, com correntes aos ps, traziam outros
mortos... Eram os forados das gals, que iam enterrar os mortos, guardados por
soldados, que faziam estalar no ar compridos ltegos de couro. Ento Cristvo tomou
aos ombros os dois mortos que jaziam junto  fonte, e comeou a seguir os forados.
Assim saram as portas, at chegar a um olival, onde estava plantada uma cruz. Uma
vala irregular e tortuosa atravessava sob a ramaria plida.  pressa, os forados atiraram
os mortos para dentro, e com as enxadas lanaram sobre eles uma ligeira camada de
terra. Ao rudo, bandos de corvos, que pousavam nas oliveiras, bateram o voo,
grasnando furiosamente.
Cristvo sacudiu as mos da terra, e sem atender aos brados dos soldados que o
chamavam, recolheu  cidade, ao acaso, por outra porta, que estava toda tomada por
outro funeral, onde havia frades, escudeiros com crios em torno de um caixo, cujo
pano de veludo tinha um braso bordado. Ento, todo o dia percorreu as ruas,
socorrendo os que caam, desviando os mortos do meio das caladas - e ao escurecer j
se tornara to familiar, que das gelosias gritavam: "Eh homem!" Ele vinha, carregava os
mortos para a vala, limpava as imundcies dos ptios, corria a encher as bilhas de gua -
e mesmo alimentava as crianas que choravam sozinhas nos casebres.
Como em todas as casas havia um morto, e se receava o contgio, a multido
errava pelas ruas, entregue ao terror e ao delrio. As mulheres, os velhos, corriam s.31
igrejas, a implorar as relquias, saltavam por cima dos cadveres que atulhavam os
adros. Estes, julgando que o mundo ia findar, corriam s tabernas, arrombavam as pipas,
e as blasfmias dos brios juntavam-se ao pranto das mulheres. A cada esquina havia
rixas - e por vezes, numa rua deserta, onde todos os moradores tinham morrido,
Cristvo tinha de expulsar os porcos, que roam ossos humanos. De resto os animais,
abandonados, percorriam as ruas, e por vezes um cavalo espantado, um touro fugido do
matadouro, corriam, esmagavam a gente, e era Cristvo que os segurava com os seus
punhos enormes.
A cada instante os gritos dos doentes abandonados o detinham. De rastos, ele
introduzia o seu vasto corpo pelas escadas estreitas, e ia dar de beber aos doentes,
limpar-lhes as imundcies, oferecer-lhes o seu vasto peito para eles morrerem sobre o
calor de um corao humano. Por vezes um moribundo queria a extrema-uno; mas os
padres tinham fugido, os raros que ainda havia no bastavam para tantos moribundos; e
Cristvo, tomando um crucifixo, de joelhos, bradava junto do leito ftido: "Jesus, meu
Senhor, s com este infeliz
Todas as noites havia grandes penitncias. Bandos de homens, de mulheres
seminuas, corriam as ruas, rasgando as carnes, cobrindo a face de lama, cantando
cnticos ferozes em que as invocaes ao Senhor se confundiam com apelos ao
Demnio. Por vezes, de repente, uma voz gritava: "E culpa dos judeus!" E a multido,
tomando chuos, agarrando fachos, corria s casas dos judeus, que apareciam
oferecendo sacos de ouro, e caam sob os golpes, ou ficavam com as barbas queimadas.
Nas ruas ricas os palcios estavam fechados: e atravs das janelas sentiam-se
msicas e o tinir das baixelas de prata, porque alguns pensavam que se devia esperar a
morte no seio do prazer. Outros, porm, iam de casa em casa, em festas seguidas : -e
viam-se cavaleiros, sem manto, com gotas de vinho nas barbas agudas, caminharem na
rua, entre tocadores de bandolim e de flauta, tropeando com os seus imensos sapatos
bicudos nos cadveres abandonados: e, para os ver passar, surgiam aos balces
mulheres plidas, com o seio descoberto, peles de arminho na orla do vestido, e a
cabea coberta de uma mitra aguda de onde pendiam molhos de longas fitas, que o
vento fazia ondear como flmulas de mastros.
Toda a noite Cristvo trabalhara. Como os guardas no fechavam as portas, por
vezes os lobos, atrados pelo cheiro da podrido, apareciam nas ruas escuras. E
Cristvo, que juntava os cadveres, corria contra eles bradando, com uma tocha na
mo. Os mortos, que assim juntava, ia-os de manh sepultar nos campos de oliveiras.
Depois ia colher  serra ervas aromticas, que salvam da infeco, e pondo-se s
esquinas oferecia-as  gente que saa das suas moradas e que, tomando um molho, se
afastava respirando-o com confiana. Como os ladres abundavam, Cristvo vigiava as
casas dos cambiadores da moeda, dos joalheiros: e se surpreendia uns homens correndo,
com alguma coisa escondida sob o saio, tirava-lha e ia deposit-la numa igreja. Era ele
quem distribua a gua, varria as imundcies, acendia fogueiras para depurar o ar. E
pouco a pouco, era to conhecido, que as mulheres, vendo a sua sombra passar rente das
gelosias, chamavam sobre ele a bno do Senhor. Os ricos atiravam-lhe bolsas com
que ele ia comprar po s vivas. Os seus passos eram por vezes embaraados pelas
crianas, que se prendiam s suas pernas como a colunas. Os mercadores confiavam-lhe
as suas tendas. Quando ele se ajoelhava  porta de uma igreja, dentro as oraes eram
mais ardentes. E como ele acarretava as lenhas dos soldados, polia as suas armas,
rondava por eles as portas - os soldados gritavam na rua: "Viva Cristvo!"
Uma to grande popularidade inquietou o sobrinho do prncipe, que, tendo seu tio
fugido da peste, com os seus tesouros e concubinas, governava a cidade, e queria, por
ambio do poder, ganhar as simpatias do povo. Mas a sua face lvida e dura, sobre um.32
corpo enfezado e corcunda, desagradava s mulheres pela sua fealdade, aos soldados
pela sua fraqueza. Um dia em que ele seguia uma procisso, com as relquias de S.
Tedulo, o povo,  sua passagem, permaneceu com o joelho apenas dobrado. Logo
atrs, porm, entre o povo vinha Cristvo, como uma torre entre casebres. Um
mercador rico dera-lhe vinte varas de pano de Flandres, para um saio: e todo ele sorria
na sua simplicidade, agitando duas palmas verdes que as confrarias dos Irmos Hospi-taleiros
lhe tinham dado, como emblema da sua caridade. Ao v-lo, o povo, que se
apertava contra as portas fechadas, rompeu a gritar o seu nome entre bnos: "Bom
Cristvo! Cristvo grato ao Senhor!" Uma dama atirou-lhe a flor que tinha no seio.
Os velhos baixavam a cabea como na passagem de um justo.
O conde, adiante, tornara-se mais plido. E nessa noite dizia, sentado  lareira,
desapertando o gibo: "Quem me livrar daquele monstro que transvia o povo!" Os
guardas, tendo combinado baixo, a um canto, vieram, cercando a sua alta cadeira de
espaldar, animar por adulao o seu secreto pensamento. No era conveniente, na
verdade, que um ser disforme, dos que se mostram nas feiras, ganhasse assim razes no
corao do povo... De resto, a sua fora seria depressa domada com fortes correntes de
ferro. E no havia, fora da cidade, um despenhadeiro, onde se poderia lanar o corpo do
imenso bruto? E quando, na manh seguinte, Cristvo comeava o seu almoo junto da
catedral, um pajem veio, sorrindo, e convidou-o a ir  presena do prncipe, que lhe
queria dar ouro, e vestidos que conviessem a um homem to servial. Pensando que os
vestidos serviriam a cobrir os presos, que a misria trazia nus, Cristvo sacudira as
mos, onde a broa se esfarelara, e obedeceu ao pajem, que corria para lhe seguir as pas-sadas.
Apenas Cristvo entrara no palcio, as grossas portas, eriadas de ferros, foram
fechadas. O conde, que estava num balco, gritou agitando o gorro emplumado: "Eh
Cristvo!" E como ele movia um passo, sorrindo, com a face erguida para o balco, de
onde pendia um veludo franjado de ouro - dois soldados meteram-lhe bruscamente
entre as pernas uma trave, e Cristvo tombou no lajedo. Logo, de todas as portas, rom-peram
homens inumerveis, que cobriram o imenso corpo deitado, como as formigas
cobrem um tronco. Num momento foi amarrado com grossas correntes de ferro: e para
que nenhum grito dele sasse, uma mordaa tapou-lhe a boca. Depois todos, recuando
vivamente, contemplaram em silncio o gigante vencido. O prncipe desceu para o ver,
com damas, cujas caudas eram como longas tiras de tapete sobre o ptio. E os pajens
cuspiam sobre a sua face barbuda. Ele pensava no Senhor que fora flagelado - e mais
nos pobres que ele servia, e que decerto nesse dia sentiriam a sua falta. Todo o dia assim
ficou, cercado de lacaios, de cozinheiros, que deixavam o servio para o vir ver. E no
corao de alguns havia uma compaixo.
A noite desceu, escura, sem uma estrela. Ento Cristvo abriu os olhos. Os  fila,
soltos, rondavam o ptio. A sentinela dormia,  porta, encostada  lana: e das altas
ogivas do palcio vinha um claro, e um rumor de violinos. Ento Cristvo retesou os
msculos - e com grande rudo todas as correntes estalaram. Diante da grande forma
erguida, os molossos fugiram, latindo. A sentinela, largando a lana, fugiu. E Cristvo,
de um s golpe de ombros fazendo estalar a porta, saltou o fosso, entrou nas ruas
desertas. Mas de repente parou, pensando que, se revelasse a traio do conde, o povo,
os soldados, que o no amavam, lhe fariam mal, e, se a calasse, o conde, decerto, o faria
matar. Assim se ficasse, ou o seu sangue correria, ou correria o sangue dele por sua
causa. E ento Cristvo dirigiu-se  grande porta da cidade.  luz de um retbulo da
Virgem os soldados jogavam os dados. E vendo Cristvo, perguntaram-lhe se o
prncipe lhe dera uma bolsa, ou panos para um vestido. Cristvo murmurou:
- O prncipe deu mais que eu esperava..33
E passou, penetrou nos caminhos, deixando para sempre a cidade onde fora bom
aos aflitos.
XI
Longos dias Cristvo errou pelos caminhos que uma tarde chegou ao sop de
uma montanha, cujas rochas o Sol poente cobria de cor-de-rosa. Um homem, com um
hbito de frade, um longo capuz de onde saa uma barba branca, subia lentamente os
crregos alcantilados, gemendo sob um molho de lenha. Cristvo pedira ao velho para
carregar ele a lenha. O frade, receando um demnio, traou no ar uma cruz, e como
Cristvo repetisse sobre o peito as linhas santas, o frade consentiu que ele lhe tirasse o
molho dos ombros. E limpando o suor com a manga esfarrapada do hbito enquanto
caminhava ao lado de Cristvo, perguntou-lhe se ele fugira dos homens que o
mostravam numa feira: e como Cristvo dissesse que vinha da cidade, de alm, o frade
compreendeu que ele viera decerto atrado pela santidade daquela montanha povoada de
ermitas. E pensava: "Aqui est um homem, decerto simples, e de fora imensa, que
poderia aliviar dos seus trabalhos os santos vares que ali habitam, deixando-lhes mais
tempo para aperfeioar a alma, e dar batalha segura ao Tentador...
Ento foi guiando Cristvo at que chegaram a uma choupana feita de ramos,
entre pedras alcantiladas.  porta da cabana, cravada entre duas pedras, erguia-se uma
cruz tosca, e ao p, sob uma caveira, pousava, aberto, um grande in-flio. Dentro da
cabana havia s um leito de folhas secas, e uma bilha com a asa quebrada.
O ermita, tendo indicado a Cristvo o stio onde devia deixar o molho de lenha,
tomou de uma buzina pendurada  porta da cabana, e afastando os longos plos do
bigode branco, lanou trs sons roucos, que ecoaram nas quebradas. Cristvo, tmido,
considerava cada movimento do ermita como uma aco de santidade. Ento, das
sendas vrias do monte, comearam a aparecer, caminhando devagar, uns apoiados a
bordes, outros com as mos escondidas nas mangas, ermitas, a quem um longo capuz
escondia a face. O primeiro que chegou, dando com Cristvo, fez o sinal-da-cruz, e
depois, com um gesto, chamou os outros, que, assim apressados, saltaram de rocha em
rocha. Quase todos tinham longas barbas, grisalhas e incultas, as tnicas esfarrapadas, e
o lodo dos caminhos seco em crosta nas pernas. Com um gesto lento coavam pelo
corpo a vrmina que os cobria: e, se as pernas ou os braos se lhes tinham chagado,
erguiam as tnicas como tirando contentamento daquelas misrias da carne. Alguns,
porm, eram novos, ainda robustos, mas to plidos j, que as faces sob o capuz eram
como uma cera na sombra. Todos se curvavam diante do monge que guiara Cristvo; e
depois ficavam mais calados e mudos que imagens sobre um tmulo. Mas ento o
ermita, que parecia ter a autoridade de um prior, explicou que, ao sop da montanha,
voltando de recolher a lenha, encontrara aquele homem de corpo imenso e de imensa
fora, mas to simples que no sabia de onde viera, nem em que terra nascera. E logo
lhe acudira, como inspirao de cima, a ideia de o recolher, e de o ocupar no servio dos
santos irmos que habitavam a serra,  maneira do que praticara Santo Anto no Egipto,
que, para que os seus irmos do ermo, e ele prprio, se absorvessem melhor na orao, e
mais livres ficassem para dar combate ao Demnio, tomara um negro de muita fora,
que conduzia a gua, rachava a lenha, segurava nas mulas dos peregrinos, transportava
as coifas das provises. Assim, de ora em diante, tendo quem os servisse, nas suas
almas no haveria mais cuidados do que a conquista do Cu. Tendo findado, e baixando
a face sob o capuz, como recolhido em orao -os ermitas, sem quebrar a sua mudez,
retomaram os caminhos da serra, e um a um foram-se sumindo entre as rochas e os
robles..34
S com Cristvo, o ermita, voltando  cabana, trouxe um pedao grosso de broa,
de que deu uma parte a Cristvo. Ambos beberam da bilha: - e tendo ordenado a
Cristvo que fosse com a lenha s costas, atravs da serra, para a distribuir pelas
ermidas esparsas, estendeu-se em frente da cruz, e, pousando a cabea sobre uma pedra,
ficou mergulhado em orao.
Cristvo partiu. Cada ermita lhe ensinava, sem falar, com um mover lento da
mo, a ermida mais vizinha. Em todas, a mesma caveira alvejava ao p da mesma cruz.
E quela hora da tarde todos estavam  porta da ermida partindo o seu po, e tendo ao
lado, interrompido, ou o livro que liam, ou o grande rosrio que desfiavam, ou algum
cesto que encanastravam, ou as esteiras que teciam.  porta de cada cabana pendia uma
buzina e um molho de disciplinas, com pontas de ferro. Quando Cristvo chegava,
todos alavam o olhar baixo: nalguns o olhar era sereno, de uma serenidade morta;
noutros refulgia com um vago claro de terror, ou uma viva luz, que parecia alongar-se
numa curiosidade sem fim. Humildemente, Cristvo depunha o molho de lenha com
respeito, como junto de um altar: e os monges, tendo seguido o seu movimento,
baixavam de novo a face sob o capuz. Quando Cristvo voltou  ermida do prior -
ainda o encontrou estendido, com a cabea pousada na pedra, dando por vezes um
suspiro. Ento, calado, foi sentar-se a distncia numa pedra.
O Sol descia ao longe, vermelho como uma amora. Nenhum rumor cortava a
placidez do ar. Os homens pareciam estar muito longe: - e depois daqueles dias
passados na cidade empestada, Cristvo sentia toda aquela serenidade entrar-lhe nalma
como uma carcia sem fim. Mas lembrava todos aqueles que deixara, e mesmo lhe
parecia ver certos detalhes - a casa da esquina onde ele ia levar po s crianas
abandonadas, o velho a quem ia chegar a bilha da gua. Decerto sentia a falta desses
seres que socorria: - mas naqueles ermitas havia tanta fraqueza, tanta necessidade, que
decerto seria doce ocupar-se no seu servio. O sol desaparecera. Todo o vale de rochas
estava negro. Por vezes um grande pssaro escuro esvoaava. Uma estrela pequenina
luzia, depois outra. O santo prior orava, com a face sobre a pedra fria. E Cristvo,
cansado, estendeu o imenso corpo na terra, adormeceu.
Alta noite acordou: - um som lento, desolado, de buzina, caa de rocha em rocha
pelo silncio da serra. Era como o apelo de um corao aflito: - e imediatamente o
prior, correndo de dentro da cabana, se atirou de joelhos diante da cruz, rezando, com
furor tumultuoso. Decerto, longe, algum irmo estava sofrendo uma tentao do
Inimigo, e j meio vencido, soprava a buzina avisando todos os ermitas para que o
ajudassem com as suas oraes a rechaar Belzebu. Sentado no seu rochedo, Cristvo
olhava, cheio de simplicidade, sem compreender, com as mos pousadas sobre os
joelhos-quando de outro lado da serra, l no cimo, outra buzina soou, chamando
socorro para outra alma atacada. Mais tumultuosas se precipitaram as oraes do
ermito. Mas a buzina ressoava mais aflita! E ento o santo homem, desesperado, gritou
a Cristvo que acendesse uma fogueira perto da cruz, para que ela, destacando em
negro sobre o vermelho do lume, fosse vista pelos demnios, que nessa noite pareciam
dar um ataque terrvel  santa montanha.
Ferindo lume com duas pedras, Cristvo, rapidamente, fez uma fogueira,
soprando com as faces inchadas: a lenha nova estalou, uma chama subiu, outros lumes
em breve apareceram na negrura da serra: - e os sons das buzinas decresciam como as
nsias de um corao que sossega. Um silncio pesou ento. Cristvo cerrara as
plpebras. E o prior, um momento, aqueceu  chama as suas mos trmulas.
Mas os seus olhos fixavam-se na chama, com uma atraco crescente: um claro
de cobia iluminava-lhe a face, e a sua lngua apareceu a beira da boca seca, como
adiantando-se para uma grande pea de carne tenra, vermelha, chiando ainda no largo.35
prato onde fora assada... Chegou mesmo a estender a mo aberta. Mas deu um grito.
Onde tinha ele os espritos, que no reconhecera uma iluso do Inimigo, que o vinha
tentar pela gula?! Furioso, ordenou a Cristvo que apagasse a fogueira.
Com os braos em cruz, passeou ento no estreito terrao bordado de pedras. A
sua boca seca mascava com um rudo contnuo: - e ia balbuciando oraes. Os olhos de
Cristvo, fixos no brasido vermelho que restava do fogo, iam-se cerrando. Toda a
montanha se calara. E como insensivelmente atrado, o ermita voltou a olhar o brasido,
que vermelhava numa brasa viva. O que ele agora via eram montes de dinheiro,
ducados de ouro, montes de rubis escarlates que se esboroavam, uma infinita rutilao
de tesouros. Bastava baixar a mo, e teria tesouros para comprar um condado, erguer
catedrais, assalariar mercenrios, comprar jias s rainhas, ter todas as satisfaes do
poder, e do amor, e do orgulho eclesistico. E todavia o ermita sorria, sacudia a barba
branca, murmurando: "Bem vejo a tua iluso, oh Maldito, que me julgavas despreve-nido!
Mas a minha alma est forte, e nela, como o archeiro na torre, a orao vigia,
cheia de fora!..." E com o p espalhou os carves ardentes. E Cristvo pensava na sua
simplicidade: "Quantas coisas v este homem, que eu no vejo! Decerto  por causa da
sua sabedoria e da sua santidade".
No entanto, o ermita recolhera  sua cabana: mas, apenas entrara, soltou um grito,
e saiu recuando, com os braos abertos, que pareciam sacudir uma viso. Era uma
mulher, de esplndida brancura e toda nua, que ele encontrara deitada de costas sobre o
seu catre de folhas, com braos abertos que o esperavam e o chamavam. E durante um
momento, as suas mos, como impelidas por uma fora oculta, tinham-se estendido para
ela irresistivelmente: mas nos ps, to brancos, reconhecera um p de cabra - e, tendo-se
benzido freneticamente, a mulher evaporara-se, como um fumo negro, atravs dos
ramos da cabana. Mas quase cedera  temerosa iluso - e se no momento em que lhe
estendia os braos tivesse morrido, era o Inferno, a danao completa! Ento agarrou
violentamente as disciplinas, e arrancando a tnica, gritou: " obra,  obra santa!" As
duras correias de couro de boi, armadas de unhas de ferro, cingiam-lhe a cinta,
rasgavam-lhe a pele do dorso. A cada golpe, dava um gemido rouco: mas, pouco e
pouco, de duros e aflitos os gemidos tornaram-se lentos e lnguidos: - e o pobre ermita,
a cada vergastada, murmurava: "Socorro, meu Senhor, socorro, que estes golpes que
dou em mim comeam a ser como um contacto delicioso!... Faz que eu sofra, Senhor!
D ardor infinito aos verges que sulcam a minha carne! Sopra para dentro das feridas a
tua clera! Que ela me queime e arda, como um pez inflamado!..." E, de repente, caiu
como morto, com os braos estendidos.
Cheio de piedade, Cristvo ergueu-o do cho, e empurrou-o como um corpo
morto para dentro da cabana, onde ele ficou estirado, com algum lento gemido que por
vezes o sacudia.
A manh clareava. Cristvo adormeceu.
Ento comeou, desde esse dia, o seu servio entre os ermitas. Todas as manhs ia
buscar um tonel  fonte, que brotava em cima, de entre rochas, e ia enchendo, de ermida
em ermida, as bilhas de barro. Depois cortava a lenha, amassava o po, que se cozia
num forno de tijolo, junto de uma capela onde os santos homens ouviam missa e
comungavam. Era ele quem tocava o sino, punha giesta sobre o altar - e, por ordem do
prior, espalhava seixos sobre o cho da capela, para que os joelhos dos ermitas se mace-rassem.
Pela tarde, tendo reunido as esteiras, as alpercatas, os cestos, que os ermitas
fabricavam, descia a uma povoao do outro lado da serra, onde trocava aquelas obras
das santas mos pela farinha, por ervas, e pelo vinho das galhetas. Todos estes servios
eram fceis e doces. Mas, pouco a pouco, Cristvo sentia como uma melancolia e um
desejo das cidades e da vida dos homens. A montanha era triste e sem verdura; - mas a.36
sua tristeza vinha sobretudo do silncio, da amargura, da desolao dos santos que a
povoavam. Todo o dia era por eles consumido a gemer, mesmo quando trabalhavam - e
o seu esforo constante era a martirizao dos corpos, onde se lhes instalava o Inimigo.
Mesmo imveis, quietos, se estavam mortificando: uns traziam um cinto de pregos, que
lhes rasgava a carne; outros introduziam debaixo do hbito formigas ou vespas que os
picavam; outros suspendiam do pescoo uma pedra enorme, e caminhavam arquejando
e tropeando. Toda a doura humana lhes era alheia. Ao po que coziam misturavam
terra; a gua, s a queriam j envelhecida e ptrida. Por vezes alguns permaneciam, dias
e dias, imveis, de p sobre uma pedra, com as mos espalmadas, sob a chuva, e,
quando o sono ou a fome os iam vencer, enterravam uma espinha aguda no peito; outros
dormiam com a cabea sobre uma pedra, outra pedra sobre o estmago, outra sobre as
pernas juntas, e eram como cadveres de justos lapidados. Por vezes, Cristvo
oferecia-se para lavar as chagas, tirar os espinhos dos ps, curar com cinza e gua a
mordedura dos insectos. Mas todos o repeliam, e para tornar as feridas mais irritveis
expunham-nas ao sol ardente, ou deitavam-lhes areia fina. Um imenso sofrimento
cobria a montanha; e sobre ela o Sol parecia uma lmpada triste, atravs dela o vento
um gemido angustiado.
Era, porm, de noite, que ela se tornava terrvel. Animados pela escurido, os
demnios subiam por cada caminho, para atacar os santos homens. Em cada cabana era
uma luta temerosa. Os santos tinham a orao, as suas longas disciplinas armadas de
unhas de ferro: mas os demnios, por seu lado, tinham as coisas deliciosas a que as
almas sucumbem. Aos ermitas que vinham esfomeados, os diabos ofereciam longas
mesas, cobertas de flores, onde os paves assados arqueavam as penas entre os montes
de fruta e os blocos de gelo; aos que tinham sido cavaleiros, mostravam montes de ouro,
armas invencveis, longos exrcitos para ir conquistar remos e saquear cidades ricas; aos
velhos faziam ofertas de mitras, que lhes dariam entre os homens a suprema autoridade
das coisas santas; - e a todos a tentao suprema, a Beleza, a Mulher, ora magnfica,
desenrolando as tranas, erguendo uma tnica de gaza, ora delicada, escondendo com os
braos o peito nu, e sorrindo fragilmente.
Mas quando as sedues no bastavam, os demnios, furiosos, tentavam o terror.
Ento eram serpentes pavorosas, surgindo de entre as rochas; vastas asas moles e ftidas
que, com um golpe, derrubavam; figuras colossais, listradas de branco e negro, que
brandiam forquilhas, vertendo uma baba de fogo. Os gritos dos ermitas atroavam a
serra; as buzinas ressoavam; uma furiosa rajada de oraes subia para as nuvens; as
correias das disciplinas voavam no ar, com gotas de sangue: - e, espantados pela
grandeza da penitncia, os demnios cediam, abalavam, limpando o suor, esfalfados.
Uma grande piedade enchia ento o corao de Cristvo. Porque sofriam assim
aqueles homens bons, que encanastravam as vergas, caminhavam com a face baixa, no
faziam nenhuma ofensa e s apeteciam o Cu? O seu desejo era ajud-los, rechaar ele
s, com a sua grande fora, as turbas negras do Inferno. Ento, ao menor apelo da
buzina, corria para o lado do ermita atacado. Arquejando, com os imensos punhos
fechados de santa clera, avanava na escurido. Mas onde estava o Demnio? Ele via o
santo ermita recuar com pavor, via o escuro lugar para onde ele estendia a cruz, como
uma lana... Mas se se arremessava para l, os seus braos vingadores s encontravam a
noite negra. Quantas vezes ele encontrava o ermita, que tremia todo, e murmurava: "Oh
como  branca, e doce  vista, e cheia nas suas formas!..." Cristvo compreendia: era
decerto uma mulher, a temida Mulher, que arqueava os braos, descobria o peito... Para
a empolgar, a esganar, ele quase rastejava no cho, colhendo o hbito. Mas as suas mos
indignadas s agarravam o tojo, os musgos de uma pedra fria. Ento ele prprio
clamava para os terrveis demnios: "Vinde para mim, vinde para mim!" E, arrancando.37
um tronco, atirava tremendos golpes, ou, arrancando uma imensa lasca s penedias,
arremessava-a atravs da noite. Os troncos batiam contra os troncos; as rochas, com
estridor, quebravam sobre as rochas. E diante dele, nada havia, seno a montanha. Pois
era possvel que ele nunca ferisse um dos demnios inumerveis, que ali vinham de
noite? Ia ento, mal clareava a madrugada, procurar, com a cabea baixa, as pegadas
dos diabos fugidos, algum chifre que lhes tivesse partido, ou sobre a terra chamuscada
alguma gota do sangue maldito. Encontrava apenas as violetas lustrosas de orvalho. E
ento recolhia  sombra dos seus robles, bocejando com lentido.
Pelas festas do ano, o povo da aldeia subia  montanha, vinha visitar os ermitas.
Uns, doentes, aflitos com males, amparados pelos parentes, vinham implorar a sade
queles amigos do Senhor. Outros pediam a sua interveno para obter uma colheita
abundante, ou a herana perdida. As mulheres traziam os filhos para que eles, tocando-os
na cabea, lhes dessem vida forte e prspera: - e as que eram estreis vinham
implorar as douras da maternidade. A montanha era como um arraial de peregrinos. As
crianas, correndo, tropeavam nas muletas dos coxos. As raparigas, com uma flor
metida na orelha, formavam danas no adro da capela. Os que tinham feito promessas
arrastavam-se de joelhos sete vezes em torno das cruzes, ou penduravam no altar ps de
cera, laos de fitas e cestos de frutas. Como voltariam tarde para a aldeia, quase todos
traziam provises, e, dependurando os mantus nos troncos das rvores, faziam grande
crculo em torno das melancias abertas, bebendo dos pichis de vinho.
Os ermitas iam por entre a turba, e por vezes mal podiam mover os passos lentos,
envolvidos, suplicados pelos feridos que, fartos de unguentos, pediam que lhes
tocassem nas chagas com o rosrio, pelos mendigos que queriam que lhes sarassem a
sarna, pelas velhas hidrpicas que descobriam o ventre, esperando um remdio do Cu.
Outros queriam apenas a bno. Havia faces inquietas que pediam uma profecia sobre
as vindimas. Outros estendiam os rosrios para eles os benzerem. E os ermitas tocavam
as feridas, prometiam boas colheitas, sossegavam as mes dos endemoninhados.
Depois o prior subia ao plpito rstico, feito de pedras, e enumerava as obras
gloriosas da montanha. Onde houvera, mesmo na Tebaida, no tempo sublime dos
Antos, dos Pacmios, uma penitncia mais alta? E mostrava as suas faces emagrecidas
pelos jejuns, as suas carnes rasgadas pelas flagelaes. Uma imensa admirao
arrebatava as turbas piedosas. E todos queriam ver nos corpos dos santos a evidncia da
sua santidade. E s havia ento ermitas mostrando as chagas que eles tinham assanhado,
as pisaduras que lhes deixavam as pedras onde dormiam, os dentes estragados pelo po
azedo a que misturavam cinza. As mulheres erguiam as mos, chorando. As mais
ardentes arrancavam pedaos da tnica dos ermitas, que guardavam no seio como
relquias. Os velhos beijavam a terra onde eles tinham pousado os ps. Diante das
cabanas havia multido a admirar a dureza dos leitos, a bilha quebrada, o grande in-flio.
Alguns julgavam ver as pegadas dos anjos que visitavam os ermitas. Outros
queriam provar o po, ou, cheios de respeito, tocavam com o dedo nas disciplinas.
Cristvo era invejado por viver entre eles. Muitos queriam abandonar os casais, para
vir servir os santos: - e havia sempre algum que, para ficar na montanha, se escondia
entre as rochas, e que era necessrio expulsar quando o Sol descia, e a hora chegava da
solido e da prece.
Mas nessas noites, depois dos arraiais, as oraes no eram to profundas, nem as
penitncias to altas. Cansados, sentados  porta das suas cabanas, os ermitas
saboreavam, no silncio do seu corao, a sua imensa santidade. Cada um se sentia
famoso, falado nas lareiras do vale. Decerto a fama da sua santidade chegaria aos
castelos. Os bispos falariam deles nos conclios. E mais tarde talvez as suas imagens se
ostentariam sobre os altares. E Cristvo ento via-os olhar complacentemente, acariciar.38
as feridas da penitncia, escolherem uma pedra maior para encostar  noite a cabea. O
prior vinha ento congratular os seus irmos. A sua face resplandecia. E era ele que
relembrava os movimentos da multido, e como as suas chagas tinham sido beijadas. E
j certo do poder da sua voz, falava em descer  plancie, pregar contra a relaxao dos
Beneditinos. A sua estatura cada vez se erguia mais. Um dia mesmo mostrou em triunfo
uma carta do conde da Ocitnia, que o consultava sobre os dzimos. E Cristvo
entristecia. Era como uma saudade de outros homens mais humanos, e do riso das
crianas. Era sobretudo como uma impacincia de toda aquela inutilidade dos
ermitrios, os longos e ocos silncios, as horas passadas com a fronte sobre uma pedra,
aquela imobilidade contempladora de onde no saa nenhum bem, nada que aquecesse o
corao. Povoada por toda aquela inrcia, a montanha ainda lhe parecia mais inerte. E
vinha-lhe como um desejo de sacudir aquela imobilidade dos homens e das coisas, e
com as suas mos arremessar conjuntamente os ermitas e os robles, as caveiras e as
rochas, e empurr-los para alguma aco til, mand-los de roldo, pela montanha
abaixo, a ser teis aos homens!
O seu corao pouco a pouco se destacava daqueles amores. J no corria to
alegremente a encher as bilhas; tanta cruz envolta por tantos braos, no lhe causava
doura na alma; e aborrecia as caveiras, com o seu riso imvel, oferecendo ao Sol a sua
frialdade branca. Quando de noite as buzinas soavam, implorando o auxlio de oraes
irms, no se erguia em sobressalto, apiedado. Toda a flagelao o impacientava. E nos
dias de festa embrenhava-se nos altos da serra, para no presenciar o orgulho dos
ermitas, mostrando as feridas das disciplinas.
Um dia o prior mandou-lhe construir, com um madeiro, uma cruz da altura de um
homem. Trs dias Cristvo trabalhou. E quando, enfim, cravou a cruz num ponto
evidente da serra, onde no havia arvoredos, o prior chamou os seus irmos de
ermitrio. Um por um, desceram, rezando baixo. O prior encostara-se  cruz, com o
corpo colado ao madeiro, e abriu os braos ao longo dos braos da cruz - cruz humana,
colada  cruz de lenha. Depois ordenou um cntico. Quando ele cessou:
- Agora - disse o prior - vou ficar aqui, sem comer, sem dormir, durante trs dias,
pelas trs pessoas da Santssima Trindade. Esta obra  gloriosa!
Todos ergueram as mos ao Cu, edificados. Cristvo, nessa tarde, desceu o
crrego at ao vale, e sem sequer volver os olhos, abandonou para sempre a montanha.
XII
Cristvo tomou o caminho do lado oposto aos povoados - e comeou a
caminhar, ao acaso, pela longa ravina que contornava a serra. Era como o leito de uma
antiga torrente, que seguia funda entre rochas, seca e triste infinitamente. Toda a noite
caminhou  luz de uma grande Lua cheia. De madrugada dormiu  boca de uma
caverna. A solido era como a de um mundo deserto, onde s ele habitasse. Cristvo
sonhou com prados e regatos muito frios, muito lmpidos, que corriam entre aloendros
em flor. Quando acordou teve sede, e em roda s havia um torro to estril, que nem
nele crescia o tojo.
Todo o dia, marchando sempre, Cristvo padeceu sede. Ao pr do Sol, julgou
ver ao longe uma gua que rebrilhava. Eram largas lajes de pedra como restos de um
terrao, ou do lajedo de um solar. Deitado, esperou ali a manh: e, atravs de um sono
incerto, julgava ver como olhos luzidios de lobos, que passavam, se sumiam para alm
de um barranco. De manh dirigiu os passos para esse barranco, e a ao fundo havia
como uma gua lodosa e ptrida, que ele bebeu com delcia.
Durante dois dias mais, caminhou; e o deserto no cessava, com vales estreis,.39
penedias alcantiladas, e um solo pedregoso, negro, gretado, que escaldava sob o sol de
Agosto. Sentado por vezes contra uma rocha, Cristvo cerrava os olhos sob a fadiga, o
ardor da estiagem, e parecia-lhe ver grandes pedaos de po, e frutos que caam de
maduros ao passar de um vento fresco. Estendia a mo, e s encontrava as pedras
quentes. Retomava a marcha, e, marchando sempre, padecia fome.
Mas uma tarde que caminhava, j to fraco que os seus ps tropeavam a cada
instante, encontrou-se de repente numa encosta, onde uma floresta sombria verdejava.
Cristvo mergulhou na espessura. Bem cedo sentiu um murmrio de gua. Mais longe,
uma carvalheira estava cai regada de bolota. Cristvo ficou ali dois dias consolando
com lentido a fome e a sede. Depois quando emergiu da floresta, avistou diante de s
uma regio com rvores, um riacho que fugia muros, e uma tranquilidade habitada. Um
fumo lento subia, a distncia, para o claro cu. Cristvo alongou para l os passos. O
fumo subia de um casebre queimado; ao lado havia barricas arrombadas; o cadver de
uma vaca, meio seco, desaparecia sob o zumbido das moscas; o pomar estava arrancado
e devastado; e em redor todo o solo, a erva, estavam espezinhados, como por um tropel
de cavaleiros em marcha.
Cristvo seguiu, caminhando  beira do regato. Grandes prados verdejavam,
cobertos de botes-de-ouro. As ramas dos salgueiros mergulhavam na gua fugidia e
clara. Os pssaros chalravam na frescura. E no meio desta paz, um moinho com a porta
arrombada, e pendente dos gonzos, os grandes paus das velas partidos, as paredes
chamuscadas do lume, jazia com a tristeza de um cadver num prado de Primavera.
Cristvo dirigiu-se para o moinho. De uma rvore meio partida, que se erguia por trs,
junto s escadas, pendia um velho enforcado, com uma pedra amarrada aos ps. Ao lado
negrejavam os ties apagados de uma fogueira, e junto dela uma lana esquecida.
Cristvo foi seguindo. Por todo o caminho havia as confusas pegadas de
cavaleiros em marcha; todas as sebes estavam rotas; uma ponte rstica fora partida a
machadadas; outros casebres apareciam devastados, nus, com o colmo queimado: - e
nem uma criatura se via, entre aquelas runas.
Ao fim de um longo dia, porm, tendo-se sentado junto de um casebre em runas,
sentiu um rudo entre as rvores: - e um homem apareceu, em farrapos, lvido,
escaveirado, e logo se sumiu entre a espessura das rvores. Para o deixar livre de medo,
Cristvo ergueu-se e foi mais adiante, onde havia uma colina com rochas. Um grande
roble crescia  boca de uma caverna. E ao rudo dos seus passos, uma cabea de velha
apareceu  boca da caverna, e logo se sumiu assustada. Cristvo pensava com dor
porque se esconderiam estes homens. Porque seria aquela terra povoada por gente que
se escondia nos bosques, nas tocas dos bichos, debaixo das penedias?
Por qu? Uma grande piedade j o ia tomando. Se ouvia um rugir de ramagens
afastadas, gritava: Paz! paz! para tranquilizar aqueles coraes aterrados. Mas Jogo as
ramagens se fechavam e tudo ficava mudo.
Ia caminhando. Bebia nos regatos, comia a bolota e as ervas dos prados. Um dia
avistou uma aldeia de casebres de colmo juntos em torno de uma igreja, cuja torre
estava em obras. Um caminho seguia entre filas de pltanos. Ao penetrar nele, uma
mulher que, agachada com uma criana, procurava ervas, fugiu to tontamente, que
deixou a criana no cho. Cristvo apanhou a criana, to magrinha que se palpavam
os seus pobres ossinhos, sob a pele cheia de feridas: e nem chorava, com a mozinha
sobre a testa, onde as chagas eram maiores. Todo o corao de Cristvo se enchia de
dor. Lanou um grande brado pela mulher. Ningum respondeu. Ento, tomando a
criana ao colo, seguiu sob os pltanos. Mas sentia, atravs das folhagens, algum que o
seguia. Pousou no cho a criana, afastou os passos. E voltando-se bruscamente, viu a
mulher que saltava de entre o tojo, arrebatava a criana e de novo se sumia no mato..40
Ao fim do caminho era a aldeia. As primeiras casas, junto de uma paliada de
estacas, estavam desertas, nuas por dentro, como saqueadas. Nem uma rs de gado se
via nos aidos. Nem uma foice pendia sobre a lareira. A uma porta, uma velha, mais
magra que um esqueleto, olhava com os olhos fixos cavados no vago, e como
deslumbrados de espanto. Um cadver abandonado, que ningum enterrara, tinha as
mos decepadas. Por vezes uma figura passava correndo, com os cabelos ao vento. Uma
figura de mulher, de bruos, com os cabelos soltos, estava agarrada a um bero vazio.
Mas ao fim da aldeia, junto de um calvrio, viu correr gente em magote. Um frade
meio descalo, sem capuz, de olhos ardentes, erguia uma cruz, chamava a justia de
Deus. Como podiam os homens sofrer mais sobre a terra? Os senhores andavam em
guerra, e da vinha o mal dos pobres. Os bares corriam as suas terras, e tudo
saqueavam, tudo roubavam para adestrar soldados, ter hostes brilhantes. Se outros, mais
fortes, os faziam prisioneiros, de novo voltavam nos seus grandes corcis, a saquear,
roubar, tirar ao pobre a ltima acha, a ltima mo-cheia de favas, para reunir o preo do
resgate. Se ficavam vencedores, eis que voltavam a saquear os restos, a arrancar a seara
ainda mal madura, para celebrar festas, e erguer solares ricos. Depois, atrs, passavam
ainda as companhias de mercenrios, que, nada encontrando, queimavam os muros,
destruam os arvoredos, e matavam as crianas nos beros. Quanto tempo mais
consentiria o Senhor este mal que ia na terra? Por toda a parte que ele andara, s vira a
fome. As mulheres comiam os cadveres dos filhos. Os homens em breve seriam como
feras. E ai dos que se encontrassem no caminho da turba esfaimada!
A sua mo tremia no ar cheia de ameaas. E em torno dele os moos lvidos
apertavam os punhos, com olhares que procuram uma arma. Mas outros baixavam a
cabea. Que podia o pobre, s, na sua terra estril? A justia devia vir de Deus. Uma
mulher gritou: "Ou antes do Demnio!..." Um murmrio de terror passou entre a gente.
Cristvo saiu da aldeia com o corao esmagado. Os seus olhos erguiam-se para
o Cu. Ali, por trs do azul, estava o Senhor! Decerto ele via tantos sofrimentos, as
guerras, as fomes, as pestes.
Por que no descia do seu trono de ouro? Uma carcia da sua mo direita daria aos
pobres a abundncia, os frutos, as tulhas cheias de po; e os bandos negros dos senhores
cruis desapareceriam como nuvens que o Sol desfaz, ao mover da sua mo esquerda...
Por que no vinha o Senhor?
As terras que Cristvo atravessava continuavam desoladas, at que, penetrando
numa regio mais amvel e frtil, com pradarias, aldeias, viu ao longe longos fumos
esguios que se elevavam para o cu. Um grupo de soldados derrubava rvores. E bem
depressa viu as barracas de um acampamento. Era uma companhia de tufos. As tendas
estavam alinhadas sem ordem, ao acaso, todos procurando a maior proximidade do rio.
E como era  hora do rancho, viam-se os soldados, de bruos, mergulharem na gua as
grossas panelas de ferro. Por toda a parte, sobre as fogueiras acesas, suspensos de varas
de ferro ensarilhadas, ferviam os caldeires: - e junto aos carros, onde vinham as
barricas de vinho roubadas nos casais e nos mosteiros, os homens juntavam-se, com os
seus pichis na mo. Dois carniceiros esfolavam um boi estirado no cho: - e o trabalho
era feito num rumor incessante de pragas e cantos.
Todos os homens, de barbas incultas, grandes cicatrizes nos rostos, imundos,
tinham um curto saio de malha de ferro: e como estavam num pas vencido, sem receio
de surpresas, os morries e os broquis pendiam  entrada das tendas rotas, umas de
lona, outras de peles de carneiro. Sobre um cmoro era a dos chefes, com bandeiras
flutuando. Por todo o acampamento circulavam mulheres, que seguiam os soldados,
umas roubadas nos assaltos das aldeias, outras que acompanhavam, por deboche, o
bando dos homens; todas tinham o ar cansado dos grandes furores que suportavam..41
Aqui e alm, um monge descalo, com uma adaga na corda do hbito, o olhar ardente,
ia de tenda em tenda. Alguns homens jogavam os dados. Outros limpavam as armas. Os
falces gritavam sobre os seus poleiros, feitos de lanas.
Serenamente, na sua simplicidade, Cristvo atravessou o acampamento.
Como os bandos cada dia recrutavam novos tunos, ou aprisionavam servos,
ningum estranhava a sua presena. "A quem pertences?" perguntavam-lhe. Ele atirava
um gesto vago para as tendas. E julgando-o idiota, como todos os gigantes, deixavam-no
ir, ou aproveitavam a sua fora para mover os pipos, rachar lenhas, descarregar dos
machos os grandes fardos amarrados com cordas. Tendo trabalhado, Cristvo comeu e
bebeu. A noite caiu: as estrelas luziram. Por toda a parte se acenderam fogos. Em torno
deles os homens bebiam, jogavam os dados, ou escutavam um monge contando
histrias do Diabo. Por vezes um grito de mulher espancada cortava o ar. As canes
imundas abafavam o grito das sentinelas. E da colina, onde acampavam os chefes, vinha
uma msica doce de pfaros e atabales.
Cristvo, no entanto, ia atravs das tendas. Se via um tufo ferido que punha
panos nas chagas, agachava-se para ajudar. Aos cavalos presos, que relinchavam
voltando o focinho para a gua, ia buscar uma doma cheia. E aliviava as mulheres dos
fardos de lenha que os homens as obrigavam a acarretar. Mas aquela gente era ma,
queimava as aldeias, arrombava os sacrrios, espancava duramente os animais, deixava
as crianas morrendo  mngua nos silvados dos caminhos - e Cristvo, alta noite, saiu
do acampamento, pensando, na sua simplicidade, que Jesus, seu amo, no o quereria
entre aqueles coraes duros.
Trs dias e trs noites caminhou, e penetrou por fim numa regio de grande
penria. A terra seca, gretada, abandonada, nem produzia cardos. Toda a flor secara nas
rvores. A cada instante, ossos de animais branquejavam nos caminhos. As gentes dos
campos, que ele encontrava, no tinham mais que ossos sob os trapos que os cobriam, e
os seus olhos brilhavam como os das feras. Por vezes,  beira de um riacho, viam-se
mulheres, crianas, maceradas, arrastando-se, devorando as razes das rvores. Nas
terras mais fluas, era a terra mesma que eles comiam s mos cheias, entre lgrimas que
lhes caam nos dedos. Uma noite, passando junto de um cemitrio, viu figuras sombrias,
que, tendo desenterrado um morto, o talhavam em postas junto de uma fogueira. Depois
foi um mendigo que lhe pediu para o proteger, porque a gente daqueles stios atacava os
pobres mais fracos, para ter carne humana. Todo um dia Cristvo caminhou com o
mendigo s costas. E, batendo os dentes de horror, o mendigo contava de pais que
comiam os filhos pequenos, de outros que atraam os viajantes para os matar. Ao fim do
dia, tendo posto o pobre coxo no cho para descansar, viu-o suspirar e morrer. De noite,
por todas as partes luziam os olhos dos lobos, esfaimados tambm, correndo a roer os
cadveres. Negros bandos de abutres torneavam no ar.
E a dor de Cristvo era to grande que erguia os braos ao Cu, e gritava pelo
Senhor. Ele decerto no escutava.  porta das ermidas, debalde o povo se apinhava,
implorando misericrdia: os santos no desciam dos seus altares; as relquias dos
mrtires pareciam ter perdido a fora; e, desiludida do Cu, essa gente apedrejava os
sacrrios.
Quem salvaria os homens? E Cristvo caminhava cheio de dor, por no os poder
salvar. De que lhe servia a fora dos seus grandes braos, toda a vontade do seu
corao?! Alargando os passos, atirando os olhos ao longe, ele s procurava um meio de
servir os homens: - e mesmo por vezes lhe vinha  ideia reunir alguns miserveis, e dar-lhes
a sua prpria carne a comer.
Um dia que assim pensava, chegou a uma terra onde viu homens cavando o
torro, outros arando, outros semeando. Um troo de besteiros vigiava aqueles homens,.42
que a fome emagrecera: - e um monge, com um tinteiro metido no cinto de corda, lia
um rol de nomes. Eram os abades dos mosteiros, os bispos em conclio, que assim
arregimentavam os mais fortes das aldeias, e por uma rao de po os obrigavam a
trabalhar, para que as terras no ficassem incultas e no fosse maior o tormento da
fome. Eram homens de braos fortes, mas emagrecidos pela fome. As mulheres, os
filhos, vinham com eles para partilhar da magra rao de po. Cristvo pediu uma
enxada; e, tendo admirado a fora dos seus braos, o monge indicou-lhe um campo a
limpar do pedregulho e do tojo. Com que paixo ele se lanou ao trabalho! Era como se
j estivesse saciando todas as fomes futuras. O tojo arrancado fazia montes junto aos
seus grossos ps nus: - e ainda por vezes acudia a ajudar os mais fracos, que
tropeavam sob um carreto de pedras, ou, exaustos, deixavam fugir a enxada das mos.
Em torno as mulheres, sentadas, imveis, com os filhos em redor, esperavam que os
homens trouxessem ao fim da tarde a rao de po, junta num cesto que os besteiros
guardavam: mas a sua fome era tanta, que se precipitavam sobre os semeadores,
quando, mergulhando a mo na sacola, atiravam, com um gesto lento, um punhado de
gro. Os besteiros tinham de correr, repelir as crianas que gritavam.
Os olhos de Cristvo estavam cheios de lgrimas. Por vezes, cavando a terra,
dizia baixo: "Oh terra, d depressa o po! Oh terra, tem piedade!"E ento os seus golpes
de enxada tornavam-se mais doces, quase tmidos, como se receasse magoar aquela que
implorava. Quando se distribua o po, ele tomava apenas uma cdea, e fazia partes
iguais que dava s escondidas s crianas. Todos os olhos das mes se voltavam para
ele. Os homens murmuravam pensativamente: "Tu s o melhor...". De noite ele seguia
o bando dos cavadores, que iam dormir em largos alpendres,  orla da floresta. Mas
raros eram os que se atiravam para cima dos molhos de palha. Uma grande velha,
descarnada e esguedelhada, cujos olhos rebrilhavam como brasas, vinha rondar em
torno aos casebres apoiada a uma forte vassoura. Ao encarar a sua sombra negra
passando no luar, os homens soltavam um suspiro, outros murmuravam: " a sina!" As
mulheres,  pressa, adormentavam as crianas, procuravam entre a palha vassouras, ou
pequenas cabaas, ou um pedao de vu branco. E todos, uns depois dos outros, em
silncio, desapareciam sob o arvoredo. Uma noite uma forte criatura, de olhos ardentes,
disse a Cristvo: "Vem". E ele, na sua simplicidade, tomou o bordo e partiu. Por toda
a floresta, por baixo de toda a folha, se sentia o roar de gente que caminhava em
silncio. Por vezes um grito prolongado cortava o grande silncio. E, mais rpidas, as
formas perpassavam sob a folhagem que rumorejava. Assim, Cristvo chegou a uma
clareira, cercada de velhos e altos carvalhos, onde a Lua mal penetrava. Uma multido
j a atulhava, trazendo candeias, ou alguma tocha fumarenta que bailava entre os ramos.
Uma vasta mesa de pedra alvejava no meio; e um raio de luar, caindo em cima,
alumiava um alguidar de ferro, junto de uma tripea, coberta por uma pele de chibo.
Uma impacincia parecia agitar toda aquela negra turba, onde por vezes um olhar relu-zia,
como o de uma fera na espessura. Uma voz, ao longe, gania: "Voa, voa!" E, umas
aps outras, vozes lamentosas e dolentes murmuravam: "Voa!"
Ento a grande velha descarnada avanou, escarranchada sobre a vassoura. Outra
correu atrs dela, com os grossos cabelos ao vento; e outra ainda - at que uma longa
cauda de mulheres, esguedelhadas, com o peito nu, grande cendal branco voando ao
vento, comeou a girar em torno da mesa, lamentvel, com um mover de braos abertos
semelhante a um bater de asas cansadas. Deram assim uma volta lenta - at que,
parando diante da tripea vazia, a grande velha estacou, e erguendo os braos lanou
uma invocao:
S. Marcos te amarque,.43
S. Manos te amanse,
A Graa te fique,
A Hstia te pique!
Sempre que me vires
Em mim te remires,
E quando me no vires
Contra mim suspires!
E soturnamente toda a turba gemeu, com a cadncia de um martelo que cai na
bigorna:
S. Marcos te amarque.
S. Manos te amanse!
Subitamente a grande fila de mulheres largou numa correria, onde os cabelos se
misturavam, as saias meio rotas se espedaavam, gritando, clamando, uivando,
desesperadamente:
Sempre que me vires
Em mim te remires,
Quando me no vires
Contra mim suspires.
Cada vez mais rpida girava a grande ronda, com pulos enormes, que atiravam as
fraldas brancas pela cabea, misturavam as grenhas, faziam entrechocar no ar as
vassouras e rocas. J de entre a turba, que olhava em volta, partiam grandes brados.
Aqui e alm um brao erguia-se, sacudindo furiosamente uma tocha. Pulos furiosos
mostravam uma saia esvoaando no ar. Havia uivos de lobisomens. E entre as pernas de
Cristvo, aterrado, grandes figuras, como de ces, fugiam com as mos galopando na
terra. Mas mais alta que todos os clamores, uma buzina de corno ressoou. Ento houve
um silncio to grandes que se sentia as folhas mover-se ao vento lento da noite.
De novo a grande velha estava defronte da tripea, agitando a sua grande
vassoura. E lentamente, baixo. numa splica humilde, comeou:
Eu te encanto e recanto
E ainda te sobreencanto,
E por um sino-saimo
Metido num corao,
E por fel d'excomungado,
E pelo bode pintado,
E pela asa do morcego,
E pelo seixo do rego,
E pelo sangue do drago,
E por tudo o que te trago,
Vem!
Um imenso apelo ressoou: "Vem!" Todos os braos se erguiam desesperadamente
para a tripea vazia. E a velha, como possuda do delrio, bradava em apelos agudos que
varavam o ar.
- Vem contra o Senhor! Vem contra o Bispo 1 Vem contra o Letrado! Vem contra.44
o Rico!
E cada vez a turba clamava mais ansiosamente: "Vem! vem!"
Uma grande restolhada cortou a espessura - e sobre a mesa, escarranchado,
apareceu um homem enorme, de longa barba preta, todo coberto de plo preto, que o
assemelhava a um bode. Uma aclamao soou, um delrio arrebatou a todos. As
mulheres pulavam, os homens sacudiam os barretes - enquanto a criatura negra, imvel,
dardejava em silncio os seus olhos coruscantes. Depois, quando se fez de novo um
silncio, a criatura, estendendo o p, gritou numa voz rouca:
-Adorai!
Todos lhe beijaram o p, que desaparecia sob os felpos longos do plo.
Mas ento um homem, envolto num grande lenol branco arranjado como uma
dalmtica de bispo, e com uma mitra negra na cabea, veio caminhando a coxear para o
altar, a ler um livro que segurava nas mos. Cristvo conhecia-o. Era o coxo que
trabalhava ao lado dele, rosnando palavras ininteligveis.
Tendo posto o livro sobre o altar, o homem abriu os braos, e comeou a
celebrao de um rito, que, com horror, parecia a Cristvo semelhante  missa da sua
aldeia. Curvado sobre o livro, com as mos postas, ele resmungava uma leitura;
erguendo os braos, saudava a criatura felpuda; e quando, voltando-se para a turba, lan-ava
uma bno, todos se curvavam, e risos bestiais estalavam com amargura. Imvel,
a criatura, com as mos pousadas nos joelhos, recebia o culto. Um aclito, lindo como
um pajem, misturava um lquido negro num vaso. E dos grandes carvalhos em redor
caa uma sombra negra, que a Lua, aqui e alm, cortava de manchas lvidas.
Como na missa, uma campainha ressoou. O homem mitrado recebeu o vaso, fez
uma invocao, derramou uma gota sobre os ps juntos da criatura negra, bebeu o resto
- e tendo limpado os beios  ponta da sua dalmtica, subiu a uma tripea, e ficou
recolhido, como um pregador que vai lanar o seu texto. Um silncio caiu, to fundo,
que se sentia o menor rumor das folhas. Um raio de Lua batia a face barbuda do coxo,
que comeou a pregar.
Erguendo os braos, perguntou onde se encontraria felicidade para o pobre? A
terra era para ele um lugar de desolao. E desde que nascia at que o levavam para a
vala, ele no fazia mais que gemer na escravido. Da alvorada  noite, trabalhava. E
para quem ia todo o fruto do seu trabalho? Para o Senhor, para o Bispo, para o
Intendente que vinha com archeiros. Para que o Senhor tivesse armas, ele no tinha
lume, e tremia de frio. Para que o Bispo tivesse banquetes, ele no tinha po, e
empalidecia de fome. Para que o Intendente vivesse em casas cobertas, ele vivia em
tocas que as suas mos cavavam na terra.
E era s necessidades que sofria? No. Era espancado, arremessado para o fundo
de prises, morria entre tormentos... Se a sua mulher era bela, vinham homens de armas
que a levavam. Se a sua cabra dava bom leite, vinha o senescal do convento que a
confiscava. Tinha de pagar para nascer, tinha de pagar para morrer. Nos homens, para
ele, no havia piedade. E havia-a porventura no Cu? O Cu mandava as fomes,
mandava as pestes. Quem salvaria o pobre?... Amo forte, que o protegesse, s lhe
restava Aquele que vive debaixo da terra e que tem todos os poderes. Ele reunia os seus
filhos, ali, onde eram livres e onde no chegava a lana do Senhor, nem o bculo do
Abade. Ele ensinava os remdios que livram da peste. Ele fazia achar os tesouros. Ele
fazia reflorir a terra. Ele dava do seu corpo o comer aos que tm fome, do seu sangue o
beber aos que tm sede. Glria a ele nas trevas!
E a multido gritava: "Glria a ele nas trevas!"
Ento, saltando da tripea, o coxo gritou:
-  a hora! Vinde comer e beber, amai a quem vos ame, e sede homens livres no.45
fundo da noite livre!...
Subitamente, dois homens apareceram, trazendo um grande carneiro assado que,
com facas, comearam a retalhar. Outros colocaram na mesa de pedra uma pipa de
vinho. Com um clamor bestial, toda a turba se arremessou para o feiticeiro. A criatura
negra bradava: "Comei do meu corpo, bebei do meu sangue!" Os pedaos sangrentos da
rs desapareciam nas bocas vorazes. Em malgas de loua, em vasos de buxo, o vinho
negro espumava. Alguns fugiam com a sua rao para a devorar em silncio. Outros
lutavam entre si, como ces disputando um osso. As mulheres empinavam as malgas do
vinho, que lhes escorria nos peitos. Havia outros que, na alegria do comer, danavam,
brandindo um osso esburgado. Sob a mesa, havia braos descarnados lutando pelos
restos. J uma embriaguez aquecia as almas. Gritos roucos partiam das bocas das
mulheres. E de p, o grande bruxo, intimava a Lua a que se escondesse, para que os
homens fossem mais livres, no fundo da noite livre. Cristvo, imvel, olhava,
encostado a um tronco, a cabea escondida na ramagem ligeira. Por vezes, um pastor,
agarrando uma das mulheres, arrebatava-a para a escurido. Gemidos de pecado con-tente
soavam na negra espessura. As feiticeiras rasgavam os ltimos trapos, e nuas,
hediondas, galopavam escarranchadas sobre as vassouras. A grande mulher trigueira
arrebatou e enlaou Cristvo, com olhos que o devoravam, murmurando: "Vem!"
Ele suavemente empurrou a criatura - e, s, triste, de uma tristeza infinita,
comeou a caminhar atravs do mato espesso. O seu corao sangrava. Aquela gente
clamorosa no era amiga do Senhor. Perdidas estavam as suas almas. Mas por que
sofriam eles tanto? O coxo dissera a verdade. Para o pobre s havia misria. O Senhor
vinha com a sua grande lana, depois o Bispo com o seu duro bculo. E quando nada
restava ao pobre, uma mulher branca surgia, encostada a uma vara branca - que era a
Peste. Pobres homens! Pobres criancinhas! Por que no vinha o Senhor?
XIII
Assim pensando, caminhava Cristvo. Todo o dia caminhou. Desde a vspera
no tivera po, nem gua: - e ao fim do dia, sentado numa pedra  beira de um caminho,
ele pensava onde encontraria o po dessa ceia. O stio em torno era deserto e triste.
Nenhum caminho conduzia a moradas humanas. Ao lado estendia-se uma grande lagoa.
Altos canaviais erguiam as suas maarocas negras. E a gua parecia dourada, tocada do
sol que descia. Um bando de patos bravos voava no alto. E o silncio era triste e
profundo. Cristvo ia seguir, marchar, quando o rumor de uma cavalgada ressoou ao
longe, e uma Comitiva apareceu, caminhando com lentido. Dois besteiros a p
marchavam na frente. Um servo trazia molhos de archotes, para a primeira escurido da
noite. E logo atrs caminhava uma vasta liteira, com cortinas de couro vermelho e topes
de plumas aos cantos. Duas damas, ao lado, montavam mulas brancas. Em roda vinham
cavaleiros com lanas. E as arcas das bagagens carregavam duas fortes mulas,
emplumadas de vermelho.
Cristvo, logo de p, tirou humildemente o seu barrete. E vendo aquela forma
enorme, esguedelhada, negra, na claridade dourada da tarde, os dois archeiros,
estacando, retesavam o arco, uma das damas deu um grito. A liteira parara, e de entre as
cortinas uma dama muito velha, envolta em peles, espreitou, pondo ante os olhos a mo,
coberta com um guante de caa. Mas Cristvo, humildemente, cara de joelhos. Ento
a dama deu uma ordem: - e um escudeiro, rudemente, mandou aproximar o homem
enorme. Ele veio por entre os cavaleiros, cujas altas lanas direitas, nas selas, no lhe
chegavam aos ombros largos. E pelas cortinas da liteira, descerradas, a velha dama,
outra mais nova e plida, e uma criana loura como um anjo, olhavam com espanto..46
Cristvo caiu de joelhos junto da liteira. E como lhe perguntassem a que terra senhorial
pertencia, e porque andava s nos caminhos, Cristvo, na sua simplicidade, s pde
murmurar que vinha de alm e tinha fome. A dama mais nova palpou a sua escarcela - e
a criana gritou: " o gigante que servia Roldo!" Em roda os cavaleiros riram com
respeito. E subitamente o pequeno fidalgo, sentado sobre os joelhos da velha, pediu,
com um lindo mimo, para ter ele tambm um gigante, que o seguisse, com uma dava. A
velha sorria. E, sem hesitar, deu ordem aos cavaleiros para que trouxessem Cristvo.
Com um gesto foi mandado marchar ao lado das bagagens. E de novo os guizos dos
machos tilintaram, e a comitiva seguiu lentamente. O Sol descera. Os escudeiros
acenderam os archotes. E a cada instante, de entre as cortinas da liteira, aparecia a
cabea loura da criana que espreitava, queria ver se vinha o seu gigante. E Cristvo
soube, pelos estribeiros, que aqueles eram os senhores do castelo de Riba Dona, que
ficava para alm das lagoas.
Bem depressa, no alto de uma colina, entre grandes bosques que desciam para o
vale, surgiram as altas torres. Na mais alta ardia uma chama, que se torcia ao vento.
Longas buzinas soaram. E  entrada da ponte levadia apareceram tochas inumerveis,
que os escudeiros erguiam alto.
O intendente, o senescal, dois frades com hbito, outros cavaleiros esperavam no
ptio. Nas janelas ogivais brilhavam claridades. E o sino da capela repicava
alegremente. Um escudeiro, cuja barba branca caa sobre um corpete de couro branco,
recebeu nos braos a criana loura, que as damas cortejavam, mergulhando nas suas
longas saias de cauda, orladas de peles. Um tapete fora desenrolado sobre a vasta
escadaria. Os ces latiam alegremente. E sob a grande porta, que sustentava um escudo
de armas, uma camareira esperava, com um jarro de prata na mo, enquanto outras ao
lado tinham uma bacia que rebrilhava, e uma branca toalha fina. A cauda enorme da
velha que levava a criana pela mo, desapareceu sob o alto porto. Os estribeiros
levavam os cavalos  rdea, outros recolhiam as lanas. E os cavaleiros, cujas esporas
retiniam sobre os lajedos do ptio, contavam ao intendente e ao padre como a jornada
fora boa, com a ajuda do Senhor, sem encontro de touros, nem de lobisomens.
Mas, no entanto, todos os criados cercaram Cristvo, com espanto. Ele torcia o
seu barrete nas mos, humildemente. Os pajens riam da sua grenha hirsuta, da
imensidade dos seus ps cheios de terra. Os mesmos cozinheiros tinham corrido, para o
admirar. Os ces, assustados, latiam.
Mas um pajem veio correndo chamar Cristvo  sala de armas: - e atravs de um
corredor abobadado, por onde ele tinha de caminhar todo vergado, e de portas de
carvalho que mal podia passar, levou-o a uma sala que era grande como a nave de uma
igreja. Pelas paredes estavam encostados molhos de lanas. Das traves do tecto pendiam
bandeiras, e ao fundo, numa vasta chamin, ardiam troncos de rvores, a que os
cavaleiros, de p, aqueciam as mos. Uma cortina ergueu-se e as duas damas
apareceram com a criana no meio delas, e seguidas dos pajens, que traziam tochas de
cera.
O pequeno Senhor do castelo (porque seu pai morrera, havia dois anos, na guerra
do rei da Ocitnia) tinha feito seis anos pelo Natal, e era to delicado e louro que
pareceu a Cristvo o Menino Jesus que havia no altar da capela. Mas, desde criana,
fora educado para ser um cavaleiro forte: todas as manhs lhe esfregavam os lbios com
um pedao de ouro bento, para que as suas falas fossem honestas e brilhantes; a sua
roupa era secada ao lume sobre o fio de uma grande espada, para que crescesse forte e
amigo das armas; e trazia ao pescoo um pedao do Santo Lenho, para que o seu
corao se enchesse do amor do Cu. O seu encanto fora sempre ouvir as histrias dos
Paladinos. De noite sonhava com Roldo, e estendia o brao para empunhar a grande.47
trompa que soara em Roncesvales. E desejava libertar damas presas em torres, domar
drages e ser servido por um gigante armado de uma dava.
E ali o tinha, o seu gigante, maior de que todos aqueles de que ouvira falar, nos
seres de Inverno, aos trovadores que passavam esmolando, ou aos peregrinos que
tinham visto as maravilhas da Terra Santa. Direito, a mozinha assente na cinta, o olhar
rebrilhante, estava diante de Cristvo - que sorria, com a vasta face barbuda toda
pendida e enternecida para ele. Ento, erguendo o dedo para o alto, onde estava o ombro
de Cristvo, disse muito srio:
- Quero subir l cima.
O seu aio ergueu-o nos braos, mas no chegava quela altura. As damas riam; os
cavaleiros tambm, metendo os dedos entre os fios das barbas. Ento Cristvo agarrou
delicadamente na criana, e pousou-a no seu grande ombro. L no alto, a criana sorria,
vendo todos em baixo, to pequenos, junto dos joelhos do gigante. Espicaou o ombro
de Cristvo, gritou: "Caminha!"E Cristvo marchou, atravs da sala. Para passar, a
criana afastava as bandeiras que pendiam. Os seus olhos, cheios de orgulho, reluziam
como estrelas. Mas a me inquieta erguia as mos, chamava: "Ruperto! Ruperto!" - E o
aio, todo erguido nas pontas dos ps, estendia os braos para as alturas de Cristvo,
para receber Ruperto que se atirara de l, rindo e sem medo.
Ento a dama velha deu as suas ordens ao senescal. Cristvo foi levado s
cozinhas - onde os pajens, os criados, correram para ver Cristvo, sentado no cho,
com uma bacia de barro nos joelhos, cheia de vinho, esfarelar dentro grandes broas, que
um criadito lhe trazia, ajoujado.
Deitado, nessa noite, numa velha cavalaria abandonada, Cristvo sentiu uma
grande paz, e como um calor que o envolvia, vindo menos da palha fresca em que jazia
do que do sentimento vago de que algum o estimava, o queria, necessitava dele. Era
aquela criana to linda, to nobre, com os seus longos cabelos de ouro. E toda a noite
sonhou que uma criana assim, cujos cabelos louros caindo sobre a camisa branca o
envolviam num brilho de ouro, vinha desde a ponta dos seus ps, caminhava ao
comprido do seu corpo, como por uma estrada desigual que galga montes e vales: os
seus pezinhos mal pousavam; e chegada junto da sua face, a criana parava, e debruada
sobre os seus grandes olhos, parecia contemplar dois lagos tranquilos e claros como
espelhos. Depois no mesmo silncio, e caminhando sobre o seu corpo, recuava at 
ponta dos seus ps, de onde se elevava para o ar, resvalando num raio oblquo da Lua,
que entrava por uma fenda.
Ao primeiro alvor da madrugada, antes que a buzina das sentinelas anunciasse o
dia, Cristvo, saindo por uma porta aberta, foi rondar em torno do castelo. Nunca ele
vira construes to magnficas. Uma longa muralha envolvia toda a colina. Os
nenfares cresciam na gua dos fossos. E para alm eram arvoredos, terras de cultura,
por onde um rio, coberto quela hora de nvoa, serpeava por entre grandes choupos.
Desde tanto tempo havia paz naqueles feudos senhoriais, que a erva crescia nas
fendas da ponte levadia. A forca patibular, sob a demncia das damas que governavam,
tinha as vigas apodrecidas e verdes de musgo. E sobre o torreo erguia-se uma lana,
com um morrio espetado, e uma cabaa, significando que ali se dava hospitalidade a
cavaleiros e peregrinos. As torres, de telhados agudos, eram inumerveis, tendo todas
bandeiras ou flmulas, vermelhas e verdes, que esvoaavam na brisa. Drages,
debruados das ameias, vomitavam a gua das chuvas. E em cada janela ogival, com
brases nas vidraas, havia um vaso escarlate, onde crescia uma aucena.
Dentro das muralhas, tudo era magnfico. Os lajedos dos ptios, polidos como os
de uma igreja, eram cercados de uma bordadura de terra onde cresciam roseiras. O poo
era encimado por um pombal que terminava por uma imagem de S. Marcos, onde as.48
pombas vinham pousar, beijando-se sobre o seu grande livro aberto. Por trs da negra
torre isolada, que servia de tesouro e de arquivo, havia um jardim em flor: e aos lados
um coberto para o jogo da bola, uma lea para o jogo da lana.
E na tranquilidade daquele solar de damas, alheias a coisas de guerra, respeitadas
nas longas lguas dos arredores, as sentinelas, sobre as ameias, jogavam os dados, ou
dormiam como frades repletos.
Cristvo pasmava destas maravilhas, quando um pajem o chamou  presena de
um intendente. Numa sala abobadada, sentado numa vasta cadeira de carvalho lavrado,
diante de uma mesa coberta de rolos de pergaminho, de in-flios com armas
estampadas, o intendente marcou a Cristvo as suas obrigaes, que consistiriam em
acompanhar o Senhor sempre que ele sasse, a p, ao lado do seu ginete, e armado de
uma dava. Depois um homem, um corcunda entrou, e trepando vivamente a uma cadeira
mediu Cristvo, com um cvado de madeira, desde a cabea aos ps, e saiu, recuando
e saudando, com um molho de tesouras e de agulheiros tinindo  cinta.
Quando o fato que ele assim medira ficou pronto, Cristvo recebeu ordem para
talhar uma maa num tronco de rvore, e, vestido, acompanhar o Senhor, que ia visitar
as suas florestas: e enquanto o esperava, na clara manh de Agosto, Cristvo no
cessava de se mirar na gua clara da cisterna, pasmado das bragas de pano s listas azuis
e vermelhas, que lhe cobriam as pernas, e do gibo vermelho e azul, que lhe cobria o
peito, tendo bordadas as armas da senhoria.
Bem depressa o Senhor apareceu montado num potro branco, com plumas brancas
na gorra, sob a qual caam os seus cabelos louros. Um aio, ao seu lado, levava o falco
no punho. E dois cavaleiros seguiam, de lana alta. Vendo Cristvo, o menino gritou
de alegria: e trs vezes fez correr o potro, que se espantava, em torno de Cristvo
imvel, com a sua maa ao ombro. Depois, atravessando a ponte levadia, correu pelo
caminho largo, voltando-se na sela, airoso e vivo, para ver Cristvo, que trotava com
as suas vastas passadas, a longa guedelha ao vento. Pelas portas dos casebres, os viles
do castelo ajoelhavam  passagem do Senhor, que lhes atirava moedas de cobre, da sua
escarcela: depois, em grupo, com os braos estendidos, ficavam a olhar o gigante que
corria atrs.
Ao fim do passeio, tendo parado numa clareira onde se erguia uma torre, o
menino no quis montar o potro, mas voltar ao castelo, cavalgando Cristvo. Debalde
o aio, com um joelho em terra, o potro pela rdea, lhe pediu para montar. Com o olhar
vivo, ele disse s: "Mas quero 1 E, suspirando, o velho aio ajudou-o a trepar at ao
pescoo de Cristvo, onde ele montou, com as suas esporas fixadas no peito de couro.
Ento a sua alegria foi extrema. Era como se estivesse no alto de uma torre que
caminhasse. Ora o fazia parar para apanhar as mais altas flores dos medronheiros, que
atirava ao cho; ora queria espreitar os ninhos; ora, espicaando o peito de Cristvo,
corria agarrado aos seus cabelos, como s rdeas de um ginete. E assim voltou ao
castelo, onde a me e a av, na grande varanda de pedra, apertavam as mos, entre
inquietas e agradadas, ao ver assim o menino cavalgar o gigante, como nos contos dos
menestris.
E desde esse dia a melhor alegria do menino foi cavalgar Cristvo. Eram ento
grandes correrias em torno s muralhas, ou em volta dos fossos, por vezes mais longe,
at  floresta, Cristvo sempre trotando, o menino sempre rindo. E assim pouco a
pouco o menino se afeioara a Cristvo, como a um cavalo que o compreendia, o fazia
rir, com corcovos violentos, ou passos largos e ondulados, como os de um vasto
dromedrio. Cristvo tambm, pouco a pouco, se dera de todo o corao  criana.
Quando o sentia sobre os ombros, toda a sua face se alumiava. Por mais fortemente que
ele lhe puxasse os cabelos, s sentia a carcia das suas mos. Para o fazer rir, relinchava.49
como um corcel de guerra; ou fingia medo,, no queria avanar, e as esporas do menino
rasgavam o couro do seu tabardo. Nos dias em que chovia e o menino no saa do cas-telo,
todo o dia Cristvo rondava tristemente pelos ptios, com a melancolia da sua
ociosidade: e de noite no recolhia  sua estrebaria, com os olhos na janela onde luzia a
luz que alumiava o menino.
Por vezes, porm, o menino queria que Cristvo viesse assistir ao seu jantar: - e
ento dois pajens abriam mais largos os grandes reposteiros de tapearia para que
Cristvo penetrasse na vasta sala, onde o tecto era pintado de azul, e salpicado de
flores que brilhavam como recortadas em ouro. Imvel a um canto, ele contemplava o
menino, que se sentava ao lado da av, numa cadeira de alto espaldar como a dela. Por
trs, o seu aio tomava os pratos da mo do escudeiro. Sobre a mesa, coberta de linho
fino, retiniam os copos de prata. Os bufetes vergavam ao peso das baixelas. Uma grande
fogueira bailava na chamin, onde estava representado o cerco de Antioquia: - e sobre
os poleiros, de ferro polido, os falces afiavam o bico.
Mas, por vezes, o menino queria Cristvo mais perto. Ento a me, resignada,
fazia um gesto seco: - e Cristvo, muito humilde, assustado dos esplendores
senhoriais, vinha, vergando os ombros, com o seu barrete na mo. O menino queria-o de
joelhos, com as mos no cho, e batia-lhe nas costas, estendia-lhe pedaos de carne, que
ele comia com rudo, para o divertir mais.
Outras vezes,  noite, um pajem vinha buscar Cristvo s cozinhas, e entrava na
grande sala, onde ardia uma fogueira na chamin. Sentada na sua cadeira, a av tinha
um livro de horas aberto nos joelhos, com o menino ao lado. Defronte a me fazia
tapearia. E um trovador, ao p, sentado num escabelo, contava um longo romance de
cavalaria e de amor. Era sempre um paladino de armas negras, uma dama encerrada
nalguma alta torre, um gigante guardando a porta de um castelo encantado. O menino
exclamava:
- Tambm eu tenho um gigante!
E fazia ento erguer Cristvo, que parecia monstruoso, com os grossos joelhos
vivamente alumiados pela chama dos troncos ardendo, a cabea quase perdida na
sombra das altas vigas. O frade erguia as plpebras dormentes; a dama ficava com a
longa agulha suspensa sobre a tapearia; e todos, olhando Cristvo, sentiam mais real e
viva a longa histria de fadas e cavaleiros. Depois os escudeiros serviam bolos secos, e
as grandes canecas do hipocraz.
Assim os dias tranquilos passavam no castelo tranquilo. O vigia, invariavelmente,
ao anunciar, com um toque de buzina, o nascer do Sol, iava no mastro da torre de
menagem a grande bandeira de seda com as armas do Senhor. As janelas do castelo
abriam-se; o sacristo varria a capela; o servo dos currais chegava, ajoujado com os seus
cntaros de leite; e os pajens, cantando como pssaros que acordam, desciam correndo
para o jogo da bola, ou para a lia coberta, onde o mestre de armas j experimentava as
espadas, vergando as lminas, ou examinava os ferros das lanas.
Se o tempo era claro, as damas e o menino davam um passeio pelos altos terraos.
O menino, por vezes, debruando-se, gritava por Cristvo, enquanto as damas
respiravam o ar fresco, ou seguiam o voo dos falces novos, que os falcoeiros
adestravam.
Ao meio-dia dois trombeteiros anunciavam o jantar dos Senhores; ao porto do
castelo iam-se juntando os pobres das terras senhoriais, para receberem depois nos
sales estendidos o resto dos pes, ou a carcaa das aves.
s vezes, pela tarde, um repique de pandeiretas, de guizos, anunciava a chegada
de uma companhia de menestris e jograis: um deles, com o barrete na mo, pedia
permisso para dar uma representao no ptio. As damas vinham ao balco; todos os.50
pajens corriam, o arquivista deitava a cabea fora da janela da torre, os cozinheiros
espreitavam de entre as reixas de ferro: - e no ptio os jograis, atirando bolas, danando
na corda, erguendo pesos, ou representando farsas, levantavam grandes ah! ah! lentos e
maravilhados. Quando saam, sempre algum deles chamava Cristvo com um gesto
discreto - e fora da ponte levadia persuadiam-no a vir com eles, na vida livre e alegre,
percorrer os castelos, visitar as feiras, entrar nas cidades, ganhar dinheiro para a velhice.
Ele recusava, com um mover lento da cabea. E eles seguiam voltando-se ainda para o
ver, calculando os ganhos que teriam com a exibio daquele gigante.
Outras vezes era uma comitiva de fidalgos que chegava em visita. O ptio estava
todo sonoro do relinchar dos corcis. Os pajens corriam azafamados. Nas janelas
batiam-se as alcatifas: - e nas cozinhas, o mestre, mais afogueado e vermelho que um
pimento, preparava grandes empades, de onde sairiam pombas vivas. Nesses dias o
menino tinha orgulho de mostrar o seu gigante: e, diante dos cavaleiros pasmados,
Cristvo corria em torno com o menino a cavalo no ombro. E o capelo dos hspedes
tomava sempre as medidas de Cristvo, para relatar nas histrias.
Outras vezes, j por noite escura, ressoava s portas do castelo uma trombeta de
guerra. E um cavaleiro entrava, silencioso, coberto de ferro, seguido do seu escudeiro.
Uma camareira corria com o gomil de gua perfumada para lhe derramar nas mos; um
pajem desembaraava-o da sua lana; outro marchava adiante, com uma tocha de cera; -
e o cavaleiro, com o seu elmo na mo, sacudindo os cabelos, lanava um nome sonoro
de paladino, famoso j naquelas terras. Ou ento era um peregrino, que os escudeiros
levavam primeiro  cozinha, onde ele alargava o Y seu manto diante do lume, para o
secar da humidade dos caminhos. Cristvo segurava com respeito o seu bordo, de
onde pendia uma cabaa. Em breve um capelo o conduzia s damas, a quem ele
cortava as suas jornadas, as maravilhas do Santo Sepulcro: - e Cristvo esperava, para
lhe beijar a orla da sua esclavina, que tocara no tmulo do Senhor.
Assim os anos passavam. O menino crescia - e agora comeava a ser ensinado em
tudo o que respeita s coisas da caa e s coisas da guerra. Todos os dias o monteador
trazia ces, para completar a matilha do Senhor: e chegavam, s costas das mulas,
caixas contendo armas tauxiadas, para o menino lhes aprender o manejo. Mas, por
desejo da av, que era dada s coisas do alegre saber, o menino passava longas horas
com o capelo, que lhe ensinava a conhecer as letras, os nmeros, e a traar o seu nome
num pergaminho. Pouco a pouco, o menino perdera a sua curiosidade por Cristvo. E
j por vezes passava diante dele sem lhe sorrir, ou lhe acenar com a mo, j calada com
o guantezinho de caa.
Mas Cristvo no vivia ocioso. Os pajens davam-lhe as armas para limpar. O
sacristo, velho e trpego, pedia-lhe para varrer a capela - e mesmo era ele quem
acendia os fornos da cozinha, ou lavava a baixela suja. Depois, um dia, a av, lendo
uma histria em que um gigante guardava um tesouro, quis que Cristvo guardasse a
torre onde estavam os arquivos e as arcas de dinheiro. A torre, ento, foi o seu cuidado:
constantemente a vigiava para a limpar dos musgos ou das ervas. Todas as manhas e
todas as tardes batia as reixas das janelas esguias, para que nenhum ferro estivesse
frouxo ou dessoldado. Era ele que levava o jantar, a ceia, ao arquivista, sempre
debruado sobre os seus pergaminhos. E agora dormia  porta da torre, com a grande
chave de ferro toda fechada na mo. Todavia o menino, s vezes, ainda queria ser
seguido por Cristvo. Eram esses os seus dias alegres. Como um co meio
abandonado, os seus olhos simples e bons imploravam uma carcia. Mas em breve, o
menino, com um gesto, o despedia: agora s se interessava por armas, por falces, por
ginetes de guerra. E Cristvo, suspirando, com o corao pesado, ia estirar-se junto da
torre, com a sua grossa chave sobre os joelhos..51
Depois, um dia, um parente chegou ao castelo, trazendo de presente ao menino
um ano disforme, pouco mais alto que uma seta, com uma cabea enorme de olhos
maus, e uma longa barbicha rala, que lhe fazia como o queixo de um bode. O menino
teve ento a paixo do seu ano. E nunca mais reparou em Cristvo.
A dor de Cristvo foi imensa. E o castelo tornou-se-lhe subitamente to frio e
deserto, como um cerro que as nortadas batem. Todo o dia os seus olhos espreitavam os
terraos onde o menino passeava, a porta por onde saa, a lia onde ele vinha jogar a
seta. E quando ele aparecia, Cristvo escondia-se por entre os ngulos das torres - no
se querendo mostrar por sentir que no era desejado, ou pelo receio de ver que no era
chamado com o riso alegre de outrora. E na sua simplicidade pensava: "Que lhe fiz eu?
Por que me no quer?" Todas as noites sonhava com ele. Era sempre a mesma criana,
com os cabelos louros sobre uma camisa muito branca, que caminhava sobre o seu
corpo, mas, em lugar de vir espreitar a sua face, s vinha para lhe enterrar a ponta da
sua seta, no stio onde sentia bater o corao, com um jeito que era seco e cruel.
Sentado  porta da torre, pensando naquela ingratido, soltava grandes suspiros: e
o arquivista debruava a cabea calva pelo postigo, aos rudos daquela dor. Para ao
menos estar misturado s coisas do menino, era ele quem limpava o seu potro favorito:
mesmo por vezes lhe beijava o focinho; e a sela em que o menino montava, as rdeas
cobertas de veludo, os seus estribos de prata, eram como coisas sagradas, em que tocava
com devoo.
Por esse tempo, uma manh, houve um grande rumor no castelo. O menino estava
doente. Bem depressa dois pajens partiram galopando - e no tardou a chegar, montado
na sua mula, o Fsico, com a sua caixa de drogas. Foram ento dias de inquietao. A
capela estava todo o dia acesa, e as aias rezando. De um convento vizinho vieram as
relquias de S. Tedulo. Os pajens, sem jogar, sem lutar, cochichavam com medo pelos
cantos: - e outros iam procurar pelos caminhos peregrinos, ou mercadores ambulantes,
que trouxessem de longe alguma receita nova e ignorada. Cristvo no dormia. Toda a
noite, os seus olhos estavam cravados na janela dos aposentos do menino. Interrogava,
tremendo, as camareiras. Ia pelos casais de colmo, dos servos, perguntando por ervas.
Foi muito longe consultar um pastor feiticeiro. E para que nenhum rumor inquietasse o
menino, ia de noite, com uma grande vara, bater a gua dos fossos, para fazer calar as
rs.
Um dia, porm, o menino apareceu no terrao do castelo, apoiado s duas
senhoras, plido ainda, sorrindo ao sol de Inverno. Todos os criados, os servos,
correram, saudando-o de longe com os barretes. A sineta da capela repicava ale-gremente.
E Cristvo, com as mos postas, esperava ansiosamente que os olhos do
menino se pousassem nele. O menino acercou-se da beira do terrao - e os seus olhos,
ainda vagos e tristes, pareceram nem reparar no seu gigante. Cristvo foi recolher  sua
torre, com duas grossas lgrimas rolando-lhe por entre as barbas
XIV
Todos o conheciam. Havia sempre para ele um pichel de vinho: - e Cristvo
O castelo perdeu ento para ele todo o seu encanto: - e, como que sufocado entre
os seus altos muros, voltava os seus pensamentos para os campos e para as moradas dos
servos, entre quem nascera. Como a paz era to grande, nenhum dos servios de guarda
era feito com exactido: as sentinelas dormiam nos torrees, como frades no locutrio;
os porteiros deixavam os molhos de chaves pendentes das argolas de ferro; e a torre dos
arquivos no precisava ser guardada. Logo pois que a varria, Cristvo, tomando o
bordo, ia pelas terras do feudo, pelos casebres dos colonos e servos..52
brincava com as crianas ou ajudava a tosquiar os anhos. Pouco a pouco, tornou-se o
servial de todos, e, como outrora na sua aldeia, era ele que acarretava os fardos,
rachava a lenha, compunha os telhados, lavrava os chos mais duros. Mesmo por vezes
ia pastorear os rebanhos ou guardava os moinhos.  noite ficava entre aquela pobre
gente, sem pena do bom calor das cozinhas do castelo, do po fresco, e da sua larga
poro de carne salgada. Reunidos  lareira, num dos casebres, eles passavam o fim da
tarde j escuro, olhando o lume, onde as raparigas assavam castanhas na cinza. E
Cristvo, no meio deles, escutava o seu falar lento e grave. Os mais velhos contavam
histrias do velho conde, homem cruel, que nos campos impelia o seu corcel contra os
lavradores, ou talava os vergis. Dizia-se que tinha pacto com o Demnio: - e muitos o
tinham visto caar de noite,  luz de tochas, guiado por um caador todo escarlate, que
tocava uma trompa de onde saam chispas de lume. Outros tempos mais doces tinham
vindo com o outro conde, o que morrera nas guerras, e com as damas, to dementes, que
as forcas patibulares estavam apodrecendo. Mas quanto lhes pesava ainda aquele alto
castelo, de brases e de flmulas! Que dura era ainda a vida, sempre sujeita, toda de
duro trabalho! E cada um contava a sua misria, o labutar incessante, o po escasso, os
filhos rotos pelos grandes frios, a fome por vezes vindo com os seus dentes de loba... As
vozes iam-se tornando mais tristes. O vento entrava pelas fendas dos casais. As mes,
com um suspiro, embalavam os beros, onde dormiam inocentes, votados  mesma
servido e  mesma misria. Cristvo sentiu o seu corao doer, com uma compaixo
infinita.
s vezes um frade mendicante batia ao porto, e entrando, deitando as bnos,
arrumando a um canto o seu alforge, ia aquecer s lareiras os ps doridos dos caminhos,
lacerados pelas urzes, e o hbito de burel que fumegava. Filho de viles, tendo nascido
nas lavouras, conhecia as misrias da servido: e, frade pobre, sofria da opresso, do
orgulho dos prelados ricos, com castelos e teros armados. Ento sentado na melhor
tripea, com o seu rosrio cado entre os joelhos, ele falava tambm da misria dos
tempos. Certamente Nosso Senhor, cansado de tanta maldade dos grandes, no tardaria
a voltar  Terra, distribuir melhor o po, reformar as ordens, abater o orgulho dos ricos-homens.
E quem sabe? Incompreensveis so os caminhos da Providncia! Talvez, para
castigar os castelos, Deus revoltasse as cabanas. Um chuo fura a melhor armadura,
quando  a mo de S. Miguel Arcanjo que o impele. Talvez na Terra se repetisse em
breve a batalha do Arcanjo e do Demnio. J um fogo andara no cu, para o lado do
oriente. E sobre o mar tinham-se visto, erguidas e entrechocando-se, uma foice e uma
lana. E ento, baixando a voz, contava como nos condados, que atravessara, os homens
se juntavam de noite numa floresta e tramavam o fim da servido.
Cristvo recolhia ao castelo pensativo. E todas aquelas torres, aquelas muralhas
lhe pareciam de um aspecto cruel e hostil ao pobre. Por que no haveria para todos a
mesma lareira, o mesmo po? Aqueles tesouros, que ele guardava na torre, seriam a
abundncia para criancinhas sobre toda a terra. Para que eram tantas armas? Os homens
no se deviam combater, mas somente abraar, em concrdia.
Um dia que ele assim pensava, sentado  beira dos fossos, um velho veio a passar,
um dos servos do castelo, picando o seu burro carregado de erva. Parecia ter pressa, e
no seu olhar havia como uma inquietao. Ao ver Cristvo, parou dizendo: "Novas
ms, novas ms!" E como Cristvo arregalava os olhos simples, o servo contou que no
mercado, de onde viera, corria entre a gente que um bando de servos se levantara, num
domnio, alm, para trs das colinas, tendo por brado: "Morte aos castelos!" Outros
servos se tinham juntado, com chuos. Toda a terra parecia em revolta. E j dois
castelos tinham sido atacados, as damas mortas, as crianas mortas, e agora as duas
torres ardiam sobre a colina. E, sem outra palavra, picou o seu burro carregado de erva..53
Mas imediatamente Cristvo se ergueu e o comeou a seguir. Quando chegou, atrs
dele,  aldeia, j havia grupos no adro, j se falava baixo  porta dos casais. A nova
viera no vento, e a todos espantava. Nas faces dos homens moos havia como uma
emoo, uma dvida, se no seria o dever de todos tomar as foices, as enxadas, fazer
armas com o ferro dos arados, ir juntar-se aos irmos de servido, vingar os pobres. Os
velhos abanavam a cabea, numa grande prudncia. De que serviria? Sempre os bares
venceriam, descendo nos seus grandes corcis. E as mulheres, inquietas, lembravam a
bondade das damas do castelo, as suas esmolas, os pedaos de anho que pelo Natal
mandavam a todos os casais. Que seria se o bando viesse atacar o castelo? No havia
soldados para o defender, nem armas. Pobres senhoras, to ss e fracas! Pobre
condezinho, to fraco e s!
Cristvo escutara em silncio. E em silncio, tambm, recolheu ao castelo. Toda
essa tarde rondou as muralhas, como para lhes estudar a solidez e a resistncia. Depois,
com os seus punhos fortes, palpou as portas. E como nesse momento o intendente
passava, seguido do seu grande co, perguntou:
- Que fazes, Cristvo?
Ele respondeu:
- Anda gente m pelos campos:  necessrio levantar a ponte.
O intendente sorriu, encolheu os ombros - e nessa noite fez rir as damas, contando
os terrores do gigante. Cristvo, porm, no dormia. No alto da torre da almenara, toda
a noite espreitou as terras em redor. Ao longe, sobre uma colina, havia como fogos de
um acampamento. Mas nenhum rumor se ouvia, seno o cantar dos sapos na plancie.
Quando a alvorada veio, Cristvo desceu: - e indo s abegoarias, escolheu duas trancas
enormes de ferro, que serviam para trancar as portas, agora desusadas. Depois a sineta
tocou  missa no ar fino. O arquivista veio sentar-se entre os seus in-flios, e as damas
distribuam o trabalho s fiandeiras e s servas. E todo o castelo repousava na santa paz
do domingo - quando um pajem, que nas ameias fazia uma armadilha aos pssaros,
soltou um grito, que acordou os archeiros, adormecidos na sua guarita de pedra. Logo
um som de buzina, um grande apelo de alarme ressoou. Todos os pajens correram s
ameias. As damas apareceram por trs das vidraas do balco. E os cozinheiros saam
aos ptios, com as suas caarolas na mo.
Bem depressa correu o grito que um bando armado avanava sobre o castelo. Os
pajens correram, em confuso,  sala de armas, a tomar espadas, lanas. Os guardas
trancavam as portas, desesperadamente. E o intendente, com os cabelos ao vento,
gritava que se aquecesse o pez, o alcatro, para despejar sobre o bando, se ele quisesse
escalar as muralhas. Mas ningum escutava, na desordem. A longa paz desabituara os
habitantes do castelo da disciplina, da prontido. No havia um cavaleiro para
comandar. E as mulheres, correndo para a capela, e chorando, amoleciam os coraes.
Subitamente um grande alarido ressoou sob os muros. Cristvo subiu s ameias:
- viu um bando imenso de homens, servos em farrapos, furiosos, brandindo foices,
chuos, tochas, amontoando-se na ponte levadia, que ningum se lembrara de erguer,
enquanto outros em redor, a grandes machadadas, abatiam as forcas patibulares e o
banco de pedra da justia, que o musgo cobria, sob o olmo senhorial. J golpes de
machado ressoavam contra a porta, fazendo saltar fascas. Um tronco enorme, que mos
inumerveis sustentavam, foi trazido, arremessado, como um arete, contra a porta, em
que ele marrava como um carneiro. De cima, os archeiros despediam frechas com mo
mal segura. Cada grito de ferido mais excitava a turba, as machadadas redobravam - e a
velha porta bem depressa foi aberta em lascas. Ento os archeiros, os pajens, desceram
para se refugiar na torre - e Cristvo, tomando nas mos as trancas de ferro, correu
para a torre senhorial. Dentro, na grande sala abobadada, estavam as damas plidas,.54
uma junto da outra, com o condezinho entre elas, quase escondido nos seus vestidos. O
velho senescal rezava de joelhos. E, em torno, amontoavam-se os in-flios, os arquivos
da casa, as grandes rvores genealgicas, tudo o que fazia o orgulho daquela famlia.
Era como a cidadela do feudalismo, onde tudo se achava resumido, a esperana de uma
casa, os seus ttulos, os seus tesouros, todo o seu orgulho. E tudo aquilo era ameaado
por uma plebe revolta!
Cristvo fora humildemente postar-se ao fundo da sala abobadada. E to grande
era o terror, to arreigado o desdm pelos servos, que no era nele que os Senhores
pensavam, nem no poderoso socorro da sua fora indomvel, mas nas espadas dos
pagens, a quem elas gritavam que defendessem a porta.
Atravs dos ptios, no entanto, j os gritos dos feridos ressoavam por entre o
clamor da turba de Jacques, que vinha como uma onda que arrebentou os diques. E mal
a porta da torre fora fechada, que sobre ela caram enormes machadadas, entre uivos de
furor, o rudo dos vidros que se partiam, os gritos dos servos assassinados. Dentro
ningum falava, todos com os olhos cravados naquela porta atacada - velhas pranchas
de carvalho e ferrugentas chapas de ferro, que eram a nica defesa contra a morte. Os
pajens, mais plidos que a cera, amolecidos pelos anos de paz, sem educao guerreira,
faziam diante das mulheres uma sebe de espadas - espadas cujas pontas tremiam. O
capelo rezava de bruos. E o arquivista estendia os braos por cima dos seus in-flios,
como para os proteger, com os olhos cravados na porta, e estremecendo a cada
machadada. S a av parecia serena, sustentada pelo seu orgulho, com o peito direito,
como preparado para a morte, enquanto a nora sucumbia agarrada ao filho, banhando-o
de lgrimas. E pela escada de caracol, que subia ao pavimento superior, apinhava-se a
criadagem, as aias - algumas ainda com a sua roca na mo.
Sob os golpes desesperados a porta cedia! Pelas fendas da muralha entrava o fumo
das fogueiras, que os Jacques acendiam no ptio para pegar o fogo ao castelo, com os
mveis que arrastavam das salas, cadeiras brasonadas, arcas cheias de estofos. J
ningum contava com a vida. Duas aias velhas, de rosrios na mo, pediam a absolvio
ao padre, que as no escutava, de joelhos, batendo os queixos, entre gritos de misereres.
De repente a porta cedeu, tombou sob os seus grandes gonzos estalados - e pontas
de chuos, de foices, faces lvidas, braos descarnados, irromperam numa fria de
matana. As damas tinham fugido. J um grande velho, em farrapos, pulava por sobre a
porta, com uma foice em cada mo - quando, do fundo da abbada, Cristvo surgiu,
enorme, com a face ardente, uma barra de ferro em cada mo.
Foi como uma apario - e a turba furiosa recuou com terror. Era como se
surgisse ante ela, visvel, real, esse gigante monstruoso, guardador de torres, de que eles
tinham ouvido falar, plidos de espanto, nas histrias contadas  lareira. E nesse
momento de espanto, Cristvo, com um grande brado, carregou sobre a turba, que
recuou em tropel, recolhendo os chuos e as foices. Baixando a cabea, Cristvo
rompeu da porta como uma grande torre, e no grande ar do ptio a sua figura escura,
coberta de uma pele de lobo, com duas chamas brilhando sob a hirsuta sebe das
sobrancelhas, pareceu sada do Inferno, e como cheia de fora invencvel. Os seus
brados faziam tremer os muros: - e as duas barras de ferro furiosamente cortavam o ar,
silvando. A cada um dos seus largos passos, a turba recuava, com um rouco murmrio
de terror. Alguns tinham fugido por entre as fogueiras, onde ardiam os grandes mveis
de carvalho lavrado. As mulheres do bando gritavam que era o Demnio: - e um ou
outro chuo que se erguia, voava em lascas sob o golpe da barra de ferro.
Para trs, para trs, sempre para trs, ia a turba, reatravessando os ptios,
tropeando nos servos que matara, caindo por sobre os lumes que acendera. J estavam
contra a muralha. J as costas se voltavam para fugir. Ento, com um ltimo urro, que.55
atroou toda a colina, carregou sobre a turba - que, num sbito pavor, varou a porta
aberta, galgou a ponte levadia, desceu de roldo a colina, at parar no vale, onde os
carros esperavam. E Cristvo, passando tambm a ponte, ficou no meio da colina,
imvel, grande como uma torre, apoiado  sua barra de ferro e limpando o suor. Mas
ento, de entre a multido que em baixo se agitava, um velho avanou, sem armas, com
um ramo de oliveira na mo - e caminhou para Cristvo. A meio da colina parou, e
erguendo os braos perguntou a Cristvo porque os atacava ele, servo, que decerto
sofria da servido, a eles, servos tambm, que no fim de tantos tempos de sofrimento, s
queriam partilhar de alguma das douras da terra? No era s pelo mal de destruir que
eles atacavam os castelos. E que ali, entre as suas muralhas, estava a gente orgulhosa
que os escravizava, causava a fome dos seus filhos, o frio das suas moradas, as fadigas
sem nome - e eles vinham simplesmente matar o mal da terra. Ele, velho, que lhe
falava, trabalhara cinquenta anos a gleba, tivera o corpo vincado pelos azorragues, vira a
sua choupana queimada pelo Senhor: em torno dele, longos tempos seus filhos tinham
gritado de fome, tremendo de frio - e, escorraado, esmagado, pisado, espremido pela
fora como um trapo vil, tomara uma faca, e partira a fazer justia no mundo. De todos
os seus, s lhe restava um neto, um neto pequenino, de seis anos, inocente e simples
como um anho. E porque ele tirara uma ma s macieiras do pomar do castelo, onde
era servo, o Senhor fizera-o dependurar pelas mos de uma rvore, acirrara contra ele os
ces, e toda uma noite de Inverno o deixara nuzinho sob a neve. Quando o despregaram
da rvore, estava moribundo. E a voz do velho tremia. Cristvo deixara cair a barra de
ferro, e com as mos vazias e vagas, e abertas no ar, a cabea cada, parecia pensar, no
fundo da sua simplicidade. E o velho, avanando, perguntava-lhe porque no viria com
eles abater os monstros que matam crianas nos seus negros castelos, acabar com os
amos cruis, para que sob o cu, um momento, os humildes respirem e limpem as
lgrimas. E o velho limpava as suas lgrimas, com as suas pobres mos que tremiam.
Ento, lentamente, Cristvo apanhou a sua barra. Pouco a pouco desceu a colina. E o
velho adiante gritava agitando o ramo, tropeando nos pedregulhos:
- Este  o grande gigante que nos vem libertar!
Os Jacques mal compreendiam. Alguns, vendo descer Cristvo, fugiam saltando
os valados. Outros, furiosos, enristavam os chuos. Mas Cristvo, brandindo a barra,
gritou:
-Vinde!
E num impulso irresistvel, todo o bando o seguiu numa aclamao - enquanto
das muralhas do castelo o intendente, entre os homens de armas, de p nas ameias,
estendia o brao, mostrando Cristvo, que se bandeava com os Jacques, e partia atravs
das campinas.
XV.56
Pelo comeo da tarde, guiados pelo velho, acharam-se subitamente, depois de
terem costeado um pinheiral, diante de um castelo que duas torres flanqueavam: e nesse
momento, vinha saindo da ponte levadia, a cavalo, um Senhor de longas barbas
brancas, sem armas; ao seu lado, montada numa hacaneia branca, uma aia sustentava no
colo uma menina, e atrs seguiam quatro escudeiros armados de lanas. Ao ver
subitamente aquela turba que avanava, o Senhor estacou, um dos escudeiros tocou
desesperadamente a buzina, enquanto outros toques respondiam sobre as ameias. E,
voltando a gua, a aia galopou para dentro do castelo. J as muralhas se cobriam de
soldados. Mas o Senhor, desarmado, fixara, sem se mover, os seus olhos de guia sobre
a turba imensa de maltrapilhos, que numa fila, sobre o caminho tortuoso, soltava
grandes gritos de ataque, brandindo os ferros. Ento Cristvo, com um grande gesto da
sua barra de ferro, deteve a turba, que parou. E, arrojando a barra, avanou s com os
braos abertos para o Senhor, imvel no seu grande corcel. Toda a muralha em cima
estava coberta de archeiros, de homens de armas. Todo o caminho em baixo estava
negro da multido dos maltrapilhos. E na ponte levadia, o cavaleiro e o gigante ficaram
ss, face a face.
Ento, arrancando uma grande voz do peito, Cristvo gritou:
- Vimos em paz. Trazemos as mulheres e as crianas. Nada temos contra ti... Mas
todos os que me seguem tm fome. Detrs das tuas muralhas, h tesouros, arcas cheias
de po, grandes peas de carne diante da lareira... Estes, que vm comigo, no tm uma
moeda de cobre, trabalham toda a vida, sofrem da fome, vem as criancinhas devorar as
razes, morrem pelos cantos dos bosques como um lobo, e a vida toda para eles  um
tormento... D uma esmola da tua abundncia a toda esta pobreza que passa. Se queres,
vem, no receies, passa atravs dessa multido, olha para esses corpos magros, v as
criancinhas chorando com fome, as velhas tropeando sob os fardos, toda uma misria
que j no pode sofrer mais... Tem piedade!
E tendo assim falado, Cristvo recaiu na sua simplicidade, ficou mudo, estpido,
com os seus grandes olhos de boi de trabalho pregados no castelo. Devagar, o Senhor
voltou rdeas, e a passo, com a cabea baixa e pensativa, sumiu-se sob a porta do
castelo. Mas as portas no se fecharam - e de dentro, em pouco, um servo saiu arras-tando
uma vaca; outros trouxeram carneiros; outros fortes gigos com po, sacos de
favas; outros uma arca, que vinha cheia de dinheiro; e tendo juntado tudo num monte
diante da ponte levadia, um dos servos gritou, retirando:
- Este  o dom do meu Senhor aos pobres que passam!
E a ponte levadia subiu com um forte ranger de correntes de ferro.
Comandados pelo velho, sem desordem, os Jacques carregaram s costas, nos
carros, o dom do Senhor, e de novo se meteram ao caminho, levando na frente
Cristvo, que parecia mudo e como espantado, com a sua grande barra de ferro.
Todas as manhs marchavam atravs de terras, duramente. Era o velho que os
guiava - e Cristvo, em silncio, caminhava ao seu lado, com a sua barra de ferro ao
ombro. Atrs era a longa fila dos maltrapilhos em farrapos, com velhas cotas de armas,
cuja malha se desfazia, morries amolgados, onde alguns tinham espetado plumas, as
pernas nuas, as mos erguendo foices, chuos, fueiros. As mulheres vinham depois,
umas com filhos magros pendurados das saias, outras trazendo os mais pequeninos ao
colo, e as mais velhas vergando sob fardos, onde se tinha reunido o que restava nas
arcas, algum escasso alqueire de po, uma almotolia de azeite, um pedao de carne
salgada; e atrs ainda era outra fila de homens, velhos, pastores com o seu cajado e o
seu molosso, ceifeiros erguendo ao alto a foice, servos fugidos, mendigos, longas filas
de miserveis que de esfomeados no podiam marchar depressa, e deixavam uma longa
nuvem de poeira, que ficava suspensa no ar..57
Um regato corria, na falda da colina. E a ficaram os Jacques, para passar a noite.
Em breve se acenderam fogos. O velho ps sentinelas a todos os cantos. E nessa noite
as crianas no choraram com fome, e houve uma gratido no corao dos homens.
Cristvo no quis mais que um pedao de po. Bebeu da gua pura do regato - e toda a
noite, sentado numa pedra; enquanto estirados no cho, sob as rvores, os Jacques
dormiam, ele olhou as estrelas e pensou em Jesus, que estava por trs, e quela claridade
das suas lmpadas, o via talvez entre esses desgraados, como um pai entre os seus
filhos.
De madrugada, os Jacques levantaram o campo, e guiados sempre pelo velho e
pelo frade, partiram ao longo do regato, at que, chegando aos primeiros carvalhos de
um grande bosque, sentiram um cheiro nauseabundo, e viram um homem, um servo,
enforcado num ramo de rvore, e j meio rodo pelos corvos. Uma indignao correu
entre os Jacques, quando alguns que se tinham adiantado descobriram outros corpos
pendentes das rvores. Ao rumor da turba, os corvos fugiam de entre a ramagem: e sob
os ps dos mortos, suspensos no alto, o cho estava todo espezinhado das patas dos
lobos. L em cima, numa colina, negras na luz clara, apareciam as torres de um castelo.
E aquilo era decerto a justia do Senhor!
Ento um clamor de clera correu entre os Jacques. Uns queriam logo lanar fogo
 floresta, para envolver o castelo. Outros falavam em abater rvores, para fazer aretes
com que bater as muralhas. E Cristvo, impelido pela multido, que atrs dele brandia
as foices e os chuos, comeou a subir um caminho que levava ao castelo, entre rochas
que o musgo cobria.
Avistaram, por fim, ladeando uma torre de menagem, altas muralhas negras e
sombrias, com grandes manchas brancas de pedra nova, que eram como cicatrizes de
assdios. A ponte levadia estava fechada, o gradil de ferro descido. E uma estacada de
vigas cercava o fosso, de gua esverdeada. Nem um rumor saa das altas muralhas.
Tudo parecia abandonado. De um dos lados, grandes rochas rolavam em desordem, para
um precipcio. Uma guia voava nas alturas.
Uma Inquietao deteve os Jacques ante aquele silncio sinistro. Alguns,
pensando o castelo abandonado, gritavam que se seguisse. Outros falavam de o escalar.
E Cristvo, ao acaso, caminhou para a ponte levadia. Mas, subitamente, as correntes
rangeram, a ponte abateu, e das portas que se escancararam, um troo de cavaleiros saiu,
de viseira baixa, a lana em riste, num grande galope e estridor de armaduras. Os
Jacques recuaram em massa. Cristvo estava s no planalto.
 frente dos cavaleiros, um, de grandes plumas brancas no elmo, a lana
enristada, correu sobre ele. Cristvo j no tinha a sua barra de ferro.
Mas correu a um pinheiro, agarrou-o s mos ambas, arrancou-o da terra, e
tomando-o como uma monstruosa vassoura, atirou-o, num gesto de servo que varre,
contra o cavaleiro e o cavalo, que rolaram, com um estampido de armas, embrulhados
na rama densa. Num pulo Cristvo empolgou o cavaleiro, e segurando-o entre os joe-lhos
como uma criana dbil, partiu-lhe as fivelas do elmo, descobriu uma cabea
lvida, uma espessa barba ruiva. Depois, erguendo-o ao ar como um broquei contra os
outros cavaleiros, que tinham estacado num espanto mudo, gritou desesperadamente:
"Resgate, resgate!" Os Jacques cercavam Cristvo, querendo despedaar o Senhor
prisioneiro. E ele erguia mais alto o miservel, que nem se movia, seguro nas mos de
ferro, e gritava: "Resgate, resgate!
Os outros cavaleiros, num furor sbito, correram sobre ele. Mas Cristvo,
saltando para a beira do precipcio, debruou sobre ele o prisioneiro, como se o fosse
despenhar na corrente e nas penedias, gritando sempre: "Resgate!" Ento os cavaleiros
pararam, e rapidamente consultaram-se, com grandes gestos dos seus guantes de ferro.58
at que um, avanando, bradou: "Est resgatado".
O velho ento avanou tambm, e exps o resgate. Queria dinheiro, vinte sacos de
po, vacas, vinho, para sustentar a sua gente, um juramento sobre a cruz de que no
seriam perseguidos, e dois carros para levar os mantimentos. O cavaleiro estendeu a
mo sobre a cruz do frade, e jurou.
Ento os Jacques, abaixando as armas, esperaram - enquanto Cristvo, sentado
na rocha, tinha o cavaleiro atravessado sobre os joelhos, com a mo direita agarrando-lhe
as pernas, com a esquerda a garganta. Pouco a pouco os servos saram do castelo
trazendo o resgate - e os Jacques desceram o caminho, rodeando os animais e os dois
carros com os sacos, o ouro e os odres de vinho. Cristvo ficara s com o cavaleiro.
Quando o ltimo homem desapareceu para alm da colina, ele pousou o cavaleiro no
cho com cuidado, e murmurou simplesmente: "Vai".
E, sem se voltar, passo a passo, foi-se juntar aos Jacques.
Ento comeou, de castelo em castelo, atravs das provncias, a marcha dos
Jacques. Das aldeias por onde eles passavam corriam a juntar-se-lhes miserveis, servos
revoltados, mendigos. Agora era uma multido imensa que enchia os caminhos. Mas
no havia neles nem violncia, nem clera. Iam mostrando, atravs das baronias ricas, a
sua misria de servos, e sem violncia pediam esmola. Cristvo era como um grande
pai, que mendigava com os seus filhos, pelos caminhos. Ao chegar diante dos castelos,
mostravam os seus andrajos, as faces maceradas, as cicatrizes da servido, e gritavam
por po. As portas abriam-se com fragor, e uns por piedade, outros por temor, davam
dos seus cofres e dos seus celeiros. Dia e noite, Cristvo mantinha a ordem na turba
imensa. No permitia que despojassem as rvores dos frutos, que se tomasse o gado nas
pastagens. S era aceite o que a caridade dava. Se encontrava mendigos, histries
famintos, gritava com um grande gesto: "Vinde tambm". O seu corao queria abrigar
toda a misria humana, lev-la a esmolar pelas estradas do mundo. Do dinheiro
recebido, repartia com as aldeias pobres. As crianas corriam estendendo os saios, que
ele s mos-cheias enchia de gro, de fava. Uma doura ia tomando aqueles coraes da
turba miservel. Alguns tinham arrojado a foice. Outros, ao passar pelas ermidas ou
pelos cruzeiros, caam de joelhos, chorando.
E sempre adiante, Cristvo ia como uma torre que marchava. Uma adorao
subia para ele. "Santo  o nosso gigante" - diziam. E, na sua confiana, julgavam que a
vida seria assim, eternamente, uma marcha pelos caminhos, recolhendo os bens que os
nobres repartiam com os pobres. Decerto Jesus voltara  Terra. Em breve todos os
castelos se abririam, e partilhadas as riquezas, quebradas as armas, no haveria fomes
nem guerras, e apenas, na paz dos campos doces, irmos abastados. O acampamento,
quando paravam, era como aldeia em festa, onde a carne abunda no espeto, e todas as
mos tm uma fatia de po. J a marcha se abrandava, e por vezes ficavam num vale, ou
 beira de um ribeiro, num repouso feliz, esquecidos de todas as misrias. Dos filhos,
das mulheres que tinham ficado nas aldeias, ningum se inquietava - porque, cada dia,
partiam mensageiros a levar aos casebres dinheiro e provises. Mas alguns, tendo feito
o seu peclio, recolhiam s suas moradas distantes, sem receio, tanta era a confiana em
Jesus.
E Cristvo sentia uma alegria imensa. De dia e de noite vigiava a turba enorme,
para que nela nada houvesse de violento ou de brutal. As questes que surgissem,
aplacava-as estendendo os braos. Se algum roubava as frutas dos caminhos,
expulsava-o da turba. A todos distribua a sua justia. A todos dava a sua caridade. E era
ele, no outro, que tirava os espinhos dos ps feridos, ou amparava os velhos fatigados
das marchas.
Assim vagueavam, quando uma tarde, chegando a uma grande lagoa, que, orlada.59
de canaviais, brilhava ao sol do Outono, viram do outro lado um longo troo de
cavaleiros, cujos pendes tremulavam no ar. Costeando a lagoa, decerto se
encontrariam: e os Jacques e os cavaleiros pararam, um momento surpresos.
Uma grande plancie estendia-se entre eles, toda cheia e coberta da erva amarelada
do Outono, desenrolando-se at a uma fileira de colinas, que grandes pinheirais vestiam.
O sol brilhava sobre as guas da lagoa - e havia um vasto silncio.
 frente dos Jacques inquietos, Cristvo ficara pensativo, um instante: - e ia
marchar para os cavaleiros, pedir a caridade para os seus pobres, quando por trs a turba
gritou: "Pra! pra!" Os homens de armas, desenrolando uma longa linha de batalha,
galopavam com as lanas enristadas contra a turba miservel. Com um brado, o velho
mandou-os erguer os chuos, as foices, as lanas, fazendo uma sebe de ferro contra
aquela pesada cavalaria, toda negra e de ferro, que fazia tremer o cho. J chegavam, j
Cristvo sentia o arquejar dos cavalos - quando um grande, imenso clamor soou, e a
confusa massa de ferro abateu sobre os Jacques, com um grande rudo de armas, furio-sos
golpes de montantes, cavando, com o peitoral em esporo dos cavalos, grandes
sulcos entre os Jacques, que tombavam varados pelas lanas, decepados pelos espades
vibrados s duas mos. A legio dos Jacques ficou separada em dois pedaos - com
uma grande fenda no meio, toda cheia de cadveres, espezinhados pelas patas dos
grandes corcis. E j esses dois pedaos corriam sobre o troo dos cavaleiros, quando
este se separou em dois, fazendo face s duas alas dos Jacques, e enchendo a plancie
com o clamor de duas batalhas. Pees, cavaleiros, misturados, faziam duas massas
clamorosas, onde os chuos dos Jacques se quebravam contra as armaduras, e as longas
clavas com puas dos cavaleiros esmagavam crnios, que apenas algum velho morrio de
ferro protegia. Os clarins dos cavaleiros tocavam furiosamente. Um relampejar de ferro
enchia o ar, por entre o esvoaar dos grandes penachos.
Os Jacques, tendo bem depressa quebrado o seu pobre armamento, arremessavam-se
sobre os pescoos e garupas dos cavalos e derrubavam a brao o cavaleiro que,
tombando com um grande rudo de armas, desaparecia, sob os braos armados de facas.
Outros, com foices, abriam o ventre aos cavalos. Alguns cavaleiros combatiam a p,
fazendo largos crculos com as espadas: - e as pedras, que os Jacques lhes
arremessavam, soavam furiosamente sobre o metal das couraas. Quatro grandes
ceifeiros, caminhando a passo como num milharal maduro, iam, com um movimento
regular, lanando as suas foices, que apanhavam os jarretes dos cavalos, levavam braos
de onde se tinham desprendido as braceiras de ferro, apanhavam pelas gorjas guerreiros
sem capacete. E no meio do combate, sem armas, como no querendo derramar sangue,
Cristvo, esguedelhado, enorme, ia com os seus enormes braos arrancando cavaleiros
das selas e atirando-os para o cho como fardos de ferragens. O sangue j lhe escorria,
da face, do peito, atravs do seu saio de couro, retalhado em longas fendas. Os seus
imensos brados faziam empinar os cavalos. Lanando mo aos montantes, quebrava-os
como palha. As puas e os broquis que arrancava iam pelos ares, como folhas que uma
rajada leva. Por vezes, correndo, com os dois braos e os punhos fechados, mais grossos
que cabeas de carneiros, atirava por terra, com um baque seco, os cavalos e os seus
cavaleiros. Tendo dado com o p num monto de cordas, apanhou-o, e quando agarrava
algum passava-lhe um n nas pernas e assim o deixava deitado no cho, como uma rs
num mercado. Pouco a pouco, todos os guerreiros se tinham voltado contra ele. E sem
armas, tendo apanhado pelos ps um cadver coberto de armadura, que usava como uma
maa, ele ia recuando, at  alta colina coberta de pinheiros. Sobre ele caam as flechas,
sobre ele ressoavam as pedras dos fundeiros. O gigante recuava mais - e subitamente,
correndo contra os assaltantes, derribava um, prostrava outro, com grandes pancadas do
cadver, que j perdera o capacete. O crculo dos cavaleiros crescia todavia sobre ele,.60
gritando-lhe injrias, arremessando-lhe de longe as maas. E cada vez esse crculo era
mais estreito, e todo eriado de ferros que rebrilhavam. Ele, sereno, fazia girar em torno
o cadver, cuja armadura se quebrara pouco a pouco, no tendo mais que os coxotes das
pernas por onde o segurava Cristvo, e mostrando j a carne branca, os cabelos duros
do peito. Mas de tanto bater, por fim, foi pouco a pouco perdendo a fora da ossatura,
tinha o crnio quebrado, os braos moles como trapos, a arca do peito esmigalhada - e
aquela arma terrvel no era j nas mos de Cristvo, mais que uma tira de carne mole.
Mas chegara  colina. A, em cada pinheiro, tinha uma arma. E j se voltava, atirava as
mos a um tronco enorme para o desarraigar, quando uma flecha, varando-lhe o joelho,
o abateu um momento, fazendo-o escorregar no declive hmido da colina. Ento, num
instante, um grande corcel negro veio sobre ele, uma lana faiscou - e Cristvo ficou
prostrado, imvel, com uma espuma de sangue na boca.
Todos se tinham precipitado sobre ele, quando um clamor surgiu por trs. Eram os
Jacques que se tinham reunido, e, guiados pelo frade, vinham contra aquele grupo de
cavaleiros, entalados contra a colina, nas terras moles onde os ps dos cavalos se
enterravam. Ento os homens de lana voltaram rdea, e fugiram entre a colina e os
Jacques, de novo direitos  plancie, juncada de mortos. Os Jacques bradaram vendo
fugir os cavaleiros, e comearam a correr atrs deles, atirando as ltimas flechas -
arremessando mesmo por escrnio grossos torres da terra lamacenta. Mas, vendo os
pees assim expostos na plancie, os cavaleiros deram uma volta brusca, e abateram-se
contra os miserveis. Foi uma grande matana, o frade cara logo com o crnio aberto, a
sua cruz apertada na mo. E os que fugiam eram perseguidos por toda a parte, at que,
atirando-se para a lagoa, as grandes lanas por trs os faziam arremessar  gua.
Agora, na vasta plancie, s havia homens de armas. Os Jacques juncavam a terra
em negras poas de sangue. Lentamente, trotando, os cavaleiros acabavam os feridos,
que gritavam de sede. Outros, parados, tirando os morries, limpavam as grossas gotas
de suor. Os fsicos amarravam os braos feridos. E os pajens passavam com grandes
pichis de vinho. O sol desaparecia, e toda a lagoa era como de ouro, por trs dos seus
grandes canaviais negros. Uma revoada de patos passou no cu, j plido. E ao toque do
clarim os Senhores, ainda esparsos, vieram-se juntando, retomando a fila. Os feridos
foram postos sobre as carretas. E, a passo, o troo de cavaleiros retomou o caminho em
torno  lagoa, onde o brilho de ouro se apagara, deixando-a agora toda negra e triste.
Na vasta plancie, jazem os Jacques mortos. Findou a grande marcha, que levava
aos castelos e abadias a viso estranha das grandes misrias da terra. Nenhum mais
voltar s cabanas da aldeia, onde os filhos esperam at tarde na lareira apagada. Os
Jacques esto mortos, a terra limpa dos seus andrajos.
Cristvo jaz estendido na colina, entre os pinheiros. Um vento passa, frio e triste.
Ele abre os olhos, e a custo, erguendo-se sobre a mo, olha a plancie. E em toda a sua
extenso v montes de corpos mortos, entre os quais reluzem j os olhos dos lobos. A
grande lagoa est imvel. Por cima passa a Lua cheia. Uma dor imensa arrefece o seu
corao. De novo os seus olhos se fecharam - e caiu inanimado.
Toda a noite, no entanto, ele reviu a batalha. Dos montes de Jacques mortos
outros Jacques se levantavam, com outros trajes, outras armas, impelidos  revolta pela
mesma misria que os oprimia. E sempre do fundo do horizonte, dos altos dos montes,
dos cimos, desciam cavaleiros, que tinham armas diversas, gritos de guerra diversos,
que carregavam, esmagavam os Jacques, os deixavam mortos, sob a grande Lua cheia.
Mas desses, pouco a pouco, mais plidos, outros se erguiam, brandindo picaretas de
mineiros, ferramentas de oficina, mostrando os seus andrajos, os filhos esfaimados,
clamando justia. E logo, a um brado do alto, fortes esquadres desciam, trazendo .61
frente magistrados togados, homens carregados de sacos de ouro, e essa massa, caindo
sobre os Jacques, de novo os prostrava, os deixava num monto, que a Lua, mais plida
e mais desmaiada, cobria de alvura e silncio. E assim, indefinidamente, os Jacques
renasciam dos ossos dos Jacques mortos, cada vez mais numerosos, at que a plancie
toda era uma sara de braos magros, clamando, pedindo igualdade. E imediatamente
outros esquadres desciam, mais diminudos, com um arranque menos vivo, hesitando,
lanando golpes mais frouxos. At que, por fim, os Jacques eram to inumerveis, que
da plancie se estendiam aos montes, e a Lua, que j desmaiara de todo, alumiava
multides disciplinadas, armadas, conscientes, que avanavam com ordem e ritmo. Os
esquadres, mandados contra estas coortes, fundiam-se como cera numa chama. Os
Jacques ocupavam a terra. Um ltimo cavaleiro veio ainda, e, derrubado, largou as
armas, desapareceu. E sobre a terra s ficavam Jacques, que cantavam em triunfo na
frescura da manh clara.
Ento, sentindo na face esta frescura, Cristvo entreabriu os olhos, ainda vago,
meio dormente, como num sonho. A luz fria e pura da manh penetrava sob as
ramagens que o cobriam. As aves cantavam finamente nos ninhos, com frufrus de asas,
de ramo em ramo. Um doce cheiro de rosmaninho e verduras novas perfumava o ar. E
na relva toda hmida, lustrosa de orvalho, havia em redor flores silvestres, botes-de-ouro,
papoilas frescas. Um fio de gua cantava friamente de pedra em pedra.
E ento pareceu a Cristvo que via um moo, de longos cabelos louros, com uma
tnica branca, onde se cruzavam as pregas de um manto branco, surgir entre as ramas
dos pinheiros, ao longe, vir para ele encostado a uma vara branca. Os seus passos eram
to leves, to leve decerto o linho do seu vestido, que as papoilas no se dobravam,
quando ele sobre elas passava, ligeiro e branco. E na penumbra dos arvoredos, um sulco
branco ficava, por onde ele passava, com um aroma to doce como se desabrochassem
naquela terra flores que no so da terra. Pouco a pouco se aproximou: - e Cristvo
podia ver os seus olhos pousados sobre ele, como duas estrelas da tarde. Docemente
ajoelhou ao lado de Cristvo, pousando o seu basto to levemente que nem vergou as
pontas finas das ervas. Com os dedos mais macios que veludo, percorreu as feridas de
Cristvo, que sentia as dores desaparecerem e como uma fora nova que lhe voltava.
Depois rasgou uma tira do seu manto, pousou-a sobre as feridas, a da perna, a do peito;
e aquela tira de linho parecia a Cristvo leve como o ar e perfumada como um jasmim.
Depois, apanhando o seu basto branco, em silncio, partiu, penetrou no bosque, e
pouco a pouco se perdeu entre os troncos negros, que um momento conservaram como a
claridade daquela passagem branca. Os pssaros recomearam a cantar. De novo as
ramagens se moveram brandamente. Ento Cristvo moveu os braos - depois ergueu
o seu imenso corpo. Todas as suas feridas estavam fechadas. E sentindo uma fora
nova, aquele bom gigante cortou atravs do pinheiral, e recomeou a correr mundo.
XVI.62
Nos caminhos, sentava-se nas encruzilhadas para guiar os peregrinos ou histries.
Se havia algum grande lamaal, ficava  beira dele para passar aos ombros os homens e
os animais. Era ele que partia as rochas, para se construrem caminhos. E nas florestas
onde sabia que deviam passar caravanas de mercadores, acendia grandes fogueiras para
afugentar os javalis.
Por vezes aceitava servir s um amo. Foi assim o servo de um curandeiro e
puxava, como um macho, a grande carriola, onde tilintavam os boies das ervas simples
e dos unguentos, e que parava nos adros das igrejas  tarde, depois das missas. Mas
sentindo que o fsico era interesseiro e duro - deixou o servio. Foi depois o escudeiro
de um cavaleiro errante, que encontrou banhando a ferida de uma perna  beira de uma
fonte. Cristvo sarou-lhe a ferida, e comeou a segui-lo nas suas aventuras,
caminhando, atrs do seu corcel, com uma maa feita de um pinheiro. Com o cavaleiro
fez grandes proezas. Libertou servos que um Senhor duro levava a enforcar por eles no
lhe terem tirado o barrete na estrada; desbaratou salteadores que infestavam o bosque;
restituiu a um rfo o condado que lhe haviam roubado parentes avaros; - mas, como o
cavaleiro tivesse ajudado a salvar unia dama, veio a casar com ela, teve um solar, aban-donou
os caminhos, e Cristvo, no querendo ficar naquela ociosidade, deixou o bom
cavaleiro, levando, como paga, uma bolsa farta de ouro, bons vestidos quentes, que ele
logo distribuiu aos pobres.
Ento, seguindo o exemplo do cavaleiro, passou a socorrer os oprimidos. De
noite, ao passar pelos castelos, derrubava as forcas patibulares. Se sabia de um campo
que fora roubado, forava o ladro  restituio. Salvou os bandos de mercadores que os
Senhores, com grandes lanas, assaltavam nos caminhos para os roubar. Onde soubesse
que o Senhor tinha imposto um trabalho excessivo aos servos, ia ele, no outro, fazer o
trabalho. Nunca diante dele deixava castigar uma criana. Se, passando num casal,
ouvia uma mulher chorar, e rumor de pancadas, quebrava a porta, tirava o pau das mos
do marido. Quando soldados deviam passar numa aldeia, ele ficava de guarda, para
impedir as crueldades da tropa. E ningum ousava afront-lo. J ia, ento,
envelhecendo. Os seus cabelos tinham-se tornado mais crespos, hirsutos: trazia sobre o
corpo farrapos, e a barba era rude e forte como um mato. Sob a barba, e sob as
sobrancelhas, ficava invisvel a doura incomparvel do seu olhar, do seu sorrir - e para
os que o viam, na verdade o seu aspecto era horrendo e temeroso.
Quando entrava nas cidades, as crianas fugiam, todas as portas se fechavam - e
os homens de guarda acudiam a saber de onde viera, a que baronia pertencia, e se tinha
licena de vaguear nos caminhos. Ele respondia que s queria trabalhar: e to humilde e
quieto ficava, junto de uma fonte ou ao canto de uma praa, que bem depressa as portas
se abriam, e, j sorrindo, as crianas voltavam. Todas faziam lembrar a Cristvo a
Joana da sua aldeia. A essa hora ela devia ser mulher, e talvez, por seu turno, trouxesse
Percorreu ento longas terras. E por cidades e campos s buscou, na simplicidade
do seu corao, ser til e bom. Batia  porta das cabanas, perguntava se eram
necessrios ali dois braos fortes, para todos os trabalhos. No pedia salrio. A cdea
menor de po era a que lhe bastava. E a gua tinha-a nos regatos mais frescos. Nenhum
servio por mais, forte, ou vil, lhe custava. Limpava todas as imundcies, com um
cuidado piedoso: e pedia sempre para si o maior fardo. Tirava a machada das mos dos
lenhadores, para abater as florestas. Puxava os barcos  sirga. Atrelava-se aos varais dos
carros. E se um campons queria mandar o seu burro  igreja, para ser benzido e
libertado de todo o mal, ele carregava o burro s costas, com tanto cuidado como se
fosse uma donzela. Se o injuriavam, baixava a face humildemente. Se o espancavam,
ficava imvel e quieto sob os golpes. Se o despediam, apanhava o seu bordo e partia
suspirando..63
pendurada das saias uma criana loura e graciosa como ela fora. Chamava algumas das
crianas espantadas, fazia-as saltar sobre os joelhos. Das gelosias as mes sorriam. J
ningum receava o gigante - e ele, sentindo-se aceite, comeava logo a ajudar os trolhas
que erguiam uma casa, ou a empurrar um carro atolado nas lamas. Bem depressa todos
queriam os servios daquela fora imensa. E era ele que limpava os mercados, caiava as
torres de fresco, transportava os fardos, apanhava a neve dos rios no Inverno, regava o
p das ruas no Vero, consertava os telhados, apagava os incndios - e, sentado  porta
dos hospitais, ia enterrar os mortos pobres. Colando a face s altas grades das prises,
consolava os presos, ajudava nos seus trabalhos os forados, e tendo reunido o seu
salrio em po ou em dinheiro, sentava-se num adro, e distribua-o pelos mendigos.
Ora um dia, saindo de uma cidade, encontrou no caminho um pobre histrio, com
uma perna de pau, e acompanhado pela mulher doente, que amamentava o filhinho.
Eram to miserveis e tristes, ele com uma espada debaixo do brao, ela suspendendo
aos ombros um saco de bolas e peloticas, que Cristvo comeou a caminhar ao seu
lado. Assim soube que outrora percorriam os caminhos e as feiras, ganhando
amplamente a sua vida, e (desde que ele, numa queda, perdera a perna) mostrando ces
sbios e um macaco, que faziam sortes maravilhosas. Havia dias, porm, estando numa
taberna, numa estrada, a repousar, tinham chegado os escudeiros e homens de armas de
um Senhor, que, embriagados, e numa rixa, lhe tinham, a grandes cutiladas, morto o
macaco e os pobres ces. Com eles se fora a sua fortuna. Trabalhar no podia, assim
manco. E agora s lhes restava mendigarem, at que o frio, a fome, os prostrassem uma
noite, a eles e  criana, mortos  beira de um caminho. E o saltimbanco acrescentava:
"Bem feliz s tu, que te fez Deus to grande, e te podes mostrar nas feiras ganhando
mais que um letrado a escrever!" - Decerto, o saltimbanco o tomava a ele, Cristvo,
por um desses gigantes que se mostram nas feiras. E apenas assim pensara, Cristvo,
com simplicidade, props ao saltimbanco que a troco do po, e da metade do ganho, o
levasse a uma feira, para o mostrar numa barraca. O pobre saltimbanco quase chorou de
alegria - e logo dali partiram para uma grande feira, que todos os anos, pelo S. Miguel,
se fazia junto de uma grande cidade murada.
Chegaram l de noite, e tendo obtido licena dos guardas para entrar, o
saltimbanco foi logo a um desses judeus que trocam dinheiro, pediu emprestado o que
era necessrio para construir uma barraca, erguer os estrados, suspender lonas
vermelhas, e possuir um tambor que anunciasse o gigante. O judeu, tendo examinado
Cristvo e certo que era monstro de boa mostra e de boa renda, contou, uma a uma, dez
peas de prata na palma do saltimbanco: - e, tendo assinado o papel diante do
corregedor da feira, o saltimbanco partiu com Cristvo, a construir a barraca. Toda a
noite trabalharam, pregando, martelando, enquanto a mulher do palhao cosia  pressa
uma tnica escarlate para Cristvo.
Ao outro dia tudo estava pronto, e posta sobre dois postes a grande pea de
paninho branco, em que se anunciava o maior gigante e o maior atleta de Navarra e dos
Mundos. Cristvo, sentado numa vasta caixa que um tapete recobria, esperava,
enquanto fora o saltimbanco, tocando tambor, anunciava a maravilha, e a mulher, com
cequins de metal nas tranas cadas, como uma moura, esperava diante de um prato de
cobre, onde deviam cair as entradas.
A feira era enorme, num vasto prado que defrontava com os muros da cidade. As
barracas de lona, de madeira, de tapetes, de ramagens, alinhavam-se em grandes ruas.
No topo dos mastros flutuavam bandeirolas. E homens enfardelados como orientais,
mulheres com plumas na cabea, outras com trajes de naes estranhas, conservavam-se
por trs dos balces, onde, segundo a rua, e os mesteres, se desdobravam panos,
reluziam jias em caixas gradeadas, se perfilavam os frascos de essncia, se amontoa-.64
vam as peles, se confundiam as armas tauxiadas. Noutras ruas, sob tendas de lona, havia
cozinhas, grandes barricas de cerveja ou de vinho. E os saltimbancos ocupavam um
lugar perto do rio, que longos olmeiros assombreavam. Em volta, por toda a vasta
plancie, era uma confuso de carros descarregados, de pilhas de madeira, de
cavalgaduras presas pelas patas, de grandes gigos onde se debatiam aves.
Apenas as portas da cidade se abriram, a multido comeou a encher as ruas da
feira, onde a erva desaparecera sob os ps. E bem depressa comeou o vozear dos
preges, os brados dos que chamavam fregueses, os atabales tocando  porta das
tabernas, as sinetas repicando.
Mas ningum fazia maior barulho que o saltimbanco coxo, rufando
desesperadamente o tambor, diante da tenda onde aquele bom gigante esperava,
pensativo. Bem depressa, homens do burgo, mulheres com crianas pela mo, os
feirrantes, comearam a entrar, deixando cair uma moeda de prata no vasto prato de
cobre. E apenas se levantava a cortina, era em todos os lbios um longo, ah! lento e
maravilhado. A barraca era alta, em forma de torre: - e, vestido com uma longa tnica
escarlate, bordada a lantejoulas e ouropis, com um turbante onde ondeavam enormes
plumas verdes, um colossal alfange de pau passado na cinta amarela, Cristvo era, na
verdade, um assombro e como um ogro disforme dos contos de fadas. Cheio de timidez,
no movia os braos: e um grande rubor invadia-o todo diante daquelas faces atnitas,
onde havia terror da sua fora, e como uma piedade da sua deformidade. As crianas
escondiam-se nas saias das mes: - e os homens, espantados, queriam apalpar a rijeza
dos seus msculos. Cada grupo que saa ia contar nas tabernas, espalhar por toda a feira
a maravilha daquele gigante. J uma lenda circulava - e era ele, no outro, que derrotara
o imperador da Ocitnia, matara um grande drago que infestava os Algarves, e, s com
a empurrar, derrubara a torre construda pelo Diabo para Roberto de Normandia. Todo o
dia uma grande fila esperou  porta da barraca - e  noite sobre o prato de cobre havia
um monte de dinheiro esboroado.
Pouco a pouco, Cristvo habituara-se  multido - e mesmo, para fazer rir as
crianas, fazia esgares, ou agarrava um homem pelas pernas e erguia-o como uma palha
ligeira. Depois levantou com dois dedos uma barrica cheia de pedras, torceu com os
dentes grossas barras de ferro, e de uma s pancada, com o punho fechado, fendeu uma
m de moinho.
 noite estava coberto de suor: - e enquanto o saltimbanco e a mulher, com a face
radiante, faziam as pilhas do dinheiro, ele tomava ao colo e embalava a criancinha, que
nos seus braos tinha um sono mais doce.
A sua fama correra no burgo - e o prprio prncipe que ali reinava, e o bispo,
vieram em grande comitiva, com cavaleiros e pajens, ver o gigante. Foi grande neles a
maravilha. E o prncipe, homem de grandes msculos, queria medir as foras com
Cristvo, jogando a qual deles vergaria a mo do outro. E diante daqueles cavaleiros,
por humildade, Cristvo cedeu, e deixou que a mo cabeluda do prncipe vergasse a
sua. Os cavaleiros aclamavam o Senhor. E o prncipe, radiante, despejou a sua bolsa
cheia de ouro nas mos de Cristvo, isentou a barraca do saltimbanco de todos os
impostos ao corregedor, e mandou, de noite, moos da cozinha com tochas, trazer uma
perna de veado e empades da sua mesa.
Todas as noites, o saltimbanco, partindo o dinheiro, dava a sua metade a Cristvo
- que ele guardava numa cova, a um canto da barraca, coberto com tinia m de moinho.
Depois ia pela feira solitria, e todo o servio era ele que o fazia. Carregava as barricas
de vinho, descarregava os fardos, limpava o cho das barracas, e,  porta das cozinhas,
fazia a lavagem dos pratos de estanho.
Mas o fim da feira chegara, e uma noite, em que sentia o barulho das barracas que.65
se desmanchavam, o saltimbanco contou os seus ganhos - e as lgrimas bailaram-lhe na
face, porque para sempre estava ao abrigo da misria. Ento Cristvo desenterrou o seu
tesouro, e em silncio veio junt-lo ao dinheiro do saltimbanco, murmurando: " para a
criana". Duas moedas de cobre tinham rolado no cho. Cristvo apanhou-as, beijou-as
como uma esmola que lhe atirassem, beijou a criana, saiu da barraca. E, tendo
comprado uma broa e um pichel de vinho, deixou a feira que se desmanchava.
XVII
Pouco a pouco, a sua bondade ocupou-se dos animais. Tambm eles sofriam e
tinham sobre a Terra o seu quinho de misria e de dor. Quando via ento um animal
carregado, tomava sobre os seus ombros o fardo. Recolhia ossos, pelas esquinas dos
mercados, para distribuir aos ces famintos. Era o enfermeiro dos animais feridos, a
quem lavava as chagas, onde as moscas se prendiam. Um passarinho, voando, enchia-lhe
o peito de ternura. E penetrava nas florestas, na esperana de cuidar dos velhos
lobos doentes, ou dos veados que morrem de fome pelos tempos de neve.
Depois, pouco a pouco, na sua alma densa e simples veio a nascer lentamente a
ideia de que as rvores tambm sofriam, bem como as florinhas dos campos. E desde
ento nunca mais cortou um tronco, para dele fazer um cajado. Todo o ramo, partido e
seco no cho, o compadecia. Arredava-se para no pisar a erva. E pelos tempos de seca
fazia longas caminhadas ao rio para trazer gua, e dar de beber s plantas sufocadas pelo
p dos caminhos. Nas pedras mesmo, veio por fim a suspeitar que podia haver um
sofrimento. A picareta que as cortava, as duras rodas que as vincavam, o sol que as
escaldava, a neve que as cobria, no lhes fariam uma dor, que elas guardavam na
profundidade da sua mudez? E muitas vezes, com o seu vasto corpo, fez sombra s
rochas; com as suas mos,  maneira de longas ps, livrava as pedras das frialdades do
gelo.
A sua ternura abrangia o Universo. Por vezes, de noite, olhando o cu, vinha-lhe
como um grande amor pelas estrelas. Elas eram claras e puras. Um momento brilhavam,
De novo Cristvo correu o mundo, servindo os homens. Pelos descampados e
pelos povoados, por longos Invernos, por longas Primaveras, correu o mundo,
oferecendo os seus braos. Os anos tinham passado, e Cristvo era mais velho que os
mais velhos carvalhos. Os seus longos cabelos tinham embranquecido, e a sua fora j
no era to forte. Mas cada dia o seu corao se enchia de uma ternura maior e mais
vaga. Por vezes, sentado numa pedra,  beira de um caminho, olhava as rvores, os
campos, os montes, e as simples flores silvestres, e sentia ento como o desejo de
apertar toda a Terra contra o seu peito. Depois pensava que sobre ela viviam tantos
miserveis, tantos humildes, tantos enfermos - e era um desejo de sondar at aos
ltimos recantos aquele mundo, e de curar cada dor, matar cada fome, tomar o mundo
alegre, so, perfeito. Partia ento - e atravs das estradas mendigava para dar aos
mendigos. Colocava-se  entrada das pontes, como um socorro sempre pronto - a ajudar
um velho ou a carregar um fardo. O seu desejo seria sofrer ele s todas as opresses,
carregar ele s todos os fardos humanos. E por vezes parava, olhava em redor, como
procurando, nos vastos horizontes, servios a prestar, fraquezas a socorrer. Depois
pensava que eles, inumerveis, decerto se apresentariam cedo aos seus olhos. E partia,
ficando triste, quando durante o dia os seus braos tinham permanecido ociosos. Para
que lhos dera ento Jesus to grossos e fortes? Ia ento sentar-se  entrada das pontes,
onde a passagem era maior, como uma fora pronta a trabalhar, pronta a socorrer. Se era
um cavaleiro que passava, corria a buscar gua para dar ao cavalo. Se era um carreteiro,
ajudava as mulas a empurrar o carro. Se era um mendigo, mendigava para ele..66
depois partiam. E a Lua que chegava ento era to triste, que um suspiro, sem som,
levantava o corao de Cristvo. Para onde iam assim todos aqueles astros, correndo,
correndo? E viera a pensar que seriam almas subindo, subindo nos espaos, mais altas 
medida que eram mais puras, ganhando uma lgua por cada bondade que realizavam e
tendendo assim  perfeio, at se tornarem dignas de se abismar no seio sublime de
Jesus.
XVIII
Cristvo desceu, apareceu diante dos homens. Todos se juntaram, tirando
facalhes do cinto, no terror daquela fora e daquela deformidade. Depois, como ele de
longe lhes falou com humildade, todos, pouco a pouco, o cercaram, perguntando o que
acontecera  ponte que ali havia. Cristvo no sabia. E ento disseram-lhe que aquele
era um caminho curto e fcil que havia naquelas terras. Mas tinha aquela passagem ma,
o rio tumultuoso. Outrora houvera ali uma ponte de barcas amarradas com correntes.
Mas o rio quebrara as correntes, levara as barcas, como palhas secas. Depois tinham
lanado uma ponte de madeira e o rio outra vez levara a ponte. No entanto o Senhor
daquelas terras morrera, e tendo elas passado a um outro que vivia nas cidades, ningum
mais se ocupara de fazer uma ponte aos viandantes. E agora ali estavam eles, sem
poderem passar, e as mulheres e os filhos esperavam-nos, debalde, nas suas moradas
para alm dos montes.
Cristvo, no entanto, olhava a gua. E em silncio mergulhou no rio, e comeou
a atravess-lo. A gua cobriu os seus joelhos, subiu at  cintura, por fim bateu
furiosamente sobre o seu peito, como sobre o pilar de uma ponte. E Cristvo
caminhava. Depois a cinta de Cristvo saiu da gua, depois apareceram os seus
joelhos, e a escorrer, ele ps p, enfim, nas rochas duras da outra margem, onde um
caminho ngreme subia entre fragas. Cristvo passara o rio.
Voltou, e abrindo os braos para os mercadores espantados, gritou:
- Quem quer passar?
Um mais novo logo se ofereceu. Cristvo tomou-o sobre os seus largos ombros,
em cada brao carregou um fardo, enquanto os outros, ansiosos, rezavam  Virgem.
Cristvo passou - e do outro lado, o mercador, radiante, fazia grandes gestos aos
companheiros, gritava que o gigante era seguro. Ento Cristvo passou os homens,
depois os fardos. E por fim agarrando as mulas, que zurravam espantadas, conduziu
para o lado de l toda a caravana, sem que um plo dos animais, ou uma corda dos
fardos, ou um sapato dos homens se tivesse molhado. Tendo combinado baixo, os
homens puseram-lhe na mo um punhado de dinheiro, deram-lhe um rolo de cordas, e
deixaram-lhe po para uma semana.
Logo nessa tarde Cristvo, examinando aquele lugar agreste, recolheu troncos
quebrados, ramarias secas, e calando a madeira na fenda das rochas, arranjou com a
corda um longo, estreito telheiro, onde o seu corpo se abrigasse das chuvas e das neves.
Depois, tendo desembaraado dos pedregulhos o caminho, esperou, sentado na grande
solido, que aparecessem viandantes. No tardaram a aparecer na outra margem um
grupo de frades, que viajavam com o abade, montado numa mula. Apenas os viu,
Assim envelhecia aquele bom gigante. Ora, um dia que caminhava por uma colina
entre rochedos, ouviu um rumor de vozes que parecia vir do fundo do despenhadeiro.
Desceu, agarrando-se  ponta das rochas. E viu um largo rio, negro e tumultuoso, que
corria espumando sobre as rochas que o cortavam, com um mugido sombrio.  beira
dele, estava um grupo de mercadores com os seus machos carregados. E do outro lado,
eram rochas, a pique, um monte que se elevava, coroado de negros pinheiros..67
Cristvo atravessou - enquanto os frades, aterrados, lhe faziam grandes acenos, para
que se no arriscasse naquelas guas da torrente. Mas quando o viram chegar, enorme, a
escorrer gua, e com os braos abertos para os receber, hesitaram, pensando ser uma
cilada do Demnio. A cruz que o abade traou no ar, e que Cristvo repetiu sobre o
peito, logo os tranquilizou-murmurando entre si que ento, certamente, era um auxlio
do Senhor. Um por um, arregaando o hbito, cavalgaram Cristvo, e no meio do rio,
sentindo a gua furiosa bater a cinta do gigante, gritavam o nome da Virgem, Estrela
dos Nufragos. Depois, quando Cristvo os pousava na outra margem, enxutos, era um
espanto, e baixando os hbitos, reapertando as sandlias, riam daquela ponte viva que
trabalhava nas guas. O abade passou, passou a sua mula. E os frades deixaram a sua
bno ao gigante e um ramo de buxo benzido.
Comeou ento para Cristvo uma vida estvel, quieta, junto daquele rio. Nas
horas em que no havia gente, esperava sentado numa pedra, olhando correr a gua, ou
ento alargava o caminho e construa  beira de gua, com pedras, como um cais onde a
gente lhe subia para as costas. A cada instante, porm, havia algum a passar - e como
Cristvo era j conhecido, os viandantes, do alto da colina, vinham logo gritando: "Eh
gigante!" Alguns, mais brutais, se ele se demorava, rompiam em injrias. Outros, que o
vinho bebido nas tabernas da estrada excitava, arrepelavam-lhe os cabelos. Ele, quieto e
humilde, fendia as guas. Por vezes era um cavaleiro que, com a sua pesada armadura,
lhe esmagava os ombros, e rindo o espicaava com os acicates. Outras vezes era uma
dama que se horrorizava com a fealdade de Cristvo, tapava a face, e apenas passada
para a outra margem lhe fugia das mos, mostrando o seu nojo. O maior trabalho era
com os animais. Havia rebanhos que levavam todo um dia a passar. Os ginetes de
guerra, furiosos, mordiam-lhe os braos. E os galgos, latindo, queriam saltar para o rio,
entre a indignao dos fidalgos, que atiravam pedras a Cristvo. Nenhum esforo
custava ao bom gigante. Passava os fardos mais duros, grossas barricas de vinho, pedras
enormes para a construo das abadias. Passou touros, que iam para um curro de
fidalgos. E passou um bando de leprosos, que fugiam de uma cidade, e lhe deixavam
sobre a pele o pus das suas fstulas.
Se lhe no pagavam, baixava a cabea, saudando com humildade. Se lhe
pagavam, beijava a escassa moeda de cobre: - e guardava debaixo de uma pedra esse
dinheiro, para o repartir com os mendigos.
Assim vivia desde longos anos. A sua cabea j se vergava, os seus braos j no
eram to fortes. Por vezes, sob os grandes fardos, gemia lamentavelmente. Todos os
seus membros estavam como troncos nodosos, inchados pela humidade constante. De
todo ele saa um cheiro a vasa e a limo. E as suas pernas, sempre na gua, tinham um
tom verde, como as estacas de uma levada.
O seu leito de folhas secas era-lhe doce, e quando sentia vozes que o chamavam,
era com um gemido que se erguia. J lhe levava o dobro do tempo a cortar a corrente - e
por isso eram constantes as injrias que recebia. Para se apoiar na gua, sentindo que as
suas foras diminuam, teve de fazer um grande basto aguado, com um tronco. E cada
Inverno pensava, com inquietao, se a fora lhe sobraria para fender a corrente furiosa
do rio mais cheio.
Agora, apenas passava os viajantes, logo se vinha deitar. E chegou mesmo a pedir,
por caridade, que lhe deixassem um pouco de vinho, para tomar nas noites muito duras,
como um cordial que o amparasse. Oh! muito pouco, um pichel somente... Ele,
cautelosamente, o pouparia.
Ora uma noite de grande Inverno, em que ventava, nevava, e o rio muito cheio
mugia furiosamente, Cristvo, j muito velho, trpego, com feridas nas pernas, dormia
no seu cho molhado - quando fora, na noite agreste, uma voz pequenina e dolorida.68
gritou: "Cristvo! Cristvo!"
Com um gemido, logo se ergueu aquele bom gigante. Abriu o loquete da sua
choa. E viu diante de si uma criancinha, pisando descala a relva, com os cabelos a
esvoaar no vento e na chuva, e apertando sobre o peito, com as mozinhas, a camisa
muito branca que o cobria. Espantado, com lgrimas, Cristvo abriu os braos.
- Oh meu menino, quem te trouxe?
E tremendo toda, no frio e na neve, a criancinha murmurou:
- Cristvo, Cristvo, estou sozinho e perdido, e por quem s te peo que me
leves a casa de meu pai!
J Cristvo arrancara dos ombros a pele em que se agasalhava, e envolvia nela o
corpinho tenro que tremia.
- Oh meu menino, onde  a casa de teu pai?
A criancinha estendeu o brao para o outro lado, onde os montes negros se
erguiam. E murmurou muito baixo:
- Alm, para alm, muito longe...
Mas um espanto tomava Cristvo. Porque debaixo da pele negra de cabra, de
novo a camisinha da criana aparecia rebrilhando na noite negra, toda branca de linho.
Muito humilde, baixando para ele a face, o bom gigante disse, muito humilde:
- Oh meu menino, vem, que eu te levo ao colo.
A criana estendeu os braos pequeninos. Cristvo com cuidado e docemente a
foi pondo ao ombro. Mas, bruscamente, os seus joelhos vergaram, tocaram a rocha, sob
o imenso peso que o esmagava. Ah! quanto pesava o menino! Com custo, se firmou nas
suas velhas pernas doridas. Desceu, arrimado ao seu basto, o caminho escorregadio,
mergulhou na gua os ps - e logo a corrente mugiu furiosamente em redor, atirando a
espuma at aos ps da criana. Arquejando, Cristvo rompeu a gua. O vento imenso
silvava, e atirava-lhe sobre os olhos, que a humidade embaciava, os seus longos cabelos
grisalhos. Ele disse: "Ah! meu menino, meu menino!" A cada passo sentia que o leito
limoso do rio lhe fugia sob os ps. Todo ele tremia, firmado no bordo. E a gua, toda
branca de espuma, empurrava-o furiosamente, com um marulho medonho. Na densa
escurido nada distinguia, nem sabia onde estava a outra margem. Grossas pedras de
granizo de repente caram, e o menino, arrepiado, todo se aconchegava  sua face. J a
gua temerosa lhe chegava ao peito. Tropeou numa rocha, e, quando se susteve, sentiu
a gua, furiosa, gelada, correndo a roar-lhe as barbas. Arrojou o bordo, e com as mos
ambas ergueu o menino ao ar. Mas mal o podia sustentar, grandes vagas j lhe batiam a
face. Arquejando, parava para respirar fora da gua, e bebia a espuma turva e amarga.
Grossas traves, que a corrente acarretava, batiam-lhe o corpo. Os seus ps rasgavam-se
em pedras agudas. E ele, num esforo enorme, os braos esticados ao alto e todos a
tremer, sustentando o menino, arrojava o peito para a frente, com gemidos que eram
mais fortes que o vento. Duas vezes os seus joelhos fraquejaram, ia cair sob a fora da
torrente; duas vezes, com um esforo sobre-humano, se manteve firme, erguendo ao alto
o menino. A gua j lhe chegava pela barba, e a espuma das vagas humedecia-lhe os
olhos. E, sempre arquejando, rompia, com as mos a tremer todas do peso imenso do
menino. Mas os seus ps encontraram uma rocha firme, e a gua desceu outra vez at ao
peito. Na rocha resvaladia, porm, os seus passos mal se podiam sustentar. E era por
um esforo da alma, que se empinava, arquejando. Mas ia saindo do rio. A gua j lhe
descera  cintura. E o fragor da torrente parecia abrandado e como remoto. Grandes
pedras emergiam da gua. J apenas tinha mergulhados os ps, que ele sentia
dilacerados. Um esforo mais, e estava na margem, salvo, apertando contra o peito o
menino.
Mas, naquele esforo supremo, toda a sua vida se fora. No podia mais. E j se.69
sentava, exausto, numa rocha, quando o menino lhe murmurou que no parasse, que
marchasse ainda, o conduzisse  casa de seu pai. E Cristvo, arquejando, comeou a
trepar o ngreme caminho da serra. Uma vaga claridade errava nos altos. E as rochas, os
abetos, emergiam da treva densa, que os afogara. Uma frialdade traspassava o ar - e
Cristvo tiritava, com o seu pobre saio de estamenha encharcado, que ia pingando na
terra mole. E mais baixo murmurava: "Ah! meu menino! meu menino!...
Cada vez mais escarpado, entre rochas, se empinava o caminho da serra. E
Cristvo todo curvado, com os seus cabelos cados sobre a face e pingando, arquejava
a cada passo. Subiria ele jamais at  morada do menino? E uma grande dor batia-lhe o
corao, no terror de cair sem fora, e a criancinha ficar ali, naquele ermo rude, entre as
feras, sob a tormenta. A cada instante tinha de arrimar a mo a uma rocha, desfalecido,
de se prender  ramagem de um abeto. E a claridade crescia; j, no alto dos montes, ele
via palidamente alvejar a neve.
- Oh meu menino, onde  a casa de teu pai?
- Mais longe, Cristvo, mais longe...
E aquele bom gigante, agasalhando os ps do menino na dobra da pele de cabra,
que o vento desmanchava, seguia com longos gemidos no caminho infindvel, que mais
se apertava entre rochas, eriadas de silvas enormes. Por fim, mal podia passar; as
pontas das rochas rasgavam-lhe os braos, os longos espinhos, atravessados, levavam-lhe
a pele rude da face. E seguia! J das feridas lhe pingava o sangue, e os olhos emba-ciados
mal distinguiam o caminho, que parecia oscilar todo como abalado num tremor
de terra. Uma luz, no entanto, mais viva, cor-de-rosa, j subia por trs das linhas dos
cerros.
Mas Cristvo parou, sem poder mais. Com o menino agarrado nos braos, ficou
encostado a uma pedra, arquejando.
- Onde  a casa de teu pai?
- Mais longe, Cristvo, mais longe...
Ento o bom gigante fez um prodigioso esforo, e a cada passo, meio desfalecido,
os olhos turvos, a cada instante lanando a mo para se arrimar, tropeando, com
grossas gotas de suor que se misturavam a grossas gotas de sangue, rompeu a caminhar,
sempre para cima, sempre para cima. Os seus ps iam ao acaso, no desfalecimento que o
tomava. Uma grande frialdade invadia todos os seus membros. J se sentia to fraco
como a criana que levava aos ombros. E parou, sem poder, no topo do monte. Era o
fim: um grande Sol nascia, banhava toda a Terra em luz. Cristvo pousou o menino no
cho, e caiu ao lado, estendendo as mos. Ia morrer. Mas sentiu as suas grossas mos
presas nas do menino - e a terra faltou-lhe debaixo dos ps. Ento entreabriu os olhos, e
no esplendor incomparvel reconheceu Jesus, Nosso Senhor, pequenino como quando
nasceu no curral, que docemente, atravs da manh clara, o ia levando para o Cu..70
SANTO ONOFRE
I
Onofre, desde os vinte anos, vivia no deserto da Tebaida.
A sua caverna de Solitrio era no alto de um monte, todo de rocha avermelhada e
nua, sem um tojo ou musgo que lhe amaciasse a aspereza: - e decerto outrora abrigara
salteadores sarracenos, porque a vasta laje que diante dela se estendia, em eirado, estava
cerrada e defendida por um muro de pedras soltas, enegrecidas pelo fumo de labaredas,
e com seteiras, como as de uma cidadela. Rudes degraus, escavados na penedia,
desciam tumultuosamente a um vale, onde um fio de gua, caindo de fraga em fraga,
criara um horto de ervas silvestres, tamargueiras, terebintos, trs altas palmeiras, e
mesmo uma mimosa, que em cada Primavera floria e perfumava o ermo. Para alm,
depois de grossos penhascos de prfiro, eram as areias, as imensas areias arbicas,
ondulando at ao mar Vermelho, lisas, fulvas, como a pele de um leo.
Cada vez que a mimosa se cobria de cachos amarelos, Onofre, com um ferro de
lana encontrado no fundo da sua caverna, entalhava na rocha um risco, como os que
seu pai, na sua taberna, em Afrodite, sobre o Nilo, traava no muro para apontar os anos
do vinho maretico.
Todos os trs meses, um monge aparecia, montado no seu dromedrio, trazendo
em seires de esparto esses pes de aveia, duros e mais largos que rodas, que os abades
dos mosteiros distribuam pelos Solitrios. Sem descer do dromedrio, o monge dava a
Onofre o seu po, bebia uma malga de gua fresca, contava a nova considervel de
algum dito imperial sobre os Cristos, de um outro Csar aclamado pelas legies, ou
de uma heresia inesperada que afligia a Igreja - e partia, desaparecia entre as dunas,
curvado sob o seu longo capuz, ao lento badalar dos guizos do seu dromedrio. Por
muitas luas, Onofre no avistava outra face humana. E a sua vida recomeava, sempre
igual, como a gua do seu horto, que, com o mesmo rumor, escorria nas mesmas pedras.
Cada noite, ainda com as estrelas empalidecendo no cu, deixava o monto de
folhas secas que lhe servia de leito, atava uma corda em torno da sua tnica de pele de
cabra, e ajoelhado, com os braos abertos diante de uma cruz de pau cravada entre duas
lajes, no eirado, comeava a sua orao, at que ao fundo dos areais j rosados o Sol
surgia no cu sem nuvens, j ardente, todo de brasa e de ouro. Direito, ento, Onofre
entoava um cntico, agradecendo ao Senhor o dia novo. Depois, em obedincia ao
preceito de Santo Anto, que atribua ao trabalho tanta virtude como  prece, tomava a
sua enxada, o seu podo, o seu balde de couro, e descia, ainda cantando, a trabalhar em
baixo naquele horto que a gua criara, e que ele alargava, pacientemente, por sobre as
areias, para que a Palavra se cumprisse, e o Deserto se cobrisse de flores. Quando o cu
pesado flamejava na sua imobilidade, e as ramarias enegreciam como bronze na
refulgncia ambiente, e a terra lhe escaldava os ps nus, Onofre, esfalfado, sedento,
fumegando como um boi na lavragem, subia  sua caverna, desenrolava os rolos de
papiro, que continham os Quatro Evangelhos, e encolhido numa tira de sombra, depois
de beijar as linhas divinas, mergulhava numa meditao, em que toda a vida do Senhor
revivia lentamente na sua alma, e a inundava de doura, ou a traspassava de dor.
Prostrado, com a face nas lajes abrasadas, orava: - e de novo descia ao seu duro labor,
cantando salmos, enquanto a enxada batia o torro, ou os ombros lhe vergavam sob o
carreto de pedregulhos, para que, sem descontinuar, subisse do ermo para o Cu, como
um fumo de ara que nunca se apaga, o preito do seu corao.
Lentamente, monte e rochas se tingiam de uma cor rosada, semelhante a um rubor.71
humano: as alturas eram de mbar fino: nas folhagens, mais leves, e como aliviadas,
passava um frmito de asa, um pio fugidio das aves que vinham beber  fonte: - e
quando Onofre recolhia ao alto eirado, com a sua enxada ao ombro, todo o deserto, em
baixo, at ao mar, rebrilhava como uma lmina de cobre. O Sol descia por trs de
nuvens, que ensanguentava - e era ento que o Solitrio, aliviando a fadiga num longo
suspiro, se sentava, com uma cdea de po duro e umas poucas de tmaras no regao, e
a sua cabaa de gua fresca pousada junto da cruz. Com os olhos derramados pelas
areias imensas que empalideciam, Onofre comia lentamente.
Cada sorvo de gua espalhava no seu ser, com a frescura, o contentamento de um
dia todo consumido a trabalhar na obra de Deus. E a sua Orao de Graas era to
enternecida, que as lgrimas, uma a uma, lhe rolavam nas barbas poeirentas.
A Lua, curva como uma barca do Nilo, ou redonda e faiscante como a roda de um
carro sagrado, roava o cimo negro da Cordilheira Arbica. Na ravina os chacais
uivavam descendo  fonte. Depois, tudo emudecia - e Onofre encostado ao parapeito,
embebido na frescura e na paz do luar, sentia, naquele silncio universal, o bater
cansado do seu corao. Mas mesmo esses instantes de repouso os dava ao Senhor -
atribuindo somente  sua misericrdia o impulso que o arrancara de entre os homens, e
do lodo em que eles se debatem, e o trouxera  pureza desta solido, onde a eterna
verdade se avista to claramente, como aquela grande Lua, lustrosa e consoladora. No
seu reconhecimento, de novo se abatia ante a cruz, e era de joelhos, cantando um
derradeiro salmo, que, depois de se arrastar trs vezes em torno do seu eirado, Onofre
penetrava na sua negra caverna, e se estendia, contente, no seu leito de folhas secas.
Assim, naquela vastido de areias, que ondulava do Egipto at  Arbia, sob essa
imensa curva do cu onde se cansava a asa das guias e dos ventos, se movia aquela
forma solitria, nica entre tanta imensidade, sempre diligente como uma abelha que faz
o seu mel - orando de braos abertos, cavando a terra, folheando o livro santo, trepando
os degraus da caverna com o seu odre de gua, de rojo nas lajes ante a cruz, entoando da
borda do seu eirado um cntico de grande esperana, mergulhando na treva da sua
caverna, emergindo ansiosamente dela para voltar  orao, ao labor, ao xtase, 
penitncia incansvel. Deus olhava - e esperava.
II
Mas como o Solitrio ia entrando na perfeio - o Demnio, inquieto com o Santo
novo que surgia, correu ao ermo: - e desde ento comearam na alma de Onofre os
sustos, as surpresas, os rudos, os combates de uma cidadela cercada. O cenobita com
quem ele ao princpio habitara no deserto de Ctis, o velho Apolnio, que transpusera
um cento de anos, e s conseguia caminhar com as mos no cho, muito Longamente o
instrura sobre as artes mltiplas e ondeantes de Satans, que invade os coraes, menos
pela fora e despedaando, que por uma penetrao de horrenda, abominvel doura. E,
todavia, to serenos e seguros foram os seus primeiros tempos no Deserto, que Onofre,
como uma sentinela que v em torno a plancie s coberta de espigas e luz, e se encosta
 lana e adormece, deixara o Inimigo penetrar no seu ser, com a facilidade de uma
cobra que escorrega entre as tbuas mal juntas de uma cabana. Ainda ele, cada dia, ao
escurecer, repousando  borda do seu eirado, com os olhos afogados nas estrelas,
agradecia ao Senhor aquela doce misericrdia que caa na sua alma como uma fonte de
leite - e j a Serpente bebia desse leite. O arbusto d o perfume da sua flor, e no sente
o verme: - Onofre no sentia o Demnio deteriorando a raiz da sua perfeio. Era ento
apenas nele, a essa hora de silncio, de estrelas, uma recordao to doce da cidade de
Afrodite e da taberna de seu pai, que a cabea lhe pendia contra a rocha e cerrava as.72
plpebras para reter, mais perto da alma, essas imagens, inesperadamente belas, de
arvoredos, e casas alvejando entre os arvoredos, e alegres rumores humanos.
A taberna de seu pai era no bairro grego de Afrodite, junto  Porta das Areias, 
orla de um bosque de mimosas e sicmoros que, por sobre uma colina mais alta que as
muralhas, se estendia at um pequeno santurio de Esculpio.
Por aquele lindo bosque acompanhava ele sua me - que era grega, das ilhas
Egeias - quando ela, j plida, consumida pelos ardores do Egipto, ia suplicar a sade
ao deus helnico, o claro dolo de barbas douradas, e derramar sobre a sua ara o puro
azeite da tica, que ele levava na mo numa infusa pintada. Era sempre de madrugada,
quando, nos vergis do Santurio, cantavam os galos votados a Esculpio.
Do lado das muralhas, onde se aquartelava a Legio Germnica, vinha o som
spero e grave das tubas, que o faziam pensar em marchas triunfantes por pases
brbaros e altas cidades cercadas. E sua pobre me parava cansada, com a mo
transparente contra um tronco de rvore, respirando o aroma esparso de violetas entre a
relva, que lhe lembravam a doura da sua ptria.
Por aquele bosque tambm todas as tardes, com a sua infusa de greda sob o manto
de linho, descia, a buscar  taberna cerveja da Cilcia, ou vinho maretico, o velho
Amnio, o arquivista do Santurio, que lhe ensinava as letras, os nmeros, certos
ditames da msica, as divises do Imprio Romano, e mesmo, sobre uma esfera feita de
verga fina, o caminhar das estrelas. Bom Amnio, que sempre o amara, lhe admirava
tanto a inteligncia, e mesmo aconselhava a seu pai que o mandasse estudar, s escolas
de Alexandria, a Gramtica e a Retrica!
Nem todos os pagos, decerto, pertencem ao Inferno. Aquele era simples, doce,
humano - e esfarelava sempre, na taberna, sobre o cho areado, um pouco do seu po
para as andorinhas e os bis...
Assim Onofre cismava e recordava,  porta da sua caverna, entre as rochas,
envolto pelo Deserto. E como hspedes bem acolhidos em casa aberta e farta, que
voltam contentes, trazendo outros camaradas - estes pensamentos invadiam cada noite a
alma do Solitrio, arrastando outros, mais ligeiros, mais cheios de rumor e da alegria do
mundo que ele abandonara. Todos vinham sempre daquela taberna do Galo, to clara e
fresca entre os sicmoros. Como ela era asseada e bem regulada! Junto da porta estava
pendurado o longo azorrague para os servos que no estendessem, bem finamente, pelos
ptios, a areia vermelha entre as sebes de rosas - ou que no esponjassem cada
madrugada, sobre os muros caiados de amarelo, o sulco fumarento das lmpadas; mas,
na verdade, s sobre o aoite se amontoava o p, tanta era a diligncia e a ordem.
Nenhum po se amassava em Afrodite mais ligeiro, e branco, e doce, que o do Galo! E
para comer as ostras de Canpia, que todos os dias chegavam pelos barcos do Nilo, em
grossas caixas forradas de limo, vinham l mercadores ricos, e at sacerdotes - porque
os que servem os dolos so sempre vorazes. Tambm os gregos, naquele bairro novo,
escolhiam sempre o Galo para rematar,  noite, com danas, as horrendas festas
dionisacas. Quantas vezes, antes que a Verdade o penetrasse, ele ajudara culpadamente
a pendurar lanternas no largo, espalhando sicmoro, que assombreava o ptio, do lado
das muralhas. Ao escurecer, os msticos apareciam, em bando, moos e raparigas, de
volta do templo, coroados de hera e choupo, disfarados com mscaras, embrulhados
em peles de bode, cantando os hinos de Iacos. Os servos subiam logo da adega,
segurando pelas asas um vasto cntaro de vinho novo. Caraas e peles eram arremessa-das
para junto das mesas, armadas sob o velrio de esparto, cobertas de azeitonas, de
bolos de mel, de frutas em cestas, e de gelo que rebrilhava. Todos corriam a refrescar as
faces, esbraseadas e cheias de p, na larga piscina ao lado do alpendre dos dromedrios.
Dois moos dos mais geis, ento, danavam a prrica, erguendo vasos  maneira de.73
escudos, e brandindo, como lanas num combate, os tirsos de mirto e rosas. Depois o
cntaro enorme de vinho era arrastado para o meio do terreiro, coroado de flores - e
todos, de mos dadas, rapazes alternando com as moas, a fora entremeada  graa,
bailavam, ao som triunfal das flautas e dos crtalos, a coreia sagrada, gritando: "Iacos!
s connosco!" Delrios abominveis! Mas, no danar daquelas pags, votadas aos fogos
do Inferno, mais brancas que mrmores, e com formas impuras de deusas, quanta arte
perversa, e quanta beleza!
Uma sobretudo, Glicria, que era filha de um gravador de pedras finas, e morava
to perto do Galo que ele a sentia cantar, fiando, sentada  beira do seu eirado, ou
pendurando nos ramos do limoeiro as roupas do irmo pequenino! Muitas vezes,
passando pela sua porta, de madrugada, vira sobre ela, traados com gesso, louvores 
sua formosura, e  graa do seu andar: - Glicria, por ser a mais bela, inquieta Vnus!
- Os teus ps, oh Glicria! correriam sobre lrios sem lhes macular a pureza! - E ele
corava indignado, como se surpreendesse um ultraje. Tinha ento quinze anos - ela
vinte: e quando a avistava  beira do terrao, ligeira e branca, com o irmozinho no
colo, uma melancolia sem razo, doce como o crepsculo, descia sobre o seu corao. A
ltima vez que a encontrara fora nessa manh, em que ele subira ao templo de
Esculpio, para se despedir do velho arquivista, seu mestre.
Era  hora da sesta - e em torno do Santurio, branco e lustroso, o bosque sagrado
repousava no esplendor do sol de Agosto, sem um murmrio de ramagem, abrigando
aqui e alm, na sombra fresca, alguma nudez de esttua, que rebrilhava.
E no silncio, o gotejar dormente das guas lustrais sobre as bacias de prfiro, o
arrulhar fugitivo de uma rola, eram ainda como rumores religiosos, cheios de gravidade
e doura.
O vasto Esculpio, sobre o seu altar, no alto das escadarias de mrmore cor-de-rosa,
sorria beneficamente na sua barba dourada, encostado ao seu basto onde se
enroscava uma cobra de bronze. Numa gaiola de cedro as duas serpentes rituais, gordas,
mosqueadas de amarelo, dormiam com beatitude, enroscadas sobre fofas ls de Mileto.
A um canto, na sua cadeira de marfim, o sacerdote de servio dormia tambm, com as
mos, resplandecentes de anis, pousadas sobre o ventre, e uma ponta do manto de linho
estendida sobre a face, suada e ndia. E na ara de bronze, coberta de brasa, um fumo
leve, e lento, e direito, e perfumado, subia como uma prece contnua e serena.  espera
do seu mestre, ele passeava na frescura dos prticos, entre as colunas de mrmore,
cobertas de estelas votivas, e de cachos de mimosas, abafando, sobre as lajes bem
lavadas, o rudo das suas sandlias-quando ela apareceu na longa avenida de palmeiras.
Lenta, pensativa, com as mos embrulhadas no vu leve cor de aafro, que lhe pendia
dos cabelos, ela veio caminhando, pela tira de sombra, at  escadaria de mrmore, que
os seus joelhos tocaram, levemente. E os seus olhos, que ergueu vagarosamente para o
Deus, e onde uma lgrima bailava, eram como duas pedras preciosas refulgindo sob
gua. Depois, com a mo que desembrulhara do vu, deixou cair na ara um punhado de
incenso. Contemplou um instante o fumo aromtico que envolveu a face do dolo - e
desceu a avenida, com passos lentos, e pesados de cuidado, sob a sombra estreita das
palmeiras. Ela resplandecia de sade e vio. Para que ser bem-amado viera pois
implorar o seu Deus? Longe, sob as rvores, o seu vu, colhido num raio de Sol, reluziu
como ouro. E ele no a vira, nunca mais...
Ora uma noite que assim cismava, com a cabea encostada s rochas, sentiu perto
como um rumor de sandlias, e um aroma lento de incensos. Abriu os olhos, num
espanto - e no stio da sua negra caverna alvejavam os mrmores do templo, Esculpio
sorria nas suas barbas douradas, a ara fumegava docemente, e Glicria, sem vus,
estendia os braos! Mas era para ele, no para o Deus, que estendia os braos supli-.74
cantes e nus. Sob a tnica, mal franzida, o seu seio arfava, como num desejo que anseia
e se retm. Toda ela sorria, com as plpebras pesadas. E o calor do seu corpo radiava
atravs dos tecidos leves.
To viva e real era aquela presena que Onofre, a tremer, murmurou: "Que
queres?" E j se erguia, as suas mos mergulhavam naquelas brancuras de carne e
mrmore - quando tudo subitamente desapareceu, como sorvido pela boca negra da
caverna. Onofre, ento, com imensa tristeza, reconheceu que o Demnio penetrara
enfim na sua solido. Aquelas recordaes dos antigos dias, que julgara mandadas por
Deus, para que ele agora, vivendo nas delcias da verdade, as contemplasse com o
salutar horror com que o homem, um momento transviado, considera as ndoas de
vinho na tnica que de si arrojou - eram trazidas pelo Demnio, que as embelezava,
para que o que nele restava ainda de humano e carnal se prendesse  sua doura.
E com efeito ele estremecera, suspirara... A sua alma, pois, que fechara toda
dentro de Deus, no estava ainda bem segura!
Rojado nas lajes, com os braos lanados em torno da cruz, Onofre toda a longa
noite implorou, ao Senhor, fortaleza.
III
O mais doce desses, era o do bom Ams, um escravo nbio, que seu pai comprara
a um bando de sarracenos nmadas, e que, tendo percorrido a Arbia, e a Mauritnia, e
a frica at ao pas dos Garamantes, lhe contava, na sua infncia, maravilhosas histrias
de guerras, de lees, de povos temerosos, e de tesouros escondidos em cavernas. Seu
pai, desde que findara a perseguio de Diocleciano, costumava alugar dromedrios aos
cristos de Alexandria e do Delta, que subiam o Nilo at Afrodite, em peregrinao aos
mosteiros da Baixa Tebaida. Ams que conduzia, como cameleiro, essas caravanas
piedosas, adorara muitos deuses, porque servira muitos amos. Mas, desde essas
primeiras jornadas  Tebaida, reconheceu, e compreendeu o Deus verdadeiro, atravs da
bondade e da caridade, to novas para ele, desses doces cristos, pacientes e piedosos,
que lhe ajudavam a arrear os dromedrios, lhe tiravam dos ps os espinhos ou as lascas
de conchas, partilhavam com ele das suas pores de lentilha e de azeite, e, sob a tenda,
diante das fogueiras, ou pelas sestas,  beira dos poos, o chamavam, lhe abriam lugar,
como a um semelhante e a um irmo. As guas inestimveis do Baptismo tinham,
enfim, banhado resgatadoramente o seu miservel corpo de escravo, mais lustroso que o
bano e todo coberto das cicatrizes do aoite e dos ferros.
O bom Ams, desde ento, resplandecia de contentamento e paz. E fora esse
pobre servo, resgatado na alma, que lhe contou desse Deus novo que nascera
humildemente num curral, errava pelos caminhos da terra com os ps nus, e cercado de
pobres, ensinava a Caridade, e a Bondade, e a Humildade, parava  porta dos casais a
beijar as criancinhas, e quisera morrer, por amor dos escravos, numa cruz, como um
escravo.
Era sempre de noite no cubculo em que ele dormia, sob o alpendre dos
dromedrios, que o bom Ams, agachado numa esteira, com os olhos a reluzir como
estrelas, lhe desenrolava esta histria maravilhosa - a daquele grande Reino celeste,
alm das nuvens, para onde todos aqueles que amassem Jesus e cumprissem a sua doce
lei, iriam, logo depois da morte, sem demora, comear uma vida incomparvel, toda
feita de delcias, entre vergis de cristal e ouro.
Como uma sentinela desconfiada,  porta de um castelo, ele vigiou ento
severamente os pensamentos que se lhe apresentavam vindos do seu passado, e s
recebeu aqueles que traziam a marca luminosa da Graa..75
E ele, a estas revelaes de Ams, sentia na sua alma um rumor, um brilho de
claridades, e a frescura de um ar mais puro, como se ela fosse uma casa muito tempo
fechada e abafada, onde algum, bruscamente, e uma a uma, abrisse as janelas  brisa e
ao sol da manh.
Que alvoroo, ento, quando aparecia na taberna, conduzida pelo gordo Baslio,
dicono da igreja de Afrodite, alguma pequena companhia de cristos, que
desembarcava e vinha aprear dromedrios! At esse dia sempre se afastara deles, num
vago susto, uma desconfiana que lhe ficara do tempo em que sua me lhe contava que
os Cristos "comiam criancinhas embrulhadas em farinha" e para lhe abafar os choros e
as perrices, murmurava apontando para a porta: "Cala, filho, cala, seno vm os
Cristos que te comem!"
Mas depois! Mal eles apareciam, corria, mais reverente que nenhum servo, para os
aliviar das trouxas e das bagagens, e acarretava alegremente a gua para as ablues, e
estendia tapetes sob os ps dos mais velhos, atento aos seus menores movimentos como
a actos considerveis de santidade. Quando seu pai, tomando as lminas de chumbo, e o
estilete, comeava a somar as despesas, ele corava, tremendo da sua cupidez.  Porta
das Areias, esperava longas horas, entre os publicanos, o regresso das caravanas. E se ao
chegarem, algum dos peregrinos cristos, poeirento e tisnado dos sis, o reconhecia, lhe
acenava logo, sorrindo do alto do seu dromedrio - o seu corao batia de alegria e de
orgulho.
Depois, nessas noites, no seu cubculo, no se fartava de escutar o bom Ams,
contando as marchas e os repousos, e os mosteiros florindo no Deserto, e as novas
faanhas dos grandes Solitrios - Mcio, para que os seus discpulos se abrigassem,
fazendo reverdecer uma accia seca, ou Pacmio, para atravessar o Nilo, acenando a um
crocodilo e montando sobre o seu dorso! O desejo de acompanhar tambm as caravanas,
e testemunhar to doces maravilhas, foi ento, na sua alma, mais imperioso e ardente
que uma longa sede num areal deserto. Mas essa sede, de que sofria, com quanta pressa
e misericrdia lhe contentaria o Senhor?!
Dois monges da Sria, Germano e Cassiano, tinham ento, depois de uma longa
peregrinao pela Ntria e Deserto Lbico, chegado a Afroditoplis para tomarem
dromedrios, e visitar os mosteiros da Baixa Tebaida, at Colzim e o mar Vermelho. E
seu pai que desejava ento contratar com os abades desses mosteiros o fornecimento de
trigo, e leos, e ls, determinou, de repente, que ele partisse nessa caravana dos dois
monges srios, levando cartas de Arqubio, bispo de Pafensia. Que surpresa, que
alvoroo! Joo Cassiano e o seu companheiro eram do pas dos Citas, mas polidos por
uma longa residncia na sia Menor, e ambos homens de grande saber e doura. E
quando naquela primeira noite, em que acamparam junto s grandes serras de onde se
tira o mrmore vermelho, ele, tremendo, suplicou a Joo Cassiano que tomasse a sua
alma para a conduzir  Verdade, foi como se, pela primeira vez, soubesse o que era a
ternura de um pai. O incomparvel jornada, em que cada passo, mais gostoso que o de
um triunfo, o avizinhava do Cu!
Ento conheceu inteira, e mais verdadeira do que lha soubera ensinar o bom Ams
na sua simplicidade, a Lei de Jesus: - e a f penetrou no seu corao, com a certeza e o
fulgor de uma espada. O cu no era mais luminoso do que a sua esperana, naquela
madrugada em que avistaram o mosteiro de Ctis - e as trs palmeiras que esto 
entrada, tendo cada uma, pendente dos ramos baixos, disciplinas de corda, de couro e de
ferro, porque a sua regra  austera. A buzina do velador, que observa as estrelas na torre
da igreja, acorda de noite, de hora em hora, os monges para que eles rezem, de p, nas
suas cabanas, estreitas como esquifes, sem porta, apenas guarnecidas de uma grade
baixa contra os escorpies. De dia cada um permanece isolado na sua cabana, encruzado.76
sobre um monto de folhas de papiro, que lhes serve de leito, a rezar sem repouso, a
trabalhar sem repouso - tecendo esteiras, copiando evangelhos, cosendo odres, polindo
gatas. Ao declinar do Sol, o despenseiro vem colocar silenciosamente, a cada porta, um
po duro. Ento, no ar mais fresco, passa o lento, longo suspiro daqueles penitentes, que
enfim descansam. No curto crepsculo, com os braos ociosos, eles contemplam, da
abertura avara das celas, os altos montes que cercam o mosteiro, e o Cu que  o
cuidado das suas almas.  noite, os chacais uivam nas quebradas. Na escurido de cada
cela h gemidos, e o silvar dos azorragues. Depois tudo emudece: - e dois monges dos
mais velhos, sumidos nos seus capuzes, rondam atravs do mosteiro adormecido, com
lmpadas e grandes cruzes, para afugentar os Demnios, que sob formas horrendas ou
formosas, quela hora invadem o ermo. Oh! a regra  dura - mas como ela d
contentamento e paz infinita a todas aquelas almas, por sentirem to certo e vizinho o
Paraso!
Por isso ele, depois de receber o Baptismo, em dia de Pscoa, e ter comido o bolo
de mel, e revestido a tnica de inocncia, suplicara, em lgrimas, ao velho abade
Serapio, que lhe concedesse uma cela para viver entre os seus monges, no trabalho
perptuo, na perptua orao... Mas o bom abade no consentira - porque a sua f era
recente, o que um sopro levanta um sopro o abate, e s almas experimentadas em maior
aspereza e solido podiam recolher, nas douras espirituais daquele mosteiro ilustre, o
preo da sua fortaleza.
Ento, por conselho de Serapio, ele penetrara mais longe, no Deserto, para alm
da Planura dos Carros, nas agrestes serranias que se alongam at Colzim. E a fora
servir um velhssimo Solitrio, a quem o derradeiro discpulo fugira, com um bando de
sarracenos, para remergulhar no Pecado. Nilo era o nome desse Solitrio espantoso, que
tinha cento e vinte e trs anos, e j no podia caminhar seno de rastos com as mos
sobre as pedras.
To longa e alta fora a sua penitncia, naquela solido, durante um sculo, que
no temia Deus, nem orava - e, como um obreiro que findou a obra, apenas se
contentava em olhar o cu, silenciosamente,  espera do seu salrio. Durante trs anos
que servira aquele Santo terrvel, nunca dele recebera um sorriso, uma consolao, um
amparo - porque de tanto viver na solido arenosa e pedregosa, aquela alma ganhara a
secura das areias e a rigidez das serranias. Mas se ele, entre duas longas oraes,
estendia mais o seu repouso, ou se retardava  beira do poo salobre que lhe dava a gua
- logo os olhos do Solitrio, aqueles seus olhos pequeninos e rebrilhantes entre densas
pestanas brancas, o traspassavam numa repreenso muda e dura. Ah! ele nunca decerto
compreendera aquela virtude medonha!... A fama da sua velhice, da sua santidade,
invadira todo o Egipto. Dos montes e das cidades acudiam monges, acudiam mesmo
pagos, para o visitar, uns na admirao de to espantosa penitncia, outros na
esperana de serem por ele curados de feridas e males. O terrvel velho, porm, nem
sequer consentia que eles se aproximassem da sua caverna: - e um dia mesmo tentou
arremessar contra um mais ousado, que lhe queria tocar o corpo ou a tnica de pele,
uma pedra que o seu brao j no pde erguer. Era de longe que os peregrinos o
contemplavam - enquanto, sentado no cho, com os olhos baixos ou perdidos no cu, e
to alheio queles homens como se fossem as pedras do seu Deserto, bocejava com
lentido, ou metia a mo por entre a tnica para coar sobre o peito, e sobre os rins, as
feridas incurveis que lhe deixara o cilcio. Enfim uma madrugada, indo ele junto do
monte de folhas secas que lhe servia de leito para o ajudar a erguer, encontrou o
Solitrio morto! Morto, como adormecido, na postura de uma criancinha, com a mo
sob a face, os joelhos junto do peito, to pequenino, que as ervas secas do leito eram
mais longas: - e a sua face, tornada cor-de-rosa, sorria com serenidade..77
Por suas mos o enterrara na areia, junto da grande cisterna: - e quando a cova
ficou bem coberta com pedras por causa das feras, ele sentiu penetrar na sua alma o
herosmo penitente do velho Solitrio. Era como se tivesse herdado aquela alma
formidvel, que se reunira  sua e lhe comunicava a sua fortaleza invencvel. Trans-portado
numa imensa esperana, apeteceu ansiosamente, tambm, uns cem anos de
Deserto, e de orao, e de mortificao, e o seu nome espalhado por todo o Egipto
cristo, e uma morte igual, com a mo sob a face, sorrindo, e to pequenino que
coubesse nos braos de um anjo! Recolheu ento a tnica de pele que usava Nilo, e o
seu rolo da Escritura, e o seu bordo, e a sua cabaa, e avanara pelo Deserto, para o
lado do oriente e do mar. O seu sustento todo fora um po trazido da caverna do velho:
para evitar que um bando de nmadas o levasse como escravo, estivera uma noite
inteira agachado, enterrado nos lodos ftidos de uma lagoa: lutara, s pedradas, contra
as hienas; uma plancie de sais, grossos e cortantes, retalhara-lhe os ps; marchando sob
o sol, chorava de sede, contente de chorar porque bebia as lgrimas... E sob estas
angstias e terrores da carne, a sua alma resplandecia, certa de que cada sofrimento era
um degrau subido na longa escadaria do Cu. Por fim, uma madrugada, avistara aquelas
palmeiras ramalhando ao vento, e a mimosa em flor, e no alto, aberta, como se o
esperasse, a caverna.
Com que felicidade a visitara, e toda a serra de rocha em rocha, e a fonte clara e
fria que cantava no vale, e os arbustos que a ensombravam! Oh maravilhosa granja, em
que era escravo, para viver sozinho com o seu Senhor! Todo esse dia cantara cnticos de
Graa. E desde que ali habitava - j trs vezes a mimosa se cobrira de flores!
Assim rememorava Onofre agora, cada dia, o seu passado piedoso. E sempre
emergia desta meditao com um contentamento maior, mais vivo, pela sublime obra
que empreendera.
Ela era magnfica e rara entre os homens. Os monges de Tebane, de Ctis, da
Ntria, do lago Maria, viviam nas douras da comunidade, e viam girar, no alto das
colinas, os moinhos que lhe moam a farinha, e se as febres os assaltavam, o irmo
sabedor das artes mdicas corria com o seu frasco de leo e o molho de plantas
salutares. Os Solitrios no se afastavam das cercanias do mosteiro, ou do Nilo, que  a
rica, populosa estrada do Egipto. Anto mesmo! O velho tmulo em que se enterrara
vinte anos, estava a dois dias de Afrodite, no caminho das caravanas. Mas ele! mais
solitrio que todos os Solitrios, habitava os confins do mundo. A ocidente eram lguas
sem fim de areias e rochas; a oriente, o mar estril: e s ele, naquelas solides
pavorosas, lanando o seu cntico perene para o Cu. Por isso tambm o olhar de Deus
o distinguiria mais claramente, assim destacado e nico, naquela imensa extenso de
terra.
E depois com que facilidade ele abandonara o mundo, e os homens, e todas as
alegrias da humanidade! Um pobre escravo, simples, inculto, conta-lhe um dia desse
Deus novo que nascera em Galileia - e eis que ele sacode de si, como uma velha
sandlia, crenas, e afeies, e as riquezas de seu pai, e as promessas surpreendidas nos
olhares das mulheres, e logo se d inteiramente e para sempre, e parte, e penetra nas
solides, para servir e amar em silncio esse Deus, ainda mal conhecido e indistinto,
como uma estrela entre nuvens! Onde houvera a f mais pronta e mais confiada?!
Por isso tambm Deus, reconhecido, lhe dera aquela serenidade em que ele vivia,
j havia trs anos, sem saudades que o pungissem, nem terrores que o arrepiassem,
seguro naquelas bravias serras, como um rei no seu palcio.
Oh! sem dvida, o olhar de Deus estava sobre ele, e todo o envolvia no seu
esplendor sublime; e o Demnio e o seu sopro mundanal no podiam transpor, nem
sequer roar aquela Graa que o defendia..78
Ora uma noite que ele assim pensava, sentiu como o deslumbramento de uma
claridade - e erguendo os olhos, viu, entre a treva rasgada como um pano, uma vaga
nuvem refulgente, de onde Jesus, debruado, com a sua cruz entre os braos, espreitava
para baixo, para a terra do Egipto.
E, oh dor! no era para ele, nico e to visvel, naquela grande solido, que se
voltava e sorria a face do Crucificado - mas para alm, para o lado das cidades, para
uma multido que se agitava, mida, e escura, e nfima, como um formigueiro, entre
searas e muros!
Atirou os braos ao cu, gritou desesperadamente:
- Oh meu Senhor, estou aqui, teu servo no teu Deserto!
Mas, entre as sombrias cortinas que se cerravam, a face do Senhor desapareceu,
desatenta, como se para ele no houvesse nem servo, nem deserto! E tudo recaiu em
mudez e treva.
Ento, com os cabelos eriados de horror, Onofre compreendeu que aqueles
pensamentos em que se comprazia, como se fossem flores da sua Piedade, eram subtis
rebentes do seu Orgulho. Numa lacrimosa orao, prometeu ao Senhor repelir da sua
alma todos os pensamentos do passado, pois que todos eles, mesmo os da sua doce
ascenso para as Verdades, traziam consigo a mcula do mundo, como razes que, ou
sejam de planta salutar ou de flor venenosa, vm sujas do lodo negro em que
mergulharam.
E para maior humildade, selou a sua promessa com o sangue que as disciplinas
toda a noite lhe arrancaram do corpo.
IV
Ento, lentamente, foi nele nascendo o espanto, depois o terror da sua solido.
Arrepiado, ele recordava as histrias outrora ouvidas no Galo a Ams, a velhos
cameleiros das caravanas entre Berenice e a Lbia, sobre as gentes medonhas, as feras
que povoam aquela regio, a mais bravia de toda a terra. Pelas bordas do mar, erram as
horrendas tribos troglodticas, que no tm deuses, nem leis, se nutrem de peixe cru e
das cobras dos rochedos, bebem sangue, possuem em comum as fmeas felpudas, e
saem de rastos dos seus covis de lama, para uivar  Lua. Ali, naqueles descampados,
vive a mais pavorosa das feras, o touro-sarcfago, que come a carne humana,  cor de
fogo, expele um bafo que resseca as plantas, e, alternadamente, deixa pender os cornos
como membranas moles, ou os enrista para o ataque, to agudos, e longos, e duros como
dardos de ferro! Mas, terrveis entre todas as feras. eram essas serpentes do Deserto
Arbico, to compridas e grossas, que em repouso, e quando fartas, fazem na plancie
como uma colina de roscas e escamas, onde luzem no cimo, e se avistam de longe, as
Ento, para que esses pensamentos da sua vida entre os homens no lhe turbassem
a alma, Onofre, na curta hora de repouso, ao escurecer, forava os olhos a contemplar,
uma a uma, as aparncias do seu Deserto. Imvel,  beira do seu eirado, considerava
longamente as formas e as semelhanas das rochas - umas escarpadas, lisas, como
muros de cidadelas, outras agudas, avanando na sombra crepuscular como proas de
galeras encalhadas, outras redondas, em monto, de um alvor fnebre, como crnios que
restassem de uma antiga, esquecida matana. Meditava as serras que se estendem para o
sul, a sua aspereza e nudez, os antros que decerto as escavavam, e os fundos barrancos,
mudos, abafados em treva. Mais longe seguia a infindvel lividez do areal, ondeando 
maneira de um sudrio onde o vento fez pregas, at s orlas de um mar bravio, que no
se avistava... E para alm das areias, e das rochas, e dos montes, havia ainda outros
montes, e penedias, e dunas, e pntanos, e solides, que o separavam dos homens..79
duas brasas dos seus olhos... E era no meio de serranias, povoadas por estes monstros,
que ele vivia, desamparado.
Ento, desvairado pelo medo, comeou a fortificar, como na vspera de um
assalto, o largo eirado, onde se abria a sua caverna. Em longos dias de suado trabalho,
conseguiu rolar um penedo para defronte dos rudes degraus, que desciam para o vale e
para o horto. E apenas reconheceu a inanidade da sua obra! Selvagens e feras podiam
descer sobre ele dos cumes do monte, que do lado do sul se ligava, por um dorso fcil, a
outras serras, aos areais. Recomeou: arquejando e gemendo, acarretou grossas pedras
para a boca da sua cova, onde todas as noites erguia laboriosamente um muro que, cada
madrugada, desfazia. Mas, assim emurado, ainda no sossegava. Constantemente,
silvos, mugidos, o rojar de pedras sob patas moles, sacudiam, sobressaltavam o seu
dormir ansiado. Certo bater de asas, sobretudo, semelhante a grossos tapetes que se
sacodem, tornava agora a cada instante sonoro aquele ar to mudo e limpo do seu
Deserto: - e ele no duvidava que fossem essas horrendas aves, de face humana, que
assaltam os viajantes solitrios, os embrulham nas asas felpudas, lhes chupam o sangue.
Quantas vezes ele ouvira contar a Ams como dois soldados da Coorte, estacionada em
Fulacon, para escoltar as caravanas da Lbia, tinham sido devorados por estes vampiros!
Uma noite sentiu desabar, com estrondo, o muro que fechava a sua caverna. At
que a madrugada clareasse, no cessou de tremer, agachado num recanto, com os
cabelos eriados, e o rolo do Evangelho aberto diante do peito, como um escudo. Que
valiam, com efeito, pedras, mal postas sobre pedras? S do Senhor devia esperar a
defesa que nenhuma fora derruba.
E no tornou a erguer aquela v e frgil parede. Diante da caverna, plantou a cruz
de madeira. Mas o deserto parecia agora cheio de rumores e de formas. Cada hora de
escurido se tornou um imenso pavor.
Com que inquietao ele via descer, ao longe, sobre os desertos da Lbia, o Sol,
que era a sua proteco! No se sente mais desamparada uma criancinha que a me
abandona numa estrada escura. Apenas a sombra se estabelecia nas quebradas, e toda a
cor se apagava sobre as rochas, comeava, em torno do Solitrio, o mover e rumorejar
de uma vida tenebrosa e disforme. Bafos mornos e ftidos passavam logo sobre a sua
face: tropis de patas, o duro entrechocar de cornos, roncos speros, estalidos de galhos
que se partem, no cessavam na treva densa: longe, no areal, corriam, volteavam,
clares de fachos, guedelhas sacudidas no ar, e panos lvidos como sudrios; - e at lhe
parecia que os montes se mexiam, como dorsos cansados que se estiram. Debruado da
sua esplanada, ele distinguia ento o lento ondular de alguma serpente, cujas escamas
raspavam as rochas: mais grossa que um tronco de cedro, ela avanava, silvando, colava
a cabea  alta escarpa do seu monte, e lentamente, viscosamente, subia, crescia to
perto, que as duas brasas dos seus olhos lanavam sulcos escarlates no rochedo. Com
um grito, Onofre recuava, para se esconder na sua caverna -e surpreendia ento alguma
anca negra, uma cauda felpuda, desaparecendo pela abertura baixa. Cercado de
monstros, caa no cho, a arquejar, esperando a morte, numa derradeira orao ao
Senhor: - e quando erguia a face, tudo reentrara em imobilidade e mudez, e uma estrela
luzia no cu, com serenidade. Mas o seu repouso no durava; outras vises surdiam
logo da sombra inesgotvel.
 beira da escarpada rocha onde se abria a caverna, no alto, comeou, durante
longas noites, um silencioso e confuso mover de larvas que se recortavam, nas suas
formas diferentes, com uma cor lvida, sobre a negrura do cu. Eram gordas massas
rastejantes, esguias figuras semelhantes a obeliscos, pescoos que se torciam no ar como
fitas ao vento, tendo na extremidade uma cabea guedelhuda... Em baixo, no meio do
eirado, Onofre tremia, esperando a cada instante que elas se precipitassem, se abatessem.80
sobre o seu corpo misrrimo. Mas nenhuma se descolava da borda da rocha, no seu
perpassar incessante e mudo: apenas por vezes um longo brao mole escorregava,
pendia, raspando a pedra com garras speras; ou uma longa asa se espreguiava por
sobre a cabea do Solitrio, muito no alto; ou uma face horrenda se debruava, a
espreitar, com a lngua pendente e cor de fogo. Se ele se refugiava na caverna, sentia
por cima, como se a densa massa de rocha fosse apenas um soalho tnue, o pesado
tropel de patas moles - e pelas rachas da abbada, de repente, caa uma ponta de rabo
que se torcia, ou descia um dedo com uma longa unha de ferro. Todo o monte parecia
fervilhar de vidas monstruosas. Debaixo dos seus ps nus, a pedra tinha o calor, a
moleza viscosa de um ventre. A prpria abertura da sua cova, ora se alargava, ora se
cerrava, como uma boca que espera a presa.
De madrugada, o seu cansao era to grande, que mal podia segurar a enxada para
cavar o seu horto: - e, muitas vezes, adormecia exausto sobre as folhas abertas do
Evangelho. Para espantar os monstros, imaginou acumular galhos e ervas secas, na sua
esplanada, e acender de noite uma fogueira.
Imediatamente, nas contores da chama, apareceu um medonho basilisco,
serpente cor de brasa, que tem dois cornos - e o fumo formava longos fantasmas
cinzentos, que se enrodilhavam no pescoo do Solitrio, e o esganavam.
Certo ento da sua destruio prxima, pois que toda a Natureza arrojava contra
ele os seus monstros, desde os mais pesados aos mais subtis, Onofre aceitou com
submisso o destino que lhe marcava o Senhor: - e, uma noite, ajoelhou diante da
caverna, cruzou firmemente os braos, e no se moveu, esperando, quase apetecendo, o
remate dos longos tormentos. Imediatamente, uma avantesma monstruosa e estranha
apareceu, e, sem um rumor, sem que um dos vastos membros se movesse, ficou diante
dele na rigidez e a inrcia pesada de um monte. Todo o seu vasto corpo se perdia na
sombra, para alm da esplanada - e Onofre apenas lhe avistava o gordo e enorme
focinho, alongado em tromba, e dois olhinhos, meio cerrados, perdidos na gordura, de
uma imensa, intolervel estupidez e tristeza. Era essa certamente a alimria suprema que
o vinha devorar: - e tapou a face, com as mos trmulas e frias, murmurando a orao
derradeira.
Quando de novo olhou, o monstro l permanecia, imvel e mudo. Um plo ralo, e
nojento, cobria todo o imenso focinho, onde reluzia, como supurado da sua gordura, um
leo grosso, e em bolhas. A abertura das ventas desaparecia sob o monco que nelas
coalhara. E os seus dois olhos pequeninos, baos, no se desviavam de Onofre, to
medonhamente estpidos, e de uma tristeza to crassa e densa, que ele fugiu, para os
no suportar, rolou para o fundo da caverna, soluando de desespero. Longas,
interminveis horas passaram: voltou de rastos, a espreitar; a avantesma l jazia, imvel,
luzidia de gordura, mais estpida e triste. Furioso, o Solitrio agarrou uma pedra, que
lhe arremessou contra a tromba. A pedra no deu som: - o monstro, impassvel, olhava
estupidamente, tristemente o Solitrio.
Gritou, com um grande gesto de excomunho, o nome de Jesus Cristo: - e apenas
o som da invocao santa morreu no ar mudo, a avantesma l estava, macia, crassa,
gordurosa, soturna, olhando o Solitrio com a sua tristeza estpida. E assim foi durante
interminveis, angustiosas noites. Ou Onofre orasse, ou corresse aflito pela esplanada,
ou se encolhesse a um canto da caverna com a face nas mos - o monstro l estava, na
sua pavorosa imobilidade, to lgubre, to estpido, to gorduroso, que parecia comu-nicar
s rochas em redor, aos montes, aos cus, s nuvens, a sua gordura, a sua
estupidez, a sua imensa tristeza. Onofre passava as noites chorando, gritando, de fastio e
de horror.
Um momento chegou, mais desesperado, em que Onofre decidiu abandonar.81
aquele Deserto. Tomou o seu rolo da Escritura, a cruz que fora de S. Nilo, e um dia,
antes do declinar do Sol, comeou a caminhar para ocidente, para as serras do mosteiro
de Ctis.
Estava  orla da grande plancie arenosa, quando a escurido o colheu. Para comer
o punhado de tmaras que trouxera, e beber da sua cabaa, descansou numa rocha - e
imediatamente viu diante a alimria disforme, que, sentada, sem que as patas se
distinguissem do corpo, jazia como um monte sobre a areia, com a vasta tromba
pendente, e cravados nele os olhos, de estpida e horrenda tristeza. O desgraado
Onofre fugiu para trs, para o seu rochedo, onde ao menos a sua caverna o escondia. E
quando de novo, alta noite, alagado em suor, arquejando, pisou as lajes costumadas - o
monstro l estava, com a sua tromba, a sua tristeza, a sua estupidez.
Ento o Solitrio sentiu um intolervel horror  vida - e os seus olhos devoravam
ansiosamente a borda daquele alto rochedo, de onde podia cair para sempre na paz e na
insensibilidade. No se matara Saul? No procurara e se dera a si mesma a morte
Pulquria de Antioquia, que toda a Igreja louvava? O que era a confisso da Verdade,
perante os pretores romanos, seno a voluntria entrada na morte?
E quando assim pensava-eis que, de repente, a tromba do monstro se abre com
lentido, e aparece, sangrenta e profunda, a sua imensa goela. Decerto Deus determinara
que aquele fosse o seu fim sobre a Terra. E ele, com arrebatada gratido, o aceitava,
pois que seria assim mais portentoso que o de todos os confessores nos martrios! Ah!
no estarem ali multides para testemunhar a heroicidade da sua f, e a sua confiana no
Senhor!
Encarou, erguendo bem a cabea (pois que decerto os anjos o contemplavam)
aquela goela, horrenda mais que todos os horrores, e que esperava escancarada para o
tragar. Mais vasta que um antro, com dois renques de presas, de onde gotejava um
sangue espesso, a sua profundidade desaparecia sob uma nvoa e um vapor cor de
sangue. E no se movia, com a indiferena de um abismo natural, certa de o devorar.
Ento Onofre alargou os braos, entoou furiosamente um cntico alegre, e marchou para
o monstro, e para a morte. Subitamente tudo desapareceu, como uma sombra numa
parede.
Imvel,  beira do eirado, Onofre esfregava os olhos, espantado, como quem
emerge de um sonho sinistro. E sentia um cansao to pesado, que ali mesmo se deitou
sobre as lajes, e todo o seu ser se dissolveu num sono benfico e calmo. A madrugada
que o despertou era a mais fresca, e rsea, e doce, que ele experimentara no Ermo.
Quando desceu ao seu horto, a encher a bilha, encontrou a mimosa toda em flor e
aroma.
Chegara pois a estao, doce entre todas no Egipto, Sh, a Estao dos Renovos.
J, a essa hora, na negra Etipia, o divino Nilo estremecia, e recolhendo a boa terra
negra, como um esmoler que enche os sacos, comeava a sua marcha magnfica para o
norte, e para os vales... E nessa noite a Lua, a que perpetuamente morre e perpetuamente
renasce, surgiu sobre o Deserto, redonda e cheia como um seio, derramando a sua luz
como um leite carinhoso.
Toda a noite, sentado  porta da sua caverna, Onofre embebeu os olhos na Lua, e
recordava, a seu pesar, vagamente, uma cantiga da sua ama, uma escrava de raa
cananeia, em que se celebrava a Lua, e a sua influncia que faz fermentar os vinhos e
governa o amor das mulheres.
A Lua parara sobre o mar; Onofre sentia a carcia da sua luz macia: - e todo o
Deserto, com os seus rochedos e dunas, parecia voltado para ela, para se mirar no seu
brilho, como num espelho suspenso.
Doces noites, ento, assim passou, num imenso repouso, estirado nas lajes, e.82
bebendo a espaos a gua fresca da sua cabaa - porque a Estao dos Renovos 
quente e sem orvalhos. Todo o deserto jazia em redor, alumiado, limpo inteira'. mente
de fantasmas e monstros, numa larga inocncia, e mais seguro que um templo. O
Senhor, na sua misericrdia, varrera para longe, com mo forte, o tropel disforme e
roncante dos fantasmas e dos monstros. A nvoa, onde se formavam os terrores, fora
dissipada - e a Natureza reaparecia na sua inocncia real e magnfica. E to limpo e
purificado estava todo o ar, que o canto fino da fonte subia at ele, misturado ao
perfume das flores das accias.
Como era doce, assim, a solido!
At as rochas perdiam, naquela suavidade da Primavera, a sua rigidez - e nem
eram proas de galeras naufragadas, nem montes de crnios alvejando. Na sua brancura
havia agora um calor de vida: redondas, emergindo da encosta negra, lembravam a
curva macia de um ombro nu, se a tnica, cor de jacinto, escorregou; altas e lisas eram
como os claros muros de uma cidade bem acolhedora, onde o viajante, que atravessou
desertos, encontrou a frescura das Termas, e o alegre bulcio das ruas, que cheiram a
sndalo e mirra...
Um cansao doce e lnguido oprimia o Solitrio; e do seu peito, que se levantava
como uma onda, saa, por vezes, sem razo, um suspiro soluado.
Na sua caverna, no encontrava, como outrora, um sono fcil e sereno: a abbada
negra, o duro cho da rocha, exalavam um calor macio, tocado de aroma, como se um
frasco de essncia se tivesse entornado, e em torno pendessem estofos e peles; e sobre o
seu monto de papiros secos, ele torcia os braos, sufocado, num espreguiamento que
lhe fazia estalar os ossos fortes.
Saa ao eirado, para respirar, ocupar a viglia com a orao: - mas o nome mesmo
do Senhor lhe morria nos lbios, distrado por sons estranhos, certos cheiros estranhos,
que vinham de longe, da sombra. Era por vezes um riso esquivo, fino, de mulher, que se
perdia entre as ramagens do horto; um bafo de forno, com um bom aroma de po
quente, trazido por uma aragem; um vu amarelo que se abria devagar, arrastava sobre
as rochas. Debruado da muralha, com o corao batendo fortemente, Onofre
espreitava, escutava: - e por vezes toda a noite ali ficava, sem se mover, com os olhos
cravados na escurido,  espera, como se alguma coisa devesse chegar, deliciosa, e que
ele ansiosamente apetecia, e de que no suspeitava nem o nome, nem a forma.
O dia, o radiante Sol, no lhe afugentavam estas imaginaes. E cavando a terra,
empedrando os canais de rega no seu vergel, ele parava, colhido vivamente pela
lembrana do riso esquivo e lnguido, ou pelo cheiro do po ao sair do forno. Ao chegar
de manh  fonte, lavava os braos nus, as pernas, acamava o cabelo que lhe caa
revoltamente sobre a tnica de pele de cabra: esmagava sobre as mos certas plantas que
tinham um bom aroma: - e tinha gosto, considerando os seus msculos, em pensar que
era forte e airoso. A chegada da noite j o no assustava - antes a apetecia, pelo seu
mistrio e por aquela sua vasta sombra, que  como uma cor. tina que tudo esconde.
Mas como ela era solitria e vazia! Se, ao menos, tivesse, como alguns cenobitas, um
companheiro moo, com quem pudesse passear, naquelas veredas do monte, passando o
brao sobre o seu ombro!
Juntos cantariam os hinos santos - e murmurariam, um ao outro, para se
fortalecerem, as tristezas dos seus coraes. Oh! se algum desses monges, que erram de
mosteiro em mosteiro, ou dos que percorrem, para se instruir, os retiros dos Solitrios,
ali passasse, naquelas serranias!
As palmeiras do seu horto bastariam para sustentar dois ou trs irmos - e na sua
caverna havia espao para abrigar outros sonos...
Com uma esperana, sem razo, ficava ento espreitando longas horas, debruado.83
do seu eirado; e ante os seus olhos, cravados na penumbra, fatigados de esperar,
surgiam, ento, imagens estranhas: - um canto de rua, com flores pendentes de um
terrao; um ptio, com uma mesa cheia de taas, de pedaos de gelo, abrigadas por um
velrio; uma cortina que se descerrava, deixava entrever uma mulher, derramando um
perfume sobre os braos nus... Onofre estremecia, como despertando, e reentrava na
caverna, atribuindo aquelas vises  debilidade, aos longos jejuns. Ah! se ele pudesse
um dia comer uma carne forte, beber um longo trago de vinho - mais longas podiam ser
as suas oraes, e na sua doura salutar se desfaria toda a inquietao da sua alma.
E sempre que assim pensava, logo um prato de argila, cheio de ostras de Canpia,
alvejava no cho, ao lado de uma vasilha de vinho, que espumava, ou um cheiro de
anho assado e fumegando, se espalhava na treva. Era uma realidade, uma iluso? Bem
podia ser um dom milagroso do Senhor! No alimentara Ele Elias no Deserto? No
fizera Ele brotar, aos ps de Pacmio, que a sede torturava, um ramo carregado de
damascos? E uma noite, que ele viu, ao lado do seu leito de folhas, um po muito fresco
e muito branco, e uma taa larga de vinho onde flutuava gelo -no duvidou da
Misericrdia do Senhor, e, rindo de gozo, estendeu a mo trmula. Deu um grito: sentira
o ardor de uma brasa! Era pois uma horrenda oferta do Demnio, e no Inferno se amas-sara
aquele po, no Inferno se vindimara aquele vinho! Se ele tivesse morrido nesse
momento era a perdio irreparvel! Agarrou o aoite - e, despindo a tnica
furiosamente, aoitou a carne infectada de gula.
Mas logo os primeiros golpes, em lugar de o ferirem, lhe deram o
incompreensvel, estranho gosto de uma carcia. Era como se braos nus se colassem ao
seu corpo nu. Arrojou de si o azorrague, num imenso terror: -e as negras tiras de couro
tomaram, cadas sobre a rocha, a forma redonda e branca de braos cansados, que se
estiram. Caiu de joelhos - e de joelhos, diante dele, estava uma figura, uma mulher,
cujos olhos muito negros, cujos lbios muito escarlates, transpareciam atravs do vu
que ela apertava contra o seio com os braos redondos, cheios de frescura e de aroma...
Ento, longos dias, no comeu, no bebeu - e nunca foi mais dolorosa e furiosa a
sua luta com o grande Inimigo. Torturado pela fome, torturado pela sede, a cada instante
Onofre encontrava diante de si uma larga mesa, com uma resplandecente toalha de
linho, coberta de todas as delcias da cozinha, do pomar e da adega, carnes que
fumegavam com um aroma rico, legumes que, de tenros e bem cozidos, se desfaziam
dentro do seu molho transparente, montes de frutas cuja polpa suculenta estalava de
madura, frascos com vinho cor de ametista e cor de ouro, esfriando entre blocos de gelo
que reluziam.
E a tentao era to deliciosa e forte - que Onofre, diante, tremia todo, com uma
espuma na boca ressequida, e grossas lgrimas rolando pelas barbas. Fugia: a mesa
reaparecia to rente do seu peito, que ele sentia a frescura da neve, o fumo da carne, e
um aroma de pomar regado, e de flor de romzeira, e de flor de laranjeira. Dava um
brusco empurro quelas delcias do Inferno: - as frutas esboroavam-se sobre os seus
ps, rachando de maduras, os vinhos entornados faziam regatos cheirosos na areia.
Desesperado, torcia os braos, gritava pelo Senhor! "Socorro, meu Deus, socorro!"
Tudo desaparecia: - mas logo sobre ele pendiam grossos ramos, carregados de laranjas,
de roms, de cachos de moscatel, de damascos dourados - e do cho rebentava uma
chama clara onde um anho, gordo e branco, alourava no espeto... Onofre espedaava os
ramos, Onofre espezinhava o lume. "Socorro, meu Deus, socorro!" E ia cair, quase
desmaiado,  porta da sua caverna, escondendo a face na areia quente, que bebia as suas
lgrimas.
Um ano inteiro assim combateu - e todos os seus cabelos embranqueceram. Um
dia, que ele recolhia exausto do seu trabalho, e se sentara numa rocha,  beira de gua,.84
encontrou de repente, no regao, um po pequenino, louro e tostado, quente ainda como
sado do forno. Ento o Solitrio comeou a rir serenamente. O qu? Tanto se esvaziara
o Demnio que, depois de mesas mais ricamente cheias que as do Imperador, s lhe
restava agora para o seduzir um po miservel, de legionrio! E com aquele riso, uma
paz imensa entrou no seu corao. O Demnio, assim humilhado, abandonou o Deserto.
V
Mas poucas luas tinham passado, quando, uma tarde, ao escurecer, voltando do
mosteiro longnquo de Tebane onde fora buscar semente para semear, encontrou,
sentado pensativamente numa pedra, um homem, um velho, com uma tnica severa de
filsofo, e um basto na mo, que se ergueu, o saudou, e comeou a caminhar a seu
lado, com respeito e calado.
Estranhando o seu silncio, Onofre murmurou:
- Bem-vindo sejas, meu irmo em Jesus, filho de Deus Padre, que por ns
padeceu!
O velho, sem levantar os olhos do cho, onde as suas sombras se estendiam
longamente, disse com lentido:
- Deus  um, e imaterial, e no podia ter filhos.
E como Onofre recuava, escandalizado, o outro, retendo-o pela manga, rompeu
em palavras estranhas e magnficas. Se Jesus era filho de Deus, porque se chamara a si
mesmo filho do Homem? Tudo nega, em cada uma das suas aces, e das suas palavras,
a sua essncia divina. Se ele era Deus, para que necessitava o Baptismo? Como poderia
o Demnio tentar, pela oferta de um reino na Terra, aquele que ele sabia possuir, como
Deus, os remos da Terra e do Cu? Quando a Madalena lhe tocou a tnica, ele
exclamou: "Quem me tocou?" Logo no sabia: onde estava ento a sua omniscincia de
Deus? Em Emas, depois da ressurreio, Ele pede aos discpulos que lhe apalpem as
chagas. Logo, mesmo depois de ressurrecto, era um corpo material, susceptvel de verter
ainda sangue
Onofre dilatava os olhos, estupidamente. E ento o homem, apontando com o
bculo para o lado do Deserto, onde o Sol desaparecia, tornou:
- O meu caminho  para alm... Mas a tua alma  digna de receber a Verdade.
Outros viro que ta ensinaro.
E outros vieram - uns solitariamente e em silncio, surgindo de entre as rochas,
que ressoavam sob os seus bastes ferrados, outros, em bando, atravs dos areais, como
mestres marchando entre os seus discpulos. Era de noite e sob a Lua cheia. E por vezes
o eirado, diante da cova de Onofre, ficava atulhado de uma multido de homens, de
longas barbas, soltas e entranadas, envoltos em mantos negros, ou ostentando simarras
de cores estridentes, todos mais plidos que marfim, com olhos encovados que
refulgiam, e agitando nas mos inquietas grossos rolos de papiros, ou tabulrios
escritos. Ora um s, de p, falava com abundncia e cadncia: ora todos,
tumultuosamente, disputavam, mas sem se encararem, com os raios negros das pupilas
ardentes cravados no Solitrio. Encruzado  porta da sua caverna, com os longos dedos
descarnados pousados sobre os ossos salientes dos joelhos, Onofre pasmava para
aquelas facndias sonoras.
Atravs delas, uns aps outros, sem respirar, enchendo o deserto de rudo, aqueles
homens (que eram decerto doutores) afirmavam princpios, cheios de irriso ou mentira.
- O Deus de Israel era um anjo subalterno! Jesus no passava de uma simples
continuao de Ado! O Mundo fora criado por um delrio do Senhor! Para vencer a
carne era necessrio content-la - e s pelo vcio se atingia a perfeio! H s uma.85
alma, que est tanto nos homens como nas rochas! S a matria  eterna, e os deuses
morrem. O Mundo foi concebido pelo Diabo! Jesus  filho de Achmaroth e a sua
residncia  o Sol! O Esprito Santo  uma mulher! S Caim  verdadeiro!
E a cada uma destas revelaes, lanadas com estridor, Onofre ora entreabria uma
boca nscia, ora rompia num riso largo e lmpido, que lhe sacudia as costelas sob o seu
surro de peles. Ento, arremessados sobre ele, todos lhe brandiam junto da face os seus
papiros, os seus tabulrios. Eram as Provas! Eram as Escrituras! Eis a Profecia de
Maxila! Eis o Tratado de Apolnio! Eis o Tratado da Alma Adventa!...
- Compreendeste?
E o mais novo dos doutores, que tinha unia mitra oriental, suplicava Onofre,
curvado sobre ele, com sofreguido:
- Faz um esforo! Faz um esforo! Diz que percebes!
Silenciosamente, com um resto de riso que lhe faiscava nos olhinhos midos,
Onofre encolhia os ombros, murmurava:
- S creio no Padre, no Filho, no Esprito Santo!
Ento um murmrio de tdio, de indignao contra tanta simplicidade, corria entre
os doutores subtis. Os mais violentos arremessavam-lhe injrias. Outros,
majestosamente, voltavam as costas largas, cobertas de largos mantos que roagavam. E
todos se sumiam por entre as rochas, em tumulto.
Mas, com o crepsculo, voltavam - e Onofre l estava sentado  entrada da sua
cova, j risonho, como quem numa feira se prepara a gozar as artes divertidas dos
mgicos.
E a grande lio recomeava, ressoante e facunda. Cada dia surgia algum doutor
novo, com um dogma novo. E sempre o riso do Solitrio lhes respondia! Sempre a
confisso da sua f, cndida e simples, no Padre, no Filho e no Esprito Santo. At que
uma noite, em que a douta contenda se alongara, e a Lua j desmaiava - como Onofre,
fatigado, apesar de terem sido mais profundas e sublimes as concepes dos doutores,
comeasse a bocejar, cerrando as plpebras - um que tinha uma mitra bicrnea, onde
lampejavam pedrarias, ergueu o brao, clamou subitamente:
- Deixai esse bruto!... Vinde!
E num grande silncio, o bando dos doutores, todos hirtos e juntos, elevaram-se
no ar, e fundiram-se, docemente, na claridade ltima da Lua. J Onofre dormia.
No voltaram: - mas foi ento, no Solitrio, como uma saudade daqueles homens,
e daquelas vozes, que cada noite povoavam a sua solido. E mais deserto lhe pareceu o
Deserto. E s horas em que eles costumavam aparecer, como sombras que se
desprendiam da sombra, e ele, depois do labor do longo dia, se encruzava no cho,
preparado a gozar, como em recreio, as suas arengas sonoras como msicas de batalha -
subia s penedias, aguando os olhos, a espreitar se algum, ou todos, no voltariam,
pelo caminho estreito, apanhando os mantos por causa dos tojos speros.
O caminho permanecia ermo, e no havia nem estrelas nem Lua: e vazio e largo
lhe parecia o deserto, em redor - e dentro do seu corao.
Mas uma noite, que ele assim espreitava do cimo das rochas, pensou ouvir de
repente o tinir lento e triste dos guizos de um dromedrio. E tochas fumarentas bailaram
na sombra.
Alvoroado, ele gritou, agitando os braos:
- Por aqui! Por aqui!
E imediatamente, com um rumor de armas em marcha surdiram em fila, do
caminho estreito, soldados barbudos, com os escudos metidos em sacos; uma liteira
emplumada, de panos de prpura, que se balanava sobre os ombros de escravos; as
insgnias de Roma; e dromedrios com fardos e odres. Vozes bradavam entre o fagulhar.86
das tochas:
-  aqui que vive o Santo Ermita?
O Solitrio, espantado, balbuciou:
- Onofre, servo de Deus, aqui vive!
Ento, de entre os panos franzidos da liteira, que estacara, um homem, togado de
branco, e todo ele mais branco que um mrmore, escorregou, pousou no cho os seus
borzeguins de escarlate e ouro. Os contos das lanas ressoaram no cho, duas buzinas
speras estrugiram, o dromedrio ajoelhou. E o homem, arrepanhando as pregas da sua
vasta toga, caminhou para o Solitrio, com lentido e majestade. Depois, na grande
mudez do deserto e da noite, comeou, direito, grave, como se arengasse num Senado:
- Onofre, a nomeada da tua pureza e das tuas penitncias transps o Deserto,
chegou a Roma. E eu venho em nome de Honrio, Csar, trs vezes Augusto,
Invencvel e Senhor do Mundo, e que te sada!
E saudou. Um brado correu entre soldados e escravos:
- Glria a Csar, trs vezes Augusto!
E, bruscamente, o homem togado abeirou-se do Solitrio que recuava, intimidado,
apertando contra o peito as mos magras por sobre as longas barbas - e num murmrio
familiar e risonho continuou:
- Onofre, aqui est a coisa imperial e formidvel de que se trata. Honrio, atrado
pela Verdade, quer conhecer a Lei Nova. Mas quem seria bastante puro, e inspirado do
Cu, para lha ensinar? S tu, amigo! Os doutores de Alexandria e da Palestina tm
almas cheias de ambio e mentira. A tua  cndida! E, pela pureza perfeita, tu atingiste
a vontade perfeita. Em Roma vivers no palcio de Csar. E, quando Csar conhecer a
Lei Crist, convocar o Senado, e todo o Imprio ser proclamado Cristo. Hem? Tu
mesmo, por tua mo, fechars as portas dos templos. E, sem mesmo despires esse
surro, em toda a tua simplicidade, oferecers ao teu Deus Roma, as Legies, as
Provncias, e todo o Gnero Humano. Hem?
Debruado, com os braos abertos, de onde pendiam os panos rubros do manto,
ele parecia uma ave de rapina, coberta de sangue, e de asas j cerradas sob a presa fcil.
E, num bafo ardente, murmurava:
- Que ocasio, Onofre, que ocasio! O que no fez Paulo, nem Gregrio, nem o
grande Atansio, nem o imenso Orgenes, tu o fars s com falar de manso e finamente
junto  orelha de Csar! Bem sei! No  o orgulho do esplndido feito que te impele...
Decerto. Mas pensa! Todos os martrios findos, os dolos cobertos de bolor, a terra cheia
de cantares, e o Cordeiro no seu Redil. Hem?
Onofre tremia todo, deslumbrado. Balbuciou:
- E o Imperador?
- Quer! Pois se j, nos Idos de Maro, uma noite, ele vos viu em sonhos, a ti e ao
Outro - ao Outro com a sua coroa de espinhos, e as mos ainda com os pregos, que te
empurrava, para diante de Csar, e gritava, em grego: - Este te ensinar o que convm
saber! E eras tu, tu com essa pele de cabra, essas barbas, e essa beleza clara e majestosa,
que te comunica a virtude. Oh Onofre, a terra cansada  por ti que suspira! Vem.
E Onofre passou longamente as mos pela face, sorrindo. E deu um passo, depois
outro, com o pulso j preso na garra do homem de prpura. E ia, como no esplendor de
um sonho, todo feito de certeza!... Csar esperava por ele para confessar a f! Por que
no? O imperador Constncio escrevera duas cartas a Anto, e as patrcias de
Alexandria faziam a travessia do Deserto, para beijar os joelhos chagados de Pacmio.
E a sua vida no fora menos terrvel que a desses Solitrios magnficos! No havia
forma de dor que ele no tivesse atravessado: - e as suas lgrimas de penitncia, juntas,
podiam fazer um rio no Deserto! Mas, enfim, Deus elegia-o para o feito melhor dos.87
tempos! E ele marchava, firme, sob o olhar contente do Cu! Todo o erro ia desaparecer
da Terra; e desde o primeiro dia, ele persuadiria o imperador a exilar os herticos para
os confins das naes, onde comeam as neves e os mares tenebrosos. Todos os templos
seriam destrudos, e queimados os livros dos filsofos que perpetuam o erro. Depois,
reformaria as igrejas da sia. E, num grande conclio, a doutrina pura seria estabelecida,
para sempre imutvel. Ento, comearia uma grande paz divina. Que obra! Que obra!
Ao lado do imperador, ele percorreria as provncias. Mas para si no queria honras, nem
poder sobre as almas... Talvez, apenas, o governo dos mosteiros do Egipto. E, junto da
prpura de Csar, os povos prostrados pasmariam do seu surro de pele cheio ainda dos
espinhos do tojo! Que obra! Que obra! Todo ele crescia - e parecia ver as estrelas de
mais perto, como se fossem j a sua coroa imortal.
- Chegai a liteira! - clamava o homem purpurado. - E vs saudai o Mestre de
Csar, o possuidor da Verdade!
Todos os ferros das lanas retiniram, as insgnias de Roma ondearam no ar, os
escravos estavam rojados no p. E o homem ento, junto das barbas do ermita,
murmurou, na abundncia da sua vitria:
- Em Roma vers multides mais prostradas! Todas as igrejas da sia poro o teu
nome nas Escrituras! E bem o mereces! Porque o Outro, em Galileia, s converteu
pecadores - e tu, persuadindo Csar e com ele o mundo, s maior, s maior! Vem!
Maior que o Senhor! Ento, foi na alma de Onofre como um claro que alumia um
precipcio! Sacudiu com um grito a mo do homem que o escaldava. E no seu olhar,
reconheceu o lume do Inferno. Na sua angstia s pde suspirar: "Oh Jesus! Oh Jesus!"
Subitamente, o grande manto de prpura, mole e como vazio, abateu no cho e, ao
longe, a liteira emplumada, o dorso do dromedrio, as lanas em confuso, fugiam em
debandada, e num rolo de fumo.
Onofre caiu de joelhos. Diante dele o manto enrodilhado fazia uma mancha
vermelha. Palpou muito de leve com os dedos: - era sangue! Arrepiado, num terror
infinito, recuou - e o sangue comeou a rebrilhar, to liso e vidrado, que ele avistou
nele, como num espelho, a sua face. No a vira desde que entrara no deserto - e recuou,
espavorido, ante a fealdade com que ela lhe reaparecia, dura, esbraseada de orgulho,
toda entumecida de Pecado.
Muito tempo, ento, chorou amargamente! Oh misria, oh dor! Em tantos anos de
penitncia e ermo, o seu corao no obtivera purificao - e permanecia coberto de
uma crosta de maldade. Decerto mil noites de dura peleja ele rechaara o Pai da
Mentira! Mas esses eram os triunfos fceis que os mesmos pagos, sem o socorro de
Jesus, alcanam sobre a Carne. Quando, porm, o grande Mentidor vem, e do cimo de
uma rocha, como ao Senhor, lhe promete uma grande glria entre os homens, logo ele
se deixa levar pela mo, consentindo, com uma facilidade de prostituta. Oh alma
miservel, h tanto fora do mundo, e ensopada ainda no orgulho do mundo, como uma
esponja que saiu da gua podre! Que penitncia, e que exerccio herico de humildade
havia a, que pudesse espremer, at  ltima gota impura, aquela soberba que
trasbordava, empestava todo o seu ser! Trinta anos se flagelara! Trinta anos se
esfomeara! A sua orao subia para o Cu to constantemente como o seu hlito. E
arrastara correntes de ferro; velara meses, com os joelhos em pedras agudas, e os olhos
risonhos postos nas claras estrelas, ou dormira embrulhado em cardos; dera a beber do
seu sangue s vespas; esmagara os ossos debaixo de grossas pedras... E em vo!... Que
podia ento ainda fazer naquele ermo? Onde havia martrios mais dolorosos? Onde se
aprendiam preces mais extticas?... Onde?
Sentado, abatidamente, sobre os calcanhares, com a barba descendo em flocos
entre os braos cados, Onofre erguia os olhos arrasados de lgrimas, suplicando ao Cu.88
um ditame.
Porventura aquela vida solitria seria estril para o Bem?... Na verdade - entre
aqueles areais e aquelas penedias, como exercer suficientemente a humildade, a
caridade? Ele no tinha sequer ao seu lado um co, para quem pudesse ser paternal. E se
a humildade passava dentro da sua alma, sem que o mundo a testemunhasse, ou com ela
aproveitasse - era fcil, e era v. Que fazer? Deixar o ermo? Voltar para entre os
homens?
Lentamente murmurou, no silncio:
- Voltar para entre os homens!
E, ante os seus olhos, que se embebiam nas estrelas, julgou vagamente entrever a
forma de um homem: - estava sentado junto de um muro, quase nu, e gemia coberto de
chagas! Depois o muro prolongou-se, e era um alpendre, onde outro homem, um
escravo, muito velho, com o dorso vincado dos aoites, arquejava, fazendo mover a
pesada m de um lagar! Depois a m do lagar separou-se em lajes, e era uma estrada
onde seguiam, ligados por cangas, arrastando grossas algemas, bandos de cativos, que
soldados impeliam com picadas das lanas. Depois as lanas ficavam cravadas no cho,
e eram cruzes, onde agonizavam, listrados de sangue, corpos que os abutres, voando em
redor, batiam com as asas negras. E dos olhos de Onofre, que seguiam estas dores, as
lgrimas caam em fio, silenciosas e quentes.
A cada lgrima que assim caia, Onofre sentia no seu corao um alvio inesperado
e novo.
- Muitas lgrimas chorara no ermo - mas nunca to consoladoras! E todavia eram
as memrias das Dores do Senhor, do seu doce corpo cheio de chagas, do seu suor de
aflio, e da sua queda, na spera serra, sob o ultraje dos soldados e da cruz, que lhas
fizeram derramar, em noites de piedoso cismar. Porque eram mais doces e pacificadoras
estas, que lhe arrancavam as chagas, e os trabalhos, e os cativeiros, e os suplcios dos
homens mortais? As lgrimas vertidas pelas dores humanas eram, pois, mais gratas ao
Cu, que as lgrimas derramadas pelas dores divinas! Decerto, ento, servir os homens
no mundo, seria mais aprecivel no Cu, do que servir a Jesus na solido...
De p, atirou os braos para as estrelas, e murmurou:
- Oh meu Senhor, ensina o teu servo, que sofre o tormento da incerteza!
Um desejo, bruscamente, entrou na sua alma - de ir ser bom e humilde no mundo.
Ento, com a mo ainda toda trmula, limpou as lgrimas. Alegremente, entrou na
sua cova, apanhou o seu bordo, meteu no seio, sob o surro de pele, a cruz preciosa,
que fizera Anto, na cidadela do Alto Egipto.
Depois subiu s rochas - envolveu num longo olhar o deserto, a horta, nunca
acabada, que cultivara, as palmeiras benficas que o tinham alimentado, o arbusto, que
flor a flor lhe marcara os anos de penitncia, o regato que fora a frescura do seu
Deserto. E com um longo suspiro, tomando pelo rumo das estrelas o caminho do sul e
do Grande Mar, Onofre voltou para entre os homens.
VI
O primeiro que encontrou junto a uma aldeia que aparecia num alto, toda escura, e
de adobe, foi um velho, muito alquebrado, vergado sob um feixe de lenha, e conduzindo
um jumento ruo, muito velho tambm, j manco, que carregava um saco de gro. E,
um atrs do outro, o velho em farrapos, o jumento com chagas no lombo magro, iam
arquejando, e mancando, por uma calada ngreme, sob o sol e as moscas, entre piteiras
poeirentas.
Humildemente, Onofre abeirou-se do velho e lembrou que, sendo mais forte,.89
melhor conduziria pela subida a lenha e o gro. E, sem esperar o consentimento do
velho, que mal compreendera, vago e senil - tomou sobre o ombro o molho de lenha,
sobre o outro o saco de gro, e atrs do seu homem, e do seu jumento, assim aliviado de
todo o fardo, foi marchando contente e cantando os louvores do Senhor.
O velho era o servo de uma viva, pobre, entrevada - que s o tinha a ele, e
quele jumento, e uma horta mal tratada de poucas ervas. Onofre nessa tarde amassou a
farinha, rachou a lenha, acarretou gua do poo, cavou o talho de cebola, tirou os
espinhos dos ps do servo, lavou as velhas chagas do burro, e junto do catre da viva,
que era crist, para a consolar, contou a paixo do Senhor. E assim comeou Onofre a
sua obra entre os homens.
Mas bem depressa deixou a aldeia, que, rodeada de terras frteis, com poos
abundantes, sob um ar muito doce, no abrigava, nos seus casebres, nem indigncia,
nem males. A simplicidade dessa vida no oferecia aco a um corao sedento de
humildade.
A dois estdios, porm, da aldeia, havia a velha cidade de Bubastes, entre as guas
Pelusacs e o canal de Ncio, onde cada ano vinha de todo o Egipto a festiva
peregrinao ao velho templo de Fts, ento dedicado a Artemis Grega.
Bubastes era rica em obeliscos e termas. As suas muralhas formidveis estavam
cobertas de esttuas. E nas longas avenidas, ao comprido das guas, sob os sicmoros e
as palmeiras, todo o dia as tabernas e as casas esguias das cortess ressoavam dos cantos
e dos folgares pagos.
O pretor romano era a doce aos Cristos; - mas a heresia dilacerava a Igreja j
considervel e activa, de que era bispo Alexandre, homem austero e rude, que guardara
cabras na Galcia. Onofre foi habitar Bubastes. Como as suas longas barbas inspiravam
respeito, e alguns fiis o saudavam nas ruas, cortou as barbas - e trocou o seu surro de
Solitrio por um saio de escravo. Ele logo, na verdade, se tornara o escravo dos pobres.
Junto ao muro, ricamente ornado de esculturas, que cercava o templo e os bosques
sagrados, costumavam, desde o romper da alva, juntar-se doentes e mendigos. E a,
desde alva tambm, depois da noite velada em oraes, Onofre trabalhava no servio
dos miserveis, arranjando leitos de folhas para os velhos, lavando os trapos  beira do
canal, cobrindo de fios as chagas, catando a vrmina nos cabelos intonsos. Depois ia
mendigar para os seus pobres, por toda a cidade, desde as casas mais ricas, onde os ces
lhe ladravam, at s tabernas dos canais, ou s cubatas das prostitutas, de onde trazia
sempre no saco algumas cdeas de po, restos de peixe, ou uma maquia de lentilha: - e
no duvidava mesmo entrar no templo de Artemis, ou, ao fim da larga avenida, no
templo de Hermes, e esmolar dos deuses pagos, pela mo dos seus sacerdotes, um
pouco de leo, para amaciar os membros doridos dos seus enfermos. Outras vezes
alugava o seu pobre corpo descarnado aos mais duros servios - e puxava  sirga os
barcos nos canais, acarretava pedras para a reparao das muralhas, rachava na caserna
romana a lenha da coorte: - e as moedas de cobre, que lhe atiravam  palma da mo,
vinha traz-las, correndo, a algum casebre onde conhecia crianas sem po. De noite,
com uma tocha, alumiava os tresnoitados - ou impedia que os brios, saindo das
tabernas dos canais, rolassem  gua escura. Como recompensa, recebia ultrajes. Ele
replicava com bnos.
E nunca como ento gozara uma paz to perfeita. No deserto, os seus rudes
labores de enxada e rega, para combater a esterilidade das areias e concorrer para a
realizao da divina promessa, no lhe davam alegria: - e a fadiga com que deles saa,
era inquieta e melanclica. Na orao, que a perenemente enviava para o Cu, a sua
alma no se desafogava, nem por ela obtinha do Cu o dom da apetecida misericrdia: -
e havia apenas uma alma mais turva diante de um cu mais mudo. Agora, ao contrrio,.90
o cansao naqueles longos dias de caridade era cheio, era feliz e repassado de doura: -
e a mais curta orao, balbuciada  pressa, fazia descer das alturas sobre o seu corao,
como uma longa e vaga carcia que o refrescava deliciosamente. Mas o melhor bem
logrado era a libertao do Demnio. No voltara mais, o Pai das Imposturas, nas suas
formas variveis de seduo e terror: - e a terra toda estava para ele como limpa e vazia
de Satans, como um altar lavado de fresco.
Nas runas de um templo muito antigo, junto das muralhas, e onde escolhera, para
se abrigar, o tmulo de um fara, sob a terra, havia, pintadas e entalhadas sobre o resto
dos muros, figuras execrandas: - e era um lugar temido dos cristos, porque de noite
todas essas imagens se despegavam da pedra, reviviam, e celebravam, sob a lividez da
Lua, ritos abominveis. Mas, para ele, s houvera naquelas runas solido e sossego: - e
at mesmo, desde que as habitava, na estao das chuvas, tinham nascido nas fendas das
pedras flores silvestres, que se alargavam, trepavam, e punham em redor dele, e das suas
longas oraes, um perfume casto e grave de capela em festa.
Mas, ao fim de um ano que ali vivia, aquele terreno foi escolhido pelo pretor para
a edificao de uma larga cisterna; Onofre, desalojado, dormia ento nos currais: - e se
os servos o repeliam, ia estender-se contente entre o lixo das ruas. To descarnado se
lhe tornara o corpo, que as crianas, brincando na rua, nos bairros pobres, lhe
chamavam o Pai da Morte. Muitas vezes lhe atiravam pedras ou lama. Ele parava,
sorrindo, a receber aqueles ultrajes como carcias.
Uma noite que Onofre orava, sob as rvores do canal, passou sobre a cidade, no
cu, de oriente para ocidente, uma grande tocha fumarenta. As sentinelas, sobre as
muralhas, soltavam sons de buzina, como num alarme: e nos terraos das casas surgiam
figuras espantadas, que batiam desesperadamente na face, para conjurar o pressgio.
Logo no outro dia, rompeu um incndio no bairro remoto e miservel, onde viviam os
embalsamadores de cadveres - e em breve foi por todo o casario, at ao templo de
Hermes, uma imensa labareda. Onofre correu para as chamas com a multido que
acudia, no terror de que fossem consumidos os corpos de parentes, de amigos, confiados
aos embalsamadores.
J uma fila de escravos, de cidados, misturados, se formara pela rua at aos
canais, para o carreto da gua. Onofre, repelindo o balde de couro, que soldados
distribuam, penetrou nas chamas, onde os gritos eram mais dolorosos. Em breve
reapareceu logo, com fagulhas no plo da tnica, trazendo um velho s costas: - e
remergulhou seis vezes no braseiro tumultuoso, trazendo atravs das traves abrasadas,
dos tectos que abatiam, crianas, uma mulher aleijada, outro velho, at mesmo um anho,
que lhe balava entre os braos. Todo o cabelo lhe ficara crestado das queimaduras; das
pernas ficou para sempre coxeando.
Depois do seu espanto, o povo acusou do incndio os judeus e os cristos. Os
mais pobres, que no pagavam ao templo de Artemis um tributo secreto, para evitar as
perseguies, foram carregados de algemas, arremessados aos ergstulos; Onofre, que
por miservel no fora perseguido, percorreu as prises consolando os irmos,
ajoelhando atravs das grades: - e na manh em que eles foram aoitados defronte dos
prticos da Baslica, ele, meio nu, em face aos flageladores, no cessou de cantar hinos,
vergastando o seu corpo miservel, e ainda cheio de queimaduras, com disciplinas de
ferro.
Impelidos pelo velho gramtico Flaco, alguns mais furiosos assaltavam com
pedras Onofre, que injuriava a majestade da Lei. E decerto ia ser lapidado e martirizado,
junto a uma casa em obras, onde se refugiara - quando uma grande chuva, tempestuosa
e brusca, dispersou a turba praguejadora. Foi a gua do cu que lavou as feridas de
Onofre..91
A Assembleia dos Fiis era junto ao Mercado do Peixe, num terceiro andar de
uma casa velha, ao fundo de um terrao de onde no passavam os catecmenos, ainda
no iniciados no Mistrio dos Sacramentos, ou que estavam cumprindo penitncia por
culpas confessadas em segredo ao bispo. Para alm da porta santa, guardada pelo
porteiro, encruzado no cho, com os tabulrios que continham o rol dos fiis, s havia
uma sala vasta, nua, mal caiada, onde ardiam doze lmpadas. Na sexta-feira que se
seguiu  flagelao dos Irmos, quando Onofre, como sempre descalo, com o rolo da
Escritura metido no seio da tnica, a penetrou e se colocou, humildemente, num canto
- todos o saudaram, com o cntico que se deve aos mrtires. Um dicono correu,
murmurando: Sanctum! Sanctum! para o conduzir junto da mesa coberta de linho
branco, que servia de ara: - e at o bispo Alexandre se ergueu, apoiado ao bculo, para
o beijar nas duas faces. Onofre permanecia mudo, assustado com a venerao e os
louvores. E apenas, findas as preces, os Irmos trocaram o sculo ritual, ele correu,
cosido com os muros, como um culpado, at ao templo de Artemis, para junto dos seus
mendigos e dos seus estropiados - e deliciosamente reentrou na sua humildade.
Mas a fama da caridade de Onofre era j grande entre os Irmos: - e uma dicona,
senhora de muitas terras e de muitos gados, a quem a velhice, a doena, impedia os
exerccios santos, chamou Onofre a sua casa, e apontando para um cofre de cedro, disse:
"Aqueles bens eram para os pobres, e para os pobres tos entrego... Leva, tira, at que eu
depressa fique pobre tambm". Onofre, com a voracidade de um avaro, mergulhou as
mos no cofre - e abalou, rindo, deslumbrado, com as pregas do saio pesadas de ouro.
Foi ento, por Bubastes, o grande bodo dos miserveis. Logo  alvorada estava no
Mercado, atulhando de provises, de legumes uma carriola, a que ele se atrelava como
um animal, e que arrastava pelos bairros mais pobres, deixando em cada morada o
bendito po de cada dia. s vivas dava dinheiro, beijando-lhes a orla da tnica. Vestia
todas as crianas. E comprara mesmo um campo, onde andava erguendo um barraco
para abrigar todas as velhices e todas as enfermidades.
No cuidava s dos corpos, mas tambm das almas - a ponto de empregar trs
copistas, pobres e que inclinavam para a f, em preparar cpias das Santas Escrituras,
que ele distribua aos mesteirais  hora da sesta, aos que descansavam sob os pltanos
no ptio das Termas, e mesmo aos viandantes que chegavam, com fardos, pela porta
Pelsica. queles a quem saciava a fome, contava sempre, docemente, do Reino de
Deus, onde todas as fomes so saciadas: - e aos que nessa cidade de Csar eram, por
condio, os mais nfimos, afianava no cu, naquele cu azul e to sereno que os
cobria, uma outra cidade, verdadeira e eterna, a cidade de Deus, onde eles seriam os
supremos, e teriam mais alegria que nunca tiveram ricos senadores, abundantes em
escravos e terras.
Mas aos gentlicos, oferecia a Verdade, de leve, e sem intransigncia - porque o
homem, por mais sedento, repele com clera a gua que mos brutais e autoritrias lhe
queiram introduzir por entre os lbios ressequidos. No injuriava os deuses, nem os
ritos. E o seu ensino era todo para o corao, contando a Vida do Senhor, e a sua
humildade, e as suas visitas aos casais e aos lugares, e a sua morte, to triste como a de
um pobre escravo. Jesus s queria que os homens se amassem uns aos outros! Para ele
tanto vale um oleiro como um procnsul, e no seu Reino no haver nem escravos, nem
tormentos. Para que ele se alegrasse, o rico devia partilhar com o pobre. Que era a vida,
aqui, seno uma caminhada breve e trabalhosa que vai de rua a rua? Mas a vida alm,
no Cu, ao seu lado, era a verdadeira, e nela os que trabalharam repousaro, os que
padeceram folgaro, e os que obedeceram mandaro. E se fordes bons - dizia - vs que
de alvorada  noite trabalhais, tereis glria, e sereis imortais, e bebereis o vinho do
Senhor: - e talvez o mesmo no suceda a Csar!.92
Assim ele ensinava nas ruas pobres,  hora em que os escravos despegam do
trabalho, sentado a uma porta amiga, com crianas sobre os joelhos. E quando Onofre,
beijando os homens na face, ou na mo, humildemente, tomava o seu cajado e se
afastava - sempre algum dos que escutavam, obreiro, escravo, ou mesmo homem livre e
senhor de bens, o seguia, e lhe ia puxar, a uma esquina, pela ponta da tnica rota, e
muito baixo perguntava: "Onofre, como se faz para pertencer a esse Deus, que  to
bom?" Mesmo um dia, Simeo, um avarento, correra atrs dele, apertando uma bolsa, e
balbuciara, com a inquietao de uma alma tentada fortemente: "Onofre, quanto se
paga, para se ser acolhido por esse teu Deus?" Onofre rira, com um sincero e grande
riso. Mas Simeo, desde ento, deu largas esmolas.
Esta santa popularidade, que o trazia por vezes seguido de gente, pelas ruas -
suscitou, todavia, desconfiana entre os diconos, zelosos da autoridade espiritual. E os
judeus mais velhos da Assembleia viam com clera que ele distribura as esmolas de
Petronila fora dos bairros dos judeus, e mesmo entre obreiros pagos. Ento, na
Assembleia, surdiram murmrios - e Onofre foi acusado de receber esmolas das
cortess, de aceitar leos medicinais dos arspices, de frequentar os pagos e mesmo de
tender para as doutrinas de Marcos, o Hertico.
O bispo Alexandre chamou o velho  casa pobre em que vivia, e onde fabricava
esteiras para viver do seu trabalho, e asperamente censurou a sua humanidade
indiscreta. Onofre beijou, chorando, a orla da tnica de Alexandre; - e desde esse dia,
no transps mais a porta da Assembleia, ficando fora, no terrao, entre os penitentes,
com a cabea sobre as lajes, que ele regava de lgrimas, como na expiao de um
sombrio pecado. Por esse tempo, a velha Petronila morreu, e os seus herdeiros,
avidamente, invadiram a casa, com escribas do Pretrio, que selavam as arcas,
arrolavam os bens. Secara a larga fonte de caridade, que atravs dele refrescara tanta
misria! E os seus Irmos em Jesus no o amavam! Onofre tinha ento setenta anos.
Comeou ento pela cidade a mendigar para os seus pobres. Pensou mesmo em se
vender como escravo - e ser apregoado, no bazar, com a cabea rapada, um rtulo no
peito, e os ps pintados de branco. Mas que valia aquele seu pobre corpo, descarnado e
vergado, com as mos todas trmulas? Cinquenta dracmas? E amarrado a uma servido,
no poderia velar pelos velhos, pelos enfermos, que dependiam da sua caridade. Ele
conhecia agora todas as misrias da cidade - e o seu amor crescia cada instante por
aqueles miserveis, que j no podia socorrer, e de quem, um por um, sabia as fomes, as
chagas, as dores e a solido. De noite, aflito, nos terrenos vagos, nas runas, para onde ia
orar, erguia os braos para o Cu mudo, gritava: "Socorro, meu Senhor, socorro!"
Mas como o socorro no descia do Cu, cada manh ele recomeava
desesperadamente, pela cidade, as suas splicas lamentveis, com uma velha panela
atada ao pescoo por duas cordas, as mos sempre estendidas. Assim estacionava nas
praas, ou onde os canais se cruzavam, gritando: "Po para os pobres! Po para os
pobres!"
Era ento a estao das grandes chuvas: -e aquele velho, imvel sob as grossas
cordas de gua, com os cabelos brancos empastados nas covas da face, e puxando a
pobre tnica colada aos ossos que lhe tremiam, causava piedade: as esmolas caam
ressoando na panela de barro. Por isso Onofre temia os cus alegres e o ar doce, que
aligeirando as almas, as desviam da compaixo...
Por vezes, passavam longos dias sem que tivesse alcanado esmola, ou um
trabalho, por mais vil, que lhe desse um salrio. E ento ia pelos caminhos, chorando no
silncio da noite. Chorava pelas fomes que no podia fartar, por todos os males que no
podia sarar. A sua misria prpria, a sua nudez, a sua fome, eram as nicas consolaes
- porque ao menos o tornavam igual, pela misria, queles que amava. Esse amor.93
infinito e insondvel, era tudo o que podia dar aos pobres, seus irmos. Mas ele saa do
seu corao to intenso e ardente, que Onofre, por vezes, pensava que poderia, mesmo
de longe, e invisvel, consolar e dar esperanas, como o Sol, centro de calor, aquece e
faz reviver. Quantas vezes ele alargava os braos na solido, com um desejo
desesperado de poder apertar neles, contra o seu seio, todos os que sofrem - e com eles
morrer, deixar este mundo impiedoso. Atormentava ento o Cu com oraes ansiosas.
Com os olhos postos nas alturas, a mo estendida como se visse Deus de perto, e lhe
falasse, revelava, lembrava a Deus, como a um pai distrado, certas misrias em certas
moradas: - e murmurava: "Meu Senhor, Senhor do meu corao, h na Rua das Lojas
uma pobre viva com trs filhinhos, sem amparo, sem po; volta para l os teus olhos
piedosos!" E esperava com os braos estendidos a esmola de Deus - at que os braos
lhe caam cansados, e cansadas lhe caam as lgrimas.
VII
Onofre, atravs das lgrimas que o turvavam, recordava aquele casebre pintado s
listas pretas, aquelas crianas quase fluas, de grandes olhos famintos. J ali decerto
trouxera consolao e po... E ajoelhando, arredou devagar os panos da face do homem,
que jazia inanimado. Ento reconheceu um pobre chamado Ozias, escravo de um
homem cruel, um empreiteiro de obras. Oh pobre Ozias! Desde longos meses tinha
aquela mulher, doente e definhando, e mal podia, com o salrio da servido, ter po
bastante para os seus trs filhinhos, arrolados j como escravos. Quem o ganharia agora,
aos trs desgraadinhos, o po incerto? Oh dor! oh dor! E ento, nesse instante, o pobre
homem abriu lentamente os olhos, de onde duas lgrimas correram, pesadas, e
lentamente murmurou num sopro dbil, de infinda dor:
- Ai! os meus filhos.., os meus pobres filhinhos!
Ento Onofre, desesperadamente, todo a tremer, atirou para o Cu:
- Oh Deus misericordioso! Oh Jesus, meu Senhor! pelas tuas chagas, e por todas
as minhas oraes, d-me a vida deste homem!
Os seus joelhos bateram o cho. E tremendo, tremendo todo, com os ralos cabelos
eriados de terror divino, Onofre arrebatou contra si o corpo inanimado, ergueu-o, e
recuou!
Um brado ressoou de pavor e prodgio. O homem estava de p, com um sangue
novo na face, retesando fortemente os braos brancos, reverdecidos - e sos! Milagre!
milagre! Todas as mulheres se arremessaram para dentro do casebre, gritando, numa
nsia de palpar, sentir a pele refeita e quente daqueles braos de milagre. O soldado
barbudo da Legio Germnica fugira, espavorido.
Ora uma tarde, ao anoitecer, depois de um dia estril em que nada recolhera para
os pobres, nem achara trabalho, por mais vil, que lhe desse salrio, errando assim junto
das muralhas, perdido nestas dores, e a chamar por Deus - ouviu de repente, ao fundo
de uma viela, um pranto dolorido e agudo, como  o dos funerais. Correu, numa grande
compaixo.  porta de um casebre de adobe, onde ainda ardia o lume pobre da ceia,
estava estirado um homem, com a face escondida num pano, e os dois braos nus e
moles, cobertos de sangue negro. De joelhos, diante dele, uma mulher, esguedelhada,
gritava, com longos ais magoados e lentos. Trs criancinhas juntas abriam grandes
olhos aterrados. Outras mulheres, dos casebres vizinhos, apinhadas em roda, batiam na
face, soltando tambm longos ais! E os camaradas, que o tinham trazido, contavam
ainda a um soldado barbudo e louro, da Legio Germnica, que acordara aos gritos -
como uma grande pedra, caindo de um guindaste, nas obras das muralhas, esmigalhara
os dois braos ao miservel, e o abatera como morto..94
E Ozias, como tonto, com lgrimas que lhe corriam sobre o riso da face,
abandonava os braos, repelia as mulheres, experimentava a fora recuperada agarrando
os filhos, considerava com espanto os msculos refeitos, balbuciava e gritava:
- Estou so! Estou so!
Com o grande rumor, j vizinhos abriam os loquetes das portas, erguiam ao alto
lmpadas de barro. E o clamor erguido pelos dois camaradas de Ozias, engrossava,
rolava:
- Milagre! Prodgio! Foi Onofre! Vinde ver!...
Mas Onofre desaparecera! Como levado por um vento largo, sem sentir os passos
trpegos, atravessara a Praa dos Obeliscos, transpusera a muralha derrocada, e
caminhava junto ao rio, sob o silncio das estrelas.
E ia num deslumbramento! Por vezes estacava, alargava os braos, murmurava:
"Fiz um milagre! Fiz um milagre!" Onofre, o mais humilde e rude servo do Senhor na
Igreja de Bubastes, fizera um milagre! E no desses to fceis, e nascidos da iluso,
como os sabem fazer os discpulos de Simo, o Mgico! Mas um milagre profundo, que
tornara a Morte em Vida, como s os tinham feito os homens apostlicos, depois do
Senhor. Por qu? Por que lhe era concedido um to divino poder?
Decerto ele fora abundante em obras! Longos anos gemera no Deserto, longos
anos servira com humildade os homens. Mas Alexandre vivera no ermo, confessara a f
nos tormentos, ganhara almas inumerveis para o Senhor, era Bispo e era Santo - e
todavia nunca fizera um milagre! E Palemo, abade de Tebane, e Pancio, abade de
Antnoo, que governavam comunidades na Tebaida, e recebiam de noite, de Jesus, a
suma da Regra Monstica, no faziam milagres! Porque o escolhera o Senhor a ele -
escravo que mendigava entre os escravos? Sem dvida porque a sua vida, as suas longas
penitncias, a sua orao, tinham, mais que as de nenhum outro, em cidade ou ermo,
satisfeito o Senhor!
Ele, pois, realizara a obra sublime de contentar Deus - e to bem limpara a sua
vontade de toda a culpa, e to transparente e brilhante de pureza a tornara, que Deus,
desde j, lhe confiava, na Terra, um poder transcendente... Mas ento - era um Santo!
Presa ainda com a cinta vil da carne, a sua alma j recebera do Senhor a sua
santificao. Brevemente libertado da carne, e da sua misria, ascenderia fcil e
naturalmente quele cu, salpicado de estrelas. Entre esses divinos lumes habitaria,
enterrando os ps nus no azul macio, vendo a face do Senhor sorrir, no resplendor
inefvel. Da terra subiriam para ele, Onofre, longos rolos de oraes: - e os restos da
sua argila mortal, os seus ossos, receberiam tambm a venerao dos homens,
guardados em sacrrios - entre lmpadas e flores. Oh maravilha!
Mas aquele poder do Milagre seria perdurvel, constante, enquanto vivesse?
Poderia ele agora, com segurana, curar todas as feridas, e sanar todas as misrias?
E uma inquietao apertava o corao de Onofre. Se aquele milagre tivesse sido
isolado e nico! Se amanh, ante uma verdadeira e profunda dor, semelhante  de
Maria, irm de Lzaro, ele se encontrasse de novo impotente para a desfazer, como
antes da sua penitncia no Deserto? Fora ele, pela sua vontade, que curara os braos
esmagados de Ozias - ou fora a vontade de Deus que operara, passando apenas atravs
da sua alma, como o sol atravs de um vidro? Se experimentasse?... Se experimentasse
ali mesmo, sob o testemunho das estrelas? Alm, o rio alagara hortas humildes,
empobrecera colonos. Se ele marchasse para o rio, lhe gritasse: "Volta ao teu leito,
abandona esses campos que assolas!?"
E j caminhava para a gua, espalhada em largas poas, que reluziam, como
discos de ao. Mais longe, a inundao invadira casais - de que se viam os colmos, ou
os terraos de adobe, quase esboroados, e as pontas dos tamarindos, que outrora.95
delimitavam os campos. Um grande sulco de Lua tremia na gua imvel: - e havia uma
longa mudez de abandono e runa.
Onofre olhou em silncio, apoiado ao seu bordo. Longe, uma fila branca de
cegonhas dormia, rente da gua, coberta de nenfares. Se,  sua intimao, aquelas
guas recolhessem ao seu leito, deixando enxutos os casais, e mais adubadas as leiras -
certo estava ento estabelecido o seu poder sobre as coisas. E na ansiedade de uma
certeza, ergueu devagar o brao, bradou, arrepiado de emoo e temor:
- Rio, recolhe ao teu leito!
A gua toda tremeu. As poas que rebrilhavam, bruscamente se sumiram,
deixando um limo grosso e rico: - e alm os casebres, os tamarindos, os papiros,
emergiam lentamente da gua, pingando, e reluzindo  Lua. O rio obedecera a Onofre -
e um frmito corria sobre a terra e o ar, como o de um terror submisso ante uma pre-sena
divina.
Ento uma alegria sobre-humana trasbordou no corao de Onofre! Era dele, era
dele, e permanente, o Dom do Milagre! Oh! quanto bem faria aos homens! E, no seu
deslumbramento, corria atravs dos campos, com os braos abertos, como para acolher,
estreitar, o Universo sofredor. Onde havia a agora chaga que ele no sarasse? Onde
havia me debulhada em lgrimas, sobre um esquife, a quem ele no restitusse o filho?
Escravo que ele no remisse? Terra estril de onde no fizesse brotar a lentilha e o
vinho? - "Oh meus irmos, meus irmos, no receeis mais, Onofre pode, e est
convosco!"
Ah! como Deus o amava! Mas tambm que obras! Cinquenta anos ele padecera
pelos homens. Por cada dia de fome que ele arrostara no Deserto, o Senhor dava-lhe
agora o poder de saciar a fome de um lar. E porque ele se abaixara a tanta humildade,
ascendia agora a tanto poder! Um poder insondvel e magnfico, que descia at aos
remos escuros da Morte! Csar no tinha mais poder. Com os seus prefeitos, os seus
lictores, e legies mais bastas que as aves do ar, e mquinas de guerra rolando atravs
da terra, Csar seria impotente para deter uma gota de gua, caindo de uma nuvem. E
ele, Onofre, escravo de escravos, s com estender o brao, recuava as correntes do Nilo,
o grande rio que desce do Paraso... Se ele era mais poderoso que Csar - deveria, pela
manifestao desse poder transcendente, forar Csar a reconhecer a Verdade!
Nem Paulo, nem Marcos, nem Barnab, tinham suficientemente deslumbrado os
gentlicos! Intimaes, oraes nos Forum, epstolas arguciosas - que importavam? Os
pagos tinham uru saber slido, e retricos mais facundos. S pelo Milagre se poderia
triunfalmente provar Jesus! Pois bem: ele, Onofre, iria a Roma! Se as ondas cruis
assaltassem a proa da sua galera, amansaria as ondas: - e espalharia os prodgios, ao
comprido da estrada que o levasse  cidade! Nos trios de Csar, ante aquela face que
assusta e enche de sombra o mundo, ele diria com simplicidade: "Adora o Senhor!" E
quebraria, como galhos secos, as espadas que se erguessem contra o seu peito! Com um
sopro derrubaria os dolos do bronze mais eterno! E se contra ele se erguessem, no
Pretrio, filsofos ou gramticos - ele imediatamente lhes secaria as lnguas impuras
nas bocas impuras, ou os faria ladrar como ces contra a Lua. Roma tremeria toda sob
os seus prodgios, como uma cabana ao vento. E quando Csar, vencido, rojando a
prpura no p do seu trio, lhe perguntasse: "Que queres?" - ele diria ento com
simplicidade: "O mundo, para o restituir a Deus!" E a Deus daria, com efeito, as
cidades, os homens. Por que no? Em verdade, ele seria Csar!
E com a face erguida, no seu imenso sonho de orgulho, Onofre riu largamente.
Era Csar!
Ento, larga e spera, uma outra risada soou por trs dele na solido. Num terror,
Onofre olhou em redor, ansiosamente. "Quem ri?" exclamou. Aqui, alm, atravs do ar.96
to sereno e repassado de luz, a risada spera e lenta, saltava, estalava. E j os joelhos
de Onofre, tremendo, desciam para a terra - quando longos dedos moles o repuxaram, e
uma voz acudiu, mais dura e seca que o rolar de calhaus:
- Oh Onofre! Oh Csar que tudo podes! Olha o rio! Olha o rio! Do alto do teu
orgulho, oh meu irmo, olha o rio!...
Diante de Onofre, at s colinas, at aos muros derrocados de Bubastes, o Nilo
subira, mais largo, mais devastador. A Lua brilhava sobre as guas. As cegonhas
fugiam, no silncio. E uma onda fria, que marulhava encrespada, batia j aos ps do
velho. Tentou recuar, mas todo se sentiu enlaado naqueles dedos moles, que se
alongavam, se enroscavam, como serpentes frias em ramos de rvore. Ento
compreendeu: - o seu milagre fora uma iluso do Demnio! Um longo grito rompeu da
sua alma: "Jesus!" E caiu por terra, coberto de um suor to frio, que ele pensou ser a
gua que o devorava.
Quando se ergueu - com tantas, to densas lgrimas, que mal podia, atravs da
sua nvoa, achar o bordo a que se arrimava - foi para considerar o pecado insondvel
em que se despenhara. Como outrora, na sua cova do Ermo, cara pelo Orgulho! Na sua
alma to bem defendida, o orgulho abrira  traio uma fenda - e por ela entrara todo o
Inferno. Oh misria incomparvel! To longos e ardentes anos trabalhara para limpar a
sua alma, que a julgava toda transparente, e branca, e rebrilhante, como uma gua muito
pura num cristal muito polido. No suspeitava, que, escondido no fundo, ainda restava
um pouco de lodo primitivo - e eis que o Demnio a invade, e nela se debate
furiosamente, e agita o lodo fundamental, e a torna to turva e ftida como um charco
espezinhado e fossado por um bando de porcos. Oh misria, oh dor! Como ele toda essa
noite, sob o testemunho dos lumes divinos, ofendera audazmente o Senhor! E de que
modos afrontosos e diversos ele o ofendera - tomando como uma fora da sua virtude o
que era apenas uma graa cada da misericrdia de Deus! Longe de se regozijar com o
pobre pedreiro, e com ele ficar, em humildade, louvando o Senhor - correra para longe,
a saciar-se voluptuosamente, na solido, de sonhos ardentes de soberba e glria. E em
vez de aproveitar aquele prodgio, to doce e to humano, para o derramamento da
Verdade entre os gentlicos, s sofregamente o considerara como proveito da sua
ambio transcendente. Oh quanto ofendera o Senhor! Num momento estragara uma
longa vida de penitncia - e todo se tornara de novo, da cabea  sola dos ps, uma
crosta ftida de pecado. Onde havia na terra monstro bastante imundo, para ser
congnere do seu corpo, e da alma imunda que dentro dele apodrecia? E agora, to
velho, como poderia ainda, atravs da penitncia, alcanar a purificao! A morte j se
avizinhava, e a alma que tinha para restituir a Deus, estava coberta toda da lepra do mal.
E sem tempo para a limpar, pela orao e pela humildade - era o Inferno, o Inferno
iniludvel! Oh misria!
Seguro com aquela infinita paz, em que deliciosamente se movia, como no
inefvel ar do Paraso - ele esquecera o Demnio. Mas, pacientemente, o Inimigo do
homem rondava em torno dele, subtil e mudo, como um vento de pestilncia. E ele
respirava to profundamente esse vento pestilento, que cada um dos seus pensamentos
fora ento como uma chaga que supura. Com os ps enterrados na lama, ele considerava
o Cu como j seu, ousando pensar que era um Santo! E entre aquelas estrelas marcara
o seu lugar de beatitude! Horrendamente desvanecido, calculava, como um conquistador
que conta as suas coroas triunfais, as lmpadas e as flores, e as oferendas, que cercariam
o altar onde pousassem os seus ossos! E, certo da divinizao, ante-gostara as oraes,
que por ele se elevariam da terra! E como se lhe no bastasse no Cu a beatitude,
apetecera desde j, na Terra, o Imprio. Sonhara com Roma - e queria Csar, vencido e
humilde, oferecendo-lhe o mundo como um fruto maduro. Sete vezes insensato! Que,.97
enquanto assim medrava horrendamente em soberba, e se divinizava em Terra e Cu, o
Demnio estava em torno dele, e dentro dele, ocupando, saturando cada recanto do seu
ser, como a gua faz a uma esponja.
Que lhe restava? S a penitncia - s a penitncia, feita na solido, longe, muito
longe de todas as suspeitas dos homens, para que nunca ela pudesse ser estragada pelos
louvores humanos. Longe, muito longe dos homens - porque toda a virtude que entre
eles se manifesta, logo que lhes arranca uma admirao,  mais cheia de perigos que um
aroma muito sensual, ou um canto muito amoroso. A mais humilde esmola, a chaga de
um mendigo que se lava, uma simples consolao, desde que se mencionem, so
perigos terrveis para a alma, porque a persuadem da sua caridade e excelncia. Pelo
bem que semeamos nos outros, s colhemos dentro em ns orgulho - e cada obra da
nossa caridade desmancha a obra da nossa humildade.
S lhe restava procurar uma cova bem funda - e, a, to profundamente humilhar
a sua alma, que ela, s pelos olhos de Deus, pudesse ser diferenada do lodo ou das
imundcies.
VIII
Toda a verdura findara e s havia agora terra seca - a plancie arenosa, coberta de
um rubor matutino, estendendo-se s montanhas lbicas, que pareciam de um mrmore
fino e cor-de-rosa. Onofre avanava, orando, gemendo, com a longa barba a arrastar. A
espaos, parava, no para repousar, mas para descobrir na areia os sulcos que os seus
joelhos pesadamente cavavam - e sentir bem, nesse rasto de fera, a imensidade da sua
abjeco. E se avistava seixos aguados ou uma pedra spera, por sobre elas se
empurrava, para abater, pela dor da carne dbil, a rebelio da alma soberba. J a sede o
devorava, e bebia, com avidez e gosto, as lgrimas grossas que lhe arrancavam as
saudades dos seus anos de paz e pureza.
O dia ia em meio: todo o deserto refulgia, lvido, de uma horrvel secura. As
montanhas, ao longe, na tremura do ar quente, eram amarelas - e s havia, em toda a
extenso, silncio, solido e sol.
Onofre avanava, arquejando, com a lngua seca e pendente. Um poo de
caravana, marcado ao longe por um crculo de pedras e dois tamarindos negros, surgia
como uma tentao: - mas o penitente afastou a face, mais ansiosamente rastejou,
fugindo daquela gua, decerto turva e lodosa como de uma voluptuosidade mortal. E
no cessava de orar. Quando encontrava ossadas de animais, esparsas no p, erguia os
olhos embaciados s alturas, murmurava: "Meu Deus, faz que os meus ossos vis, assim
Assim Onofre gemia sob o esplendor das estrelas. Quando a madrugada j
clareava, apanhou o seu bordo, e marchou para os lados do deserto lbico. Quando j as
palmeiras apareciam mais raras e espaadas, e nas areias, rosadas pelo sol, apenas aqui e
alm rebrilhava alguma derradeira poa da gua do Nilo, ele avistou um chacal, que
rastejava entre pedras procurando o covil - e considerou quanto se assemelhava quele
animal imundo, que fugia da luz e dos homens. S na verdade os diferenava, no a
alma porque a dele se bestializara pelo Pecado - mas o corpo, que nele caminhava
erguido, com a face para o cu,  maneira do homem mais justo, e na fera pousava sobre
as quatro patas, com o focinho baixo, como mal despegado ainda da argila original de
onde nascera. Ento, para mais completamente se humilhar, e nada reter da humanidade
superior, que no merecia, decidiu igualizar o seu corpo ao do bruto - e penetrar de
rastos na Penitncia e no Deserto. Arrojou o bordo, despiu o saio de l, atirou as mos
sobre a areia, e comeou a caminhar de rojo, lentamente, entre a erva j rara e
amarelada, como uma alimria ferida..98
tambm branquejem perdidos!"
As angstias da fome, que o assaltavam, foram para ele como bem-vindas - e
ofertou essas dores ao Senhor como lhe ofertara a da sede. O destroo do seu corpo era
to grande, que cada pousar da mo esfolada na areia ardente lhe arrancava um gemido:
- e j por momentos se abatia, estirado, inerte, como morto, sob a dardejao crua do
Sol. E era ento nele um terror angustioso da morte, que lhe abreviaria os tormentos, e
lhe impediria o resgate.
A refulgncia do deserto esmorecia, e um lento vu anilado revestia a cordilheira
lbica. Era o descer da tarde - e com ela descia sobre Onofre uma sonolncia, fria e
funda, como um desmaio.
Para a sacudir tentava cantar hinos santos: - mas a sua pobre boca, ressequida e
rgida, como de greda, s lanava sons roucos, que se perdiam entre gemidos. E
marchar, j no podia, porque os seus joelhos eram duas chagas, onde se empastavam
areia e sangue. Rasgou um pedao da tnica, para os embrulhar: - e como o Sol se
escondera e ao longe, um monte de pedra, uma magra palmeira, indicavam outro poo,
para l se arrastou, receando tombar num estado de inanio, que lhe encurtasse a
penitncia. A gua do charco era negra e lodosa: - mas sobre essa pedra havia uns
restos de farinha e de fava crua, desses que as caravanas deixam para as divindades do
deserto. Comeu enfim, bebeu enfim! Lavou as feridas - e mesmo deixou que os olhos se
lhe cerrassem, mas, de p, apoiado ao gume de um penedo, para que o sono fosse
doloroso e breve. Despertou aos uivos tristes dos chacais. Todo o cu se enchera de
estrelas: - e Onofre pousando na terra dura as mos em chagas, recomeou a avanar no
deserto. To radiantes e largos eram os astros, que a ilimitada areia alvejava sob a muda
palpitao, com a lividez de um sudrio: - e ento grossas formas, terrveis pela sua
bestialidade, vieram aterrar o corao cansado do penitente. Ora era um vasto macaco,
de dorso arqueado, que sobre as quatro mos caminhava ao lado dele, como ele, e
quando ele gemia, gemia e quando ele orava, guinchava. Ora era um licorne, que vinha
do fundo do ermo a galope, e estava diante de Onofre, com o seu corno enristado entre
os olhos, refulgindo intolervelmente. Depois eram disformes morcegos quase tapando
o cu, que se abatiam com um voo mudo e mole, e o cobriam com as suas asas, que
tinham o calor de uma carne nua. E Onofre ia caminhando no ermo, rodeado de
monstros.
Para os espantar, o desgraado gritava o nome de Jesus - e eles recrudesciam,
inumerveis e silenciosos. No eram, pois, demnios?
E Onofre deixou cair o corpo, como esmagado sob tanta clera do Cu.
Imediatamente, todas as formas medonhas, os dorsos, os focinhos, as asas frementes, se
abateram, se estenderam como um pano fnebre sobre o areal. E s houve um silncio
sob o grande cu estrelado.
Onofre cerrara os olhos, inanimado. E atravs de um descanso que o envolvia,
doce como o da noite, entrevia a distncia, batido por um sol de madrugada, um
bosquezinho de palmeiras e sicmoros, que era o da morada em que nascera. Um fio de
gua descia de um tanque de pedra, cantando entre os linhos verdes. Os bis pousavam
na borda do terrao. Para alm alvejavam os propileus, cobertos de relevos, do templo
de Serpis. O velho escravo, que lhe ensinara as letras, l estava no seu costumado
assento de pedra, envolto nos panos brancos, todo rapado, cheio das rugas do saber, e
imvel, com as mos longas, de cera, pousadas sobre os joelhos magros, meditando a
eternidade.
Homens graves, com a tnica branca dos cristos, que se preparavam para
atravessar o Deserto, em peregrinao s ermidas da Tebaida, esperavam sob a ramada
de vinha, com os seus embrulhos no cho, e por cima o cajado. O velho escravo nbio.99
Ams, carregava com lentido os odres de gua sobre os dromedrios - e cantava um
antigo canto da Nbia. Mais doce e triste era o canto, nos seus ais prolongados, que as
ramas das palmeiras na sua cadncia!... E ele, Onofre, l estava tambm, curioso,
pasmando para os homens que iam assim to longe visitar Anto, e Pacmio, e Paulo, e
os Santos magnficos que habitavam sepulcros...
Um enternecimento infinito penetrou Onofre - e estendeu ansiosamente os braos
para aquelas imagens, to antigas e doces. Oh! se ele recuperasse a simplicidade desses
tempos, naquele bosquezinho de mimosas... As lgrimas brotaram quentes e densas dos
seus olhos cerrados - e atravs da nvoa deles, arvoredos e casas, e o dromedrio, e o
velho nbio, com a sua tanga, branca, tudo se confundiu e desvaneceu.
Ento naquele imenso deserto, que o cercava, sentiu mais profundamente o seu
abandono, e a sua misria. Deus, seu socorro e fora no ermo da sua antiga penitncia,
para sempre agora se retirara da sua alma. E era solitrio, desamparado do Cu, to
velho, cheio de chagas, e deixando o seu sangue em rastos pelas areias, que ele tinha de
afrontar as solides, os transes, as necessidades, e os demnios. Que importa? Devia
caminhar, e padecer.
E de novo recomeou a rastejar, balbuciando louvores ao Senhor. Todas as
estrelas se tinham apagado. Das formas monstruosas que h pouco o cercavam,
nenhuma se destacava, ou movia na escurido ilimitada. Apenas restava a mudez, a
treva, e a solido infinita. E sob aquele vasto cu negro, por sobre aquele imenso deserto
negro - Onofre l seguia, nica forma viva, negra tambm, de rastos como um bicho,
todo ferido, todo sangrento, gemendo com longos gemidos, que se perdiam na treva. E
no cessava de avanar, nem de gemer. Sempre para diante, pousando na areia as mos
rodas e gastas, arrastando na areia os ossos descarnados dos joelhos - e chorando, e
gritando: "Senhor, tem piedade! Senhor! tem piedade!"
Mas j a alma ia perdendo o domnio sobre o corpo: - e era s o seu desejo que
caminhava para alm, para as montanhas, porque a cada instante os braos se lhe
estiravam pelo cho, moles e inertes, e entre eles a cabea, coberta de suor regelado,
ficava rolando na areia, na tontura de uma agonia. Tentava ento, desesperado, arque-jando,
solevar aquela carne miservel que o traa. E no podia, no podia! S lhe restava
acabar ali, naquela areia, sem alcanar o resgate encetado do seu pecado. E com a face
voltada para o cu, para o cu negro, sem uma luz, que lhe fosse como uma esperana,
esperou a Morte. Mas a Morte no vinha. Ante os seus olhos, embaciados e lvidos,
como que surgia uma claridade. Era como uma nvoa, vaga e rosada - e atravs, vinha
de longe, tristemente, o tanger lento de uma sineta em marcha.
Subitamente sentiu rumores, vozes. E entreabrindo as plpebras, distinguiu faces
escuras e ardentes, que se debruavam sobre ele, um cavaleiro com uma lana, e longos
pescoos de dromedrios, carregados de fardos. Uma cabaa foi posta contra os seus
lbios, e bebeu dela, avidamente. J havia mos fortes que o erguiam - e sobre os seus
joelhos feridos caa deliciosamente um fio de leo muito fresco. E j de p, entre os
braos que o amparavam, Onofre desmaiou, docemente.
Mas, atravs do seu desmaio, ele sentiu que o iavam para cima de um
dromedrio, onde ficara como um fardo, estendido entre fardos. Houve brados. E a
sineta recomeou tilintando lentamente, em cadncia - enquanto ele, embalado pelos
passos do dromedrio, que j por vezes chapinara gua, recara naquele desmaio to
doce, em que todas as misrias da sua vida adormeciam, como dores que se calmam
num banho.
IX.100
Era uma caravana, que trazia gomas da Cirenaica, que assim o recolhera por
compaixo da sua velhice, e do sangue que lhe corria das feridas. E quando Onofre
reabriu lentamente os olhos, a manh clara enchia o cu, um cheiro de verdura tenra
errava no ar macio, e os bis esvoaavam pelos ramos das mimosas. O seu dromedrio
ajoelhara - e os mesmos homens de faces queimadas e ardentes o ergueram, e levaram
para um pobre casebre, com um vergel, onde mulheres, sob uma palmeira, pisavam,
cantando, o gro de centeio. Turbas correram, um velho acudiu, com o seu balde de rega
- e estirado sobre um monto de folhas secas de papiros, dentro do casebre, Onofre
sentiu ainda, atravs de um rumor de piedade, que lhe limpavam as faces, lhe deitavam
sobre as feridas um leo salutar. Depois readormeceu.
Ao declinar da tarde, quando acordou, o velho estava diante dele numa
contemplao grave, sentado com as mos pousadas sobre os joelhos, como uma esttua
de escriba. E as duas filhas esperavam, agachadas sobre esteiras de cores, com lentilhas
numa malga, e um pcaro de gua do Nilo. Onofre comeu e depois ergueu a custo o
corpo do leito de folhas, para retomar o caminho do Deserto. Mas, por humildade e
exemplo, contou a sua histria, a sua penitncia, os seus pecados, e como cara exausto
no grande areal, sob a clera do Senhor.
Ento de repente o velho, erguendo as mos espalmadas, gritou:
- Oh homem cheio de anos e de virtude, tu s daqueles que sabem as palavras
novas que consolam! Fica entre ns, come do nosso po, e ensina as nossas almas.
E Onofre, espantado, soube que, havia tempos, ali tinham vivido dois monges,
que todos amavam pela sua caridade, pela sua cincia das ervas que curam, a sua arte
em expulsar os demnios, e ainda pelas doces festas com que celebravam o rejuvenescer
da Primavera.
Mas um dia tinham partido para um mosteiro, no Alto Egipto - e desde ento toda
a aldeia os lamentava, e lamentava as doces histrias que contavam do Menino nascido
no curral, e de um reino no Cu em que todos comeriam de frutas divinas, e da cruz de
escravo, em que a Vtima tomara sobre si todos os pecados humanos.
Assim, oh! alegria! Onofre, fora trazido para entre almas quase irms! Nos olhos
negros das duas raparigas, que se erguiam para ele, brilhava um calor de f. E o velho,
alargando os braos, murmurava ainda com ardor:
- Oh homem justo, que sabes a natureza dos deuses, e as coisas que esto para
alm da vida, fica na nossa morada, come do nosso po!
No corao de Onofre ia um grande alvoroo. Fora por acaso, por determinao
do Senhor que ele viera, trazido do fundo do ermo, para que sob o seu ensino a Verdade,
j em boto, de todo florescesse naquelas almas simples? Ento o Senhor convertia, a
privao da sua penitncia, na glria de um apostolado! Por qu? A noite de agonia, de
onde vinha, fora bastante resgatadora, para que sobre ele descesse j a misericrdia do
Cu?... No lhe competia a ele, servo do Senhor, penetrar os motivos de seu Amo. Para
entre aquelas almas, onde j se enterrara a boa semente, fora ele trazido - e s lhe
cumpria trabalhar como bom lavrador, no campo precioso que Deus lhe confiava. E
humildemente murmurou:
- Pois que de mim necessitais, entre vs ficarei.
E ficou - escolhendo logo para morar um alpendre, aberto a todos os ventos, em
que o velho recolhia os seus bfalos. Em breve, por todas as choupanas, se espalhou que
outro monge chegara  aldeia - que sabia tambm as histrias divinas do Menino que
nascera na Sria, e de seu Pai que acolhia os servos mais humildes, num Cu todo cheio
de cantos e de abundncia. De todos os casais logo as mulheres acudiam, trazendo a
Onofre presentes de frutas, e bolos de mel, e linho tecido. De joelhos, diante do seu
alpendre, Onofre orava, com os braos abertos, a face voltada para o Cu: - e todos.101
pasmados para aquela velhice to macerada, para as longas barbas brancas que no cho
rojavam, erguiam tambm como ele, mudamente, para o Cu, os olhos cheios de uma
esperana nova. O que contemplava ele assim, no Cu radiante? Quais eram essas
oraes que ele sabia, e como se falava a esse Deus to bom, e to amigo dos pobres? E
quando Onofre recomeava a contar do Senhor, e dos seus grandes ensinos de caridade,
e de bondade, e de amor, um doce murmrio de contentamento corria entre os simples,
como de famintos que so saciados. Uma lenta adorao inconsciente e ainda gentlica,
comeava a envolver Onofre, sada ardentemente daqueles coraes simples - que no
diferenavam bem o Deus Novo do velho Solitrio que o revelava. Quando ele
atravessava os bosques, ou os atalhos entre os campos - a gente prostrava-se ante ele,
com uma reverncia misturada de medo: as mes traziam os filhos, nus e coroados de
flores, como quando os votavam aos antigos altares, para que
Onofre lhes desse a Boa Sorte: - e os casaleiros vinham puxar pela ponta da sua
tnica, mostrando, com o olhar suplicante, os campos que desejavam que ele
fecundasse.
Um surdo temor, ento, invadiu Onofre - porque, naquela reverncia pela sua
virtude, ele s via perigos para a sua humildade. Quando lhe traziam doentes para que
ele os sarasse, ou mulheres possudas de um demnio para que ele as purificasse - j
Onofre recuava aterrado, batia no peito, gritava: "Mas eu no sei! no posso! Quem sou
eu? O mais vil dos pecadores. Pedi a Deus, orai a Deus". Mas a dor daquelas almas
crdulas ante as suas splicas desatendidas, dilacerava o corao de Onofre. E no era
menor o tormento da sua dvida. Se ele possua na verdade, por graa do Senhor, o dom
de sarar a carne doente, calmar as almas, quanta era a sua crueldade em no suprimir
essas aflies? Mas tambm no exerccio do milagre, quantas pavorosas tentaes do
orgulho! E cada dia este tormento se alargava. Aquelas mes desgrenhadas, que lhe
gritavam entre soluos: "Tem piedade do meu pobre filho!" Aqueles velhos aleijados,
que do cho onde os retinha o mal, estendiam os braos para ele, com ansiedade,
murmurando: "Ah se tu quisesses!" E ele, forado pelo terror de Deus, e dos riscos que
corria a sua alma - forado a no ter piedade, e forado a no querer!
Mas no comprometia ele tambm, com aquela dura inrcia, o derramamento da
F, e da Lei do Senhor? No findariam, aquelas gentes simples, por se desprender de
um Deus que eles viam to desatento e alheio s suas misrias? J quando ele ensinava
o Deus Novo, nas faces, em redor, havia desconfiana e desdm. Nas suas longas
oraes, ento, pedia ao Cu uma inspirao. Mas do Cu emudecido, e fechado para
ele, nenhuma inspirao descia sobre o seu esprito angustiado. Redobrava as
penitncias, torturava com o cilcio o seu pobre esqueleto, alongava os duros jejuns,
clamava por Deus do fundo da sua incerteza. E Deus permanecia impenetrvel. Com
esta dor da sua alma, ele ia ficando mais macerado, mais abatido, mais velho, do que
com trinta anos de trabalhos no Deserto. J quase no se sustentava direito: e caminhava
to trmulo, apoiado ao seu bordo, que um pouco de vento o poderia derrubar. A sua
consolao seria que aquele povo o ultrajasse pela sua crueldade, a sua resistncia a
fazer o bem supremo. Oh! se o amaldioassem! Se o apedrejassem! Cada pedra, que o
ferisse, a ofertaria ele ao Senhor, como uma evidncia da sua humildade. Mas, doce e
tmida, aquela gente s se lamentava, como os que so abandonados. E sem sacudir a
esperana, voltavam, insistiam em suplicar a sua interveno omnipotente.
X
Um dia uma filha do velho que o recolhera, no acordou - e ficou branca e imvel
no seu catre, como se a alma, durante o sono, a tivesse para sempre deixado. Diante.102
dele, de joelhos, o velho suplicava e chorava:
- Tu podes tudo. Sabes as artes. s amado de Deus! Os outros monges curavam,
dispunham da vida. Salva, salva a minha filha do meu corao!
E, cheio de lgrimas tambm, Onofre sentiu a certeza de que se tocasse com as
mos na face da pobre rapariga, ela se ergueria curada, e sorrindo. E j estendia as mos
- quando, bruscamente, no seu esprito, passou, como o claro do Inferno, o orgulho do
seu poder.
Ento recuou, aterrado, a tremer.
O velho, de rojos, beijava os ps de Onofre.
-S bom! s bom!
Mas Onofre via o Inferno - e fugiu, fugiu, soluando, arrepelando as barbas, num
desespero infinito... Fugiu do casebre, fugiu da aldeia. Duas vezes caiu, to trpego e
dbil. E ia atirando sempre os passos trmulos para longe dos homens e do seu perigo,
para a solido inviolvel, onde no estivessem os homens, e estivesse a Morte. Todo o
dia assim se arrastou. E o Sol descia num cu de ouro, quando os seus olhos, cansados,
e mal seguros atravs das lgrimas, avistaram arvoredos, e casais, outra aldeia, na orla
dos areais. Onofre tinha fome e tinha sede: - e querendo s foras para continuar o
sofrimento, arrastou os passos para uma cabana mais isolada, feita de adobe e canas,
apoiada contra um longo muro, um antigo resto de muralha. Uma rapariga, que voltava
da fonte, pousara  porta da cabana, sobre uma pedra, o seu cntaro de barro; e vendo
aquele velho, de imensas barbas, em farrapos, que avanava tropegamente na poeira do
caminho arrimado ao seu bordo, ficou como  espera dele, com uma piedade nos seus
largos olhos negros. Onofre estendeu a mo para uma esmola. Ela entrou na cabana
onde uma criana chorava lentamente, num choro cansado, doente.
Quando voltou com um pedao de po duro e velho, j Onofre se abatera, de
fadiga, sobre o cho, com a cabea encostada ao muro, os olhos tristemente perdidos no
cu, naquele cu, para onde em vo a sua alma aspirava. Os bis esvoaavam,
recolhendo aos ninhos. Longos raios de ouro plido passavam atravs das palmeiras, e
longe, do lado do rio, vinha o mugir lento dos bfalos. Onofre comeu o po da esmola;
- e a boa rapariga inclinou, para a sua pobre boca ressequida e poeirenta, a borda do
cntaro, murmurando: "Que esta gua alegre o teu corao!"
Ele bebeu, louvando o Senhor, que manda a gua aos que tm sede: - depois
apanhou o seu bordo, e, ajudado pela boa rapariga, de novo se ergueu, com um suspiro
to doloroso, que os dois belos olhos negros se humedeceram.
E seguia - quando  porta da cabana uma mulher, plida e magra, apareceu,
trazendo ao colo uma criancinha que um farrapo embrulhava. E Onofre parou, tomado
de uma infinita piedade por aquele pobre pequenino, todo encolhido nos braos da me,
com a facezinha cada contra o seu ombro, como uma flor tenra, quebrada pela haste, e
j morta. Grossas crostas, de feridas arroxeadas, cobriam a sua miservel cabea, onde
todo o cabelo se despegava; a orelha era uma chaga; um trapo manchado de sangue seco
cobria um dos seus olhos, recaa ainda sobre o outro, amortecido, toldado de lgrimas;
uma pele lvida e mole recobria os seus ombros; e o seu gemer no cessava, lento e
cansado.
Com tanta dor e ternura o considerava Onofre, que a pobre me contou como
aquele mal lhe viera, quando ele chegara aos dois anos, e ela ficara viva, e a misria se
abatera sobre o seu casebre. Com o filho nos braos, mendigando o seu po, ela
percorrera os templos, onde os males se curam, escutara os conselhos dos que vm de
longe e conhecem as ervas salutares. Mas o mal de seu filho, nem homens nem deuses
lho tinham curado. To pobre era que nem um pouco de leite alcanava para o consolar:
- e sempre com ele nos braos, adormentando o seu sofrer, e sobre ele chorando, como.103
podia trabalhar? A caridade dos vizinhos, pobres tambm, j se cansava. E em ningum
tinha esperana. Em ningum tinha esperana:
Onofre murmurou:
- Jesus foi pequenino, e sofreu!
E ento uma Voz, lenta e triste, mas em que havia a certeza e o orgulho de uma
Fora, murmurou dentro dele: "Ah! se tu quisesses, Onofre!..."
Todo ele tremeu. Se quisesse! Era outra vez o Inimigo incansvel que lhe soprava
na alma o calor do Pecado. Sim! se ele quisesse - aquelas feridas secariam, e aquele
gemer findaria, e o pobre corpinho, como um galho seco, reverdeceria, cheio de seiva
nova. E logo nele, para sua perdio, se desencadearia o orgulho do seu Poder! No,
no! Ele bem sentia o Inimigo, tentando penetrar nele pela porta da sua piedade
entreaberta. E sempre a sua perdio estava onde estivesse a humanidade! S no ermo
havia segurana. Murmurou uma bno  me desgraada, e ia partir, desesperado.
Mas a criancinha gemeu - ele parou ainda com um longo suspiro. Oh doce inocentinho,
que toda a longa noite ia assim gemer to dolorido, talvez com fome!... E ningum o
curava. E no tinha ningum! Os lbios de Onofre tremiam.
- Oh meu pobre menino, meu pobre menino! - exclamou.
Ento a criancinha ergueu a cabea devagar, e com um gemido maior, um ai to
triste, levou a tremer a mozinha magra ao seu pobre olho coberto de trapos.
Uma violenta, desesperada piedade invadiu o corao de Onofre. Arrojou o
cajado, gritou:
- Pois bem, que importa! Que a minha alma se abisme no orgulho e no mal!
E com a face que flamejava, os cabelos eriados de terror divino, arrebatou a
criana, levantou-a toda para o Cu. E diante da me espavorida, Onofre bradava:
- Meu Deus, d-me o meu salrio. Setenta anos te servi. Por ti sofri todos os
tormentos do Deserto! E, sem descanso, sem um queixume, sem um pedido, trabalhei na
tua obra. D-me o salrio que me deves! Que esta criancinha me sare aqui entre as mos
- e estou pago. Depois, se quiseres, abandona a minha alma!
Os seus braos trmulos, sem fora, deixaram cair a criana - que a me agarrou,
apertou sofregamente. Mas, oh prodgio! estava s! Secas todas as feridas da face!
Redivivos e lmpidos os olhos, que num momento se alargavam e sorriam! Fresca, e
cheia, e rosada por um sangue novo, a criancinha, que o mal chupara, colhida agora nos
braos da me, j adormecera num longo, doce, infinito e profundo repouso.
Com ele assim no colo to quieto, to so, ela, na grande alegria do prodgio, nem
se movia, sufocada: - e dos seus lbios trmulos, s fugira por fim um grito abafado de
inquietao:
- E para sempre? E para sempre?!
Mas Onofre j desaparecera.
Deslumbrado, espavorido, corria tropeando, ao longo da velha muralha, com os
cabelos ao vento, as mos ao cu.
Furiosamente, na sua alma, se erguera logo a certeza da sua santidade. E debalde
ele queria recalcar, sufocar aquela afirmao do orgulho, que nele se desenroscava
como uma serpente acordada e faminta. "No! No era tanto. Fora Deus, s Deus que
fizera o prodgio. S ele devia ser louvado, na sua Misericrdia sublime!
Mas vozes confusas, violentas, silvavam, cantavam nas profundidades do seu ser:
"Foste tu! Deus s escuta aqueles que ama. Tu s o amado de Deus. A manifestao do
seu amor  a concesso da Bem-aventurana. O Cu  teu. Em ti reside a virtude
celeste! Toca com as tuas mos um galho seco e ele reverdecer!"
Estava, pois, plenamente invadido pelo irremedivel Orgulho. S aniquilando o
seu esprito, ele poderia destruir o Mal que nele habitava. Toda a mortificao da carne.104
era intil - porque sempre aquela luz de Inteligncia, que dentro dele tremia, seria feita
de fogo do Inferno. Estava perdido! Estava perdido!
Caiu com a face no cho, junto s muralhas que o Sol poente cobria de cor-de-rosa,
e ali ficou, para sempre, e para morrer. Aquela alma perversa, que ele trazia em si
como uma fera indomvel, estava destinada aos tormentos sempiternos. Pois bem! que
neles se afundasse depressa - porque, quanto mais errasse sobre a Terra, mais afrontaria
o Senhor. Adeus, pois, oh Vida! Quo estril, e intil lhe fora, pois que lhe no servira
para vencer a Morte!
E com a face no p, os braos estendidos no p, colando-se a todo aquele p, em
que queria abismar o seu ser, soluava:
- Vida intil, vida estril!...
Mas, ento, pensou naquela criancinha que, agora, dormia, s, livre de toda a dor,
e to docemente nos braos de sua me. Intil a sua vida? No. Ele descia aos abismos
arrastado pelo orgulho - mas, ao menos, no mundo ficava, por obra dele, esse pobre
pequenino, que j no sofria, nem levava, gemendo, a mozinha  sua pobre face cheia
de chagas!
Ento, uma Voz muito doce, murmurou sobre ele:
- Onofre!
O velho ergueu a face lentamente, depois o corpo trmulo, e comeou a caminhar.
Mas os seus passos tremiam tanto, que se encostou ao velho muro que ele mal via j,
sob a nvoa de lgrimas, e no desmaio, que lho velava.
Assim se arrastou um momento, tremendo, gemendo.
Mas, doce e cheia de carinho, a Voz ao seu lado murmurou:
- Onofre!
Ento Onofre voltou a face - e avistou uma forma que resplandecia toda, de
brancura, na solido do crepsculo. Mudo, j todo frio, deu para ela um lento passo - e
desfaleceu, caiu sobre o seio de Jesus Cristo, Nosso Senhor, que o apertou docemente
nos braos, e o levou consigo para o Cu, no esplendor de ouro da tarde..105
S. FREI GIL
PLANO DA OBRA 1
Nascimento de Gil, num solar ao p de Vouzela. - O pai e a me de Gil. - Infncia de Gil. - Sua
beleza. - Sua curiosidade insacivel. - Amor dos manuscritos. - Um velho Fsico d-lhe a paixo dos
simples, e das plantas que curam. -Cresce. - Toma gosto pelas armas, pelos cavalos. - Tem amores vagos
pelas raparigas. - Mas no descura os livros. -Vem-lhe a paixo do desconhecido, das viagens. - Para
tudo conhecer, quer ir estudar medicina a Paris.
Parte com grandes lgrimas da me, e de uma moa que seduzira. - Toma o caminho de Paris com
o seu fiel Pro, escudeiro. - Numa estalagem, no caminho, encontram um cavaleiro que trava conversa
com ele, e sabendo que Gil vai a Paris estudar medicina, lhe diz que v antes com ele a Toledo, aonde ele
vai tambm para se formar nas Artes Negras. - Essas artes, que ele descreve, do, a quem as possui, o
ouro, o poder, a eterna mocidade e tudo o que d a felicidade. - Gil cede.
Partem para Toledo, conversam pelo caminho.- So assaltados. - O cavaleiro desconhecido
desbarata os salteadores. - Em Toledo, Gil  levado  Universidade das Artes Negras. - A encontra os
professores, que lhe do um festim e que lhe dizem que a arte melhor  assinar um pacto com o Demnio.
- Gil assina.
Desde esse dia, tornado omnipotente, abandona a ideia de Paris, e passa a ter todos os gozos. -
Comea pela vida de moo, tendo palcios, mulheres, cavalos, ouro s pilhas. - Mas depressa se cansa
disto.
Ambiciona ento o poder, e o Demnio f-lo rei. - Mas depressa se cansa da realeza.
Apetece ento as grandes aventuras, e  pirata nos mares, viaja at aos ltimos sertes, v povos
estranhos. - Mas depressa se cansa destas emoes.
Ento apetece tudo saber, e vai estudar para Paris, como simples estudante. - Mas depressa se
cansa desta cincia dos livros.
Quer saber os mistrios. - O Diabo leva-o aos astros, penetram nas entranhas da Terra. - Quer ver
o Inferno e o Cu. - Mas o Diabo no lhos pode mostrar.
Ento apetece uma afeio profunda, um amor profundo. - V uma mulher que adora de repente,
sem lhe ver o rosto. - Segue-a at que um dia ela se lhe revela, e  o esqueleto da Morte.
Renega a sua vida e volta para Portugal, para se meter num convento. - Desespero do Diabo, que
de amigo se volve em inimigo, e o comea a tentar. - Tentaes medonhas, que ele combate pela
pacincia e pela bondade.
Vai-se sentindo feliz, e o seu desejo  obter a quebra do pacto que fez com o Diabo. - Mas a
penitncia ainda no  bastante;  necessrio que ele pratique um acto que o torne merecedor de que a
Virgem quebre o pacto. - Esse acto f-lo, dedicando-se por uma criancinha ou por um velho doente.
Ento a Virgem entrega-lhe o pacto.
O Diabo ainda o tenta, mas ele agora sorri e despreza-o. - Entra na paz, na felicidade, e conhece
enfim a vida perfeita, que  uma doce vida de convento, no sossego de um vale.
Morre em santidade.
S. FREI GIL
I
O solar de D. Rui de Valadares, Senhor de Mortgua e Gonfalim, era a duas
lguas duras de Vouzela, numa colina, por onde descia, espalhada at ao rio, entre
olivais e vinhedos, a aldeia de Gonfalim. Um fosso, uma muralha delgada e simples
como um muro de herdade, uma torre construda em tempos da Senhora Rainha D.
Tareja, defendiam a casa trrea, a capela, os celeiros, o forno, o ptio bem lajeado, onde
dois chores davam frescura e sombra a uma fonte de bronze. Para alm um alto
silvado, coberto de amoras pelo S. Joo, envolvia a abegoaria, a eira clara, o redil, um
pomar bem regado, e o campo de tavolagem: - e depois, por todo o outro pendor do
1 Encontrado juntamente com o manuscrito incompleto..106
outeiro, lento e suave, verdejavam os pastios de gado.
No fundo do vale, o ribeiro, frio e lmpido, toldado de arvoredo, saltava e
espumava entre grossas pedras claras: um mosteiro rico de Domnicos ocupava toda a
colina fronteira a Gonfalim, com a sua vasta, frondosa cerca: - e as duas margens eram
ligadas por uma velha ponte romana de um s arco, onde o bom Senhor, para purificar a
obra e a pedra pag, mandara erguer um cruzeiro.
Desde muito, naquelas terras, os anos tinham sido de paz; as correntes da ponte
levadia, que se no levantava, estavam perras e cobertas de ferrugem; as ervas bravas
cresciam nos fossos secos; na velha torre de onde se retirara, at o besteiro, que l
costumava dormitar, havia agora um pombal: - e o bom Senhor D. Rui engordara tanto,
que nem saa  serra com os seus falces, nem mesmo cavalgava o seu bom ginete, por
nome Almanor, muito gordo tambm, e para sempre ocioso diante da manjedoura
cheia.
D. Rui desposara a neta de mestre Ariberto, cancelrio do Senhor Rei D. Sancho;
e no havia, em toda a Beira, dona de melhor diligncia e ordem no governo de sua
casa. Trigueira, de olhos pestanudos e meigos, com um buo, e um peito de rola farta,
D. Tareja, logo desde a alvorada, fazendo tilintar o seu grosso molho de chaves,
distribua a tarefa s aias, visitava a despensa e a capoeira, vigiava a fornada do po,
escolhia a fruta no pomar - e mesmo, arrastando o seu longo vestido sobre a terra ainda
hmida, ia procurar as ervas salutares, para compor os unguentos domsticos. Todo o
solar, por isso, resplandecia de gravidade e asseio. Nas lajes do ptio no crescia uma
erva. No rebordo de cada janela havia um manjerico bem regado e fresco. Bem
esfregados a carqueja, os soalhos pareciam sempre de madeira nova. Das arcas, cheias
de roupa de linho, saa um bom cheiro de alfazema. Os pratos e os pichis de estanho,
sobre os bufetes, reflectiam, como espelhos, os lavores das altas cadeiras de espaldar, as
listas vistosas das cortinas, ou os ramalhetes de aucenas e rosas, trasbordando dos
vasos de barro vidrado.
Ocioso e risonho, com uma larga simarra de pano orlada de peles de raposa, que
lhe descia at aos sapatos de couro vermelho, o bom Senhor D. Rui cofiava a sua barba,
atravs do seu solar, gozando esta paz e esta ordem. Os seus dias corriam retirados e
doces, como num mosteiro rico - e raramente tomava o seu basto de cabo de prata,
para transpor a velha ponte levadia. Pelos tempos chuvosos, o bom Senhor, de janela
em janela, contemplava o vale, o arvoredo molhado, as duas torres do mosteiro; ou
aquecia pacientemente as mos ao braseiro; ou abria o cofre de ferro, pregado no cho
aos ps do seu leito, e contava o seu dinheiro; ou ia observar no bocal de vidro se as
sanguessugas, subindo  flor da gua, anunciavam o norte e o bom tempo. Nos dias de
sol percorria devagar a sua horta, pelas ruas orladas de alfazema; visitava os seus
galgos, que, ociosos e gordos tambm, dormitavam pesadamente; descia ao lagar,
depois  eira, sorrindo paternalmente aos servos, que dobravam o joelho; e terminava
por descansar, num caramancho de rosas, escutando o murmrio lento das guas de
rega.
O toque de Trindades anunciava a ceia. Na sala, separada da cozinha por um arco
de cantaria, as grossas malgas de caldo fumegavam sobre o carvalho nu da tvola, entre
pes de smea, e fortes pichis de vinho. O bom Senhor, tendo lavado as mos na gua
perfumada de vinagre, que o servo entornava de um grande jarro de cobre, ocupava a
sua cadeira senhorial. O capelo defronte dizia o benedicite: - e D. Tareja tirava todos
os seus anis, para deitar dentro da sua malga a cdea escura do po. O bom Senhor
comia com lentido e silncio. O vinho do seu pichel era renovado pelo intendente que,
a cada instante, se erguia com a boca cheia e ia encher o pichel senhorial ao pipo
pousado a um canto, sobre barrotes de madeira. Depois do porco assado, vinha uma ave,.107
galinha ou pato, que D. Rui partia com os dedos, limpando-os aos plos do lebru,
sentado a seu lado,  espera dos ossos. Nas tardes de Vero, o maioral dos gados vinha
junto da janela da sala, tocar na flauta de barro. E quando o servo retirava as frutas,
apinhadas em seiras de esparto, e outro punha sobre a mesa vazia dois candis, o capelo
ia buscar um grosso in-flio, que abria, e lentamente, emperrando nas letras, lia a vida
de um santo, ou uma batalha do Tesouro das Batalhas, que conta todas as grandes
guerras, desde a que os anjos maus travaram com os anjos bons. D. Tareja tomava a sua
roca e fiava, ou dava alguns pontos no frontal, que havia dez anos andava bordando para
a igreja do convento. O bom Senhor, com as mos sobre o estmago, dormitava. E
quando o capelo parava, a beber um golo de gua, ouvia-se ranger o cata-vento de
ferro - ou, nas noites de Vero, o canto triste dos sapos nas relvas.
Mas, com um gesto, D. Tareja detinha o santo homem, que fazia uma dobra na
pgina do seu flio. O intendente,  porta da cozinha, batia as palmas, todos os servos
entravam, mesmo o pastor com o seu surro. E era o bom Senhor que de p, e ainda
sonolento, rezava a primeira ave-maria do Tero. Depois D. Tareja fechava os bufetes,
tomava um candil, um pichel de vinho preparado com mel e canela, e subia com o seu
Senhor para o quarto, a repousar no vasto leito de carvalho, que tinha trs varas de
largo.
Assim a existncia corria, igual e serena, no solar de Gonfalim. s vezes algum
rico-homem dos arredores, parente de D. Rui, vinha, com os seus ces e escudeiros,
desmontar no ptio tranquilo. D. Tareja corria ao portal, trazendo uma toalha bordada,
um jarro de gua, que derramava sobre as mos do hspede. Atirava-se  pressa lenha
na lareira, para assar, nos espetos de azinheiro, um cabrito, ou um leito: das arcas saa
um tapete do Oriente, que se estendia sobre as lajes do quarto de honra, onde as mas,
apilhadas sobre os armrios, davam um cheiro doce e acre: as tochas de cera ardiam na
sala at tarde - e os Senhores conversavam de parentes, de colheitas, de algum novo
milagre, das honras devassadas pelos corregedores de el-rei, e dos maus tempos que
corriam para os homens fidalgos. Outras vezes eram menestris errantes que passavam,
pediam agasalho - e depois da ceia, tangendo o violino ou a frauta, cantavam as
cantigas novas, diziam histrias maravilhosas de paladinos de Frana - ou repetiam as
histrias que tinham ouvido, nas estalagens, ou nas lareiras de outros solares, sobre as
guerras que o Senhor Rei fazia aos mouros, para alm do Tejo. Mas o que mais
agradava a D. Tareja era a passagem dos monges mendicantes: esses sabiam os milagres
novos, os casamentos fidalgos de Viseu e de Lamego, receitas de doces ou de
unguentos, e histrias de peregrinos que tinham afrontado os mares, e visto o vero
tmulo do Senhor Jesus Cristo, ainda tinto do seu sangue fresco.
Estas eram as distraces destes Senhores excelentes. Pelo Natal havia um
prespio na capela, com missa cantada pelos frades do convento e uma ceia em que se
comia o porco novo. Nos anos de D. Rui, arrombava-se uma pipa de vinho, no campo
da tavolagem, e os moos de Gonfalim faziam grandes jogos de bola, e lutas. E no
havia naqueles arredores mais alegre fogueira, do que a que se acendia, entre danas e
cantos, no terreiro, em frente da ponte levadia, por noite de S. Joo.
Assim os anos tinham corrido, no solar de Gonfalim, quietos e iguais, quando D.
Tareja sentiu, alvoroada, em si, um comeo de maternidade.
Foi um pasmo, uma magnfica alegria. Longos anos eles tinham desejado,
esperado com ardor, um filho; - e para o obter D. Tareja fizera promessas, invocara
todos os padroeiros da fecundidade, acendera durante trinta dias trinta velas a Santa
Margarida, bebera gua de sagna-canina, trouxera muito tempo sobre a cinta uma pele
de coelha. Mas a doce esperana no se encarnava; e o bom Senhor D. Rui, resignado,
decidira deixar o seu senhorio, e o dinheiro das suas arcas, a um afilhado de sua mulher,.108
moo lido em livros, e que era provedor de el-rei em Lamego. Muitas vezes, porm,
suspirava, vendo, diante de um casebre, um vilo que, com o filho sobre os joelhos,
construa uma armadilha para os pssaros - ou um velho que sorria, amparado nos seus
passos trpegos por um moo forte, e cheio de respeito. Agora, porm, chegava o bem
de que desesperara. O bom Senhor, repentinamente remoado, com a face toda risonha e
dilatada no orgulho da sua paternidade, comeou, por todos os arredores, a anunciar a
nova esplndida - at a um srdido ermito que vivia numa cova no fundo do vale, at
ao tosquiador que viera  tosquia dos gados. Um recoveiro partiu logo para Lamego, a
encomendar ao mestre entalhador um bero de grande riqueza. Todas as aias, tirando
das arcas os linhos mais finos, trabalhavam no enxoval: - e D. Tareja, ao fim do
primeiro ms, fora comungar ao mosteiro, para que a Hstia divina fosse o primeiro ali-mento
do menino bem-desejado.
De que cuidados cercava o bom Senhor aquela dona excelente, cujo ventre lhe
parecia precioso como um sacrrio!
Inquieto, constantemente lhe tirava das mos com brandura as chaves da
despensa, para que ela se no fatigasse nos governos do solar. Ele, s ele, preparava o
vinho reconfortante, com canela, mel, ervas aromticas, que lhe devia dar foras e valor:
- e sem cessar, quando ela caminhava, estendia os braos, receando todos os degraus,
qualquer pedra, uma prega do vestido em que ela tropeasse.
Era ento Inverno, um Inverno muito duro, que todas as manhs branqueava de
neve os prados, e os tectos dos casebres: e D. Rui e D. Tareja, sentados ao braseiro,
infindavelmente conversavam sobre o "seu menino". Ele tinha j o seu destino to claro
e marcado, como se um letrado o tivesse escrito num cdice. O seu nome seria Gil
Mendo: os melhores ledores do mosteiro vizinho e amigo lhe ensinariam as letras, a
escrita, e a arte de contar: escudeiros hbeis viriam adestr-lo na arte de cavalgar, no
manejo das armas, e tudo o que pertence  caa: depois ele, D. Rui, o levaria aos
bispados de Lamego, do Porto, de Coimbra, para conhecer as cidades, e tratar com os
ricos-homens. Depois casaria com uma dama virtuosa, de rica linhagem, e governaria,
em tranquilidade, o seu senhorio - porque nenhum deles desejava que o seu filho
afrontasse os perigos das guerras, ou se partisse para terras estranhas.
E quando assim conversavam, a ambos vinha uma inquietao que no diziam -
porque certas palavras, quando soltas, so apanhadas pelos espritos maus, que as
condensam e delas fazem coisas reais e vivas. Se Gil nascesse torto ou mudo?... Ento
D. Tareja ia escondidamente  capela fazer promessas  Senhora da Boa Sade - e D.
Rui reclamava do capelo que mais uma vez percorresse o Tombo do seu solar, para ver
se jamais, varo da sua raa, nascera com algum defeito. Mas a certeza que todos os
seus avoengos, desde os godos, eram robustos, e de belo porte, no calmava a sua
inquietao: - e tendo uma manh avistado uma gralha que pousara no rebordo do seu
aposento, o que poderia tornar o menino gago - de tanta angstia se tomou, que os maus
humores se lhe extravasaram, e amarelo como uma cidra, jazeu uma semana no seu
vasto leito, entregue s drogas do Mestre lvaro Porcalho,  bom fsico que viera 
pressa de Viseu, montado na sua mula. Por conselho dele, D. Tareja nunca mais tocou
gua fria, e s bebeu caldos de cobra. Mas uma ansiedade maior entrou na alma do bom
Senhor - porque Mestre Porcalho, depois de bem examinar o interior das plpebras de
D. Tareja, e certas sardas que tinha na testa, abanava a cabea, gravemente, e no podia
afirmar que a criana fosse um varo! Decerto o bom Senhor amaria uma menina que
viesse, com as suas frgeis graas, e a sua doura, alegrar a severidade fria da sua
vivenda. Mas com quanto mais amor, e orgulho, e tranquilidade juntamente, ele
receberia um varo, para continuar a sua casa, reger os seus bens! Mandou ento chamar
um astrlogo famoso, Mestre Leonardo, que vivia numa velha runa do tempo do Conde.109
Ordonho, junto aos muros de Lamego.
Bem provido, com um cntaro de vinho e um empado, o douto homem passou a
noite, uma clara noite de Maro, com astros bem claros e fceis de ler, na torre de
menagem, de onde espantara as pombas, a preparar o seu horscopo: - e D. Rui teve a
dita de ouvir que seu filho seria varo, venceria os infiis, entraria nos conselhos de el-rei,
e desposaria a filha de um rico-homem poderoso, que tinha trs castelos, e
vassalagem de trs vilas. Senhorialmente pago, Mestre Leonardo recavalgou a sua mula,
e deixava o solar, quando, junto da ponte levadia, indo o Sol j alto, encontrou Mestre
Porcalho que, com a sua caixa de simples a tiracolo, a seringa de estanho dentro de um
saco, recolhia de visitar o armeiro de Gonfalim. Imediatamente os dois sbios, do alto
das suas muares, trocaram duros sarcasmos, depois injrias: - e ambos saltando abaixo
das cavalgaduras, com as suas longas garnachas, se arremessaram corpo a corpo, to
ferinamente, que ambos rolaram no fundo dos fossos.
II
Mas Mestre Leonardo acertara - e foi um varo! E mesmo a comadre e as aias
afirmavam que, pela fora com que chorara, e sacudira os pezinhos roxos, ao penetrar
na vida, o Senhor D. Gil seria homem de grande valentia e aco. O que a todos, porm,
espantava, debruados sobre o seu bero, era a sua perfeita beleza e inteligncia. Gordo,
todo redondo, branco como os linhos finos do seu lenol, com uma boquinha que
parecia uma folhinha de rosa, e dois grandes olhos negros resplandecendo sob a testa
muito clara - ele parecia ter j uma alma e compreender. Duas aias constantemente o
velavam, sentadas em esteiras, baloiando um leque de penas, para preservar das
moscas a frescura do seu sono, ou cantando, para o embalar, Dormi, dormi, senhor meu:
- e um ms passara, j os arcos de buxo erguidos nas alegres festas do Nascimento
estavam murchos, j D. Tareja, purificada e de novo corada e gil, fazia tilintar as suas
chaves pelo corredor do solar - e ainda Gil no chorara. Uma gota de leite do peito
cheio da ama, bastava para o adormecer docemente: - e acordado, os seus olhos negros,
largos, rutilantes, constantemente procuravam, seguiam, ou as rstias de sol, ou o brilho
de um jarro de estanho, ou as cores mais vivas de um vu. Vindo a cada instante em
pontas de ps entreabrir as cortinas do bero, o bom Senhor no esquecia nenhuma das
prticas que concorrem a tornar a criana perfeita. Para que ele tivesse uma voz forte e
bela, esfregava-lhe a boquinha com uma velha moeda de ouro. Ele mesmo desfizera sal
virgem em gua tirada da fonte ao nascer do Sol, que faz com que o cabelo das crianas
nasa encaracolado e basto. Para que ele tivesse fora, trouxe uma antiga espada do seu
av D. Fruias, e pousou-a entre as mozinhas de Gil: - e para que,  fora do corpo, se
juntasse a fora da alma, trs domingos a seguir o capelo veio ler sobre o bero o
Evangelho dos trs Reis.
Pelo baptizado foram celebradas grandes festas. O padrinho foi D. Mendo, um
parente de Mortgua - a madrinha Nossa Senhora da Sade: e no caminho para a igreja,
juncado de rosas e erva-doce, ao lado de D. Mendo, magnfico, com as suas barbas de
neve sobre o saio de escarlate, caminhava, no seu andor, aos ombros de quatro
cavaleiros pees de Gonfalim, a Senhora Madrinha, coroada de ouro, com um manto
novo, onde as estrelas de ouro, sobre o azul do veludo, faziam como um cu de Vero.
Para maior honra (e para que o menino no fosse surdo), foi D. Mendo, o padrinho, que
puxou a corda do sino, deu os primeiros repiques festivos. Toda a pedra da igreja
desaparecia sob as colgaduras de veludo branco. E quando a ponta de uma faixa de seda
que se prendia, pela outra ponta, s mos da Senhora, veio tocar a penugem fina e loura
da cabea de Gil, nuzinho e quieto, nos braos do padre, sobre a pia - todos observaram,.110
com espanto, que o menino sorria s luzes das tochas, e as pontas dos palmitos se
agitaram, e alguma coisa de branco, como o sulco de uma asa, passou na penumbra do
Baptistrio.
Depois um enorme festim, tumultuoso e voraz, reuniu a rude aldeia. No terreiro
trs vitelas inteiras assavam, em fogueiras claras. O vinho, correndo sem cessar das
pipas enfeitadas de louro, fazia poas roxas, onde as crianas se rolavam. A cada
instante os alades e violas dos menestris chamavam os moos e as raparigas,
afogueados, com a boca cheia, e toucados de rosas, a longas danas estonteadas sobre a
relva pisada. Um empado imenso trazido numa padiola, e precedido por dois anes que
cabriolavam, apareceu ao fim da tarde, entre aclamaes: tirando a espada, um
cavaleiro-peo fendeu-lhe a tampa, maior que um tecto de cabana: - e de dentro fugiu
um bando de pombas, que batiam no ar, com esforo, as asas pesadas de gordura,
perseguidas pelos moos, que as apedrejavam com pedaos de terra, com grossos pes
de smea e com os pratos de estanho.
Mas de repente, junto da ponte levadia, surgiu uma bandeira: - e ao lado de D.
Mendo, e seguido do capelo, do intendente, e das aias, com altas toucas de renda,
apareceu o bom Senhor D. Rui, plido de alegria, de orgulho, que trazia nos braos,
todo coberto de rendas, para o mostrar ao povo, o seu filho, o seu herdeiro. Raparigas
correram com cestos cheios de folhas de rosa que lhe atiravam: - e, da mesa de honra
onde estava o meirinho de el-rei, dois velhos vieram, um com um prato cheio de sal, que
simboliza a Agudeza de Esprito, outro trazendo um ovo que significa a Durao da
Vida, para oferecerem ao menino, como votos tangveis. E foi um espanto, um longo
murmrio maravilhado, quando Gil, debatendo-se entre as rendas, estendeu um
bracinho para o sal, e outro para o ovo. Os velhos, muito graves, reconheceram que o
menino era um eleito de Deus - e ningum duvidou que ele chegaria  extrema velhice,
atravs da extrema sapincia.
Ele, com efeito, cada hora crescia em fora e beleza. A sua cabecinha redonda
bem depressa se cobriu de anis finos como seda, e cor de ouro: - e todos os dentes lhe
vieram, sos e fceis, sem lhe custar uma lgrima. Quando no dormia, do seu dormir
to sereno que parecia uma rosa sobre uma almofada, passava horas nos braos das aias
ou da me deslumbrada, quieto, imvel, j direito, com os olhos resplandecendo, ,e
parecendo pensar em coisas profundas. Um to raro encanto se exalava daquele
corpinho, todo em rugas gordas, brancas e duras como mrmore, que as aias se no
podiam apartar do seu bero, esquecendo as horas de comer: - e os que um dia
passavam no solar, e o viam um momento, ainda depois nas suas moradas, e entre
outros cuidados, ficavam pensando, com ternura, naqueles cabelos de ouro puro, e nas
duas estrelas dos seus olhos.
No aposento, onde estava o seu bero, no era necessrio no Inverno aquecer o
braseiro, nem, nas canculas, entreabrir as janelas  aragem - porque havia ali sempre
um ar igual, doce, tpido, fresco, e que cheirava bem: - mesmo este aroma ia crescendo,
e tanto, sobretudo em volta do seu bero, que Mestre Porcalho, que reprovava as
essncias derramadas junto dos beros, batia o p impaciente cada manh que l
entrava, e dizia, franzindo a venta: <(Mas aqui cheira a jasmim! Mas aqui cheira a
rosa!" Mais de uma vez tambm sucedera que, apagando-se a lmpada, o quarto
continuara alumiado, de uma luz translcida, vaga, lctea, que era mais tnue junto dos
altos muros, mais viva, e como irradiada, em torno do bero: a ama, sentada, erguia o
cortinado e encontrava o menino a sorrir no seu sono: - e se ento visitava os seus
cueirozinhos, mais se assombrava no os reconhecendo como os do rico enxoval, mas
diferentes, de um linho mais fino que todos os linhos, alvos como outra alvura no
havia, e to doces e macios  mo, que o seu contacto tinha a doura de um beijo. O.111
bom Senhor D. Rui ouvia estas maravilhas - e grossas lgrimas de gosto rolavam na sua
barba ruiva.
As pombas, que tinham o seu pombal na velha torre de atalaia, comearam ento a
vir todas as manhs, em bando, pousar sobre o rebordo da janela do menino: - e mesmo,
se encontravam as portas abertas, algumas mais ousadas, por serem mais brancas,
voavam em torno do seu bero, de um voo subtil e sem rumor. Gil seguia-as com os
seus grandes olhos, ou atirava a mo para as apanhar: - e se tocava em alguma que
pousasse nas grades do bero, essa tomava logo o voo, triunfantemente, mergulhava
muito alto no azul, e no recolhia ao pombal.
Mas no eram s as pombas que amavam o menino. Borboletas raras, de cores
radiantes, vinham bater contra os vidros, aos bandos, como folhas vivas e soltas de
flores que no h na Terra. Uma amendoeira que havia em baixo, no ptio, rompeu a
crescer, a subir, como se, com as pontas das suas ramagens, tentasse espreitar para
dentro do aposento: - e depois cobriu-se de flores em Janeiro; e um rouxinol veio,
durante todo o Inverno, cantar sobre ela maravilhosamente. Mas a surpresa maior foi
que no canto do ptio lajeado, onde se despejara a gua em que D. Gil tomara banho,
comearam a crescer por entre as lajes umas florinhas azuis, brancas e cor de ouro, que
nenhum jardineiro jamais vira, e que perfumavam todo o ar.
No dia em que o menino fez um ano, estando no colo da me, com o seu
saiotezinho de brocado branco todo bordado de prolas, escorregou-lhe subitamente dos
braos para o soalho, e deu o seu primeiro passo na Vida. Todos os braos em redor se
estenderam, ansiosos, para o amparar: - mas ele ia firmando os pezinhos, redondos e
lentos, sem tropear, atento e direito a uma rstia de sol que entrava pela janela - com a
mozinha aberta e erguida, como amparada por outra mo que se no via, e que
docemente o levava. E assim mergulhou na rstia de sol, onde ficou quieto, com um riso
que resplandecia, todo aureolado de ouro. Frei Mnio murmurou: "Neste menino h
maravilha!"
III
J mais crescido, brincando pela quinta, mergulhava em todas as espessuras de
folhagens, de rastos, como um bicho, emaranhando o cabelo nas silvas, para conhecer o
que se ocultava nas sombras hmidas: escavava em torno das plantas para conhecer a
forma das razes: e espreitando o voar dos pssaros, trepava s rvores, para saber o
O seu crescer foi ento igual e so, como o de uma flor, que, em terra bem regada
e sob a fiel carcia do sol, desabrocha com esplendor. Nenhum dos males que Mestre
Porcalho receava, carregando o sobrolho agoirento, veio interromper a sua florescncia
- e todos os dentes lhe nasceram, sem uma dor ou uma lgrima. A sua fala era to doce,
e graciosa, que a todos fazia sorrir de ternura, como o cantar de um pssaro, nas
ramarias. A brancura ebrnea da sua pele nem parecia pertencer a um corpo mortal: e,
em todo ele, a inteligncia resplandecia mais visivelmente do que uma luz por trs de
um vidro. Uma curiosidade inquieta, insacivel, constantemente o levava, correndo, e
espalhando o brilho dos seus olhos negros, atravs da velha morada senhorial. No
havia j na torre de Ermigues, nos ptios, nos escuros stos, recanto que ele no tivesse
rebuscado, no impulso irresistvel de tudo saber. As aias constantemente o encontravam,
procurando, com os seus pequeninos braos, frgeis como hastes de flor, erguer as
pesadas tampas das arcas: e se encontrava uma aberta, eram gritos impacientes at que
lhe deixassem desdobrar as peas de linho, desenrolar os rolos de fitas, destapar os
cofres, remexer as rendas, amontoar em torno de si, sobre o soalho, um vasto bragal
devastado..112
segredo dos ninhos. Nada o assustava. Quando o pai, para o adestrar na grande arte de
cavalgar, o montou uma manh num potro, ele, empurrando o cavalario que segurava o
freio, largou a galopar, em torno do silvado da quinta, bem colado  sela, com os
cabelos ao vento, gritando de pura glria. Se sentia ao fim da tarde os chocalhos, e a fila
da boiada recolhendo, nada o detinha, e corria a bater as palmas, provocando os
novilhos, ou os bois de mais largas pontas: - e constantemente o aio, aterrado, tinha de
o agarrar, para que ele no descesse dentro do balde  cisterna, ou no percorresse o
topo da velha muralha, saltando de ameia em ameia. Depois,  noite,  ceia, ouvindo,
absorto, com a face entre os punhos, o olhar deslumbrado, as histrias de batalhas, que
lia Frei Mnio no seu grande in-flio - soltava brados de alegria, quando vinha um
desses golpes de espada que partem o elmo, racham o cavaleiro e matam ainda o cavalo;
ou quando, nos assaltos das vilas, a fora de um s brao quebrava uma porta de bronze.
De noite, no seu catre, gritava, sonhando com recontros de lanas. E a me que corria,
pondo a mo diante da lmpada, quase se aterrava, vendo na linda testa do seu anjo
adormecido uma ruga de clera herica.
Mas D. Rui sorria, deslumbrado, certo que seu filho seria um dia um grande
conquistador. Era todavia admiravelmente sensvel e bom: - e Frei Mnio antes via nele
os prenncios de uma caridade que ilustraria a Igreja. Amava todos os animais,
sobretudo os pequeninos: e o seu cuidado era que as pombas no sofressem sede, e no
faltasse a rao farta aos galgos, no seu canil. Protegia os sapos por os saber despre-zados;
e se encontrava um, na erva hmida, rente da nora, com as suas mos, e sem
nojo, o levava para longe, para que a vaca atrelada  roda dos alcatruzes o no pisasse,
no seu giro dormente. Aos domingos, descendo, com os pais, a avenida de castanheiros
para a igreja, a cada passo se detinha, a procurar na escarcela uma moedinha para os
pobres: - e na igreja, de joelhos sobre a almofada, no altar-mor, com as mos postas, e o
seu gorro de plumas pousado no cho, tanto se penetrava da pobreza e dor por que Jesus
passara, vendo o seu corpo nu e pequenino nas palhas do curral, a sua tnica rasgada
pelos aoites, as suas mos, to doces aos tristes, varadas pelos pregos, que os olhos se
lhe enchiam de lgrimas.  porta da igreja todo o povo de Gonfalim se juntava para o
ver passar, com os seus cabelos louros, em anis sobre os ombros, coberto com os
veludos de um prncipe, fino e direito como uma espada toledana - mas to simples e
familiar que reconhecia os criados, gritava rindo os seus nomes - ou atirava s crianas,
no colo das mes, beijos que cantavam no ar.
Aos oito anos, tendo Frei Mnio preparado num quarto da torre de Ermigues, por
ser mais silenciosa, livros, folhas de velino, e grossas penas, Gil comeou a aprender as
letras, a escrita, a Histria Santa, e os clculos dos rabes. Por mais lenta e longa que
fosse a lio, ele permanecia atento e grave. A sua alegria foi ruidosa quando soube
escrever o seu nome e os seus apelidos, com letras ornadas e floridas. Mas quanto mais
viva e funda a dos pais, quando o ouviram ler, sem gaguejar, no grande livro de Frei
Mnio, as batalhas de Alexandre, e de Roldo, par de Frana!
To orgulhoso andava o bom Senhor do saber do seu filho, que o quis mostrar aos
santos padres beneditinos, seus vizinhos e aliados. Montado na sua mula branca, com
Gil ao lado sobre o seu alazo, passaram a velha ponte romana, uma tarde, subiram a
calada nova, que por entre lamos levava  grossa porta chapeada de ferro, como a de
uma cidadela. E logo no ptio, bem plantado de ciprestes, encontraram, entre dois fortes
carros de bois, o D. Abade, dirigindo o carregamento de seis pipas de vinho branco, dos
vinhedos do convento, que ia mandar de presente ao Papa.
Com grande contentamento, acariciando os lindos cabelos de D. Gil, o prelado
muito sapiente conduziu os seus vizinhos para os lados do claustro, mandando a um
leigo que trouxesse um aafate de fruta, e um pichel daquele vinho branco que era a.113
glria da sua herdade. Mas, no claustro, como era sbado, toda a sbia comunidade,
numa longa fila, s com a tnica, e sem capa, estava sendo barbeada: - e o D. Abade
caminhou para a entrada da cerca, onde se sentou, entre os seus hspedes, num banco de
pedra, junto de uma fonte, que de entre rochas cantava num tanque de mrmore.
A o bom Senhor contou ao prelado o grande amor do seu Gil aos estudos, e como
j traava a letra grande e mida, e quanto lhe eram familiares todas as sagradas
histrias: - e andava ele pensando se seu filho, bem ensinado por outro mais lido em
livros que Frei Mnio, no se tornaria um bom escolar em leis, ou fino sabedor das
Artes de Curar. Ento o bom prelado, tomando a mo de Gil, e indicando a pedra polida
e branca que encimava a fonte, convidou risonhamente Gil a ler a inscrio que l
gravara, havia anos, um douto monge daquele mosteiro. Sem esforo, o moo gentil
decifrou as rudes letras entalhadas, que diziam: - "Clara e perene, como sai esta gua
desta rocha, brota a bondade dos nossos coraes...". E o bom abade admirou este
precoce saber. Mas quanto mais o seu grande conhecimento das Histrias Sagradas!
Direito, com um brilho nos lindos olhos, e como se conversasse de coisas familiares e
ntimas, o moo gentil, interrogado pelo D. Abade, contava a grande clera de Jeov,
Caim fugindo atravs dos montes, a chuva durante quarenta dias, Jos governando o
Egipto, o Povo errando no deserto, Jeric caindo ao estridor das trompas...
Todos os pssaros se tinham calado, em redor, na ramaria da cerca. A gua caa da
rocha, com um murmrio abafado. Uma doura maior amaciara o ar: - e os raios do Sol
que descia ficaram parados, dourando com tons de ara o banco de pedra, onde Gil dizia
as divinas histrias. Ento o bom abade, pousando a sua gorda mo sobre a cabea de
Gil, afirmou que havia ali um agudo entendimento, e que bem devia D. Rui, pois tinha
cabedal, mandar aquele moo estudar a Frana, terra de grande sapincia... O pai
murmurou: "To longe!
No. No havia longes terras para ir buscar o Saber. Mais longe se ia a Jerusalm,
para alcanar a Graa! E a sapincia, tanto como a Graa, conservava a alma limpa do
mal... - Desejou ento que D. Rui provasse o seu vinho branco. E tendo dado a ambos a
bno de Deus, e ordenado a um hortelo, que ali regava as plantas, que metesse num
aafate cerejas e rosas para a Senhora D. Tareja, tomou o brao do novio, porque
tocara a vsperas - e ele devia dispor uma remessa de relquias destinadas a uma
herdade do convento, visitada, recentemente pelos repetidos flagelos do fogo, lobos e
sezes. Os dois senhores beijaram a sua mo reverenda - e recolheram contentes ao
solar, pelo caminho da Ermida.
Gil comeou ento a estudar com tanto fervor - pensando sempre nos louvores do
D. Abade - que bem depressa soube tudo quanto sabia o doce Frei Mnio. Mesmo
muitas vezes perturbava este discreto Mestre, com a sua curiosidade temerria, que tudo
queria compreender, at a Ordem da Natureza. Era sobretudo  tarde, quando para
repousar das prticas estudiosas, ambos subiam ao eirado da torre de Ermigues, e
lentamente passeavam em volta das ameias todas verdes de hera. O cu arqueava por
cima a sua abbada de azul-claro, imutvel e sempiterna. O Sol, como uma roda de
metal candente, roava a espinha dos montes, dardejando longos raios. E a terra, escura
e macia, estendia a sua ondulao de vales e serras, at onde o olhar se perdia.
Ento D. Gil queria saber qual era, na verdade, a forma da Terra: para onde ia o
Sol, quando se sumia to serenamente por trs dos montes: e quem sustentava assim, to
firme, a abbada do cu. Para satisfazer o seu discpulo, Frei Mnio folheava os in-flios,
que pedia emprestados  livraria do convento, sobre os Ensinamentos da
Prudncia, obra mirfica que, nas suas laudas fortes, encerrava a suma do saber
beneditino. E pondo o dedo na lauda, explicava a Gil que a Terra  quadrada, tendo por
centro, na face voltada para o Cu, a santa cidade de Jerusalm: que o Sol, de noite, vai.114
alumiar o mar, e por vezes, em dias de festa, alumiar o Purgatrio: e que, quem ampara
esta abbada, cheia de luz, de estrelas, de nuvens, de ventos, so os quatro evangelistas,
aos quatro cantos do mundo, com as suas mos que tudo podem, por terem tocado as
mos do Senhor.
Mas nem sempre D. Gil parecia persuadido. E puxando para si o in-flio, relia a
boa doutrina, mais detidamente, como quem, para um recanto mal alumiado, chega uma
luz mais forte. Tanto amor ganhou ento a estes livros, e ao saber que deles tirava, que
no houve mais para ele outro interesse ou cuidado. Logo desde a alvorada se encerrava
na torre de estudo, diante da vasta mesa que os flios majestosos cobriam: - e muitas
vezes s horas de comer, tendo j o varlete da mesa tocado trs vezes a buzina, tinha D.
Rui de subir a escadaria da torre, e sacudir-lhe o brao, para o arrancar ao estudo, onde a
alma se lhe afundava, como num mar de deleite. Passeando na quinta, a cada passo
tirava da escarcela um pedao de velino, e, encostado a um tronco de rvore, com o
olhar ora esparso pelo cho, ora alado lentamente ao cu, traava linhas vagarosas. To
alheado vivia no seu pensar, que D. Tareja tinha de lhe pentear os cabelos que ele
deixava emaranhados, e de lhe laar os atilhos dos seus borzeguins de couro mole. De
noite, com o candil pendurado junto do leito, e um flio no travesseiro, lia ainda, lia
tanto, que j as andorinhas cantavam no beiral da sua janela quando ele, com um
suspiro, e a custo, cerrava os fechos do flio.
Comeou a emagrecer, a sua pele tomou a palidez de uma cera de altar - e Mestre
Porcalho declarou, sinistramente, que j nos olhos do senhor D. Gil se sentiam os
prenncios do tresler.
Ento, para o afastar dos livros, D. Rui organizou para ele uma matilha de caa. O
canil foi alargado, coberto de colmo novo: e o latir dos mastins, dos perdigueiros, dos
lebrus barbarescos, atroava o solar. Ao lado havia um alpendre para os falces: - e um
homem hbil, que viera de Viseu, estava instalado na abegoaria, fazendo redes,
armadilhas laarotes, e capuzes de couro para os aores.
D. Tareja, abraada no filho, conseguiu dele a promessa que todas as manhs
sairia a montear, para que, nos fortes ares da serra, lhe voltassem as cores da sade. Mas
ele quis primeiro aprender a Arte de Caar - e foi ainda um motivo de se enterrar entre
velhos cadernos, de letra mida, em que se ensina a adestrar os lebrus, a afoitar os
falces, a conhecer as pegadas do lobo, o cheiro dos veados, e ainda os ventos mais
propcios  caa, as oraes que se devem a Santo Huberto e o modo de impedir que os
espritos malignos transviem na serra a caada. Depois desejou ainda aprender nos
livros os hbitos dos animais - a que horas bebe o veado, onde faz ninho a perdiz, que
manha tem o javardo, e o rumo do voar das guias.
Em tantas leituras, mais se definhou - e, perante as lgrimas da me, decidiu
enfim comear as grandes manhs de caa.
Com que alegria D. Rui e D. Tareja, do alto das escadas do solar, o viram,
montado no seu alazo, airoso na sua cota de couro branco, com o falco emplumado
sobre o guante - e em volta os lebrus, puxando as trelas e latindo. O monteiro soou a
trompa - e, bom caador, voltando-se ainda na sela para atirar um beijo  me, passou a
ponte levadia, num grande brilho de sol, que ento saa de entre as nuvens.
Voltou por noite cerrada, com uma cor forte nas faces, um cheiro de mato nas
roupas, tendo morto um veado, lebres, todo um bando de codornizes - mas descontente
das suas proezas. No iam ao seu corao doce as violncias da caa; e os lebrus
partindo a espinha dos coelhos, entre as urzes; o falco, despedaando nos ares uma
pobre ave, e voltando a pousar-se no guante, todo enrufado; as setas espetadas no
pescoo dos veados, que ficavam bramando, com grandes olhos agoniados; todas estas
ferocidades, findo o impulso que as inspirara, entre os gritos dos monteiros, e o ressoar.115
das buzinas, lhe davam como a tristeza de um arrependimento. E, de noite, no seu catre,
s, chorou pelos animais mortos.
Voltou ainda uma manh  serra com falces e lebrus. Mas nenhuma seta saiu da
sua aljava de couro suspensa do aro da sela; todo o caminho os monteiros, retesando
as trelas, contiveram os ces, que latiam desesperadamente: e debalde os falces, retidos
pelos laos de couro, batiam as asas impacientes sobre o brao dos falcoeiros. Nem
animal nos cerrados, nem ave no ar foi molestada. Gil galopava contente, respirando os
ares speros e fortes da serra. Pela tarde, cansado, dormiu  sombra de um roble. E
quando recolheu, na doura da tarde, de todos os lados do caminho, dos cerrados e das
tocas saam animais, que o espreitavam, e seguiam mesmo algum tempo, confiados e
alegres: dois paves, de repente, quando ele passava, desdobraram as suas caudas como
para o festejar; uma cobra enorme, que atrancava o caminho, desenroscou-se para ele
passar; muito tempo, um bando de rolas brancas, voou a seu lado serenamente. E,
quando ele entrou no ptio do solar, todos os galos cantaram.
Desde esse dia no voltou a sair com falces e lebrus. Mas ganhara o amor das
longas galopadas nas serras - e, todas as manhs, no seu ginete aragons, levando
apenas uma espada, transpunha a ponte levadia, penetrava nas terras. Sob o sol, sob a
chuva, todo o dia caminhava, ora galopando nas plancies, ora a passo, gozando a
frescura das ramagens, bebendo no fio dos regatos, comendo amoras silvestres; ou por
vezes, no alto de um cerro, desmontado, com o seu ginete  rdea, contemplava
pensativamente os vales, os caminhos coleando nas encostas remotas, os horizontes
remotos, pensando no mundo to vrio, que ficava para alm.  noite recolhia,
enlameado, com silvas no fato, um grande cheiro de mato e de serra, o olhar todo
brilhante - e era ele quem entretinha o sero, conversando, e com tanta verdade e saber,
e to belas histrias, e uma to perfeita graa no dizer, que o pai, a me, embevecidos,
ora lhes parecia ouvir a sapincia de um missal, ora a doura de um canto.
IV
Mas em pouco o Senhor D. Gil comeou a andar pensativo. J no gastava ento o
dia todo nos campos: - mas s a certa hora, a mais quente, quando todos repousam, ele
mesmo arreava o seu ginete, e partia, sem rudo, como se receasse ser apercebido,
mesmo dos cavalarios. Depois, quando voltava, um brilho de singular felicidade
aureolava o seu rosto, to lindo: - mas, todo o sero permanecia calado, como num doce
e ditoso cansao, que por vezes cerrava as suas longas pestanas negras, enquanto D.
Rui, grave na sua cadeira de espaldar, afagava a barba grisalha, e D. Tareja, j mais
pesada, retardava os fios lentos da sua tapearia.
s vezes mesmo, como se a sala, alumiada por duas tochas, o abafasse, abria as
portadas da janela, e, sentado no peitoril de pedra, olhava as estrelas, pensativamente,
ou a Lua.
Certas noites, mesmo, saa para o ptio, onde a lentido pensativa dos seus passos
traia algum cuidado muito fundo da sua alma: - e a me, que, deixando escorregar a
tapearia, o ia espreitar, entre os vidros, sentia-o por vezes suspirar e com suspiros que
no eram tristes. Os seus livros jaziam na torre fechados e cobertos de p. E a sua
ocupao, era antes percorrer o jardim, onde por vezes apanhava um boto de rosa que
guardava no seio do gibo.
Quis ento aprender a viola e o canto, como se as coisas vagas e sem nome, que
lhe tumultuavam na alma, s pudessem ser traduzidas pela doura do tanger, e do
trovar. E agora, muitas noites, quando todo o solar dormia, e dormia o rio e o vale, e na
terra se no via luz, alm da lmpada que ardia no cruzeiro da velha ponte romana, Gil,.116
 janela do seu quarto, soltava, no silncio e na escurido suave, uma doce vibrao de
cordas, e um murmrio de endecha, em que vagamente cantava de uma selva, de uma
fonte clara, e da alma que l lhe ficara.
Era com eleito para uma selva frondosa, a uma nascente de gua viva, que todos
os dias,  hora da sesta, ele voltava o galope do seu alazo aragons. Ficava esse doce
stio no fundo de um vale, de onde nada se via, de entre o arvoredo que o cercava, seno
o grande azul do cu benfico. Uma gua fria saa de entre rochas, e, caindo de pedra
em pedra, formava um riacho claro, que ia cantando e fugindo, sob a ramagem de
grande arvoredo. Mas, num stio onde as rvores clareavam, a gua mais lisa e larga
fazia um remanso, como um lago pequenino - e, da, subia desde a margem hmida e
florida de margaridas, at ao cimo de um doce outeiro, uma relva igual e tenra, onde os
gados podiam pastar.
Ali desmontava D. Gil, prendia o seu cavalo a um tronco de rvore: - e se tudo
estava deserto, tocava na sua buzina. Bem depressa um rafeiro ladrava: - e pelo alto do
outeiro, redondo e verde, aparecia uma pastora, com a roca  cinta, e com ela, um
rebanhozinho de ovelhas. Ambos sorriam, corando, a pastora, e o Senhor D. Gil. E
enquanto o gado bebia na gua clara, ambos se sentavam na relva,  sombra da mesma
faia que os tinha abrigado, na tarde em que D. Gil, vindo ali descansar de uma longa
correria nas serras, l encontrara a pastora, no momento em que uma nuvem grossa
passava, e dela caa um grosso chuveiro.
Desde ento, todas as sestas ali se encontravam, na mesma relva se sentavam, e
mesmo sem que falassem, s por se sentirem junto um do outro, naquela solido, sob as
sombras que na vspera os tinham coberto, os seus olhos, brilhando e rindo, se
humedeciam de felicidade.
Um pobre surro de estamenha, cingido  cinta por uma corda, era todo o
vesturio da pastora: atravs dos rasges que nele tinham feito os silvados, a pele do seu
peito, do seu joelho, brilhava, como a brancura macia de um mrmore fino: e sob os
cabelos despenteados, na face linda que o sol e o ar da serra crestara, o largo azul dos
seus olhos grandes, que pareciam sempre maravilhados, tinham o brilho divino do azul
do cu, e a graa tmida do azul dos miostis. Gil s sabia que ela se chamava Solena, e
que servia de pastora, desde pequena, a um velho que tinha a sua granja para alm das
colinas. Sentados na relva fresca, tinham grandes silncios: ele tomava a mo da sua
amiga, e fazia girar, sorrindo, um pobre anel de chumbo, que lhe enfeitava o dedo: ela
erguia da relva o gorro de Gil, e acariciava as plumas brancas que o ornavam.
Brincando, ela lavava, no riacho claro, os seus pobres ps que a serra endurecera: e ele
apanhava flores silvestres, que lhe metia, rindo, no cabelo. O cuidado de ambos era
saber se tinham pensado um no outro: e baixo, com os dedos enlaados, contavam os
sonhos que lhes tinham encantado a noite.
Nunca Gil falava do rico e nobre solar que habitava, mas ela decerto o
considerava como filho de um rei, igual ao de uma histria de fadas que sabia, porque s
vezes lhe dizia: "Um dia vais, e no voltas mais". Ele jurava, muito grave, que
passariam a vida juntos, sentados naquela relva, vendo correr a gua clara.
As ovelhas brancas pastavam pela encosta. O rafeiro dormia ao lado de Solena, E
ela ento, prendendo um joelho entre as mos, os seus claros olhos erguidos para as
ramagens quietas, comeava a cantar. E era to doce o cantar, e to linda a cantiga, que
Gil se punha a pensar em cantos que ouvira s aias, quando era pequeno, e em que fadas
adorveis tomam a forma de pastoras, e cantando como Solena cantava, atraem para o
alto das serras os cavaleiros que passam. Como ele iria contente, mesmo para a morte,
levado por ela! De to perto, ento, mergulhava os seus olhos nos dela, respirava o seu
respirar, que o seio pequenino de Solena arfava, sob a dura estamenha. Um enleio, que.117
era cheio de doura e tristeza, invadia os seus dois coraes. Ambos sentiam como
vontade de chorar. E por vezes, ambos bruscamente se afastavam, como envergonhados
- ele indo bater no pescoo do seu ginete, que escarvava a relva impaciente, ela dando
alguns passos, ao longo do riacho, com a sua roca, e fiando, com os dedos to trmulos,
que o fuso lhe caa na relva. Mas bem depressa ele gritava: "Solena!", corria atrs dela,
passava o brao em torno da sua cinta, que ele sentia quente e como nua, atravs do
surro: e assim, iam calados, ao comprido da gua murmurosa, para se sentarem mais
longe, noutra relva,  sombra de outro arvoredo.
Mas pouco a pouco a tarde caa. Ela de novo apanhava a sua roca, chamava o
rafeiro. Gil murmurava: "Ainda no!" E quando por fim, tendo infinitamente repetido
"Adeus, Deus te leve", Solena subia o outeiro, com as suas ovelhas atrs, ele ficava
ainda revendo os lugares onde tinham pisado a relva, a gua em que ela mergulhara os
ps, todo aquele arvoredo, por onde se evolara o seu canto. Depois, montando com um
grande suspiro, recolhia sob a doura da tarde, sentindo tambm na sua alma a tristeza
de um escurecer.
Um dia, chegando junto do ribeiro, e tendo tocado a sua buzina, no ouviu ladrar
o rafeiro nem Solena apareceu, com as suas ovelhas atrs. Impaciente, correu ao cimo
do outeiro - e, at onde os seus olhos inquietos podiam abranger, no avistou rebanho,
nem pastora. Ainda esperou, errando, tristemente, junto  gua, e sob as rvores. E s
quando escureceu, tornou a cavalgar, recolhendo a passo, as rdeas cadas, to triste,
que um bando de ceifeiras, que passavam cantando, cessaram o seu canto, e o ficaram a
olhar, compadecidas.  ceia, os seus lbios nada tocaram - e apenas Frei Mnio dera as
graas, ele, beijando a me com uma ternura mais viva, correu para o seu aposento, caiu
sobre um escabelo, diante de um retbulo da Virgem, e ali ficou toda a noite, perdido
numa saudade, que no tinha nome nem fim.
Com que ansiedade, logo de madrugada, correu de novo  fresca fonte, onde "a
alma lhe ficara!" Mas o Sol ia alto, trs vezes ele tocara a sua buzina - e nem o rafeiro
latiu, nem apareceu a pastora! Ento, desesperado, largou a galopar por vales e outeiros,
sondando todas as espessuras de bosques, parando a olhar o fundo dos barrancos,
subindo aos cimos, gritando, pelas quebradas, o nome de Solena. Mas, em torno dele, s
havia solido e mudez.
Pela tarde, avistou uma velha, que subia uma encosta, apoiada ao seu bordo,
carregando um molho de lenha.
Correu, interrogou a velha - mas ela, tonta e vaga, no compreendia, e Gil outra
vez abalou, sem esperana, no vendo os caminhos por onde corria, com as lgrimas
que lhe bailavam nos olhos. J o Sol descia, quando junto de uma cruz que se erguia
entre trs carreiros, encontrou dois homens, que descansavam, um segurando pela mo
um burro carregado de vasilhas, outro com duas lebres mortas s costas, penduradas
numa lana: ao ver Gil que colhera as rdeas, o caador tirou a gorra de pele de raposa e
dobrou o joelho como um servo: - mas quando Gil lhe perguntou pela pastora e pelo
rebanho, nem ele, nem o homem do burro, o souberam informar. Gil, com um grande
suspiro, meteu pelo caminho de Gonfalim.
Toda a noite velou numa ansiedade mortal. Ora a supunha inconstante, esquecida
dele, tendo levado para outro stio, para a beira de algum pastor como ela, o seu
rebanho, e o seu lindo cantar; ora a imaginava na granja do amo, doente, ou morta
talvez, devorada pelos lobos, levada pelas guas de uma torrente.
E o seu desespero era no saber qual o amo, a granja, que ela servia, onde ele
pudesse correr, e saber a verdade. A tocha de cera, que ardia a um canto, estava
derretida. J a manh clareava. Abriu a porta, desceu ao ptio,  quinta, a espalhar a sua
dor na frescura das ramagens. Um homem, que apagava uma lanterna no muro da.118
cavalaria, correu para ele, tirando o seu gorro de pele de raposa. Gil reconheceu um
Pro Malho, falcoeiro, que desde o Natal tomara servio no solar.
- Meu senhor! - disse o homem - a pastora porque ontem perguntveis, no
Cruzeiro, quando eu l estava, com duas lebres s costas, guardava umas dez ovelhas e
tinha um podengo amarelo?...
Gil agarrou o brao do homem:
- Diz!
Ento Pro contou que o podengo fora encontrado morto; um almocreve achara
adiante as ovelhas perdidas; de madrugada passara nesse stio um bando de homens de
armas, que vinha das bandas de Aguiar. A pastora fora decerto roubada.
Gil ficou mais branco que a cal do muro que lhe ficava por trs. E com um tom de
comando e de fora, como se aquela dor por que vinha penando do Donzel houvesse
feito surgir o Homem, ordenou a Pro que desse o alarme aos moos de armas, se
armasse ele de ascuma e loriga, e estivessem todos, com cavalos, ao p do Portelo da
Faia. Depois, subiu as escadarias de pedra, e na velha sala de armas, onde h tanto
tempo s entrava o servial para sacudir a poeira, vestiu a cota de malha, e o capelo, que
seu pai lhe dera, escolheu uma lana de monte, e armado, tendo feito o sinal-da-cruz,
desceu devagar para que nem as aias se apercebessem, e foi ter ao Portelo, onde, um a
um, espantados, ainda com os olhos inchados do sono, vinham chegando os homens de
armas.
Eram os sete que havia no solar - e j velhos, tendo perdido nas tarefas da lavoura
os hbitos do capelo e da cota, que se tinham enferrujado, e com as lorigas de couro mal
juntas, os coxotes mal afivelados, montando velhos ginetes, a que quietos anos de sono
e rao farta tinham tirado a ligeireza e o garbo, formavam um troo de homens toscos e
moles, de que se riria qualquer bom cavaleiro, voltando da Fronteira e dos Mouros.
Mas, quando o senhor D. Gil, no seu grande fouveiro, sacudiu a lana e partiu, l
galoparam, mal acostumados  sela, enrolando por vezes na cima as mos calejadas do
arado e do malho.
Bem depressa, porm, a carreira parou, no encontro de dois caminhos, porque D.
Gil mal sabia o que o levava, assim armado, com a sua ronceira mesnada de sete
homens de lavoura, atravs dos campos quietos. E os seus belos olhos de novo se
enevoaram de lgrimas de donzel, sentindo que a sua grande clera era v, e sem alvo,
como uma lana arremessada contra o vento! Para onde ir? Contra quem correr? Se a
pobre Solena fora roubada, para onde a tinham levado os seus roubadores? A que solar
pertenciam? Como tomar a desforra com esses sete homens mal armados?
- Que fazer, Pro?
Ao seu lado Pro Malho, montando um ginete pequeno de longas clinas, com uma
loriga de tiras de couro negro, tomara o lugar de escudeiro. E com a sua ascuma
atravessada na sela, coando o queixo rapado, pensativamente, terminou por aconselhar
que se fossem pelos caminhos, e pelas herdades, indagando da passagem desses homens
armados, que tinham vindo de Aguiar.
- Assim seja, Pro.
E todo o dia, por vales e outeiros daquela terra pouco habitada, a cavalgada trotou,
sob o sol de Agosto.
Mas nem um almocreve, que conduzia, cantando, os seus machos, nem um bando
de jograis que iam para a feira de Vouzela, nem duas moas que cavavam  beira de
uma herdade solitria, lhes souberam dizer dos homens que procuravam. Pela tarde,
quando o Sol descia, indo por um carreiro entre cerros, avistaram no alto a torre negra,
as ameias de um pao acastelado. A levadia estava erguida, e tudo parecia deserto, na
tristeza do poente. D. Gil fez soar a sua buzina: - nenhuma atalaia apareceu entre as.119
ameias. Mas, tendo costeado o cerro, e entrado num campo, que um valado cercava,
dois homens correram, com chuos, gritando:
- C por aqui  honra! A que vindes?
Pro, alado nos estribos, gritou:
- De quem a torre?
- De Lanhoso, e no h c ningum.
A cavalgada seguiu - enquanto outros homens, besteiros e moos do monte, se
acercavam tambm do silvado, gritando tambm, com tom de ofensa e de briga:
- C por aqui  honra!
D. Gil, cujos olhos faiscavam, colhera as rdeas, apertava a lana - mas j Pro
Malho o retinha, com bom conselho. De que servia brigar? Com sete homens no se
assaltava um castelo.
Os beios de D. Gil tremiam. Talvez, dentro daqueles muros, estivesse agora a
pobre Solena, perdida sem remisso. De que servia andar na v empresa? Os homens
violentos que a tinham levado estavam decerto metidos com ela dentro de muralhas e
torres. S o poder de el-rei a poderia libertar. No ele, com os seus sete criados... E
mesmo que corresse sobre aqueles, ou homens de outro castelo, como saber se eram
esses na verdade os culpados, e se no estaria inocente o sangue que ento corresse? S
lhe restava chorar aquela flor, que ele descobrira, e que outros tinham colhido.
Nesses pensamentos o colheu a noite, e foram pernoitar a uma herdade, onde o
pobre fazendeiro, um velho, ficou aterrado ao ver aquele Senhor, com os seus homens
de armas, que decerto esvaziariam a sua capoeira, e levariam a palha do seu palheiro,
sem lhe dar um maravedi. Mas quando Gil declarou que tudo pagaria pelo preo de
Vouzela, foi uma festa na herdade, ate desoras, em torno de uma grande fogueira, e os
homens de armas esvaziavam os pichis de vinho, rindo das histrias que contava o
facundo Pro Malho.
D. Gil, embrulhado no seu mantel, pensava em Solena, nas tardes junto  ribeira, e
naquela fraqueza dos seus braos, que a no podiam salvar. Mas, mesmo que a
arrancasse de entre os homens brutais que a tinham levado, seria ela a mesma Solena,
que embalava nos braos o anho branco? No, Virgem Santa! A lama sujara a gua
clara. A pata do boi pisara a flor silvestre. Ai dele! Da Solena, que conhecera, nada
restava, e era como se ela morresse, e o seu lindo corpo, que alvejava entre os rasges
do surro, estivesse apodrecendo na vala escura. As lgrimas, ao pensar assim, caam
nas suas faces: - mas a violenta angstia cessara, como um temporal, e agora uma
saudade se estabelecia na sua alma, calma e doce como o luar triste que se espalha pelos
campos, depois que passou a tormenta.
De manh, tendo os seus homens j montado, no quis recolher ao solar. Era
como uma esperana de poder ainda talvez socorrer a msera pastora, e uma vergonha
de voltar a depor na sala de armas, entre a poeira, a sua lana que no servira.
Todo o dia ao acaso trilhou os caminhos. Ao passar pelas granjas, fazia ressoar a
sua buzina. Se avistava algum cavaleiro, montado na mula de jornada, estacava, com a
lana a prumo sobre o coxote; o cavaleiro passava tirando o gorro; e D. Gil retomava a
marcha. Por vezes, enervado, impaciente, despedia numa longa carreira - at que
homens e cavalos estacavam arquejando.
E no despeito fundo que sentia, com aquelas correrias sem destino, e sem glria,
desejava ao menos encontrar um lobo, um touro bravo a derrubar. Os homens, cobertos
de poeira e suor, praguejavam j surdamente.
Ao descer do Sol,  vista de um pinheiral que cobria um outeiro, sentiram de
repente um grito, depois outro. "Louvado seja S. Tiago!" exclamou logo Pro. D. Gil,
largando a rdea, correu para o bosque escuro - e num barranco, avistaram, entre fardos.120
e caixas cados da mula que os carregava, trs homens de armas que amarravam a um
tronco um velho, enquanto atavam com uma corda os ps de um rapazito, cheio de
sangue na boca. Os trs cavalos dos homens esperavam  orla do pinheiral: e antes que
D. Gil pudesse usar a lana, j os trs homens, saltando sobre os ginetes, fugiam
furiosamente.
O bom cavaleiro largou sobre eles com dois dos seus solarengos - mas,
conhecendo decerto os caminhos que se cruzavam entre o arvoredo, os trs homens
tinham desaparecido na espessura. Ento, voltou para o velho, que Pro desamarrara, e
que, tremendo todo, e gaguejando, contou que ia com o neto levar duas jardas de pano
de almafega ao pao dos Senhores de Solores, quando fora assaltado e espancado. O
rapazito tinha dois dentes partidos, um ombro com a carne rasgada de uma lasca de
pedra, e D. Gil lamentou no saber, como todo o cavaleiro deve, a arte de curar as
feridas. Fez montar a criana, que desmaiava,  garupa de Gundes, o seu homem de
armas que trazia o cavalo mais forte; a carga foi arrumada sobre a mula; e trs dos seus
solarengos, com Gundes, acompanharam o recoveiro ao solar de Sobres. Depois,
quando viu o velho partir, assim bem escoltado, largou a galope para Gonfalim, to
alegre agora, e satisfeito com a vida, que rompeu a cantar.
A noite cerrara, quando a cavalgada chegou  levadia do solar.
Serviais esperavam com tochas - e Gil, desmontado, caiu nos braos de D. Rui e
de D. Tareja, que, sem saber para onde partira o filho do seu corao, com cavalos e
armas, tinham passado dois dias no alto da torre de atalaia, olhando sofregamente os
caminhos, tremendo a cada rolo de poeira que ao longe se enovelava, e fazendo ricas
promessas a todos os santos do Cu. Mas, quando o viram to airoso e forte, na sua
armadura, nem o repreenderam do terror que lhes dera, embevecidos com o seu belo
cavaleiro, que lhes parecia to belo como S. Miguel armado. D. Tareia passava as mos
com amor na cota brunida. Foi D. Rui que o desembaraou da rodela e da lana. E
quando  ceia o bom Senhor soube de como ele libertara o recoveiro, e o neto, e os trs
bandidos tinham fugido - no se conteve, no seu entusiasmo, e gritou com uma punhada
na mesa que fez tremer os pichis de estanho:
- Vida de Cristo! Que nunca ouvi, nem sei que se conte nos livros, de mais justa
faanha!
V
Depois, a torre e Solena tinham-se sumido -e ele vira Jesus Nosso Senhor, de
repente, que, sorrindo, lhe oferecia uma grande espada, mais clara que um diamante.
Ento, comeou a pensar em correr mundo, como paladino errante, para socorrer todos
os fracos: - e agora, que aprofundava aquela ideia, nenhuma existncia lhe parecia mais
nobre e mais bela.
O mundo vira j muitos desses cavaleiros famosos. Mudos, cobertos de ferro,
seguidos de um s escudeiro com a Lana, eles percorriam os remos da Terra,
protegendo os pobres e os mesteirais, libertando damas encerradas em torres, derrotando
os gigantes daninhos, derrubando os prncipes dos tronos usurpados, remindo povos
Ento comeou este moo gentil a amar grandemente as armas. Mas, por elas, no
esquecia a linda Solena roubada: - e at, se agora se empenhava em ser um forte e
destro cavaleiro,  que, sonhando uma noite com ela, a vira, no fundo de uma torre, com
os cabelos soltos e grilhes nas mos, que lhe dizia atravs de lgrimas: "Se no
pudeste socorrer-me, a mim, pobre pastora, que s te tinha a ti no mundo, dedica-te, por
amor e lembrana de mim, a socorrer todas as fraquezas, amparar todos os
desamparos"..121
cativos, destruindo as feras que assolam as searas, e, a caminho de conquistar um reino,
parando a consolar uma criana que chorava num horto. Um anjo voava por trs deles
com as asas abertas: - e as suas faanhas no provinham da irresistibilidade da sua
fora, mas da evidncia da sua justia. Uma tal vida deslumbrava D. Gil - e a sua
possibilidade era clara, pois que, sem procurar aventuras, s porque sete lanas o
seguiam, ele, libertando O recoveiro no pinhal, fizera obra de paladino.
Ento todos os seus pensamentos foram dados a esta empresa. Todos os dias se
adestrava em jogar a espada com qualquer mo, em disparar bestas, em vibrar o
montante - e o velho D. Rui, do balco da sala de armas, aplaudia estes exerccios, que
tanto convm a um fidalgo que preza Deus, a honra e a linhagem. Por sua ordem, o
intendente comprou o melhor alazo de guerra, que nesses tempos apareceu na grande
feira de S. Joo, em Viseu: todos os homens de armas foram providos com lorigas
novas, ascumas de largo cutelo, cascos que reluziam como espelhos: - e a armadura de
Gil, que a me com o dinheiro das suas arras lhe quis dar, era to bela, que esteve,
durante todo um domingo, exposta na capela do solar.
Pro Malho constantemente acompanhava D. Gil nestas ocupaes de cavaleiro.
Era ele quem polia as armas, dava a rao ao ginete, cuidava dos galgos favoritos de D.
Gil, tudo dispunha para os exerccios de armas: - e mesmo, como a idade e os achaques
iam tornando mais trpego o aio de D. Gil, era Pro quem dormia, atravessado  porta
do seu aposento, e lhe batia as roupas com um junco, e,  mesa, lhe enchia o pichel de
vinho. D. Gil comeava a ganhar grande afeio a este escudeiro.
Era Pro um moceto, mais moreno que um mouro, esperto, destro e destemido,
de uma alegria que Lhe trazia sempre descobertos os dentes magnficos, grande sabedor
de histrias e rifes, lindo bailador em festas de adro, e to rijo, que podia passar dois
dias de jornada, sem sono, sem rao, bebendo apenas nas fontes um golo de gua, pela
borda do sombreiro. Sabia tudo quanto compete  caa e  guerra - e D. Gil tanto se ia
afeioando a este moo, que j decidira lev-lo por escudeiro, se jamais partisse a correr
mundo, como cavaleiro andante.
O seu desejo, agora que era destro em todos os exerccios das armas, era ser
armado cavaleiro. E como D. Rui lhe prometera essa honra para quando tivesse vinte
anos, e apenas faltavam duas semanas de Agosto, logo se comeou a preparar a grande
festa - e se armaram arcos de buxo desde o solar at  igreja do mosteiro, onde D. Gil
devia velar as armas. Nessa noite por toda a aldeia, junto do velho solar e no terreno do
convento, se acenderam pipas de alcatro e fogueiras, onde o povo danou, em grande
rudo, ao som de violas e doainas.
Um velho parente, D. Soeiro, Senhor de Tondela, que comandava trinta lanas, e
tinha voz em trs castelos, veio, com linda comitiva, dar a pranchada em D. Gil.
No terreiro do solar, duas vacas inteiras assavam em espetos maiores que lanas.
Das pipas, juntas em cima dos carros e toldadas de louros, o vinho corria como de
fontes pblicas. O clangor das longas festivas misturava-se aos cantos dos jograis. E
quando pela tarde se baixou a levadia, e D. Gil, todo armado, seguido de homens de
armas, de escudeiros, de moos de monte, saiu ao terreiro, e empinando o ginete,
brandiu trs vezes a lana - todos os sinos repicaram, bandos de pombas soltas
branquearam o espao, punhados de rosas voltearam no ar, e uma chuva de moedas de
prata e de cobre caiu sobre o povo, como no advento de um rei.
Depois, de novo o solar caiu em quietao e em silncio. E D. Gil, que
abandonara os livros, e no tinha j quem encontrar na solido do bosque, e se saciara
do exerccio das armas, comeou a achar os dias pesados e longos. As correrias pelos
campos, com os seus homens de armas, agora bem armados e bem montados, no
tinham motivo, nem destino: - e depois de galoparem nalguma plancie, atravessarem.122
alguma herdade, fazendo latir os ces e fugir as galinhas, descansarem  sombra de um
arvoredo, e atroarem os vales com toques de buzina  mourisca, nada mais lhes restava
que recolherem, pelo fim da tarde, cobertos de poeira, cansados, e sem aventura para
contar  ceia.
Para seguir ento, mais fielmente, a vida dos paladinos, como a aprendera nos
livros, saa s com o seu escudeiro Pro, que vestia um saio azul e branco (que eram as
cores dos Valadares), trazia duas longas plumas brancas e azuis no gorro, e levava o
montante e o broquei do seu amo. Ia ento, para esperar aventuras, postar-se, como
Roldo, no encontro de dois caminhos, ou, como D. Clarimundo,  entrada das pontes.
Mas s encontrava algum almocreve, que o saudava humildemente, ou um frade
mendicante que lhe dava uma relquia a beijar, algum pobre menestrel, que, a troco de
um maravedi, lhe cantava um vilancete, ou a gente dos arredores, lavradores e
mesteirais, que todos o conheciam e lhe diziam, com agrado: "Deus salve o Senhor D.
Gil". E bem depressa abandonou estas cavalgadas solitrias - passando os dias no solar,
pela quinta, com um ltego intil na mo, a visitar as cavalarias, o telheiro, onde os
falces engordavam entorpecidos, o lagar ou a eira. Na grande sala, D. Rui, que ia
embranquecendo, dormitava, j muito gordo e pesado, na sua alta cadeira de carvalho,
com os ps numa grande almofada, as mos cruzadas e escondidas, como as de um
padre, nas mangas da sua simarra. D. Tareja, com o cabelo todo branco, sentada numa
esteira rio cho, trabalhava entre as aias; - e todas as noites Frei Mnio recomeava a
batalha de Dano, ou os milagres de Santa rsula.
s vezes, seguido s do seu alo, D. Gil descia atravs da aldeia a uma pequena
casa, junto do rio, onde Mestre Porcalho, muito velho tambm, enriquecido pelos dons
de D. Rui, se retirara a repousar, cultivando o seu horto.
Encontrava sempre o douto velho, com os seus longos cabelos brancos, muito
compridos, soltos sobre a garnacha negra, cuidando do cebolinho, do feijoal - ou  mesa
da cozinha, coberta de plantas secas, dispondo folhas entre as pginas de um in-flio.
D. Gil amava este douto prtico - e gostava de o interrogar sobre os segredos do
corpo humano, a sua estrutura, os seus humores, e as influncias que o regem. Mas
agora, que j no exercia a sua cincia, o bom Porcalho, franzindo as grossas
sobrancelhas brancas sobre os olhos cavos e muito luzidios, declarava nada saber,
menos que um porco - porque s havia trs cincias de curar. Uma, a dos monges, por
meio de peregrinaes, milagres, e contactos de relquias, e era esta falsa, porque o
ilustre fsico rabe Rhazei provara que Deus no se intromete com a sade das criaturas.
A outra, a do Povo, feita toda de feitios, esconjuros e sortilgios, era ilusria porque
vem do Diabo, e o Esprito do Mal no pode promover o bem humano. E a terceira, a
verdadeira, a eficaz, essa ainda no chegara a estes remos de Portugal, e estava toda em
Frana, terra de grandes escolas.
No entanto ele, Porcalho, fizera importantes achados! Era incontestvel que a
pedra de gata facilitava as dores da maternidade, como ele provara com a Senhora D.
Tareja; que a sangria de Maro devia ser feita nas veias do peito; e que a hipocondria
era produzida por um vento funesto, que vinha da Lua e que inchava o fgado! De resto,
descobrira alguns simples maravilhosos -e a ele, no a outro, se devia que em toda a
terra do Douro ou das Beiras se reconhecia hoje a excelncia da mandrgora! Dizia
estas coisas profundas com um grande ar inspirado e sinistro. Em redor, toda a cozinha
estava cheia de almofarizes, grossas garrafas com lquidos de cores radiantes, aves
empalhadas, molhos de ervas secas pendurados das traves defumadas do tecto: um
cheiro doce e triste perturbava a alma: e nos vastos in-flios, com fechos de metal,
parecia dormir uma cincia imensa e profunda.
D. Gil voltava para o solar, devorado pela curiosidade daquele saber. Nenhum.123
poder humano lhe parecia mais alto do que aquele que suprime as dores, luta com a
influncia do invisvel, e vence a Morte. Quanto bem a derramar pelo mundo, quando se
possua aquele divino saber! Se era j belo e grande tomar armas e ir pelo mundo livrar
os homens dos males que os homens lhes fazem, quanto maior e mais belo libertar o
pobre corpo dos males infinitos que lhe faz a Natureza! E bem compreendia agora
aquela regra, to fundamental, dos livros de boa cavalaria, que todo o bom cavaleiro
devia saber a arte de curar as feridas que a lana faz. No era pois indigno, antes
nobremente prprio de um fidalgo, conhecer os simples, as influncias, a arte do bem-sarar.
Por aquela cincia, como por uma escada sem fim que mergulha nos cus, o
homem ascende aos altos segredos! Aquele a quem um mal aflige pode ento recorrer a
esse alto saber, to eficazmente como a Deus por meio da prece: - e, na verdade, o bom
sabedor da Grande Arte  como um Deus que percorre o mundo distribuindo a vida.
E destes pensamentos, que o conservavam de noite desperto, resultou que o gentil
cavaleiro, deixando as armas cobrirem-se outra vez de poeira, se quis preparar, antes de
novamente as tomar, com a grande cincia dos simples e das drogas. Comeou ento a
estudar, assiduamente, com Mestre Porcalho, que se orgulhava deste discpulo, to
gentil e to nobre. O seu dia todo se passava no horto, ao p do rio. Sentados ambos sob
a latada, D. Gil, com um pergaminho no joelho, escrevia todos os preceitos que lhe
revelava o velho Mestre, para depois os decorar, passeando at desoras no seu quarto. J
sabia os princpios de Galiano e dos Gregos, as receitas de Rhazei e dos rabes. E por
um caderno mirfico, que Mestre Porcalho obtivera de um judeu, e que continha
extractos do Cnon de Avicena, j conhecia vinte doenas, e as suas vinte causas, e os
seus vinte remdios. Mas a experincia original e prpria do Mestre no era menos
valiosa; - e por ela aprendeu D. Gil todas as medicaes que se devem aplicar segundo
os meses - em Janeiro tomar poo de gengibre, em Fevereiro sangrar na veia do peito,
em Maro pr ventosa no fgado...
Por meio de ossos humanos, que o Mestre outrora, com grande risco, roubara num
cemitrio, e que guardava numa arca sob o leito, conheceu os segredos da estrutura
humana: e ao ver uma caveira que nunca vira, e que o fez persignar-se para afastar o
mau olhado, pensou, sem saber porqu, em Solena, no brilho do seu olhar, na sua pele
to macia e doce. Depois, diante dele, Mestre Porcalho uma noite matou um bcoro, e
Gil conheceu as veias, os tendes, e o saco do estmago, onde "o ar penetrando
decompe os alimentos".
VI
Era no tempo dos figos - e tendo demasiadamente comido desta fruta, o bom
abade fora atacado de um duro mal. Na sua cela, onde recebeu afavelmente o seu
vizinho, as relquias do convento estavam expostas, sobre um pequeno altar, para dar
sade ao bom abade.
Um frade rezava junto ao vasto leito de carvalho. Outro pisava uma massa dentro
de um almofariz - e dois novios, com ramos de louro, sacudiam as moscas da face
venervel, que o mal empalidecera.
No solar o velho D. Rui estranhava a nova existncia de Gil - que, agora, das suas
caminhadas solitrias, sem galgo, sem escudeiro, voltava carregado de ervas, como um
aprendiz de ervanrio. Mas quando soube que ele andava aprendendo a arte de curar, a
sua admirao por aquele filho excelente cresceu, e no duvidou que ele viesse um dia a
ter fama, em todo o reino, pelo seu saber maravilhoso: - e uma tarde, montando com
custo na sua mula, foi ao mosteiro levar ao D. Abade a notcia desta empresa nova, a
que se lanara o grande esprito do seu doce Gil..124
D. Rui lamentou o bom abade - e, sentado num escano aos ps do leito, contou
logo como, justamente o seu Gil, comeara agora com o grande desejo de saber a arte de
curar aquele e outros males.
- Pois mandai-o estudar a Frana!... - acudiu logo o D. Abade, estendendo a mo
fora da roupa, com um gemido. No sei que haja mais til saber. Mas ns, aqui neste
reino, nem uma dor sabemos calmar... No o digo pelos doutos padres desta casa!... Mas
j desde domingo, que foi a merenda, estou aqui em trabalhos... Estamos em grande
atraso. Mandai-o estudar a Frana.
E, pregando os olhos nas santas relquias, ficou mudo.
S quando D. Rui lhe beijou o anel da mo, cada sobre a colcha de seda, tomou a
voltar o rosto, a murmurar:
- Mandai-o estudar a Frana.
D. Rui recolheu ao solar melancolicamente. Deus, decerto, pela voz do D. Abade,
que sofria cercado de relquias, lhe indicava aquele dever de mandar o seu filho a
Frana, para se ilustrar no saber. Mas a ideia de o ver partir e ele j to velho, cortava o
seu corao.
Quase desejava que seu filho fosse um moo de esprito simples, contente em
caar, e justar as armas no ptio do seu solar. E nem contou a D. Tareja esta visita ao
mosteiro, o conselho penoso que l fora escutar.
E era ento com mgoa que via agora o seu filho cada dia mais devotado aos
livros. Tendo comeado por estudar a arte dos Simples e das Drogas, como
complemento da sua educao de cavaleiro, ele comeava agora a amar esse saber,
como o fim supremo da vida.
Como um peregrino que percorre um templo, e a quem a beleza ou raridade de
uma capela inspira o desejo devoto de percorrer as que alm, na sombra, fazem cintilar
os seus ouros, este gentil cavaleiro, de cada estreita regio do saber em que penetrava,
recebia a nobre tentao de invadir outras, que ao longe faziam cintilar a maravilha dos
seus segredos.
As secas plantas, com que Mestre Porcalho lhe ensinara a fazer emplastros para
curar humores, lhe tinham dado o desejo de conhecer toda a vasta natureza que cobre a
terra, e a estrutura dessa terra, onde se escondem os metais e o fogo: a terra, ela mesma,
lhe fizera sentir o desejo de conhecer tudo o que a cerca, os ventos que a sacodem, as
nuvens que sobre ela formam um todo de multicor beleza, os astros pequem-nos e
grandes que sobre ela derramam o seu brilho fulgurante ou meigo. Do Homem, de quem
o velho fsico lhe explicara os ossos, ele bem depressa quis conhecer a alma, e as leis
mltiplas e maravilhosas que a regem... Por que aspirava ele ao bem? Por que sentia
uma resistncia ao mal? De onde nascia o amor? Por que pensava, e em que parte ntima
do homem brotava a fonte imperecvel do pensar? Depois era ainda a curiosidade de
saber o que o Homem, desde to longas idades criado, tinha feito na terra, e as cidades
que fundara, e as grandes guerras que travara, e as Leis que criara para se conservar
manso e socivel... E, do Homem, a sua curiosidade ascendia ao Deus que o criara. Qual
era a sua essncia, onde habitava, que cuidado tinha ele pela humanidade que criara? -
E assim, este moo gentil, a quem a barba mal nascera, aspirava a percorrer todas as
cincias, a compreender todo o ser. Mas entre as velhas muralhas daquele solar, naquela
quieta aldeia, adormecida sob o olivedo e a vinha, como poderia adquirir todo esse
saber, que ocupa, para ser codificado e aclarado, monges de tantos mosteiros, escolares
de tantas escolas! Todos os trinta e trs livros, que formavam a rica livraria do convento
Beneditino, lhe tinham sido emprestados, por supremo favor, e em todos, confusamente
e tumultuosamente, aprendera milagres de santos, leis visigticas, batalhas da
antiguidade, receitas de drogas e notcias dos pases que esto para o Oriente: -mas.125
eram como curtas fendas, num tecto de macias traves, por onde entrevia pontos vivos
de luz, aqui e alm, e tudo o resto era escuro, e a luz completa estava por trs, sem a
alcanar.
Mesmo por vezes lera um grande tomo, de Aristteles ou de Sneca - mas sentia
que o seu esprito solitrio, sem um guia, ia atravs daquele saber, como um homem
perdido de noite numa montanha desconhecida.
A sua alma ento, nessa grande sede que no podia ser saciada, porque estava to
longe de toda a fonte, caiu numa melancolia. Abandonou os grossos in-flios onde j
nada novo podia aprender - e no o atraa a companhia de homens que nada lhe podiam
ensinar. S, com um galgo, partia de manh, penetrava nos campos, procurava a solido
das quebradas e dos vales: e a, caminhando devagar, ao comprido de um ribeiro, ou
deitado  sombra de uma rvore, ele pensava na inutilidade da vida...
Aquilo, pois, era viver-esta montona sequncia dos actos instintivos: acordar,
comer, caminhar entre as rvores, voltar  mesa onde as malgas fumegam, e, quando a
luz finda, adormecer? Assim vivia qualquer bicho no mato! Mas de todas as ocupaes
humanas qual era verdadeiramente digna de que o homem nela pusesse a sua alma
inteira, e a tomasse o fim do seu esforo na Terra? No decerto vestir as armas, seguir
um pendo, rasgar as carnes de outros homens, gritar no estridor das batalhas, para que
o Senhor Rei possua mais um castelo, ou alargue, para alm de um rio, as fronteiras do
seu reino! No decerto juntar maravedis, com eles comprar mais terras e mais servos,
engrossar rendas, atulhar as arcas de sacos de ouro! No decerto andar de solar em
solar, com plumas no gorro, e um falco em punho, galanteando as damas, conversando
de Linhagens, justando nos ptios, e escutando os jograis que cantam ao sero!...
O qu ento? E o seu esprito recaa naquela ambio vaga que o torturava, a
ambio de tudo saber, de se elevar, pela posse dessa cincia, acima dos homens, e
exercer essa supremacia toda em favor e bem dos homens. Quereria ter um saber que
lhe permitisse fazer as leis mais justas, curar todos os males do corpo, enriquecer as
multides, estabelecer a paz entre os Estados, e guiar todos os seres vivos pela larga
estrada do Cu. Para tal fim, s para ele valeria a pena viver. E, para o conseguir, no
haveria trabalho a que se no sujeitasse, fadiga que no afrontasse. Veria, sem dor, o seu
corpo penar, comeria as ervas dos campos, vestiria os trapos mais sujos, serviria nos
misteres mais rudes - contanto que a alma se fosse enchendo desse grande saber, cada
vez mais alto, mais belo, dominando todas as almas pela abundncia de verdade que
possusse, e pela eficcia do bem que espalhasse. Mas esta ambio, como a realizar?
Onde, como, adquirir esse saber benfico? E quando o tivesse adquirido, de que modo
fazer que ele aproveitasse aos homens, para se tornarem melhores, e serem aliviados dos
males da vida?
Seria um grande fsico, que fosse pelo mundo curar os males da carne? Seria um
grande Telogo derramando a paz nas almas? E mesmo que melhorasse algumas almas,
ou sarasse alguns corpos, quantos ainda por todo o vasto mundo ficariam sem remisso
e bem-estar? Qual era o meio de fazer o bem, simultaneamente, a grandes multides?
Assim pensava D. Gil na solido dos vales. Este moo to gentil tinha ento vinte
e dois anos - e era to belo e airoso, que a gente se voltava nos caminhos, e o ficava a
olhar, com doura.
Os seus longos cabelos, de um louro escuro, caam em anis como os de um
arcanjo. Nada havia mais doce e luminoso que o olhar dos seus olhos escuros. Um buo,
apenas nascente, dava uma sombra de virilidade  sua pele ebrnea, como a de uma
virgem: - e no seu andar havia uma graa altiva, como a de um prncipe em plena
felicidade. Os seus modos eram to doces e corteses, que logo prendiam as almas.
Nenhuma pessoa, por mais humilde, o saudava, sem que ele gravemente erguesse.126
o seu gorro de fidalgo: e nos caminhos estreitos encostava-se s sebes, para deixar
passar os velhos, ainda que fossem mendigos. Ainda que naquela farta e quieta aldeia
no havia pobreza, a sua escarcela saa cheia, e voltava sempre vazia. Amava todos os
animais -e as crianas faziam-no parar, sorrindo, enternecido.
Com esta cordura de monge, tinha todas as prendas de um cavaleiro. Ningum
justava, jogava o tavolado, domava um potro bravo, erguia uma barra de ferro, com
mais fora e primor.
Nada temia - nem os homens, por mais fortes, nem as feras por mais bravias, nem
os duendes por mais malignos. Mas na casa de seu pai era obediente como uma criana
- e era ele quem servia o velho, o ajudava a erguer da sua cadeira, e mesmo lhe
penteava os seus cabelos brancos. Um olhar de sua me era para ele como um man-damento
divino - e com tanta devoo lhe beijava a mo, que outra maior no tinha
com a Me do Cu.
Nunca sua alma, branca como a gua mais pura, fora toldada pela passagem de
um pensamento injusto ou impuro. A Justia era para ele to necessria como a luz: - e
se testemunhava uma injustia, sofria, como se um guante alheio lhe tivesse batido a
face, sentindo-se ofendido na ofensa que via fazer aos outros. Adorava a Verdade, logo
abaixo da Virgem Maria: - e todo o olhar que no fosse franco, toda a palavra que no
fosse livre, lhe davam o horror de uma coisa suja.
Queria que todos os solarengos lhe falassem sem submisso: - e, amando todos os
homens como iguais, a servido parecia-lhe uma ofensa ao seu amor.
Assim o Senhor D. Gil era, nesses anos ainda curtos, uma das almas melhores da
cristandade.
Um dia, tendo despertado com o cantar das calhandras, e sentindo a alma mais
triste, partiu s, com um grande lebru, e levado pelos seus pensamentos, foi dar ao alto
de uma colina, que era a mais alta naqueles stios, e se chamava a serra do Bruxo. Dali
via, mais baixas, a vasta colina onde negrejava o seu solar, a aldeia de Gonfalim,
espalhada entre a verdura, o branco Convento dos Beneditinos, o rio, luzindo entre as
margens altas, e a ondulao dos cabeos, at ao extremo azul: - e de p, envolto no
vento largo que soprava, Gil comeou a considerar quanto era estreito aquele horizonte,
e quanto seria impossvel, na verdade, que dentro dele se realizassem sonhos que
abrangiam o mundo todo. Que havia ali, naquele crculo de colinas? Os muros do seu
solar, um convento de velhos frades, uma aldeia de pobres colonos, e para alm, terras
bravias, matos, colinas, que o tojo vestia! Como poderia jamais ser ali o homem que
desejava, o homem de grande saber, de grande aco? E quando, por um dom divino,
assim se tornasse, onde havia ali uma humanidade mltipla e larga, para ele exercer a
aco da sua alma? Mas para alm havia outras terras, grandes remos, cidades ricas,
grandes escolas, mosteiros de alto saber, e multides inumerveis, sobre quem uma
alma forte e bem provida podia exercer uma supremacia que valesse a pena conquistar.
Se ele deixasse o seu lar estreito! se ele partisse!
Um alvoroo encheu o seu corao - e quase imediatamente sentiu ao lado, entre
umas fragas, uma voz moa e fresca que cantava:
Pelo mundo vou,
Onde chegarei?
E o que procuro
Onde encontrarei?
E um moo apareceu, ligeiro e magro, pobremente vestido, que trazia uma sacola
de mendicante a tiracolo, um forte bordo ao ombro, e duas grandes penas de galo no.127
seu gorro remendado.
Uma alegria, franca e livre, alumiava a sua face magra. Todo ele parecia respirar
com delcia o ar spero e livre da serra: - e os seus olhos refulgiam, com um grande
fulgor risonho.
Diante de Gil, parou, batendo com o basto na rocha.
- Como se chama esta serra e onde leva este caminho?
Gil tirou o seu gorro, com cortesia.
- Esta serra no tem nome, e este caminho s leva a outras serras... Para onde
ides?
O moo limpou lentamente o suor, que lhe alagava a testa:
- Vou procurando terras de Frana...
- Assim, para to longe, a p!
O moo riu alegremente:
-  que o Senhor Rei, quando distribuiu as terras e os solares, esqueceu-se de me
dar uma, e uma mula para jornadear custa bom ouro. Mas as pernas so rijas e mais rijo
o corao. E ele que me Leva, neste desejo de ir a Frana, para entrar nas escolas, e
saber o grande saber, e vir a ser Fsico-mor no pao de um rei, ou ensinar decretais num
conselho. Na herdade em que nasci s havia um livro, que era o missal da capela. E
como em todo o mosteiro h uma cdea de po para um mendigo, e nos ribeiros no
falta gua, aqui me vou, com o meu cajado, cantando por estes caminhos da terra.
Os seus olhos fulguravam como duas chamas - e do cajado que ele assentara,
rindo, sobre uma pedra, chisparam longas fascas. E continuou:
- S me falta um companheiro. Moo sois, forte pareceis; em Frana as mulheres
so lindas; nas grandes escolas aprende-se o segredo das coisas; e as guerras no faltam
a quem apetece a glria. Vinde tambm comigo, e seremos dois a cantar.
Gil respondeu gravemente, mostrando Gonfalim e o pao acastelado:
- Acol fica a casa de meu pai.
Ento o moo tirou o seu gorro:
- Rico sois! Ajudai um pobre estudante.
Gil abriu a escarcela, e, corando, tirou uma moeda de prata que ps na mo do
estudante. E, sem saber porqu, sentia uma atraco para ele, como um desejo estranho
de se juntar quele destino errante. Mas o moo, atirando o cajado para as costas, dando
um jeito  sacola, partiu. E de novo cantava:
Dia e noite caminho,
Para onde irei?
E o saber que procuro,
Onde encontrarei?
A meio da encosta ainda se voltou, acenou com a mo a Gil - e subitamente
desapareceu. No cho, em que os seus ps se tinham pousado, a erva secara toda.
VII
Gil recolheu ao solar, pensativamente. Aquele moo pobre partia, sem temer as
misrias do caminho, pronto a esmolar o seu po pelos mosteiros - s para adquirir,
longe, nas grandes escolas, o saber a que aspirava. E ele, rico, que poderia partir, com
bolsa farta, escudeiros e bagagens, hesitava em partir, para satisfazer as justas e nobres
ambies do seu esprito! Se Deus lhe pusera na alma aquele ideal elevado, era por
acaso para que ele o deixasse morrer insatisfeito e intil? Dava-lhe Deus uma luz clara,.128
para ele alumiar os outros, e em vez de a tornar mais viva e clara, to alto, quanto alta
possa ser uma luz da Terra, ele deixaria, por timidez e enleio da vontade, que ela
esmorecesse e perecesse entre as abbadas de um velho solar? No, decerto! E como,
pensando assim, avistasse  beira do caminho um cruzeiro - tirou o seu barrete, e jurou
pela cruz que nessa noite falaria a seu pai, e lhe pediria para ir estudar a Frana.
E foi num caramancho, no pomar, que ele revelou a D. Rui e a D. Tareja este
grande desejo do seu corao. A ambos pedira para o acompanharem ao pomar, que
tinha grande nova a dar a quem tanto amava... E sentado num rude banco de pedra, sob
um caramancho, onde se entrelaavam rosas e madressilvas, tendo numa das mos
presa a mo do seu pai, na outra a da boa dona, lhes disse quanto lhe penava o passar os
anos naquele solar, sem proveito para si, e utilidade para os outros homens, seus irmos:
- tinha a ambio da glria, de honrar o seu nome, e de espalhar o bem pelo mundo:
mas o servio das armas, se lhe poderia dar glria, no o atraa, porque na guerra no
havia seno misria e mal: - e depois de muito cogitar, decidira que o seu desejo se
satisfaria indo estudar s escolas de Frana, para voltar ao reino, como um grande
escolar em medicina, que era um saber prprio de nobres.
Apenas um ou dois anos por l passaria. Daria de si novas constantes - e ainda
eles no teriam comeado a sentir a longura da separao, j ele estaria de volta,
licenciado no grande saber, para espalhar o bem em todo o reino, e ser bendito dos
homens.
- Isto vos peo, pelas chagas de Cristo, que me no negueis este desejo, que 
para bem dos homens, e por Jesus inspirado.
As lgrimas caam pelas faces dos dois velhos. E elas e o seu silncio, bem
mostravam quanto eles julgavam nobre o desejo do seu Gil, inspirado pelo Cu, e difcil
de ser recusado.
Mas dois anos de separao - e eles j velhos, e a Frana to longe!
Como se ele j partisse, e ela o quisesse reter, a me abraava o filho e
murmurava:
- Em tanto mimo criado... E partires s para essas terras! E to grandes os perigos
e as tentaes! Ns, ss, sem ti, como viveremos!
Mas o velho, mais forte, recalcando a emoo, exclamou:
- To nobre desejo no pode ser negado. O nosso filho tem altos espritos... No 
nesta aldeia, neste velho solar, que ele pode ganhar fama e servir o reino. No seria o
amor de pai que, para no sofrer um ano, deixasse aqui neste ermo apagar-se, sem
serventia, luz de tamanha promessa. No te pese que choremos... Cumpre tu o teu dever
de homem bom. Deus te leva, Deus te trar.
Gil murmurou:
- Deus decerto me trar.
Ficaram um instante todos os trs abraados - depois, em silncio, foram  igreja,
onde muito tempo rezaram.
Sem outras lgrimas, ainda que com grave melancolia, foram feitos os aprestos da
longa jornada. Duas possantes mulas de caminho, uma para Gil, outra para o seu
escudeiro Pro, vieram da Feira da Covilh, com os seus arreios novos. Os alforges de
couro foram atulhados de roupas novas: - e o ovenal de D. Rui reuniu quinhentos
maravedis de ouro. O bom abade dos beneditinos deu cartas de boa acolhida para os
conventos de Espanha e de Provena, e um monge, que fizera a jornada, marcou num
grande pergaminho o roteiro que, atravs de Castela e de Leo, levava  cidade de Paris.
Na vspera da jornada, a capela do solar e a igreja de Gonfalim estiveram toda a noite
alumiadas, com capeles e os solarengos rezando, para que o Senhor guardasse o
fidalgo que partia. D. Tareja lanou ao pescoo do filho uma relquia, um pedao do.129
manto da Virgem, dentro de um escapulrio. Nessa madrugada Gil ouviu missa - e o
velho Frei Mnio deu a bno a tudo que ele levava, armas, alforges, o grande lebru e
a mula. Pelas horas de matinas, estando todas as aias e serviais reunidos no ptio - D.
Gil apareceu, entre o pai e a me, plido, com o seu grande feltro de jornada, um brial
escuro, e grandes botas de couro cru, onde brilhavam acicates de ouro. De joelhos,
recebeu a bno do pai, longamente esteve fechado nos braos da me. Todos os sinos
ento repicaram. Os solarengos, erguendo os sombreiros, bradaram: "Boa ida, boa
volta!"E, com os olhos vermelhos, mais plido que uma cera, o Senhor D. Gil, a galope,
transps a levadia do solar.
Amparados um ao outro, os dois velhos subiram  torre de atalaia. E quando
viram as duas mulas desaparecer, ao fundo da azinhaga, caram de joelhos nas lajes
duras, tremendo, chorando, murmurando o padre-nosso.
 entrada da ponte, um velho de cabelos brancos, sobre a sua garnacha negra,
deteve D. Gil que trotava, soluando. Era Mestre Porcalho, que lhe vinha dizer o adeus
da partida. O fidalgo e o velho fsico longamente se abraaram.
- Lede Galeno - murmurava o prtico entre lgrimas mal reprimidas.
E quando Gil de novo trotava sobre as lajes sonoras da velha ponte romana, ainda
o fsico lhe bradou, com a mo descarnada no ar:
- Lede-me sempre Aristteles!
VIII
Sempre os mesmos rudes e estreitos caminhos, escavados pelo trilho das
cavalgaduras, ou dos carros, se sucediam, atravs de terras pobres, sem verdura e sem
homens, de uma cor seca de greda, com alguma rvore poeirenta, onde as cigarras
cantavam. Por vezes avistava uma pequena aldeia de adobe e tectos de colmo, agachada
em torno de uma velha igreja, meio arruinada, findando por uma taberna, que estendia
por cima do caminho o seu ramo de louro, preso na ponta de um pau. Gil desmontava
a, fatigado; havia sempre algum frade mendicante, de aspecto torvo, bebendo o seu
pichel de vinho, ou dois mesteirais errantes jogando os dados sobre um toro de
carvalho: e a taberna, os homens, toda a aldeia em redor, eram to tristes, to rudes, que
Gil tornava a partir, preferindo dormir  beira da estrada, sob a luz das grandes estrelas
de Vero, junto de uma fogueira que acendiam, por causa dos lobos.
Outras vezes, caminhando na plancie, avistavam num alto de colina, entre rochas,
um negro, severo castelo: para l trepavam; e depois de longas vezes tocarem a buzina,
aparecia entre as ameias algum velho servo, que gritava para baixo, num tom rouco:
"Ningum est, e ningum entra". Nas ermidas que topavam, encravadas entre fragas,
os ermites pareciam entontecidos pela velhice ou pela penitncia, recusavam abrigo
aos cavaleiros, ou fugiam para o alto do monte: - e nunca nestas ermidas havia cruz ou
imagem santa. Longos dias tinham passado sem que encontrassem uma capela, um
cruzeiro, onde ajoelhassem, dissessem as suas rezas. O po que por vezes compravam
nalguma rara taberna, a gua quente e turva de algum poo, fora todo o seu alimento: -
e Gil pensava consigo que guerra assolara aquelas regies, ou se seria assim, rida e
triste; toda a terra de Portugal, para alm do vale de Gonfalim.
Doze dias tinha D. Gil caminhado com o seu escudeiro Pro Malho: - e to
fastidiosa e montona se estendia a longa jornada, sob a ardncia de Agosto, que por
vezes o moo gentil dormitava como um frade, ao lento passo da sua mula, ou,
acordando, suspirava com uma saudade do seu solar e dos frescos arvoredos de
Gonfalim. Desde que tanto se alongara da sua aldeia, nas serras da Beira, nada
encontrara que lhe fizesse sentir a beleza ou variedade do mundo..130
- Meu bom Senhor - murmurava ento Pro Malho - ns vamos errando
caminho.
E sucedia ento que sempre algum pastor, ou frade mendicante, de barba revolta,
ou caador com a sua besta ao ombro, surgia de um valado, ou de entre rochas, e lhes
afirmava ser aquela, bem direita, e bem certa, a estrada que os levaria a Zamora.
Pro Malho, derreado, com os ps cados fora das largas estribeiras, coava a
cabea, pensativamente.
- Senhor meu amo, estes caminhos parecem arranjados para o Diabo andar de
jornada... J reparou Vossa Merc que ainda no encontrmos nem capela, nem
mosteiro, nem cruz a que se reze um padre-nosso? E o que mais me arrenega  que
ainda no topmos com guas claras, com guas correntes... Onde no est gua, no
est Deus. Cho de greda  condado do Demnio.
E como D. Gil permanecia mudo, alongando os olhos para os secos descampados,
onde s vivia a urze e a piteira, Malho recuava a mula para trs de seu amo, e suspirava
baixinho:
- Ai Portugal, Portugal!
Uma manh tinham penetrado entre grandes serranias de rocha, seguindo o leito
seco de uma torrente. To grande era a solido e o silncio, que D. Gil sentia como o
terror de uma treva, e como se estivesse para sempre separado do mundo e das coisas
vivas. O Sol, no alto, faiscava furiosamente atravs de um ar to espesso que se lhe via a
vibrao, o tremor luzidio, como de um p de vidro suspenso. As patas das mulas
estremeciam a cada passada, tocando a ardncia das pedras e do cho: - e dos altos
muros de rocha, aos dois lados, vinha um calor spero, seco, como se fossem os muros
de tijolo de umas termas acesas. D. Gil arquejava, procurando uma cova, uma fenda de
rocha, onde achassem sombra e refgio: mas as duas encostas s ofereciam, nos seus
dorsos redondos, como de grandes fornos, estendais secos e lisos de pedregulho mido,
que faiscava.
- E serem isto terras de el-rei de Leo! -murmurava Pro Malho, com tdio.
Ento D. Gil, para depressa fugir daquele vale ardente, de mortal secura, picou
com furor os ilhais da mula.
Naquele sinistro silncio da terra morta, sob o faiscar inclemente do Sol, muito
tempo galoparam, saltando por duas vezes sobre grandes ossadas de cavalos, que, ainda
inteiras, branquejavam entre as pedras. Quando estacaram, esbaforidos, com grandes
flocos de espuma caindo dos freios das mulas, estavam em frente de uma vasta plancie,
deserta, nua, como varrida por um grande vento de assolao e de morte: - e, por cima,
o Sol faiscava furiosamente. D. Gil murmurou: "Deus da Boa Viagem nos valha!"
Desde a vspera, em que numa choa deserta uma velha lhes dera, rosnando e
praguejando, um pedao de chourio e uma malga de vinho, nada tinham comido: j a
sede os atormentava e na infinita plancie no havia caminho marcado... Que fazer?
-  andar, senhor meu amo - aconselhou Pro Malho. - Devagar e a direito, e
cantando, para espairecer.
E o alegre escudeiro tomou a sua viola de duas cordas, e comeou um longo canto
mourisco, dolente e dormente - enquanto, a passo, sacudindo a espuma dos freios, as
duas mulas arremetiam atravs do descampado ardente. Nem um galho de tojo seco,
nem uma lmina de piteira, surgiam naquele vasto deserto, chato, onde a terra estalava
toda em fendas, sob as patas das mulas. Longos sulcos tortuosos marcavam por vezes os
riachos secos. E a nica nota viva era o zumbir de grandes moscardos.
Com os ps cados fora dos estribos, as abas dos sombreiros descadas sobre a
face, as rdeas abandonadas, D. Gil sentia amolecer, fundir-se, naquela grande tristeza
da solido e do calor, a vontade, o desejo de aco, que to alegremente o fazia galopar.131
nos primeiros dias de jornada, como para uma conquista: - e agora, o seu pensamento
voltava-se para ideias de repouso, de indolncia, entre mrmores frescos, em jardins
bem regados. Ao seu lado, com a perna encolhida sobre o aro da sela, Pro Malho
feria as cordas da viola num don-dlin-don seguido, cantando, para animar a marcha, as
trovas de um cavaleiro que, atravessando um laranjal, encontrara uma infanta a pentear
os cabelos de ouro. E a imaginao de Gil seguia aquela infanta, sentia a frescura do
laranjal - dos cabelos da dama passava aos seus braos brancos, que se arqueavam, no
mover do pente. Uma sonolncia lnguida ia-o invadindo, naquela fraqueza crescente
do jejum e da sede. A grande plancie, lvida, flamejava em silncio. Muito cansadas, as
mulas mal sacudiam o pescoo baixo, que os moscardos mordiam. Grandes bafos de
calor passavam por vezes to espessos, que as faces dos dois viajantes lhes sentiam o
embate mole e ardente. E, incansveis, teimosos, para animar a marcha, os dedos de
Pro feriam a viola com um dlin-dlon seguido. O cavaleiro, na sombra do laranjal,
ajoelhado na relva aos ps da dama, beijava a franja do seu cinto branco. Gil mal seguia
o canto, o suor pingava da sua face plida, o p branquejava s pregas do seu brial, e
com os olhos meio cerrados, do cinto da dama vinha a pensar no corpo airoso que ele
cingia.
Por que no encontraria ele, na sua jornada, um fresco laranjal assim povoado? A
viola fazia dlin-dlin-dlon. A terra seca esfarelava-se sob as patas das mulas. E assim
seguiam, por aquele ermo do Reino de Leo, sob o grande sol de Agosto, o Senhor D.
Gil e o seu escudeiro, nas suas mulas cansadas, cobertos de p, cheios de sede, ao som
dormente e spero da viola mourisca.
Um cismando, outro cantando, entre aquela radiao de luz que os ofuscava como
uma nvoa de ouro fosco, no tinham os dois cavaleiros reparado que a terra, por onde
caminhavam, se ia elevando em colina, docemente. Mas, de repente, um ar mais fresco,
onde errava um aroma de verdura, bateu na face do Senhor D. Gil. Despertando daquele
tanger que o entorpecia, estacou a sua boa mula. Estavam no cimo de um outeiro: - e
em baixo, num vale, cavado e fundo, verdejava um grande bosque, e tremia como um
brilho de gua.
Com que ansiedade tangeram as mulas! E com que consolo, com que largo
suspirar, penetraram sob folhagens e sombras! Era um belo arvoredo, de troncos
espaados, j velhos, onde se prendia, tapando o sol, uma longa renda de folhagens de
um verde claro e tenro, como no h em Agosto. Todo o cho era um musgo fresco. E
no silncio fino e alto, aqui e alm, um melro cantava. Com os sombreiros na mo, a
passo, respirando deliciosamente, eles penetraram naquela frescura bendita, por entre os
altos troncos alinhados, como ruas de uma coutada real.
E o bosque parecia infindvel, cada vez mais fresco, mais verde, mais silencioso.
Por fim, um espelho de gua, que o sol batia, brilhou entre os ltimos troncos: - e,
espantados, os dois cavaleiros pararam  beira de um belo lago, todo cercado de
arvoredo, cujas longas ramagens pendentes roavam a gua. To clara e pura era ela,
que eles viam no fundo reluzir uma areia muito fina e como misturada de p de ouro.
No meio surgia uma ilha com um arvoredo, que fazia um grande ramalhete verde. E, 
beira da gua, seguia um pequeno caminho, limpo e branco, orlado de flores silvestres.
Por esse caminho meteram lentamente, quase esquecendo a fadiga e a sede, no
assombro daquele divino recanto de verdura e paz silvana: - e de repente, saindo do
arvoredo, encontraram uma vasta e fresca relva,  beira da gua, onde estava
preguiosamente estendido um cavaleiro, tendo ao lado um grande alforge aberto, e,
espalhados na relva, garrafas, empades, e fundas taas de prata. Ao tronco da rvore,
que lhe dava sombra, estava encostada uma enorme lana branca; dos ramos estendidos
como um toldo, pendia o seu escudo negro. Dois cavalos morzelos, com rdeas de couro.132
escarlate e freios de ouro, pastavam junto da gua: - e um escudeiro, que, debruado,
desarrolhava uma garrafa que entalara entre os joelhos, voltou para os cavaleiros uma
face estranha e grotesca, rapada como a de um frade, com dois olhos negros que chame-javam.
Cortesmente, D. Gil tirara o sombreiro. Com grande cortesia tambm, o cavaleiro
se ergueu da relva.
Era um formidvel homem de armas, de barba ruiva, findando em bico, as cores
vivas e quentes de um flamengo, e largo, robusto peito cingido numa sobreveste negra.
O cabelo, mais ruivo ainda que a barba, erguia sobre a testa uma poupa aguda e
flamante, e recaa em grossos anis sobre os ombros fortes, capazes do mais duro
esforo, e cobertos por um brial escarlate. Dos olhos deste homem, pequenos e
redondos, saa um brilho infinitamente esperto, decidido e risonho.
- Bem fatigado deveis vir, senhor cavaleiro, com tanta calma e p - exclamou ele.
- Esta sombra chega para dois, a merenda est sobre a relva, e quem vos convida, que 
o Senhor de Astorga, s quer alegria e paz... Harbrico!
A este grito, que um vivo olhar acentuara, o escudeiro de face de frade correu a
segurar o estribo, para que o Senhor D. Gil desmontasse. Mas j Pro Malho, mais
pronto, agarrara o loro: Harbrico ento, risonhamente, correu a tirar de dentro do
alforge, de cores estridentes, um estofo de samite, rico e macio, que estendeu na relva,
para o Senhor D. Gil se recostar.
O moo gentil corava de gosto a estas honras que lhe fazia o Senhor ilustre de
Astorga.
- Bendigo - murmurou ele com a mo sobre o peito - bendigo os duros caminhos
que me trouxeram a to doce acolhimento... O meu nome  D. Gil de Valadares, e o
solar de meu pai  bem falado, e bem honrado na nossa terra da Beira.
Com os dedos gordos, que findavam em unhas muito agudas e curvas, o Senhor
de Astorga aguava a ponta da barba, pensando:
- Valadares, Valadares... Um D. Rui de Valadares, conheci eu em Coimbra, que
tinha casa de boa pedra, no bairro cintado ao p da S, e era vedor do Senhor D. Sancho
II de Portugal...
- Meu av.
O Senhor de Astorga atirou uma palmada  coxa:
- Pois soberbo av tnheis, Senhor D. Gil, homem de boa alegria e faanha! Muito
bem me lembro de uma tarde de Maio, em Lorvo... Mas melhor vo,  sesta, as
histrias alegres! Agora todo esse suor e p vos est pedindo gua clara e lustral...
E, diante de D. Gil, o ondeante Harbrico sustentava numa das vastas mos
cabeludas uma bacia de prata, na outra uma fina toalha, que arrastava sobre a relva as
rendas ricas da sua franja. Com que delcia banhou a face! Da gua saa um aroma de
benjoim. E uma frescura penetrante calmou de repente toda a sua fadiga dos ermos
atravessados... Mas j o gil Harbrico arrojara toalha e bacia, e voltava, todo ele
ondulando, com um denso molho de penas rutilantes de galo: - e to fina e destramente
lhe sacudiu o espesso p dos caminhos, que a sobreveste negra, os boteires de couro
escarlate, pareceram como novos, sem ter servido, e as esporas de ouro rebrilharam com
um lampejo desusado!
D. Gil grandemente se maravilhava. E por trs dele, Pro Malho, tendo limpo e
pendurado as armas do amo, e lanado a pastar as suas mulas, junto aos dois corcis
negros, considerava o Senhor de Astorga com assombro e desconfiana. Era sobretudo
aquele tufo de cabelo erguido na testa, como uma crista flamante, que o inquietava. E
que alforge era aquele que continha, na sua estreita bolsa, bacias de prata, bragais de
linho fino, toda a hucharia de uma mesa real, e tapizes de rico samite? E onde houvera.133
mais coruscante olhar, negro como fendas do Inferno, do que aquele do estranho
Harbrico? O bom Pro coava o queixo, com um desejo, que o invadia, de gritar de
repente, por sobre o fidalgo, o escudeiro, e os alforges, o nome afugentador de Jesus,
Maria, Jos.
Mas, justamente, Harbrico espalhava diante dos cavaleiros uma deliciosa e
irresistvel merenda! Eram gordas perdizes aloiradas, um vasto salmo frio e cor-de-rosa,
com um molho de salsa e cravo que perfumava o ar, cestos de pssegos e uvas,
como s h nos pomares de el-rei... E s garrafas, cobertas de venerveis crustas negras,
deitadas com cuidado na relva, o destro Harbrico ajuntou pichis de vinho espumante e
branco, que ele trouxera de entre a espessura do bosque, e onde cintilavam pedras de
gelo. Esfomeado, sedento, o bravo Pro escancarava os lbios de onde escorria uma
baba. E, com convico, pensou: "Venham de Deus, venham do Demnio, quando h
fome e sede, no se recusam vinho nem perdiz". E, servilmente, fraternalmente, sorriu a
Harbrico, que mostrou tambm a grande dentua amarela e aguda, como a de um lobo.
Todos aqueles bons comeres, e frescura de vinhos, grandemente encantavam D.
Gil! Ele, que, em Gonfalim, nas festas do solar, sempre fora indiferente aos mimos
melhores da fornalha e da adega, agora, desde que naquele fresco prado se estendera ao
lado do Senhor de Astorga, s pensava nos regalos da boa merenda! Ao enterrar a faca
aguda no peito da perdiz, sorria, com os beios lustrosos, como um frade guloso: - e
quando Harbrico lhe deitou na vasta taa de prata um vinho gelado que espumava, a sua
mo de cavaleiro tremia de gozo e gula. O Senhor de Astorga apenas colheu alguns
bagos de uva. Mas que rijo beber! Rejeitando as taas, agarrava com a sua vasta mo
cabeluda os garrafes, e, de um trago breve e ansioso, os despejava, sem que na sua
barba ardente restasse um brilho de humidade. E, no entanto, cuidava da satisfao de
Gil.
- Provai daquele empado de Alscia... Aquela pimenta amarela vem das
pimenteiras do Papa...
Depois, estendendo mais na relva as suas longas pernas, caladas de botas negras:
- H na verdade horas doces na vida! -observou. - Que melhor alegria que uma
boa merenda, com esta frescura de vinhos, por uma sesta quente de Agosto, entre esta
bela verdura!
- Grande razo tendes, Senhor de Astorga! - exclamou D. Gil, cujos olhos
resplandeciam. E que esvaziara um copo de vinho de Chipre. - E depois de to feia
jornada, como venho passando, desde que entrei em terras de Leo, esta hora que vos
devo  muito para ser lembrada.
O Senhor de Astorga pousou, sorrindo, os seus olhos redondos em D. Gil.
- Muito me recordais por vezes no jeito, no dizer, o vosso av D. Rui!... E para
onde vos ides assim, em to longa jornada?
- A Paris, Senhor de Astorga.
O Senhor de Astorga moveu lentamente a cabea:
- Grande cidade, fina cidade... Bons amigos l tenho! Na Corte e nas Escolas.
Foi uma interessante surpresa para o Senhor D. Gil. Como! O Senhor de Astorga
assim conhecia Paris, e as Escolas? Mais venturoso ainda fora, pois, aquele encontro,
que dele podia tirar grandemente ensino e conselho. Que para as Escolas, em Paris, ia
ele, por aquela jornada... Mas pouco sabia, na verdade, dos mestres que l ensinavam, e
dos usos dos escolares com quem ia acamaradar, e dos preceitos que se impunham a
quem procurava o bom saber... S estava certo, que assim era a fama em Portugal, que
para quem desejava aprender, se devia ir s Escolas de Paris. Estava ali a Verdade.
O Senhor de Astorga alou com solenidade as suas espessas sobrancelhas, alargou
os olhos claros, e teve este ditame:.134
- Para o grande saber, s h na Terra uma escola, e essa em Toledo.
E como Gil o olhava perplexo:
- Que pretendeis vs aprender?
- As artes mdicas.
O Senhor de Astorga encolheu os ombros, com largo e risonho desdm:
- Oh! para isso decerto tendes em Paris mestres que bastem. E mesmo em Zamora
encontrareis o bom fsico rabe Reimo Esterrvia! E at na vossa Coimbra tendes
homem professo, que tudo vos podia ensinar, em Mestre Esteves Garracho!... Mas vs,
Senhor D. Gil, um moo de to boa feio, de altos espritos, que decerto amais a fama,
como vos quereis amesquinhar em saber to mesquinho?
D. Gil, que corara aos louvores, murmurou surpreendido:
- E que outro saber h mais?
Mas uma risada aguda, silvada, cascalhante, ressoou por trs, entre os troncos das
rvores. E os dois cavaleiros, voltando o rosto, viram Harbrico, sentado na relva, ao
lado de Pro, com vitualhas e garrafas espalhadas diante, que se torcia, com as mos nas
ilhargas magras, a boca fendida numa hilaridade disforme, gritando "que rebentava!" -
enquanto ao lado, debruado sobre ele, com o olho brilhante, o dedo espetado, Pro lhe
segredava uma histria. Os dois molossos, sentados em frente, conservavam uma
gravidade sombria.
- Divertido escudeiro tendes, Senhor D. Gil - murmurou, sorrindo, o Senhor de
Astorga. - E, pela viola que lhe vi ao ombro, penso que sabe trovar. Ocasio terei de o
ouvir por essas estradas, agora que h Lua, porque, como ides a Segvia, o nosso
caminho  o mesmo at Zarro! E agora deveramos descansar, e fazer a sesta 
mourisca, para montar e partir pela frescura da tarde...
E imediatamente D. Gil sentiu que os olhos se lhe cerravam, e, reclinado no
coxim de veludo, docemente adormeceu.
Mas, adormecido, percebia a frescura das grandes rvores, via o brilho do claro
lago: - e, sem saber se era j a viola de Pro que tocava, comeou de ouvir uns sons
muito lentos e doces, que tremiam como fugindo de cordas afinadas. Depois uma fina
flauta suspirou, depois um lento gemido de harpa passou. E bem depressa uma doce,
grave melodia encheu to completamente o bosque, como se fossem os ramos que
cantassem. E era um canto todo de adorao, mas contido, apenas murmurado, como de
uma multido invisvel que, estaticamente, esperasse uma apario maravilhosa. Uma
imensa languidez passou no ar. Todo o sol que caa na gua, nas folhas, rebrilhou com
uma cintilao mais intensa.
Mas o canto subia, mais ardente, quando por detrs da ponte da ilha, que
verdejava no meio do lago, surgiu a proa de uma barca que tinha a forma de um cisne,
todo enrufado e nadando. E foi ento apenas um murmrio infinitamente doce, errando
na umbrosa espessura do arvoredo. Lentamente a barca avanava: - e nela, de p, vinha
uma mulher de beleza maravilhosa. Entre o vestido negro que a cobria, o seu colo e os
ombros nus lanavam uma claridade, como a da neve sob o Sol. Por sobre o manto
negro, cujas pregas desciam, pesadas e hirtas, enchendo o barco, os seus imensos
cabelos caam em outro manto de ouro fulvo. Nenhuma jia a enfeitava, uma languidez
negra e profunda cerrava quase os seus olhos, nos seus lbios vermelhos errava a
tristeza de um sorriso. Lenta e serena, a barca fendia a gua sem deixar sulco; e pouco a
pouco o canto em redor, no fresco arvoredo, era mais sumido e vago.
Quando a barca tocou a margem de relva verde, o cntico findou, e houve s em
redor um xtase mudo, da verdura, das guas, da luz. D. Gil esperava, sem se mover,
deslumbrado. Ento a mulher maravilhosa deu um passo lento na relva, depois outro: o
seu grande manto arrastava pesadamente: - e, sob a orla do seu vestido, brilhava a.135
brancura dos seus ps nus. Assim, docemente, se acercou de D. Gil, cujo corao batia
ansiosamente: - e  medida que ela assim se avizinhava dele, o casto moo percebia que
o pesado vestido negro, o pesado manto negro, se adelgaavam, se tornavam transparen-tes.
J deixavam distinguir, sob as suas pregas, as brancuras vagas de um corpo divino.
O longo manto no era mais que um vu to leve, que nem vergava as pontas finas das
relvas. O vestido era to fino, que se colava aos selos, se enrolava nos joelhos. E,
quando a mulher maravilhosa chegou junto do seu rosto, toda a sua nudez, mais bela
que a de Helena, de Vnus, resplandecia, mais branca, sob a tnue nvoa de uma gaze
negra.
Ento aquele corpo maravilhoso se debruou sobre ele, que lhe sentia o calor, o
perfume. E os Lbios vermelhos e fortes deram nos seus, que tremiam, um beijo to
profundo, que um grande grito de gosto doloroso fugiu do seu peito. Acordou: - e ao
lado, de p, j com o seu largo sombreiro posto, o Senhor de Astorga afivelava o
cinturo da espada.
- Boa sesta fizemos, Senhor D. Gil! A tarde est fresca e  tempo de cavalgar, se
queremos ainda hoje chegar a Alba de Tormes.
D. Gil ainda tremia. E os seus olhos inquietos procuravam em redor, numa
saudade daquele sonho divino que findara.
Montou em silncio na sua mula, que Pro Malho j tinha  rdea. E quando saiu
daquele doce prado, ainda se voltou na sela, olhou a relva, a gua serena do lago, a ilha,
o arvoredo todo - e um suspiro fugiu-lhe dos lbios.
Muito tempo cavalgaram calados. A estrada agora era entre grandes arvoredos,
fresca e risonha. 2
2 Termina aqui o manuscrito..136
ARTIGOS DIVERSOS
CARTA A CAMILO CASTELO BRANCO
Ex.mo Sr.
Um tardio correio trouxe-me ontem um nmero, j quase velho, das Novidades,
com um artigo, Notas  Procisso dos Moribundos, em que V. Ex, resmungando e
rabujando, se queixa ao Pblico de que eu e os meus amigos implicamos consigo,
sempre que isso vem a talho de foice, e lhe assacamos aleivosias. Como exemplo deste
indecoroso hbito, cita V. Ex um perodo da minha carta a Bernardo Pindela nos
Azulejos, em que eu alegremente me rio dos discpulos do Romanticismo que, depois de
clamarem contra certos escritores, como realistas e chafurdadores do lodo, apenas
imaginam que o Pblico s esse lodo apetece, para seu consumo intelectual, se
apressam a escrever na capa de seus livros: romance realista, para que o Pblico,
aliciado pelo rtulo, os compre tambm a eles, e os leia tambm a eles... E V. Ex, meu
caro confrade, acrescenta logo com a mais consciente certeza: "Ora isto  comigo!"
Suponha que um dia, numa novela, V. Ex descreve, com o seu vernculo e
torneado relevo, certo animal de longas orelhas felpudas, de rabo tosco, de anca surrada
pela albarda, que orneia e que abunda em Cacilhas... E suponha ainda que, ao ler essa
colorida pgina, eu exclamo, apalpando-me ansiosamente por todo o corpo: "Grandes
orelhas, rabo tosco, anca pelada...  comigo" Que diria V. Ex, meu prezado confrade?
V. Ex balbuciaria aturdido: "Eu no sei, eu vivo longe... Se as suas orelhas so
assim longas, e se o albardo o despelou, h realmente concordncia... Mas, na verdade,
creia que, mencionando esse animal venervel, no me raiou no nimo a mais tnue,
remota inteno...". Assim, embaraado e surpreso, diria V. Ex. E assim eu digo. - V.
Ex deve conhecer melhor que eu, que sou distrado e vivo longe, as capas dos seus
livros: se V. Ex, para atrair a multido, nelas colou, ou consentiu que os seus editores
colassem, esse rtulo: romance realista -por no poderem legalmente adorn-las com
esse outro mais cativante: romance obsceno-ento decerto aquilo  consigo. Mas a
intransigente verdade me fora a confessar que, escrevendo esse perodo da carta a
Bernardo Pindela, eu no pensava no autor da Corja. Se eu quisesse acusar dessa
abjecta concesso, s exigncias da venda, um homem que h trinta anos  ilustre na
literatura portuguesa - teria escrito o nome todo de V. Ex, sem omitir um s ttulo. H
personalidades a quem por isso mesmo que so fortes, se no alude timoratamente e de
longe. J deste modo se pensava na corte de el-rei Artur. "Se queres falar de Percival,
diz bem alto: Percival, e tira a espada". Assim gritava esse cavaleiro, flor dos bons, na
velha cidade de Camerlon, uma tarde em que havia algazarra e cimes junto a Tvola
Redonda. No se trata, decerto, aqui, de compridas espadas a desembainhar. Mas no
deixa de ficar bem a um dbil homem de letras, como eu, o seguir essa lio de lealdade
e valor dada pelo possante homem de armas Percival.
Assim o exemplo aduzido por V. Ex, para demonstrar o meu escandaloso hbito
de implicar consigo -  realmente mal escolhido. Mas permanece, todavia, a queixa,
feita ao pblico com tanta rabuge e tanto azedume, de que - eu e os meus amigos,
sempre que isso vem a talho de foice, lhe assacamos aleivosias.
Aleivosia  um termo formidvel e sombrio que, se me no engana o vetusto e
nico Dicionrio que me ampara nesta dura labutao do estilo, significa - "maldade
cometida traioeiramente com mostras de amizade, insdia, perfdia, maquinao contra
a vida e reputao de algum, etc.". Tudo isto  pavoroso. Mas eu suponho que, sob.137
essas vagas palavras de implicao e aleivosia, V. Ex quer muito simplesmente quei-xar-
se de que eu e os meus amigos o no consideramos um escritor to ilustre, com um
to alto lugar nas letras portuguesas como o costumam considerar os amigos de V. Ex.
Ora aqui V. Ex se ilude singularmente.
Eu nunca tive,  certo, a oportunidade deleitvel de apreciar, nem em copioso
artigo, nem sequer em curta linha, a obra de V. Ex. Mas sou meridional, portanto
loquaz. Por vezes, entre amigos e fumando a cigarette, tem vindo "a talho de foice"
conversar sobre a personalidade literria de V. Ex. E, louvado seja Apoio aurinitente!
sempre me exprimi sobre o autor do Esqueleto, de um modo que  irrecusavelmente
mais digno dele e da sua obra, do que esse outro estranho modo por que o costumam
decantar aqueles que se ufanam, j na palestra, j na imprensa, de serem seus amigos e
seus discpulos.
Porque eu, falando de V. Ex, considero sempre a sua imaginao, a sua maneira
de ver o mundo, o seu sentimento vivo ou confuso da realidade, o seu gosto, a sua arte
de composio, a fraqueza ou a fora do seu trao; e, pelo menos, admiro sem reserva
em V. Ex o ardente Satrico, neto de Quevedo, que pe ao servio da sua apaixonada
misantropia, o mais quente e o mais rico sarcasmo peninsular. E os seus amigos, esses,
admiram apenas em V. Ex, secamente e pecamente, o homem que em Portugal conhece
mais termos do Dicionrio!
Sempre, "a todo o talho de foice", em artigo, em local, em anncio de partida, em
felicitao de dia de anos, V. Ex  pelos seus discpulos e amigos louvaminhado e
turibulado - como o grande homem do Vocbulo, esteio forte de Prosdia, restaurador
da Ordem gramatical, supremo arquitecto das frases arcaicas, acima de tudo castio, e
imaculadamente purista! E ainda mais na intimidade, os amigos de V. Ex o celebram
como o homem que melhor sabe descompor o seu semelhante! E isto to
obstinadamente murmurado ou clamado, que esta gerao mais nova, para quem j vou
sendo um velho e V. Ex quase um fantasma, no tendo como eu e os do meu tempo
rido e chorado sobre os seus livros de paixo e de ironia, o imaginam a V. Ex um
intolervel caturra, de capote de frade, debruado sobre um sebento Lxicon, a respigar
termos obsoletos para com eles apedrejar todos os seus conterrneos!
A V. Ex, crtico sagaz de si mesmo, melhor compete avaliar o que, neste vale de
prosa e lgrimas, tem feito para merecer que os seus amigos, como os amigos de Csar
no dia das Lupercais, teimem em lhe enterrar at aos ombros esta dupla e pesada coroa
da vernaculidade e da descompostura.
A mim s me compete lamentar que a estas mofinas propores tenha sido
reduzida, pelo zelo crtico dos seus amigos, a larga individualidade que nos deu o Amor
de Perdio. Mas ao mesmo tempo adquiro o direito de rogar a V. Ex que, quando se
queixar aos ventos e ao Chiado das pessoas que implicam consigo, como V. Ex diz, ou
que desdouram a sua glria, como eu traduzo, no se volte para mim e para os meus
amigos - mas olhe em torno de si para os seus admiradores, e para dentro de si mesmo,
talvez.
A guerra de realistas e idealistas, causa primordial destas explicaes, tornou-se
j quase to desinteressante e sedia, meu prezado confrade, como a guerra dos
Clssicos e Romnticos, a das Duas Rosas, ou essa outra que, para vantagem nica dos
livreiros que editam Homero, dois povos semibrbaros tiveram a pacincia de arrastar
dez anos em torno de uma vila da sia Menor murada de adobe e tijolo. Renovar to
antiquada guerra nas Gazetas,  j um acto imperdoavelmente provinciano: mas mais
provinciano ainda  estarmos ns aqui, com gros de incenso nas mos, e pedras nas
algibeiras, fazendo, atravs do grande mar, mtuas e lentas mesuras. V. Ex, de l, de
entre os seus sinceros arvoredos minhotos, ajanota as suas frases pelos figurinos de.138
Filinto Elsio, para me dizer gaguejando, e com agridoce generosidade: "O meu caro
amigo tem muito talento, com excepo de escrever muita tolice". E eu de c, mais
prfido, porque habito as cidades, grito sem gaguejar, e com polida efuso: - "E o meu
caro amigo tem ainda muito mais, sem excepo absolutamente nenhuma".
E infantil. Antes desperdissemos o nosso tempo, preguiando patriarcalmente,
neste doce calor de Junho, sob a figueira e a vinha... Mas qu! V. Ex, que estava
brincando funebremente, a fazer no soalho, com tochas de fsforos, uma procissozinha
de moribundos, ergue-se de repente, corre para o Pblico, mesmo sem tirar o babeiro, e
acusa-me, entre lgrimas de furor, de estar sempre a implicar consigo! Que havia eu de
fazer, eu inocente e justo? Corro tambm para o Pblico, mesmo de jaqueto de
trabalho, e brado profusamente com as mos sobre o peito: "Nunca!  falso! Jamais
impliquei com ele, e no lhe quero seno bem!"
A culpa de toda esta intil prosa  portanto toda sua; e para que ela se no
prolongue mais, apresso-me, prezado confrade, a dizer-me
De V. Ex
Sincero e antigo admirador
EA DE QUEIRS..139
LTIMA CARTA DE FRADIQUE MENDES 3
(INDITO DA "CORRESPONDNCIA DE FRADIQUE MENDES")
A EDUARDO PRADO
Meu caro Prado:
A sua to excelente carta foi recebida no devoto dia de S. Joo, neste fresco
refgio de arvoredos e fontes onde estou repousando dos sombrios esplendores da
Amaznia, e da fadiga das guas Atlnticas.
No esquecerei as queijadas da Sapa; Ficalho, que aqui jantou e filosofou ontem
sub tegmine fagi, recebeu das minhas mos o exacto estudo e as estampas do seu
compatriota sobre a Mucuna Glabra; os dois vasos do Rato, com a cruz de Avis, partem
domingo, e Deus lhe faa abundar dentro deles, sempre renovadas e frescas, essas rosas
da vida que Anacreonte promete aos justos. Tudo isto foi fcil e de amvel trabalho.
Mais duro e complicado  que eu lhe d (como V. reclama to azafamadamente) a
minha opinio sobre o seu Brasil... E V., menos cptico que Pilatos, exige a Verdade, a
nua Verdade, sem chauvinismos e sem enfeites... Onde a tenho eu, a Verdade? No ,
infelizmente, na quinta da Saragoa que se esconde, sob o cipreste e o louro, o poo
divino onde ela habita. S lhe posso comunicar uma impresso de homem, que passou e
olhou. E a minha impresso  que os Brasileiros, desde o Imperador ao trabalhador,
andam a desfazer e, portanto, a estragar o Brasil.
Nos comeos do sculo, h uns 55 ou 60 anos, os Brasileiros, livres dos seus dois
males de mocidade, o ouro e o regime colonial, tiveram um momento nico, e de
maravilhosa promessa. Povo curado, livre, forte, de novo em pleno vio, com tudo por
criar no seu solo esplndido, os Brasileiros podiam, nesse dia radiante, fundar a civi-lizao
especial que lhes apetecesse, com o pleno desafogo com que um artista pode
moldar o barro inerte que tem sobre a tripea de trabalho, e fazer dele,  vontade, uma
vasilha ou um Deus. No desejo ser irrespeitoso, caro Prado; mas tenho a impresso que
o Brasil se decidiu pela vasilha.
Tudo em redor dele, desde o cu que o cobre  ndole que o governava, tudo
patentemente indicava ao Brasileiro que ele devia ser um povo rural. No se assuste,
meu civilizadssimo amigo. Eu no quero significar que o Brasil devesse continuar o
patriarcalismo de Abrao e do livro do Gnesis, reproduzir Cana em Minas Gerais, e
pastorear o gado em torno das tendas, vestido de peles, em controvrsia constante com
Jeov. Menos ainda que se adoptasse o modelo arcdico, e que todos os cidados
fossem Ttiros e Marlias, recostados sob a copa da faia, tangendo a frauta das clogas...
No; o que eu quereria  que o Brasil, desembaraado do ouro imoral, e do seu D. Joo
VI, se instalasse nos seus vastos campos, e a quietamente deixasse que, dentro da sua
larga vida rural e sob a inspirao dela, lhe fossem nascendo, com viosa e pura
originalidade, ideias, sentimentos, costumes, uma literatura, uma arte, uma tica, uma
filosofia, toda uma civilizao harmnica e prpria, s brasileira, s do Brasil, sem nada
dever aos livros, s modas, aos hbitos importados da Europa. O que eu quereria, (e o
que constituiria uma fora til no Universo) era um Brasil natural, espontneo, genuno,
um Brasil nacional, brasileiro, e no esse Brasil, que eu vi, feito com velhos pedaos da
Europa, levados pelo paquete, e arrumados  pressa, como panos de feira, entre uma
3 Embora o presente artigo j tenha sido publicado na Correspondncia de Fradique Mendes,
entendemos que o devemos repetir aqui..140
natureza incongnere, que lhes faz ressaltar mais o bolor e as ndoas.
Eis o que eu queria, dilecto amigo! E considere agora como seria deliciosamente
habitvel um Brasil brasileiro! Por toda a parte, ricas e vastas fazendas. Casas simples,
caiadas de branco, belas s pelo luxo do espao, do ar, das guas, das sombras. Largas
famlias, onde a prtica das lavouras, da caa, dos fortes exerccios, desenvolvendo a
robustez, aperfeioaria a beleza. Um viver frugal e so; ideias claras e simples; uma
grande quietao de alma; desconhecimento das falsas vaidades; afeies srias e
perdurveis...
Mas, justos Cus! estou refazendo o Livro II das Gergicas! Hanc olim veteres
vitam coluere Sabini... Assim viveram os velhos Sabinos; assim Rmulo e Remo; assim
cresceu a valente Etrria; assim Roma pulqurrima, abrangendo sete montes, se tornou a
maravilha do mundo! No exijo para o Brasil as virtudes ureas e clssicas da Idade de
Saturno. S quereria que ele vivesse de uma vida simples, forte, original, como viveu a
outra metade da Amrica, a Amrica do Norte, antes do Industrialismo, do Mercanti-lismo,
do Capitalismo, do Dolarismo, e todos esses ismos sociais que hoje a minam, a
tornam to tumultuosa e rude - quando os colonos eram puritanos e graves; quando a
charrua enobrecia; quando a instruo e a educao residl..1n entre os homens da
lavoura; quando poetas e moralistas habitavam casas de madeira que as suas mos
construam; quando grandes mdicos percorriam a cavalo as terras, levando familiar-mente
a farmcia nas bolsas largas da sela: quando Governadores e Presidentes da
Repblica saam de humildes granjas; quando as mulheres teciam os linhos de seus
bragais e os tapetes das suas vivendas; quando a singeleza das maneiras vinha da
candidez dos coraes; quando os lavradores formavam uma classe que, pela virtude,
pelo saber, pela inteligncia, podia ocupar nobremente todos os cargos do Estado; e
quando a nova Amrica espantava o mundo pela sua originalidade, forte e fecunda.
Pois bem, caro amigo! em vez de terem escolhido esta existncia que daria ao
Brasil uma civilizao sua, prpria, genuna, de admirvel solidez e beleza - que
fizeram os Brasileiros? Apenas as naus do Senhor D. Joo VI se tinham sumido nas
nvoas atlnticas, os Brasileiros, senhores do Brasil, abandonaram os campos, correram
a apinhar-se nas cidades e romperam a copiar tumultuariamente a nossa civilizao
europeia no que ela tinha de mais vistoso e copivel. Em breve o Brasil ficou coberto de
instituies alheias, quase contrrias  sua ndole e ao seu destino, traduzidas  pressa de
velhos compndios franceses. O Jornal, o Artigo de Fundo, a balofa Retrica
Constitucional, a tirania da Opinio Pblica, os descaros da Polmica, todas as intrigas
da politiquice, se tornaram logo males correntes.
Os velhos e simples costumes foram abandonados com desdm: cada homem
procurou para a sua cabea uma coroa de baro, e, com 47 graus de calor  sombra, as
senhoras comearam a derreter dentro dos gorgores e dos veludos ricos. J nas casas
no havia uma honesta cadeira de palhinha, onde, ao fim do dia, o corpo encontrasse
repouso e frescura: e comeavam os damascos de cores fortes, os mveis de ps dou-rados,
os reposteiros de grossas borlas, todo o pesadume de decorao estofada com que
Paris e Londres se defendem da neve, e onde triunfa o micrbio. Imediatamente
alastraram as doenas das velhas civilizaes, as tuberculoses, as infeces, as
dispepsias, as nevroses, toda uma surda deteriorao da raa. E o Brasil radiante - por-que
se ia tornando to enfezado como a Europa, que tem trs mil anos de excessos, trs
mil anos de ceias e de revolues!
No entanto j possua a Democracia, o Industrialismo, a Sociedade por aces em
todo o delrio das suas formas infinitas, a luz elctrica, o "veneno francs" sob as
marcas principais do Champanhe e do Romance. Estava maduro para os maiores
requintes, e mandou ento vir pelo paquete o Positivismo e a pera bufa. Foi uma.141
tremenda orgia: ensinou-se aos sabis a gorjear Madame Angot, e vendedores de retalho
citavam Augusto Comte... Para que prolongar o inventrio doloroso? Bem cedo, do
Brasil, do generoso e velho Brasil, nada restou: nem sequer brasileiros, porque s havia
doutores - o que so entidades diferentes. A Nao inteira se doutorou. Do Norte ao
Sul, no Brasil, no h, no encontrei seno doutores! Doutores, com toda a sorte de
insgnias, em toda a sorte de funes! Doutores, com uma espada, comandando
soldados; doutores, com uma carteira, fundando bancos; doutores, com uma sonda,
capitaneando navios ; doutores, com um apito, dirigindo a polcia; doutores, com uma
lira, soltando carmes; doutores, com um prumo, construindo edifcios; doutores, com
balanas, misturando drogas; doutores, sem coisa alguma, governando o Estado! Todos
doutores. O Dr. Tenente-Coronel... O Dr. Vice-almirante... O Dr. Chefe de Polcia... O
Dr. Arquitecto... Homens inteligentes, instrudos, polidos, afveis - mas todos doutores!
E este ttulo no  inofensivo: imprime carcter. Uma to desproporcionada legio de
doutores envolve todo o Brasil numa atmosfera de doutorice.
Ora o feitio especial da doutorice  desatender as realidades, tudo conceber a
priori, e querer organizar e reger o mundo pelas regras dos compndios. A sua
expresso mais completa est nesse doutor, Ministro do Imprio, que em todas as
questes pblicas nunca consultava as necessidades da Nao, mas folheava com
ansiedade os livros, a procurar o que, em casos vagamente parecidos, Guizot fizera em
Frana, Pitt em Inglaterra. So estes doutores, brasileiros de nacionalidade, mas no de
nacionalismo, que cada dia mais desnacionalizam o Brasil, lhe matam a originalidade
nativa, com a teima doutoral de moralmente e materialmente o enfardelarem numa
fatiota europeia feita de francesismo, com remendos de vago inglesismo e de vago
germanismo.
Assim, o livre gnio da Nao  constantemente falseado, torcido, contrariado na
sua manifestao original - em tudo; em Poltica, pelas doutrinas da Europa; em
Literatura, pelas escolas da Europa; na Sociedade, pelas modas da Europa.
A famosa carta de alforria de 29 de Agosto de 1825 no serviu para as
inteligncias. Intelectualmente o Brasil  ainda uma colnia - uma colnia do
Boulevard. Letras, cincias, costumes, instituies, nada disso  nacional; - tudo vem de
fora, em caixotes, pelo paquete de Bordus, de sorte que esse mundo, que
orgulhosamente se chama novo, o Novo Mundo,  na realidade um mundo velhssimo, e
vincado de rugas, dessas rugas doentias, que nos deram, a ns, vinte sculos de
Literatura.
Percorri todo o Brasil  procura do novo e s encontrei o velho, o que j  velho
h cem anos na nossa Europa-as nossas velhas ideias, os nossos velhos hbitos, as
nossas velhas frmulas, e tudo mais velho, gasto at ao fio, como inteiramente acabado
pela viagem e pelo sol. Sabe o que me parecia (para resumir a minha impresso numa
imagem material, como recomenda Buffon)? Que por todo o Brasil se estendera um
antigo e coado tapete, feito com os remendos da civilizao europeia, e recobrindo o
tapete natural e fresco das relvas e das flores do solo... Concebe V. maior horror? Sobre
um jardim perfumado, em pleno vio, tudo tapar, tudo esmagar, rosas abertas e botes
que vo abrir, com um tapete de l, esburacado, poeirento, cheirando a bafio!
E haver remdio para to duro mal? Decerto! Arrancar o tapete sufocante. Mas
que Hrcules genial empreender esse trabalho santo? No sei.
Em todo o caso, creio que o Brasil tem ainda uma chance de reentrar numa vida
nacional e s brasileira. Quando o imprio tiver desaparecido, perante a revoluo
jacobino-positivista que j lateja nas escolas, e que os doutores de pena ho-de
necessariamente fazer de parceria com os doutores de espada; quando, por seu turno,
essa Repblica jacobino-positivista murchar como planta colocada artificialmente sobre.142
o solo e sem razes nele, e desaparecer de todo, uma manh, levada pelo vento europeu
e doutoral que a trouxe; e quando de novo, sem luta, e por uma mera concluso lgica,
surgir no Pao de S. Cristvo um novo imperador ou rei - o Brasil, repito, nesse
momento tem uma chance de se desembaraar do "tapete europeu" que o recobre, o
desfeia, o sufoca. A chance est em que o novo imperador ou rei seja um moo forte,
so, de bom parecer, bem brasileiro, que ame a natureza e deteste o livro.
No vejo outra salvao. Mas no dia ditoso em que o Brasil, por um esforo
herico, se decidir a ser brasileiro, a ser do novo mundo - haver no mundo uma grande
nao. Os homens tm inteligncia; as mulheres tm beleza - e ambos a mais bela, a
melhor das qualidades: a bondade. Ora uma nao que tem a bondade, a inteligncia, a
beleza (e caf, nessas propores sublimes) - pode contar com um soberbo futuro
histrico, desde que se convena que mais vale ser um lavrador original do que um
doutor mal traduzido do francs.
No me queira mal por toda esta desordenada franqueza, e creia-me to amigo do
Brasil como seu.
Paris, 1888.
FRADIQUE MENDES..143
TESTAMENTO DE MECENAS
(INDITO DAS "CARTAS DE INGLATERRA")
Esta carta de Inglaterra  datada de Portugal e tem por assunto o Brasil. Mas eu
sou um homem de letras, um simples fazedor de livros, como dizia o rude filsofo
Carlyle, e portanto, para mim, mais interessante do que a Irlanda coberta neste momento
de forcas; mais interessante que a Exposio das Artes da Pesca, aberta agora em
Londres, to completa que se vem barcos japoneses pescando ao candeio nos riachos
do parque de Kensington, como numa paisagem de leque, e to minuciosa que as divi-nas
trutas da Noruega so fritas por peixeiras vindas expressamente da Dalecrlia; mais
interessante que os esplendores sombrios e brbaros da coroao do Czar; mais
interessante que os nomes feios que um certo fabricante de tapetes baratos nos chamou
no Parlamento Ingls, esse rico e ruidoso clube onde se conversa, irresponsavelmente e
de chapu na cabea, sobre todos os negcios do Universo; mais interessante mesmo
que essa rajada de paixo patritica que atravessou Portugal e que nos levou a pedir 
Europa, por meio de folhetos em verso, que se aniquilasse a Inglaterra; mais
interessante que tudo, para mim, homem de livros -  o singular e brilhante testamento
do Comendador Peres Cardoso.
Foi em meados de Abril que os jornais de Lisboa, num tom feito de assombro e de
incredulidade, copiaram dos jornais do Rio de Janeiro a notcia de ter morrido um
Comendador chamado Peres Cardoso, natural de Cinfes, deixando um testamento
extraordinrio, concebido quase todo em favor da literatura, com maos de aplices a
distribuir entre poetas e romancistas, doaes de livros, em lotes de cinquenta volumes,
a todo o escritor que fizesse cortejo ao seu caixo, deixas de prdios para fundar jornais
- a esplndida despedida de um Mecenas, que atravessa da sua biblioteca para a sua
sepultura, arremessando punhados de ouro sobre a multido de letras. E entre todas
estas prodigalidades l sobressaa uma, a mais tocante, a que me pe agora a pena na
mo - os doze contos de ris, em aplices da dvida pblica, deixados, no a seis
padres, nem mesmo a seis advogados, mas a seis simples fazedores de livros
portugueses, Joo de Deus, Crespo, Junqueiro, Camilo, Chagas, e eu.
A impresso foi grande aqui, nesta terra, pouco acostumada a tais larguezas. Estes
casos so frequentes l fora. Em Inglaterra, o pomposo Macaulay, o bom Dickens
receberam, em legados de dinheiro e de obras de arte, testemunhos repetidos do amor ou
do orgulho que inspiravam aos seus concidados. Na Alemanha, no  raro que um
banqueiro judeu de Berlim ou de Francoforte deixe no seu testamento, por mero fausto,
alguns centos de florins a um filsofo que anda arranjando uma nova explicao do Uni-verso,
ou a um desses sbios como os amava Hoffmann, que passam quarenta anos na
trapeira de uma melanclica cidade universitria, ressequindo-se dentro de uma
especialidade inverosmil - como aquele que escreveu doze grossos volumes sobre a
fisionomia das serpentes. A Holanda ainda h pouco deu, por subscrio pblica, uma
fortuna a esse subtil e amargo humorista que assina Multatulli. Em Frana, os homens
ricos do toda a sorte de coisas boas aos homens grandes: Vtor Hugo recebeu um dia,
de um dos seus fanticos, cinquenta pipas de rum da Jamaica: a Jlio Verne, esse
encanto das crianas e dos convalescentes, foi agora doado um palcio em Itlia dentro
de um parque, verdadeiro paraso de cardeal, com guas vivas cantando em bacias de
mrmore...
Em Portugal, porm, foi-se sempre lamentavelmente mesquinho com os homens
de letras. Mesmo quando a literatura vivia exclusivamente da generosidade da nobreza,.144
e era o luxo de toda a casa morgada ter, alm do seu capelo privado, o seu vate
domstico - um esprito da ordem do Nicolau Tolentino o mais que granjeava, a troco
de trabalhoso soneto ou cansativa ode, era algum resto de peru assado, sobejo frio da
copa; e em ocasies de munificncia, dia de anos ou baptizado, l vinha ento uma vara
de briche para cales ou uma pea de 7$500 ris, embrulhada num papel - e s vezes
falsa. Mas, desde que as brutalidades da Democracia desarranjaram esta bela ordem de
coisas, e que nunca mais houve em Portugal um fidalgo que tivesse peru de sobejo -
nenhum escritor tornou jamais a receber, em metal ou comestveis, o menor testemunho
de simpatia literria dos seus compatriotas liberais...
E isto faz-me pensar como em Portugal, as pessoas dos escritores, inspiram pouca
curiosidade e perturbam pouco as imaginaes meridionais. L fora, em Frana, na
Inglaterra, na Alemanha, mesmo sem contar os semideuses radiantes e irresistveis,
como Byron, como Lamartine, como Goethe, no h poeta que no tenha recebido um
dia alguma dessas vagas e difusas cartas de amor, algum desses annimos presentes de
flores ou de almofadas bordadas, que revelam que existe algures uma doce criatura a
quem o poeta parece to potico como os seus poemas, e que est desejando sentir bater
o mais perto possvel do seu corao,  distncia de um corpete de vestido, de um
chambre, ou ainda de menos, o corao eloquente e clido de onde brotou tanta paixo
bem rimada... Em Portugal, no consta das indiscries pessoais, nem dos anais
literrios, que jamais isto sucedesse - nem mesmo queles que foram, por profisso ou
temperamento, poetas de sentimento.
Os volumezinhos de Joo de Lemos, de Soares de Passos, estiveram anos sem
conta em todos os cestos de costura: e essas composies poticas, to doloridas e
libidinosas, que eles intitulavam A ti! A ela! fizeram suspirar e cismar sobre os seus
bordados, ou sobre os seus tachos de doce, duas geraes de senhoras... Poucas eram
ento as soires de terra pequena, em que lindos olhos negros se no humedecessem,
quando um bacharel se erguia, depois do ch, e, com o leno branco na mo, dizia s
senhoras o Noivado do Sepulcro, os dois amorosos esqueletos enganchados um no
outro, ou ento esse famoso Adeus! que foi nestes remos, durante vinte anos, a
expresso oficial, e a nica garantida pela academia, das dores da separao e das
torturas da ausncia. E a quantas janelas de provncia, por noites claras de Estio, no se
veio apoiar um vulto, de xale pelos ombros e os cabelos j dentro da rede, murmurando
a Lua de Londres, enquanto por baixo o quintal dormia, e o relgio da casa da cmara ia
batendo tristemente as dez! Pois, que se saiba, nenhum destes poetas, nem dos outros
que tm sido entre ns os fornecedores selectos da sentimentalidade da provncia, teve
jamais a alegria de receber qualquer prova annima de simpatia inspirada - uma farta
lampreia de ovos ou um par de suspensrios bordados a missanga. E todavia, quem
como eles falou de amor e de beijos, de delrios, de corpos enlaados, de virgens que
lhes caam aos ps, de coraes patrcios sangrando por entre as cordas das suas liras?
Com todo este tremendo reclamo feito aos seus encantos pessoais e ao seu
extraordinrio vigor amoroso, nunca houve em toda essa provncia uma exaltada, uma
idealista, uma esposa de boticrio, que lhes oferecesse, pelo correio, um corao que
ainda no bateu seno por V. Ex!...
Humilhante indiferena para a literatura portuguesa! Alfredo de Musset
encontrava, quase todas as manhs, sobre a mesa do almoo, um bilhete aromatizado,
cuja letra assustada e tremida revelava bem que a mo que a traara estava ainda
nervosa de ter tocado as pginas ardentes de Namouna ou de Rolla. As madeixas de
cabelos annimas, remetidas a Balzac pelas suas admiradoras que julgavam reconhecer-se
na Mulher de Trinta Anos, no Lrio do Vale ou na duquesa de Maufrigneuse, foram
em tal nmero que o autor do Pre Goriot pde encher com elas esse extraordinrio.145
tubo de vidro que lhe servia de bengala - e que no passava, na realidade, de um
chourio de provas de afecto. Estes poetas, aqui, no recebem nada! E como se as
nossas concidads lhes considerassem os poemas como obras impessoais - coisas
mandadas fazer numa fbrica, pelo Governo, para uso da melancolia nacional...
Os nicos escritores portugueses que receberam anonimamente alguma coisa, por
meio do correio, fomos ns, Ramalho Ortigo e eu, quando redigamos ambos as
Farpas: recebamos ento regularmente do Brasil - promessas de bordoada.
Foi por isso larga e ruidosa a sensao -quando nos chegou a nova tocante desse
testamento, em que seis escritores portugueses eram publicamente coroados com
aplices da Dvida Pblica. A imprensa, um momento surpreendida, impressionou-se,
aqueceu, e fez uma ovao ao Comendador Peres Cardoso; este defunto obscuro
saboreou assim, durante semanas, a popularidade de um heri vivo. s portas das taba-carias,
(onde Lisboa faz sobre os seus bocados de impresses os seus bocados de frases)
o testamento do Comendador era mais discutido que a questo do Zaire, como se
sentisse, enfim, que o que se prende com a nossa literatura, interessa mais a nossa
nacionalidade do que a posse ou a perda dessas estpidas terras negras, que s nos do
humilhaes e febres... Nas salas, as senhoras, interessavam-se por este homem: achava-se
que ele tinha feito alguma coisa de brilhante e de chique: e desejava-se saber a sua
idade, a sua figura, os seus gostos e o romance da sua vida. No houve ento brasileiro
residente em Lisboa que no fosse detido, duas e trs vezes, no seu caminho, com a
mesma pergunta, no mesmo sorriso: "Quem  o Comendador Peres Cardoso? Que sabe
V. do Peres Cardoso?..." Este estremecimento de simpatia ondulou at para alm da
fronteira: os jornais espanhis falaram do Comendador, chamando-lhe um nobre fidalgo
e tratando-o de Mecenas... Era, enfim, um enternecimento, um vasto reconhecimento
pblico - como se o pas tivesse pela primeira vez recebido uma afirmao positiva,
explcita e visvel da sua superioridade intelectual.
Ama Lisboa os seus homens de letras? No direi que os ame. Mas, h tempos para
c, Lisboa - vendo nas suas ruas os tramways americanos, e os jornais franceses
apregoados  porta dos seus teatros, e fotografias de cocottes nas vitrinas das suas lojas
- imaginou que isto era a Civilizao, e passou a considerar-se a si mesma cidade
civilizada. Desde ento Lisboa corrigiu-se cuidadosamente de alguns defeitos selvagens,
lavou-se, apurou-se, e, para manter a sua linha de capital culta e chique, imps-se a si
mesma certos hbitos e constrangeu-se a certas poses. Lisboa j pe casaca  noite;
anda-se arruinando com um boulevard; finge entender de bricabraque; j vai s corridas
e j aposta com coragem a sua placa de cinco tostes: - e Lisboa, enfim, j no despreza
os seus homens de letras. Aqui h vinte anos, quando se dizia de um desgraado que ele
era um literato - tinha-se dito dele tudo quanto a imaginao burguesa podia conceber
de mais humilhante e de mais esmagador. Hoje, se o mesmo sujeito passa na rua, Lisboa
(j civilizada, mas encostada ainda s esquinas) observa-o com simpatia e diz com
respeito: "E um rapaz de muito talento". Ns agora, aqui em Lisboa, temos todos muito
talento!
Enfim, Lisboa ainda se no elevou decerto  compreenso de que uma literatura 
a melhor justificao de uma nacionalidade - e muitos anos passaro antes que ela
acredite que so os homens de letras que do, a um pas, a sua posio e o seu valor na
civilizao; que um soneto pode salvar uma nao do esquecimento; e que, se ainda
hoje se fala tanto de Roma,  isso devido s odes de um sujeito que no seu tempo no
foi nem senador, nem banqueiro, mas um simples bon-vivant, e que se chamava
Horcio. Mas  certo que Lisboa j vai considerando os seus literatos como um luxo que
se deve ter, alguma coisa de decorativo que fica bem dentro de uma cidade, o quer que
seja de brilhante que destaca da melanclica rotina das democracias. O seu sentimento.146
pelos homens de letras,  o de um burgus pelos belos mveis de cetim da sua sala rica:
gosta deles, usa-os pouco, e estima sobretudo que os outros lhos gabem. E assim se
explica o rumor de simpatia que se elevou, ondulou em torno do testamento do
Comendador Peres Cardoso. O pblico viu nele mais do que um frio papel selado,
contendo as ltimas vontades de um proprietrio generoso. Viu nele um verdadeiro
artigo de crtica, um original artigo de crtica em aco, sobre a literatura portuguesa,
feito por um homem de gosto,  hora da sua morte. Somente os escritores, ali, no eram
julgados por meio de frases.
O Comendador Peres Cardoso no era um Taine, nem um Sainte-Beuve. Era antes
um manejador de fundos pblicos. Para ele, nem a frase, nem talvez mesmo a ideia
constituam a coisa bela e suprema em que se pode ocupar uma vida de homem: para ele
essa coisa suprema e bela estava no papel de crdito de onde se tira um juro. Por isso,
quando na sua revista atravs das letras portuguesas, ele encontrava um poeta ou um
romancista que o satisfizesse, no lhe marcava o valor por meio de uma dessas frases,
jias de subtileza, que deixam em torno do artista e da sua obra uma vaga claridade de
aurola. A sua aprovao tomava uma outra forma rude e sincera: abria a gaveta e
depositava sobre a obra de arte, e com endosso ao artista, duas aplices da Dvida
Pblica. Assim considerada, a aplice vale bem uma coroa, feita de velhas flores de
retrica: e, positivamente, eu no julgo esta maneira de fazer crtica inferior  de Sainte-Beuve
e  de Taine!
No fim deste manuscrito h a rubrica (Continua); mas a continuao no apareceu entre os papis
do Autor..147
O "FRANCESISMO"
H j longos anos que eu lancei esta frmula: - Portugal  um pas traduzido do
francs em vernculo. A secura, a impacincia, com que ela foi acolhida, provou-me
irrecusavelmente que a minha frmula era subtil, exacta, e se colava  realidade como
uma pelica. E para lhe manter a superioridade preciosa da exactido, fui bem depressa
forado a alter-la, de acordo com a observao e a experincia. E de novo a lancei
assim aperfeioada: - Portugal  um pas traduzido do francs em calo. E desta vez a
minha frmula foi acolhida com simpatia, com rebolio, e rolou de mo em mo como
uma moeda de ouro bem cunhada e rutilante, que  agradvel mostrar, fazer tinir sobre o
mrmore dos botequins. J a encontrei brilhando num almanaque, numa comdia do
Prncipe Real e num sermo. Por que foi este novo, carinhoso acolhimento? Quem
sabe? Talvez porque a ideia da vernaculidade desagradava, lembrando pedantismo,
caturrice, a Academia das Cincias, o pingo de rap, outras coisas antipticas. Enquanto
que a ideia de calo nos sugere, sobretudo a ns lisboetas, chalaa alegre, bacalhau de
cebolada, Chiado, Grmio, pescada frita nas hortas, em tarde de sol e poeira, e outras
delcias, de que eu, ai de mim, estou aqui privado!
Em todo o caso, ou  maneira de Curvo Semedo, o clssico, ou  maneira do Z
Pinguinhas, o fadista,  evidente que h quarenta anos, desde a Patuleia, Portugal est
curvado sobre a carteira da escola, bem aplicado, com a ponta da lngua de fora, fazendo
a sua civilizao, como um laborioso tema, que ele vai vertendo de um largo traslado
aberto defronte - que  a Frana. Quem dependurou ali o traslado para que Portugal
copiasse, com finos e grossos? Talvez os homens de 1820; talvez os romnticos da
Regenerao. Eu no fui; - tenho sido acusado com azedume, nos peridicos, ou
naqueles bocados de papel impressos, que em Portugal passam por Peridicos, de ser
estrangeirado, afrancesado, e de concorrer, pela pena e pelo exemplo, para
desportuguesar Portugal. Pois  um desses erros de Salo, em que to frtil  a
frivolidade meridional. Em lugar de ser culpado da nossa desnacionalizao, eu fui uma
das melanclicas obras dela. Apenas nasci, apenas dei os primeiros passos, ainda com
sapatinhos de croch, eu comecei a respirar a Frana. Em torno de mim s havia a
Frana. A minha mais remota recordao  de escutar, nos joelhos de um velho
escudeiro preto, grande leitor da literatura de cordel, as histrias que ele me contava de
Carlos Magno e dos Doze Pares. Havia a certamente grandes lies de valor, de
lealdade, de herosmo: mas eram virtudes cavalheirescas que se provavam todas nos
montes da Provena ou de Navarra. De cavaleiros portugueses, que dessem cutiladas
nos mouros, nunca me contaram histria alguma  lareira. Tambm o meu preto lia
contos tristes das guas do mar. Eram as aventuras de um Joo de Calais. As naus
afundavam-se, os gajeiros gritavam terra, mas era tudo em frios mares da Bretanha. De
navegadores portugueses, em galees portugueses, no me contaram jamais histria
alguma  lareira.
Depois ensinaram-me a ler: e o Estado, que certamente tinha interesse em que eu
soubesse ler, e que, por meio das suas Reparties Pblicas, estudara prudentemente o
livro que melhor me convinha, como lio moral, e como lio patritica, meteu-me nas
mos um volume traduzido do francs e chamado Simo de Nntua. Eram as aventuras
de um justo: abundavam l os exemplos de modstia, de diligncia, de caridade, de
pudor; mas todas estas virtudes, suaves e ntimas, se exibiam longe, em Dijon, na
Alscia, e nas estalagens da Picardia. De sorte que, para mim, todos os justos, bem
como todos os heris, s em Frana se produziam na perfeio, como os espargos, nessa
Frana de onde tudo que  amvel vinha, de onde eu mesmo viera, como outras.148
crianas, num aafate de alfazema e cravo. Depois, comecei a subir o duro calvrio dos
Preparatrios: e desde logo, a coisa importante para o Estado foi que eu soubesse bem
francs. Decerto, o Estado ensinava-me outras disciplinas, entre as quais duas,
horrendas e grotescas, que se chamavam, se bem recordo, a Lgica e a Retrica. Uma
era destinada a que eu soubesse bem pensar, e a outra, correlativamente, a que eu sou-besse
bem escrever. Eu tinha ento doze anos. Para eu saber pensar, o Estado e os seus
professores foravam-me a decorar diariamente laudas de definies, de frmulas
misteriosas, que continham a essncia, o segredo das coisas, compiladas do francs, de
velhos compndios de Escolstica. Era terrvel! O lente, casmurro e soturno,
perguntava:
- Quantos so os impossveis?
Eu devia papaguear em voz clara:
- Dois. O impossvel fsico, que o homem no pode fazer, mas Deus pode; por
exemplo: ressuscitar. O impossvel metafsico, que nem ao homem, nem a Deus mesmo
 permitido, como, por exemplo, que uma coisa, ao mesmo tempo, seja e no seja!
"Que nem a Deus  permitido!" Havia pois alguma coisa que nem a Deus era
permitida? E quem era ento esse outro poder, que, mais omnipotente, mais alto nas
nuvens, lho no permitia? A minha cartilha, traduzida tambm do francs, com a
aprovao de um bispo francs) ensinava-me, por outro lado, que Deus  absoluto) de
ilimitado poder, e que as suas vastas mos, que o Universo fizeram) podem o Universo
desfazer. Qual tinha pois razo, destes dois livros que o Estado me impunha? A
Cartilha? A Lgica? Dvida pavorosa, primeiro tormento de alma, em que s antevia
uma coisa certa) inevitvel: - o R, a raposa. Mas bem depressa compreendi que esta
Lgica, com a divertida, faceta, incomparvel Retrica, que tive de decorar durante um
ano, eram decerto disciplinas em que o Estado no tinha interesse que eu fosse perfeito.
O seu desejo estava todo em que eu soubesse bem francs. Quando cheguei na dili-gncia
a Coimbra, para fazer o exame de Lgica, Retrica e Francs, o presidente da
mesa, professor do Liceu, velho amvel e miudinho, de batina muito asseada, perguntou
logo s pessoas carinhosas que se interessavam por mim:
- Sabe ele o seu francs?
E quando lhe foi garantido que eu recitava Racine to bem como o velho Talma, o
excelente velho atirou as mos ao ar, num imenso alvio.
- Ento est tudo ptimo! Temos homem!
E foi tudo ptimo, recitei o meu Racine, to nobremente como se Lus XIV fosse
lente, apanhei o meu nemine, e  tarde, uma tarde quente de Agosto, comi com delcia a
minha travessa de arroz-doce na estalagem do Pao do Conde. E desde ento nunca
mais sa do francs. Quando no ltimo ano de Preparatrios, o Estado, subitamente, se
lembrou que era conveniente que eu tivesse algumas noes do Universo, foi atravs de
um Compndio francs, o Langlebert, que me relacionei com os trs Remos da
Natureza. Conheci mais tarde em Paris este Langlebert, que  um mdico, no Quartier
Latin. E contei-lhe como nas pginas to sabiamente por ele compiladas, eu aprendera
de cor a frmula qumica da gua e a teoria do pra-raios. Langle. bert, coando
risonhamente o seu espesso colar da barba, considerou-me com ternura, como a um
brbaro que d proveito:
- Oui, oui, vous n'avez pas de ces Livres l-bas... Et j'en suis bien aise! a me
fait une jolie rente...
Creio bem que lhe fizesse uma linda renda no termos esses livros c em baixo!
E outros decerto faziam lindas rendas, eles ou os Editores, porque, apenas entrei
na Universidade, fui abrindo o meu rego de bacharel atravs de livros franceses. Direito
natural, Direito pblico, Direito internacional, todos os Direitos, ou em compndios ou.149
em expositores, eram franceses, ou compilados abertamente do francs, ou secretamente
surripiados do francs. E, sobre a mesa de pinho azul dos meus companheiros de casa,
s se apinhavam livros franceses de Matemtica, de Cirurgia, de Fsica, de Qumica, de
Teologia, de Zoologia, de Botnica. Tudo francs! Algumas lies eram dadas em
francs, por lentes preclaros, carregados de condecoraes, que pronunciavam il faut -
ile fate. Aquele corpo docente nunca tivera bastante actividade intelectual para fazer os
seus compndios. E todavia Coimbra fervilhava de lentes, que decerto tinham cios.
Havia-os no meu tempo inumerveis, moos e vetustos, ajanotados e srdidos, castos e
debochados, e todos decerto tinham cios; mas empregavam-nos na poltica, no amanho
das suas terras, no bilhar, na doura da famlia, no trabalho de dominar pelo terror o
pobre acadmico encolhido na sua batina; e o saber necessrio para confeccionar a
sebenta, iam busc-lo todos os meses aos livreiros da Calada, que o recebiam de
Frana, encaixotado, pelo paquete do Havre.
Ora naturalmente at aqui, simples estudante, eu do vasto mundo s vira, s me
interessara, por aquele detalhe que mais se relaciona com o estudante - o compndio. E
s encontrava, s respirava o francs. Mas depressa, compreendendo que por aquele
mtodo de decorar todas as noites,  luz do azeite, um papel litografado que se chama a
sebenta, eu nunca chegaria a poder distinguir, juridicamente, o justo do injusto, decidi
aproveitar os meus anos moos para me relacionar com o mundo. Comecei por me fazer
actor do Teatro Acadmico. Era pai nobre. E, durante trs anos, como pai nobre, ora
grave, opulento, de suas grisalhas, ora aldeo trmulo, apoiado ao meu cajado, eu
representei entre as palmas ardentes dos acadmicos, toda a sorte de papis de
comdias, de dramas - tudo traduzido do francs. Por vezes, tentvamos produzir
alguma coisa de mais original, de menos visto que a Dama das Camlias, ou o Chapu
de Palha de Itlia; reunimo-nos, com papel e tinta; e entre aqueles moos, nascidos em
pequenas vilrias da provncia, novos, frescos, em todo o brilho da imaginao, uma s
ideia surgiu: traduzir alguma coisa do francs. Um dia, porm, Tefilo Braga, farto da
Frana, escreveu um drama, conciso e violento, que se chamava Garo. Era a histria e
a desgraa do poeta Garo. Eu representei o Garo, com cales e cabeleira, e fui
sublime; mas o Garo foi acolhido com indiferena e secura. E um s grito ressoou nos
bastidores:
- Ora a tm... Um fracasso! Pudera! Peas portuguesas!...
Imediatamente nos refugimos no francs e em Scribe.
O Teatro, pouco a pouco, pusera-me em contacto com a literatura. Encontrei,
organizada, completa, uma larga sociedade literria a que em parte presidia o homem,
entre todos excelente e grande, que  mais que uma glria da sua ptria, porque  uma
glria do seu sculo. Mas,  parte esse, em quem as largas, fecundas correntes do saber
contemporneo no alteravam de todo esse feitio especial, profundamente portugus, de
ilhu de boa raa, descendente de navegadores do sculo XVI - todo o resto desse
rancho encantador parecia ter chegado na vspera do Quartier Latin. Sobre as mesas, s
havia livros franceses; nas cabeas s rumorejavam ideias francesas; e o cavaco, entre a
fumaraa, tomava invariavelmente o picante gosto francs. O que se lia? S a Frana.
Toda a Frana - desde Mery a Proudhon e desde Musset a Littr. Em todo o tempo que
vagueei pelas margens do Mondego, creio que no abri um livro portugus, a no ser,
em vsperas de acto, e com infinita repugnncia, a Novssima Reforma Judiciria. Mas
conhecia, como todos os meus amigos, cada romancista, cada poeta francs, no s na
sua obra, mas na sua vida - nos seus amores, nos seus tiques, e no seu estado de fortuna.
Foi por esse tempo que eu e alguns camaradas nos entusiasmmos pela pintura fran-cesa!...
E extraordinrio, bem sei, considerando que estvamos ento a seis longos dias
de viagem do Louvre e do Luxemburgo, e do Salon. Mas tnhamos os crticos, todos os.150
crticos de arte, desde Diderot at Gautier, e era na prosa deste que ns admirvamos
estaticamente a sobriedade austera de Ingres ou o colorido apaixonado de Delacroix. E
em tudo isto eu obedecia sempre a um impulso, a uma grande corrente, como uma folha
que bia na gua.
Com a minha carta de bacharel num canudo, trepei enfim um dia para o alto da
diligncia, dizendo adeus s veigas do Mondego. Justamente nesse mesmo tejadilho ia
um francs, um commis-voyageur. Era um colosso, de lunetas, duro e brusco, com um
queixo macio de cavalo, que,  maneira que o coche rolava, ia lanando atravs dos
vidros defumados um olhar s terras de lavoura, aos vinhedos, aos pomares, como se os
sopesasse e lhes calculasse o valor, torro a torro. No sei porqu, deu-me a impresso
de um agiota, estudando as terras de um morgado arruinado. Conversei com este
animal; ele pareceu surpreendido da minha facilidade no francs, do meu conhecimento
do francs, da poltica de Frana, da literatura de Frana. De facto, eu conhecia
romancistas, filsofos franceses, que ele ignorava. E ainda recordo o tom de alta
proteco, com que me disse, batendo-me no ombro, enquanto ns rolvamos na
estrada, vendo em baixo, no vale, o mosteiro da Batalha:
- Vous avez raison, il faut aimer la France... Il n'y a que a! Et puis, vous avez, il
faut que nous vous fassions des choses, des chemins de fers, des docks, des choses...
Mais il faut nous donner votre argent...
Creio que realmente, depois, temos dado notre argent  Frana, largamente!
Enfim, cheguei  capital de Portugal - e lembro-me que a primeira coisa que me
impressionou foi ver a uma esquina um grande cartaz, anunciando a representao de
Canonetas francesas, no Casino, a brilhante M.me Blanche, e a incomparvel
Blanchisseuse Era outra vez a Frana, sempre a Frana. Eu deixara-a dominando em
Coimbra, sob a forma filosfica; vinha encontr-la conquistando Lisboa, de perna no ar,
sob a forma de canc
Comeou ento a minha carreira social em Lisboa. Mas era realmente como se eu
habitasse Marselha. Nos teatros - s comdias francesas; nos homens - s livros
franceses; nas lojas - s vestidos franceses; nos hotis - s comidas francesas... Se nesta
capital do Reino, resumo de toda a vida portuguesa, um patriota quisesse aplaudir uma
comdia de Garrett, ou comer um arroz de forno, ou comprar uma vara de briche - no
podia.
Nem nos palcos, nem nos armazns, nem nas cozinhas, em parte alguma restava
nada de Portugal. S havia arremedos baratos da Frana. A particular atmosfera de
coscuvilhice poltica, que  to peculiar a Lisboa como o nevoeiro a Londres, forou-me,
a meu pesar, a embrenhar-me tambm na poltica. Em que poltica? Boa pergunta!
Na francesa! Porque havia ento em Lisboa toda uma classe culta e interessante de
polticos "franceses", que, no Grmio, na Havanesa,  porta do Magalhes, faziam uma
Oposio cruel, amarga, inexorvel, ao Imprio Francs e ao Imperador Napoleo!
Tambm havia decerto, na Baixa, no Passeio Pblico, imperialistas, que tinham
empreendido a campanha da Ordem contra Rochefort, e contra Gambetta. Mas era uma
minoria. Lisboa toda arreganhava o dente para o imperador. E, naturalmente, eu, moo e
ardente, cheio de ideias de Liberdade, e de Repblica, trasbordando de dio contra essa
corja dos Rouher e dos Baroche, que proibiam o teatro de Hugo, e tinham levado 
polcia correccional Gustavo Flaubert, lancei-me vivamente na oposio s Tulherias. O
que eu conspirei! Jesus, o que eu conspirei! O meu desejo era filiar-me na Internacional!
E lembra-me que uma noite, a propsito de no sei que novo escndalo do Imprio,
achando-nos uns poucos no Martinho, em torno de um caf, exclammos todos, plidos
de furor, cerrando os punhos:
- Isto no pode ser! J sofremos bastante.  necessrio barricadas,  necessrio.151
descer  rua!
Descer  rua, era a ameaa terrvel. E descemos o degrau do Martinho! Depois, na
rua, sob o quente luar de Julho, ouvindo os foguetes para os lados do Passeio Pblico,
voltmos para l os passos frementes - porque um de ns, o mais exaltado, encontrava
l uma certa senhora, em noites de fogo preso. Ah mocidade, mocidade, incomparvel
encanto! Onde esto os entusiasmos de ento, a santa palidez que nos cobria a face ante
o espectculo da injustia, e a doura que encontrvamos nos luares de Maio, e os
foguetes alegres do Passeio?
Enquanto  Poltica propriamente portuguesa, escuso dizer que nenhum de ns
verdadeiramente sabia se o regime que nos governava era a Constituio ou o
Absolutismo. De tais detalhes portugueses no curavam os filhos de Danton. E
enquanto s divises parlamentares de Regeneradores, Histricos, Reformistas, nem
sequer as suspeitvamos, ns que conhecamos as menores nuances da oposio
francesa, e que distinguamos as pequenas subtilezas de opinio que dividiam Jules
Favre e Gambetta, Picard e Jules Simon.
Mas para que hei-de continuar? No quero escrever uma pgina de memrias.
Apenas mostrar, tipicamente, como eu, e toda a minha gerao (exceptuando espritos
superiores, como Antero de Quental ou Oliveira Martins) nos tnhamos tornado
fatalmente franceses no meio de uma sociedade que se afrancesava e que, por toda a
parte, desde as criaes do Estado at ao gosto dos indivduos, rompera com a tradio
nacional, despindo-se de todo o traje portugus, para se cobrir - pensando, legislando,
escrevendo, ensinando, vivendo, cozinhando - de trapos vindos da Frana!
Esta gerao cresceu, entrou na poltica, nos negcios, nas letras, e por toda a
parte levou o seu francesismo de educao, espalhou-o nos livros, nas leis, nas
indstrias, nos costumes, e tornou este velho Portugal de D. Joo VI uma cpia da
Frana, malfeita e grosseira. De sorte que, quando eu, lentamente, fui emergindo dos
farrapos franceses em que essa educao me embrulhara, e tive conscincia do postio
estrangeiro da nossa civilizao, eu pude dizer que Portugal era um pas traduzido do
francs - no princpio em vernculo, agora em calo.
Mas dir-me-o: - Tudo isso  uma pequena minoria, feita de alguns polticos,
alguns literatos, alguns banqueiros e alguns mundanos; a vasta maioria do pas, a
burguesia das vilas, a gente dos campos, permanece portuguesa, conservando no seu
sentir e no seu pensar o fio da tradio, que seria fcil ir buscar l, para com ele se
continuar a tecer a nossa verdadeira civilizao de feitio portugus.
Nenhum erro maior! Essa vasta maioria no conta. Um pas, no fundo,  sempre
uma coisa muito pequena: compe-se de um grupo de homens de letras, homens de
estado, homens de negcio, e homens de clube, que vivem de frequentar o centro da
capital. O resto  paisagem, que mal se distingue da configurao das vilas ou dos vales.
 a gente sonolenta da provncia, que apenas se diferencia das pequenas vielas,
tortuosas e sujas, onde vegeta; so os homens do campo, que mal se destacam das terras
trigueiras que semeiam e regam. A sua nica funo social  trabalhar, pagar. A
direco de um pas  dada justamente por essa minoria da capital. Quando algum
jornalista e algum poltico de Paris quiser que a Frana seja republicana, proclama-se a
repblica; quando preferir que haja monarquia, sobe um sujeito, com uma coroa na
cabea, ao trono de Lus XIV. No so os camponeses da Beauce, nem os burgueses de
Orlees, que escolhem para a Frana o barrete vermelho ou a coroa fechada. A moda
dessa coiffure vem de Paris, de algumas redaces do Boulevard ou dos corredores do
Palais-Bourbon. Na mesma Inglaterra, com a sua vasta descentralizao intelectual e
social, a classe mdia no conta, porque, na realidade, os crculos eleitorais das pro-vncias
s em questes muito graves, em questes de dinheiro ou dignidade nacional,.152
tm uma opinio sua, e a fazem ouvir de alto: de resto, ocupada no seu trabalho, aceita
submissamente as opinies dos clubes de Pall-Mall, e dos jornalistas de Fleet-St., como
aceita a forma de palets que, para a season,  decretada pelos cortadores de Cook ou de
Poole. Que ser pois em Portugal onde, fora do pequeno centro de Lisboa, no h vida
intelectual nem social?
O que um pequeno nmero de jornalistas, de polticos, de banqueiros, de
mundanos decide no Chiado que Portugal seja -  o que Portugal . Se um grupo
amanh decidir que Portugal seja turco - atravs do pas inteiro todos os chapus altos,
todos os chapus desabados, todos os cocos, todos os barretes de varino, tendero
lentamente mais ou menos a tomar a forma de turbante. Por ora, todavia, tudo  francs.
A toda a parte chega esta ondulao do francesismo partida do Chiado - mais forte no
Porto do que em Guimares, mais visvel em Guimares do que em Lamaal de Bouas,
mas sensvel para quem sabe ver debaixo das superfcies. Pode-se conservar o chinelo
de ourelo, e ser-se fiel ao sarrabulho de porco, mas por toda a parte h vagamente essa
tendncia, essa aspirao, esse desejo escondido de no se ser como foram nossos avs,
mas de outro modo, como se  l fora. E l fora -  a Frana.
O pai de um amigo meu, em 1836 ou 1848, num dio repentino a tudo que lhe
lembrava o velho Portugal, foi-se  sua moblia antiga, de pau-preto torneado e de
assentos de couro lavrado, e num s dia vendeu, queimou, sepultou em stos,
dispersou todas essas formas vetustas, que lhe vinham do passado; depois correu a um
estofador da esquina, e comprou, ao acaso, num lote, uma moblia francesa. O que este
homem fez, todo o Portugal o fez. Num rompimento desesperado com o velho regime,
tudo quebrou, tudo estragou, tudo vendeu. Achou-se de repente nu; e como no tinha j
o carcter, a fora, o gnio, para de si mesmo tirar uma nova civilizao, feita ao seu
feitio, e ao seu corpo, embrulhou-se  pressa numa civilizao j feita, comprada num
armazm, que lhe fica mal, e lhe no serve nas mangas.
Como acontece sempre nestas toilettes feitas  pressa, vem-se ainda, por baixo
do arrebique francs, os restos do fato primitivo e rude. Portugal ainda usa tamancos.
Mas mesmo onde este desventuroso pas usa tamancos, tem o seu corao, o seu desejo
voltado para a bota de verniz bicuda, que vem de Paris. Numa velha vila da provncia,
um amigo meu entrou numa loja, uma sombria loja, cheirando a mofo, alumiada a
azeite, para comprar um guarda-chuva. E, oh horror! eis que o lojista, um pouco plido,
de quinzena de cotim, lhe pergunta, erguendo-se detrs do balco com o Gil Blas na
mo: "V. Ex leu hoje esta deliciosa fantasia de Catulle Mends?" Naquela loja
respeitvel, onde seu pai, de chinelos, apilhava, honradamente, os briches e as
saragoas, o miservel lia Catulle Mends! Mais ainda. Um dia, em Braga, abro um
jornal e vejo este anncio: "Na rua de tal, velas de cera, crios, tochas de qualidade
superior, tudo o que h neste gnero de mais pshutt e becarre". Oh misria
incomparvel! os santos encantadores do nosso calendrio, patronos das nossas casas,
fiis e doces protectores do nosso lar, alumiados nos altares com crios pshutts, e com
molhos de velas becarre! A este abismo levou o francesismo, na velha e catlica Braga,
o venervel e patritico negcio da cera. Desgraada cera, desgraada Braga!
Mas  sobretudo na minha especialidade, na literatura, que esta cpia do Francs 
desoladora. Como aqueles patos que Zola to comicamente descreve na Terre, a vamos
todos, em fila, lentos e vagos, atravs do caminho da poesia e da prosa, atrs do ganso
francs. Quando ele embica para a relva, vamos bamboleando, pata aqui, pata acol, em
direitura  relva; se ele pra, com o bico no ar, todos parmos, com o bico no ar. De
repente ele abre as asas, saltita pesadamente, e eis a fila grotesca, e pesada, e saltitante,
correndo confiadamente para o charco! Fomos sucessivamente, em imitao do ganso
francs, romnticos, gticos, satnicos, parnasianos, realistas. Toda a incoerncia, toda a.153
afectao, toda a extravagncia de uma literatura em decadncia, vida de originalidade,
e desengonando-se no esforo violento de encontrar uma altitude nova que espante o
pblico -  imediatamente macaqueada a srio, com uma gravidade melanclica, que 
o fundo do carcter nacional, por uma infinidade de moos honestos e simples.
H dois ou trs anos, esse colossal blagueador e cabotin chamado Richepin,
publicou um livro, Les Blasphmes, em que se propunha simplesmente a acabar de vez,
por meio de algumas rimas brilhantes, com o sentimento religioso na humanidade,
descrevendo obscenamente a afeio ntima de seu pai e de sua me. Era em casa de
Oliveira Martins, e todos achmos imensamente divertida esta nova forma de respeito
filial. Antero de Quental, porm, no ria.
- Isto para ns  grave - disse ele. - Porque amanh vo aparecer a, por todos
esses jornais, estrofes de poetas novos, comeando assim:
Meu pai era ladro, minha me meretriz!
E vinte horas no tinham passado sem que todos, no espanto desta profecia,
lssemos, em jornais de Lisboa e Porto, poesias em que moos de maior honestidade, de
famlias honradssimas, acusavam as suas mes de prostituio e tratavam os pais de
"lbricos machos". A est onde leva a Frana!
Mas, se os que escrevem ou escrevinham vivem da Frana, os que lem ou os que
apenas folheiam nutrem-se exclusivamente da Frana. Quem passeia pelas ruas de
Lisboa v que nas vitrinas dos livreiros s h livros franceses; e quando se sobe s
casas, se penetra na sociedade, s l se descobrem (desde que a conversao se eleva
acima das coisas locais), leituras francesas, admiraes francesas, frases francesas.
Quase toda a nossa mocidade culta recebe a sua luz intelectual do Figaro. E o
banalssimo, mediocrssimo Wolf  ainda, para muitos homens inteligentes, o
representante do esprito francs. Porque  necessrio observar que tanto os que escre-vem,
como os que lem, tomam ingenuamente o Boulevard pela Frana. Para alm da
Frana nada se conhece - e  como se, literariamente, o resto da Europa fosse uma vasta
charneca muda, sob a bruma. Da nossa vizinha Espanha, nada sabemos. Quem conhece
a os nomes de Pereda e de Galds? A literatura inglesa, incomparavelmente mais rica,
mais viva, mais forte e mais original que a da Frana,  to ignorada, apesar de
geralmente se saber ingls, como nos tempos remotos em que vinte longos e laboriosos
dias eram necessrios para ir de Lisboa a Londres. H alguns anos, um personagem, um
Poltico, um Homem de Estado perguntava-me, com um ar de suficincia e
superioridade:
- L por Inglaterra tambm h alguma literatura?
E ainda recentemente um homem excessivamente culto, conhecendo
perfeitamente o ingls, me dizia:
- A respeito da literatura, imagino que deve ser alguma coisa de muito brilhante e
de muito grande; mas, a no ser Dickens, que morreu h vinte anos, no posso citar um
s nome, e de nenhum outro posso citar uma s linha!
E todavia no  a curiosidade que nos falta. Mas estamos colados s saias da
Frana, como s de uma velha amante, a que nos acorrente o vcio e o hbito, e de quem
no ousamos afastar-nos, para ir falar a alguma mulher mais interessante e mais fresca.
H tempos, na curta distncia que vai do Rossio ao Loreto, eu fui assaltado por seis ou
sete pessoas, que me travavam do brao, me arrastavam para a esquina, para me
perguntar ansiosamente: "Quem  uma certa Rhoda Brougton que escreve romances?"
E eu ia j indignar-me, pensando que isto era uma scie montada contra mim, quando
soube que o Figaro da vspera tinha um artigo sobre a graciosa e fina criadora da.154
Famlia Maubrey.
Da rica e grande literatura da Alemanha, podemos dizer, como o meu amigo: nem
um nome a citar, nem uma linha a lembrar! E se agora conhecemos alguns romances
russos,  porque "esto  moda" no Boulevard.
Mas, pergunto eu, este collage com a Frana, esta imitao, esta preocupao da
Frana,  uma tendncia fatal, necessria, de temperamento, de congeneridade, de
similitude, a que no possamos escapar, como a Dinamarca no pode escapar a imitar a
Alemanha, e a Blgica se no pode eximir a imitar a Frana? No creio. O dinamarqus
 um alemo desbotado. A Blgica  uma edio barata da Frana. Mas no h
similitude alguma de temperamento, de feitio moral entre ns e a Frana. Nada mais
diferente de um francs do que um portugus; nem eu compreendo que satisfao, que
gozo possa achar o esprito portugus em se nutrir, em se banhar nas criaes do
esprito francs. A Frana  um pas de inteligncia; ns somos um pas de imaginao.
A literatura da Frana  essencialmente crtica: ns, por temperamento, amamos
sobretudo a eloquncia e a imagem. A literatura da Frana , desde Rabelais at Hugo,
social, activa, militante. A nossa, por tradio e instinto,  idlica e contemplativa. No 
s por uma fria imitao de Tecrito e dos buclicos latinos que ns, desde Rodrigues
Lobo at aos elegacos da Arcdia, amamos a cloga pastoril:  porque ns somos
realmente o povo que se compraz em estar quieto entre os choupais, a ver correr as
guas meigas, pensando em coisas saudosas. Fomos  ndia,  verdade, mas quase trs
sculos so passados, e ainda estamos descansando, derreados, desse violento esforo a
que nos obrigaram alguns aventureiros que tinham pouco do fundo comum da nossa
raa, e que, a julgar por Afonso de Albuquerque, deviam ser de origem fencia, puros
cartagineses, talvez da famlia dos Barcas. Enfim, o smbolo da Frana ser eternamente
o galo, o galo petulante e lustroso que canta claro, com uma limpidez de clarim, no
fresco arrebol da manh: e o nosso emblema  e ser eternamente o rouxinol, que geme
na espessura mal alumiada dos arvoredos, o rouxinol "amavioso e saudoso" que faz
chorar Bernardim.
A alma de um povo define-se bem a si mesma pelos heris que ela escolhe para
amar e para cercar de lenda. O grande rei para os Franceses,  e ser sempre Francisco I,
enorme, robusto, ligeiro, rindo alto, batendo-se valentemente, amando mais
valentemente ainda, radiante, gozando largamente a vida, poeta em certos momentos,
artista por ostentao, e falador eterno... O nosso genuno heri, e isto resume tudo,  o
potico e pensativo D. Sebastio.
Ora se nenhuma congeneridade de ideia, de sentimento, de natureza, de
temperamento, nos cola irremediavelmente  Frana, ser-nos- fcil, sem dvida,
separar-nos dela, sem que se dilacerassem as razes mesmas da nossa sociedade. Ns
estamos apenas colados  superfcie, somos um parasita. E se nos desprendssemos
desse grande corpo, em que sugamos para viver, poderamos, sem emagrecer e sem
deteriorao do nosso organismo, ir procurar noutro corpo social a vida do nosso
esprito. Como parasitas prudentes, e o Portugus  prudente, podemos talvez perguntar
a ns mesmos, se nos convm continuar a sugar a pele francesa, e se ela realmente
oferece todos os elementos de uma suficiente alimentao para que, como uma pulga
obstinada que pica o seio ressequido da carcaa de uma velha, onde no h seiva e
sangue, no estejamos ns mordendo, chupando, onde no h sangue e seiva que nos
alimente.
 tempo, pois, de considerar se nos convm, como table-d'hte, a literatura da
Frana - a ns, parasitas, que em questes de literatura e de tudo, vamos comer s casas
alheias. Afoitamente digo que nos no convm. A literatura francesa, neste ltimo
quartel do sculo, sofre de um obscurecimento, um desaparecimento de sol entre.155
nuvens, de que o seu gnio decerto sair mais radiante e iluminado; mas por ora s nela
h uma grande sombra, que passa. De cima a baixo, das regies do alto saber e do alto
pensar at  literatura do Boulevard, h um enfraquecimento, um desequilbrio, um
enervamento, que de um lado leva  extravagncia, e do outro  banalidade.
Extravagncia, banalidade! O grande, luminoso, exacto, crtico esprito francs est
oscilando entre estas duas inferioridades. E em toda a linha da criao literria assim
oscila, ora dando pulos grotescos com o desagradvel Richepin, ora estendendo-se,
chatissimamente, ao comprido, com o detestvel Ohnet. Veja-se a mais alta figura
literria da Frana, e a mais francesa - Renan. Esprito da mais requintada e subtil
finura crtica, saturado de saber, possuidor de uma lngua a mais luminosa e a mais bela,
tendo o que h de melhor em Racine e de melhor em Voltaire, com alguma coisa de
mais aveludado, de mais acariciador, que prende, irresistivelmente arrasta a alma - que
ensina ele, hoje, este Mestre, este francs, que domina com a dupla influncia da fina
crtica e da forma perfeita?
Este Mestre ensina-nos simplesmente que nada na Terra vale, ou tem importncia,
seno os gozos que d o amor, ou o esquecimento que d a morte. Certamente, em boa
filosofia, as duas coisas correlacionam-se: a morte e o amor; e h aqui uma grande
lgica. Mas nem por isso deixa de ser o mais forte sintoma da decadncia intelectual da
Frana que este Mestre, este sbio, no abra os lbios, no tome a pena, seno para nos
apontar alternadamente - ou para a alcova ou para o cemitrio. E se, de Renan,
descemos  grande massa da literatura - o estonteamento  ainda mais caracterstico. No
romance, que  a forma preferida da arte moderna, temos mais que em nenhuma outra a
banalidade e a extravagncia, instintivamente usadas para os dois grandes fins, os dois
grandes objectos de todo o esforo parisiense - ganhar dinheiro e espantar a galeria, o
gozo ou a glorola. Na banalidade, com mais ou menos distino, (porque tal  o
requinte moderno que mesmo na banalidade h distino), temos duas ou trs
individualidades que do o tom por que as outras atrs afinam.  o Sr. Ohnet, o
medocre Sr. Ohnet, que ganha centenares de mil francos, fabricando, com pena fcil,
para uso de uma larga democracia igualitria que tem um fundo de educao aristocr-tica,
quadros burgueses, em que os donos de forjas, empreiteiros, proprietrios de
armazns de retalho, toda uma classe industrial, aparecem com os sentimentos de
cavalheirismo, orgulho, herosmo, romantismo, que essa pequena burguesia estava
habituada a admirar secretamente na classe aristocrtica, na gente de privilgio e de
espada, nos grands seigneurs!  depois o Sr. Bourget, um parisiense com um ligeiro
toque de inglesismo, como pede a moda, que leva para o Faubourg St. Germain, num
fiacre, os seus mtodos de Psicologia, de uma psicologia que cheira bem, que cheira a
opopnace, e tomando uns ares infinitamente profundos, remexe os coraes e as sedas
das senhoras, para nos revelar segredos que todo o mundo sabe, num estilo que todo o
mundo tem.
Por outro lado, gesticulando violentamente, h um pequeno grupo de
extravagantes, que se estorcem, se esfalfam para achar alguma coisa inesperada que faa
deter os badauds no Boulevard que, com efeito, espantam por vezes como saltimbancos
muito destros, mas que no momento em que findam as suas cabriolas, arquejando, so
esquecidos pelo homem srio, que pra a olhar, e que passa. Tudo isto  Francs,
especialmente nascido das condies especiais de Paris, e no vejo o que aqui tenha a
admirar ou a imitar um brbaro honesto que vive para c dos Pirenus. E de todos estes
romancistas, talvez aqueles que ns pudssemos com mais utilidade imitar, so os muito
simpticos e estimveis Verne e Boisgobey, que ao menos, com suas viagens, as suas
intrigas, so um encanto providencial das crianas e dos convalescentes.
Na poesia francesa, to admirada entre ns, a decadncia  maior. Os Franceses.156
nunca foram poetas, e a expresso natural do gnio francs  a prosa. Sem profunda,
religiosa, ardente emoo, no h poesia; e a Frana no se comove, permanecendo
sempre num razovel equilbrio de sentimento e de razo, bem senhora da sua clara
inteligncia. Os clssicos da poesia francesa, Mathurin Regnier, Boileau, La Fontaine,
so justamente os homens de bom senso, de fria crtica, de honesta moral. Os bons
conhecedores da poesia, em Frana, admiram sobretudo os poetas, quando eles tm em
alto conceito estas qualidades superiores, que so, na realidade, qualidades de prosa. A
limpidez nobre de Racine, a graa subtil de La Fontaine, sero o encanto eterno da
Frana. Vtor Hugo, com o seu violento voo lrico, com o esplendor do seu verbo, teve a
admirao, mas nunca teve a estima literria da Frana. E hoje os poetas mais estimados
de Frana so-no ainda por qualidades que pertencem  prosa - Coppe, pela sua
facilidade clara e breve, Leconte de Lisle, pela sua majestade lapidar. A poesia francesa
so alexandrinos em prosa. Baudelaire escrevia primeiro em prosa os seus poemas.
Nunca a Frana teve um s poeta comparvel aos poetas ingleses, a Burns, a
Shelley, a Byron, a Keats, homens de emoo e de paixo, to poticos como os seus
poemas; e hoje, que poeta h em Frana que se possa pr ao lado de Tennyson, de
Browning, de Rossetti, de Matthew Arnold, de Edwin Arnold, de Austin, etc.? Um s
poeta francs teve a emoo: Musset. Colocado no centro do Romantismo, abalado por
largas correntes de emoo, que vinham de Inglaterra e da Alemanha, dotado de uma
exaltao natural, apaixonado, ardente, inspirado, este francs singular sofreu, e cantou
como sofreu; e, conservando-se francs, foi profundamente humano. Mas a Frana
culta, literria, muito tempo se recusou a ver nele um grande poeta. Diz Paulo de
Musset, que, quando apareceram, na Revista dos Dois Mundos, as Estncias 
Malibran, As Noites, os verdadeiros homens cultos permaneceram frios! Como havia,
porm, naquela poesia, e expressas sinceramente, coisas que so eternas, a mocidade, o
amor, a voluptuosidade, a dor - a Frana, pouco a pouco, foi atrada para aquele canto
vivo e doloroso. A simpatia das mulheres venceu a resistncia dos crticos. Musset,
hoje,  oficialmente um grande poeta, mas nunca veio a ser um clssico. E a Frana
conserva diante dele uma reserva, misturada de desdm e de amor, reprovando e
amando, e sentindo que tem naquele homem, que a Europa tanto lhe aclama, um poeta
que  ao mesmo tempo medocre e imortal.
De resto, a inteligncia e a poesia, raramente vo juntas. Eu s conheo um
homem, uma excepo, em que o sumo gnio potico se alia  suma razo filosfica. 
o nosso Antero de Quental. Nos seus Sonetos, exprime esta coisa estranha e rara - as
dores de uma inteligncia.  uma grande razo debatendo-se, sofrendo, e formulando os
gritos do seu sofrimento, as suas crises, a sua agonia filosfica, num ritmo espontneo,
da mais sublime beleza potica; cada soneto  o resumo potico de uma agonia
filosfica. E  por isso que a Alemanha se lanou sobre este livro de Sonetos (que
Portugal no leu) e os traduziu, os comentou, os fixou religiosamente na sua literatura,
como uma coisa rara e sem precedentes, uma prola fenomenal de criao
desconhecida, nica no grande tesouro da Poesia Universal. Mas em Frana no h
disso. E a sua clara inteligncia tem-lhe vedado os triunfos poticos. Depois da curta
emoo de Musset, a Frana recaiu mais que nunca na poesia que  admirada por ter as
qualidades da prosa.
E isto, naturalmente, devia levar, e levou num momento em que toda a literatura
decai, e em que a emoo de todo se esvai, e o esprito crtico um momento se embota -
devia levar e levou  banalidade ou  extravagncia. Mas se a parte da banalidade 
grande no Romance - os poetas, que esto naturalmente mais longe do grande pblico,
foram forados a chamar-lhe a ateno mais violentamente, e, numa nsia de originali-dade
e de novidade, precipitaram-se em massa na extravagncia. Da provm todos.157
esses movimentos do Satanismo, que desandou noutro, chamado, Deus me perdoe, o
Nervosismo! Mas a ainda havia o desejo, no fundo intelectual, de dar um
estremecimento, um arrepio novo  alma.
Por fim, toda a inteno intelectual foi posta de parte e ficou a preocupao
meticulosa, requintada da forma - de uma forma que tivesse a extrema originalidade no
extremo relevo. O sentir foi substitudo pelo cinzelar; e uma estrofe, um soneto, foram
trabalhados com os lavores, os polidos, os retorcidos, os engastes, as cintilaes de um
broche de filigrana, tendo apenas, como a filigrana, um valor de feitio, como ela agrad-vel
 vista, mas deixando o esprito indiferente. Estes homens chamaram-se a si mesmos
os Parnasianos - e, entre ns meridionais, que amamos o lavor e o feitio, o brilho, o
luxo da forma, exerceram uma influncia devastadora. A eles se devem esses estilos
delirantes, que tornaram nestes ltimos anos a poesia, em Portugal, uma coisa grotesca e
pcara.
Mas mesmo em Frana a sua influncia, ou antes o seu contgio, no foi menos
lamentvel. Nada h mais tirnico do que a moda nas formas: a bota bicuda, sendo
moda, impe-se irresistivelmente aos espritos mais profundos; e a cabea de artista em
que brilhem as ideias do mais puro gosto, ou rolem os sistemas mais profundos,
submete-se resignadamente ao chapu que decrete em Londres The Journal of Fashion.
Ningum gosta de aparecer na rua menos bem entrapado que o seu concidado, seja em
casaco ou em estilo. E foi assim que venerveis poetas franceses caram, j entrados nos
dias da sua velhice, no Parnasianismo: Autran e Laprade, eles mesmos, passaram uma
camada de esmalte novo, das cores da moda, sobre os seus severos e suculentos
alexandrinos: e viu-se o bardo Banville, o amvel e fecundo bardo que desde 1830
cantava de omne re scibile numa lira larga e fcil, descer ao Boulevard e espantar a
multido, mais fecundo e amvel que nunca, com ritmos e rimas to sarapintados, to
desengonados, que no se sabia bem se aquilo que cabriolava e reluzia no papel, eram
os versos de um poeta ou as bolas de um pelotiqueiro.
Mas estes tempos dos Parnasianos ainda eram os bons tempos. Hoje, que os
poetas aclamados depois da gerao de Hugo, de Lamartine, de Gautier - os
Prudhommes, os Lisle e outros, tm entrado na Academia e no silncio, e a sua
influncia salutar foi arrefecendo como um sol que declina, rompeu, com o crepsculo,
uma imensa, infrene orgia no Parnaso Francs. To infrene que as pessoas tmidas e
honestas no se arriscam a aproximar-se - e, como no tempo de Baco, os homens graves
da plancie param aterrados, e de longe contemplam, sem ousar ver de perto, as tochas e
os gritos das Coribantes perpassar, enchendo de desordem, de troa e de escndalo, a
espessura do bosque sagrado.
Eu, pelo menos, educado com Musset e Hugo, no ouso aproximar-me desses
Coribantes, e dos seus livros. Jamais abri um desses livros amarelos, dentro dos quais
passam estrofes, com bulhas e gritos intolerveis. Sei apenas que esses novos se
chamam a si mesmos, com uma sublime sinceridade, os Decadentes, os Incoerentes, os
Alucinados. Tm as suas coteries, como quem diria os seus Colgios Sacerdotais,
celebram em comum os seus ritos, e, como todos os Colgios Sacerdotais, redigem os
seus anais, em cadernetas que se chamam o Jornal dos Incoerentes, a Revista dos
Alucinados... Zelosos dos seus privilgios, detestando as confrarias rivais, todo o tempo
em que no desonram o Monte Olimpo, com desabaladas orgias de ritmo, o passam,
como os gramticos do Baixo Imprio, a questionarem sobre precedncias e valores
relativos da sua escola:  assim que alguns poetas ultimamente declaravam em todos os
jornais que fulano de tal, poeta, no era de modo nenhum o Chefe dos Incoerentes, e
que esse Chefe ilustre dos Incoerentes, o homem inspirado e supremo, que em si
resumia toda a Incoerncia, era Verlaine, s Verlaine, e no outro. E Verlaine,.158
indisputadamente, guarda a coroa da Incoerncia.
 necessrio dizer-se, todavia, que h aqui talento! H mesmo muito talento, uma
habilidade de ofcio maravilhosa, uma presteza de mo que surpreende, uma tcnica de
rima, uma abundncia de cor, uma arte no detalhe que maravilha. Somente, nestes
milhares de versos admirveis - no h um verso potico: estes poetas no tm poesia:
e, entre tantos talentos, no h uma s alma!.159
MAIS DOIS DISPERSOS
DE EA DE QUEIRS
Recentemente veio-nos s mos o nmero nico de uma publicao intitulada
LISBOA-PORTO, publicao essa feita pela imprensa de Lisboa em benefcio das vtimas
sobreviventes do incndio do Teatro Baquet. Nele colaboraram os nomes mais brilhantes da
poca, como sejam, entre tantos outros: El-Rei D. Lus I, S. M. a Rainha D. Maria Pia, S.
A. Real o Prncipe D. Carlos, S. A. R. D. Amlia, o Infante D. Afonso, Rafael Bordalo
Pinheiro, Columbano Bordalo Pinheiro, Eduardo Coelho, Tefilo Braga, Henrique Lopes
de Mendona, Jaime Batalha Reis, Ea de Queiroz, etc., etc.
Entendemos ser nosso dever corresponder  sorte que nos foi dada usufruir com este
achado, reproduzindo as linhas que o insigne romancista, Ea de Queiroz, escreveu para
esse nmero nico.
Julgamos que, igualmente, devamos inserir neste volume o artigo "Fraternidade",
que Ea de Queirs escreveu para Antema, nmero nico da iniciativa de Antnio Vaz de
Macedo e Artur Pinto da Rocha, publicado em Maio de 1890, a favor da Grande Subscrio
Nacional, por motivo do ultimato de 11 de Janeiro de 1890; e que a revista Ocidente, de
Lisboa, reproduziu no seu n 91, de Novembro de 1945.
OS EDITORES.
DO "LISBOA-PORTO"
A propsito do incndio do Teatro Baquet, no Porto, em 1888.
Assim devia ter sido nessa primeira desgraa do mundo. E assim  hoje, entre os
homens, quando uma catstrofe, a terra que treme, um rio que submerge os campos, o
chamejar de um vasto incndio, nos do o inesperado terror desta bruta e divina
Natureza que nos contm, que  me e tutelar nutridora, e que bruscamente nos ataca
com uma violncia que nada discerne, e que, indiferentemente, cai sobre a fraqueza e
sobre a arrogncia, sobre o que j vai murchando e sobre o que ainda no floriu, sobre o
monstro e sobre o santo.
H ento um ansioso aglomerar de gente, a mais oposta e mais vria, na mesma
ideia - a ideia de fraternizao, de unidade, de aliana contra a Natureza, seno j para
debelar o desastre com que ela a todos podia esmagar, ao menos para minorar as
curveis misrias que o desastre a todos poder estender.  este sentimento, este
confuso medo de uma Natureza incerta e traioeira, que inspira, no fundo, as grandes
correntes de piedade e de caridade.
Depois, est claro, volvido o rio ao seu leito, apagadas as labaredas, clareadas as
runas e acalmada a Natureza, todos, j sem susto, se vo pouco a pouco desagregando,
cada um volta ao seu interesse e ao dio do seu vizinho - e o lobo recomea a devorar o
cordeiro. Mas, enfim, houve uma bela hora de harmonia, de f partilhada, em que os
coraes bateram em ritmo, as vontades trabalharam em concordncia - e da mesma
emoo nasceu o mesmo herosmo. H, por isso, alguma coisa de nobre e de tocante em
querer prolongar, mesmo artificialmente, este radiante momento de unio moral. Eu, por
mim, acho bom que ele se alargue, se exagere, ganhe at um comeo de rotina e de
Os artistas da Renascena, quando pintavam o Dilvio, nunca deixavam de
mostrar, em evidncia na tela, como alegoria e como lio, um cabeo de cerro - onde
se amontoavam animais contrrios, as feras e as presas, cordeiros e lobos, gazelas e
tigres, os que assaltam e os que fogem, colados dorso a dorso, buscando um no outro
refgio, no pavor comum da mar negra que em torno sobe e os vai todos tragar....160
maneirismo.  um instante amvel de paz que se rouba ao contnuo conflito humano! 
como quando, num longo e spero Inverno, rompe um dia de sol e doura, em que tudo
parece embelezar, uma bondade esparsa flutua, o cu azula a vida e os homens, sem
motivo, sorriem quando se cruzam. Quem no desejaria espaar este relance de
suavidade e de luz?
Bem cedo voltar o vendaval e o negrume - e nos montes, como nas cidades, o
lobo recomeara a devorar o cordeiro.
Brstol, Abril de 1888..161
FRATERNIDADE
Nunca na Europa se falou com tanta segurana, como hoje, de "fraternidade, de
concrdia entre os povos, de fuso das raas numa simpatia"; - e ainda h pouco em
Paris, num congresso, um Moralista, um sbio, predizia, entre aclamaes, que bem
cedo da linguagem purificada dos homens desapareceria este vetusto e brbaro termo -
o estrangeiro.
De facto, porm, nunca entre as naes existiu, como neste declinar dos velhos
regimes, tanta desconfiana, tanta malquerena, dios to intensos apesar de to vagos.
No se encontram hoje na Europa dois povos genuinamente fraternais; - e nos pases
cujos interesses mais se entreligam, as almas permanecem separadas. O Alemo detesta
o Russo. O Italiano abomina o Austraco. O Dinamarqus execra o Alemo. E todos
aborrecem o Ingls - que os despreza a todos.
So estes antagonismos, irracionais e violentos, tanto ou mais que as rivalidades
de Estado, que foram as naes a essa rgida atitude armada em que elas se esterilizam
e se enervam: - e hoje, diferentemente dos tempos antigos, o amor e o cuidado da paz
est nos reis e nos povos o impulso para a guerra.
Isto provm de que o poder, ou a influencia sobre o poder, passou das castas para
as massas, das oligarquias para as democracias. Outrora as oligarquias, tornadas
"cosmopolitas" pela educao, pelas viagens, pelas alianas, pela comunidade de
hbitos e de gostos, pela similitude dos deveres da corte, pela tolerncia geral que d a
cultura e pelas especiais afinidades de esprito que criava a cultura clssica, no
odiavam nunca as outras naes - porque as outras naes se resumiam para elas nas
outras oligarquias com que se sentiam congneres em todos os modos de viver, de
pensar, de representar, de governar. As democracias, ao contrrio, profundamente
nacionais e nunca cosmopolitas, conservando com tradicional fidelidade os seus
costumes prprios, e intolerantes para os costumes alheios - apenas se conhecem
(atravs das noes estreitas de uma instruo fragmentria) nas suas feies mais
nacionalmente caractersticas e portanto mais irreconciliavelmente opostas: - e dessas
diferenas que entre si pressentem ou constatam, lhes vem por instinto um mtuo
afastamento e como uma antipatia etnogrfica. O operrio ingls, h cem anos, no
conhecia sequer a existncia do Russo. Hoje sabe, imperfeitamente, por leituras
apressadas de jornais e de magazines populares, que o Russo  um homem que dele
absolutamente difere no tipo, no traje, no idioma, nas maneiras, nas crenas... Daqui
uma primeira repulso: e como sabe alm disso vagamente, pela imprensa, que esse
homem, to dessemelhantemente de si, vai marchando sobre a ndia "para se apossar
dos domnios da Rainha", enxerta sobre o seu antagonismo de raa a sua indignao de
patriota, e chega a odiar o Russo, to intensamente, que se no pode em Londres, num
caf-concerto ou num circo, desdobrar a bandeira da Rssia, sem que rompam das
bancadas do povo apupos e clamores de clera.
Por toda a parte assistimos assim ao desenvolvimento exaltado do indivduo
nacional. E, com o advento definitivo das democracias, haver na Europa, no a
universal fraternidade que os idealistas anunciam, mas talvez um vasto conflito de
povos, que se detestam porque se no compreendem, e que, pondo o seu poder ao
servio do seu instinto, correro uns contra os outros -como outrora, nas velhas
demagogias gregas, os homens da Mgara se lanavam sobre os homens da Lacnia, e
toda a tica se eriava de armas, por causa de um boi disputado no mercado de Fila ou
de uma bulha de rufies nos grandes ptios de Aspsia..162
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Obra digitalizada e revista por Deolinda Rodrigues Cabrera a partir da edio de
1912. Actualizou-se a grafia.
(c) Projecto Vercial, 2000
http://www.ipn.pt/literatura
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